Runaway
5 Capítulo Quatro
Notas iniciais
O coração de Killian estava acelerado quando voltou para a casa naquele dia. Abriu a porta — que já estava quase despencando — de madeira e adentrou o local humilde. Não existia cômodos; era um único espaço para tudo. Apenas os quartos eram separados com pedaços longos de tecidos velhos e sujos.
Lauren, sua mãe, estava sentada na cadeira de madeira, com as mãos juntas como concha próxima aos lábios, os olhos fechados e aparentava estar focada. Quando ouviu a porta se fechar, levantou-se com um pulo e abraçou o filho.
— Killian! Por que demorou tanto? — quis saber.
— Eu dormi, mãe. — respondera.
— Fiquei preocupada...
— Perdoe-me, eu estava cansado demais.
— Já arrumei sua cama, pode dormir, meu filho. Não vai querer comer nada?
— Obrigado, não. Estou bem. — se dirigiu até a sua cama, ao lado da de Liam, e deitou, dormindo em seguida. Dessa vez não houve sonho algum, e tampouco uma garota/princesa misteriosa.
Acordou tarde, e estranhou o fato de sua mãe não ter te acordado antes. Cambaleou pela casa e foi até a cama de Lauren, onde a mesma estava deitada, completamente pálida.
— Mãe?! — se aproximou rapidamente. Segurou a sua mão e a sentiu muito gelada. — Mãe, você está bem?
— Ah, meu filho... Minha hora está chegando... — falou com esforço, a voz estava rouca demais e falha.
— Hora? Não, não diga isso! O que há, mãe?
— Acha que... Venho implorando para ficar com o seu pai, por quê? — fez uma pausa em engoliu a seco. — Porque eu já sabia, Killian...
— Você precisa de água! — saiu, e quando voltou, estava com um copo cheio d'água. Lauren bebeu rapidamente e Killian sentou-se ao seu lado, segurando a sua mão. — Do que você sabia?
— Eu estou doente, filho. — tossiu. — Sempre estive. Apenas nunca quis que soubesse...
Os olhos azuis do garoto estavam cobertos de confusão e medo. Sua mãe acariciou o rosto do garoto e beijou-lhe a bochecha. Mas Killian não estava compreendendo. Do que a sua mãe estava falando?
— Mas... — calou-se, não sabia o que dizer.
— Eu falei com Ansyrius, o médico da corte, anos atrás. Ele disse que não tem cura e já vira outros casos como o meu, e que todos resultaram em morte.
Killian abaixou a cabeça, olhou para o chão. Como seria a sua vida sem a sua mãe?
A porta de abriu, e o garoto Liam entrou correndo na casa.
— Mãe! Ansyrius está vindo! — falou Liam, pondo-se ao lado do irmão mais novo. — Como se sente?
— Está doendo até respirar, Liam. Está chegando... — fechou os olhos e soltou um suspiro.
— Você sabia? Há quanto tempo sabe? — perguntara Killian para o irmão.
— Desde sempre, eu acho. Começou quando eu tinha doze anos.
Killian não podia acreditar que a sua única família mentira para ele durante anos.
— Por que não me contaram?! — se levantou.
— Mamãe não quis, Killian. Ela tem os motivos dela e eu os respeitei.
Killian passou a andar de um lado para o outro, nervoso. Olhava para a mãe e percebia o sofrimento em seu olhar. Como aquilo pôde acontecer do dia para a noite? Não podia ser...
— Ela já esteve assim antes?
— Por meses. Não percebeu? Ela deve ter escondido muito bem...
Killian estava irritado demais, mas devia procurar uma solução para tudo aquilo. O que fizeram foi errado, mas ele devia esquecer isso e focar no presente.
Como poderia salvar a sua mãe? Ah, com magia, é claro! Talvez se ele tivesse uma poção, poderia salvar a sua mãe... Um feiticeiro com certeza resolveria. Mas tinha um problema: eles não tinham dinheiro. O pouco que ganhava não daria. E se roubasse? Não seria errado, estaria ajudando a sua mãe.
Por isso, sem mais nem menos, saiu correndo para o castelo. Subiu as escadas e correu pelo corredor. Os outros criados olharam torto para o rapaz, mas o mesmo ignorou e continuou correndo. Não demorou à chegar no quarto da princesa Audrey.
Checou, obviamente, se a própria estaria no aposento real e teve a certeza que não. Se roubasse algumas jóias, poderia muito bem pagar um feiticeiro para preparar uma poção e salvar a vida de sua mãe.
Na penteadeira, lá estava ela: a caixinha de madeira cheia de jóias caras e preciosas. Killian se aproximou e a abriu. Resistiu à tentação de pegar mais que o necessário e separou algumas, pondo-as dentro do bolso da sua calça surrada. Aquilo seria uma salvação, então decidiu ignorar a sua voz interna dizendo o quão aquilo era errado, por mais que as intenções fossem nobres.
Então ele ouviu o grito de horror, aquele maldito e já conhecido berro. Fechou os olhos e amaldiçoou-a na mente. Ergueu ambas as mãos abertas e deixou um colar de pérolas cair no chão limpo.
E aquele som horrendo não tinha fim...
^*^*^*^
— Pelo crime de furto de patrimônio material de um membro da família real, dentro da Casa Real; eu, rei da Ilha Dos Sete Cantos, Rei Edward, terceiro do meu nome e governador de toda a Ilha Dos Sete Cantos; condeno o criado Killian Lake Jones à morte. — decretou o rei, deixando Killian pálido e Kevin indignado.
— Mas eu preciso dele, senhor. — Kevin explicou, se controlando para manter a voz baixa.
— Sinto muito, Príncipe Kevin, mas creio que consegue encontrar um outro servo. — respondeu Edward.
— Matem-no na fogueira, quero vê-lo queimar. — pediu a Princesa Audrey, com um rancor extremo no coração, como se estivesse simplesmente escolhendo o que comer no jantar.
— Preparem a fogueira! — ordenou o Rei Edward erguendo o braço num sinal.
Killian não tirava os olhos do chão. Estava ajoelhado em frente ao rei, na Sala de Julgamento. Falhou, tanto com a sua mãe, quanto com si próprio. Sentia-se incapaz.
Os homens do conselho deixaram a sala e logo dois guardas levantaram Killian pelos braços, cada um de um lado.
— Ele é o meu servo! Eu deveria decidir como ele morre! — ouviu o Príncipe Kevin argumentar, antes de ser retirado à força.
Andou pelos corredores do castelo; as mãos amarradas à frente do corpo, uma camisa de tecido barato suja, uma calça do mesmo jeito e os pés imundos no chão limpo. As criadas olhavam, cochichavam e comentavam sobre aquilo.
Mas ele estava sem expressão alguma, embora pálido. As garotas achavam um desperdício de beleza Killian Jones ser condenado à morte, mas apenas falavam entre si.
— Killian! — ouviu a voz do seu irmão ecoando do fundo do corredor. Ele veio na sua direção e ultrapassou os guardas. — Killian, eu soube do que houve! Todos estão comentando!
— Bom saber que estou famoso por aqui... — respondeu o jovem rapaz, ainda caminhando.
— Eu não acredito que irá morrer, justo por isso! Por que teve que fazer algo, Killian? Por que teve que ser o heroi?
— Eu tentei, Liam! — gritou para o irmão. — Afinal, não é isso o que os herois fazem? Sacrifício!
Os guardas impediram que Liam os acompanhassem, já que estavam descendo para o calabouço. Abriram uma cela e jogaram Killian dentro, como se joga comida para os cães.
O garoto gemeu de dor pelo joelho esquerdo, cujo estava suportando todo o peso do seu corpo. Então fecharam o portão, deixando-o sozinho naquele lugar imundo e impregnado de urina — tanto de animais quanto de humanos.
Silenciosamente, Killian chorou. Chorou por sua mãe que já poderia estar morta e chorou por o mundo ser injusto. Lauren poderia morrer pela falta de compreensão daquelas pessoas podres, e Killian nunca se esqueceria disso. Nunca em sua vida.
Já era noite quando o choro cessou, quando ele concluiu que um dia se vingaria, caso a sua mãe não resistisse. Sentou-se no canto; a luz do luar em seus olhos azuis e no seu rosto úmido. Fungou e sentiu algo no seu bolso. Pôs a mão dentro do mesmo e sentiu aquele objeto redondo, gélido, um pequeno aro com uma pedra em cima. Killian arregalou os olhos e tirou o anel do bolso.
— Como isso veio parar aqui? — perguntou para si mesmo, já que os guardas haviam esvaziado todos os seus bolsos e recuperado as jóias roubadas.
Jones fitou o anel. Ele tinha uma pedra vermelha cintilante, algumas formas indecifráveis ao redor da pedra. Ele girou aquele anel no dedo indicador por um tempo, até que deslizou-o pelo dedo anelar. Ergueu a mão e analisou como estava.
Foi muito rápido, questões de segundos; uma memória lhe atingiu e Killian pensou estar sonhando. Era uma visão, um flash, uma lembrança; a princesa! Sim, a princesa do seu sonho! Killian reconheceu aquele anel, o anel que a garota do seu sonho usava. E na mesma velocidade que veio, a memória se foi.
"Hoje e sempre", aquela voz outra vez em sua cabeça.
— Ahh! — Killian gritou assustado, e jogou o anel para o outro lado da cela. — Maldição!
Minutos depois, rastejou-se pelo chão e alcançou o anel outra vez. Do mesmo jeito, o pôs no dedo anelar e esperou. Mas nada aconteceu dessa vez, exatamente nada.
Um som metálico o assustou, e Killian ergueu o olhar para o portão já aberto. Um senhor de idade estava do lado de fora, vestia um manto vermelho e tinha longas barbas brancas, portava um olhar cansado e rugas que denunciavam a sua idade avançada.
— Saia já, Killian Jones. A menos que queira morrer. — foi o que ouviu.
— Eu não entendo, senhor... Como conseguiu abrir a porta? — Jones estava confuso.
— Não é para entender, é para sair. Vamos, siga-me. — o homem fez um gesto e passou a caminhar pelo corredor de celas.
Killian hesitou, não conhecia aquele homem e tampouco confiava nele. Mas, por outro lado, ele tinha que sair dali. Olhou pela minúscula janela que tinha na cela e viu a sua fogueira da morte já pela metade, no pátio. Por isso, apressou os passos e seguiu aquele velho. Ele andava muito rápido para a idade, e Killian ficou um pouco desconfiado.
— Como se chama? — quis saber Killian.
— Não precisa saber o meu nome, apenas... Chame-me de Aprendiz.
— Aprendiz? — Killian repetiu, um pouco alto.
— Fale baixo, Jones! — pediu o velho. — Se nos pegarem, o seu destino não será outro.
— Outro? Como outro? — falou alto outra vez.
O velho irritou-se e o segurou pelo braço, talvez até forte demais.
— Cala a boca e me segue. Eu te explico depois. Temos que pegar o seu irmão, Liam, primeiro.
— Para onde vamos? — o velho o fitou com raiva. — Desculpe. Mas, e minha mãe?
— Lauren Lake já não habita o nosso mundo há dez horas, Killian Jones. Sinto muito. — o Aprendiz continuou à andar. — Apresse os passos, vamos.
E assim eles deixaram o castelo, na calada da noite, enquanto Killian chorava em silêncio pela milésima vez no dia.
— Tenho certeza que irá passar, Killian Jones.
— Não, não vai. — despencou no meio do pátio, sentado no calcanhar e de cabeça baixa.
O Aprendiz deixou-o sofrer por alguns minutos, pois ele era apenas um garoto e precisava liberar a sua dor. Mas logo continuaram a triste caminhada até a casa de Killian Jones.
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