Runaway
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Seja um bom garoto. Bom garoto que tu és, Killian. Vamos lá! Respire... Respire... Seja um bom garoto
Killian detestava aquelas pessoas ao seu redor. Detestava o que faziam com ele. Detestava o que faziam e o que o próprio fazia. Killian não se detestava, ele era a vítima daquele inferno. E aquele mesmo inferno estava o consumindo, o queimando e querendo levá-lo para as trevas, onde não haveria fogo algum que iria machucar-lhe. E Killian sabia que precisaria respirar, pois sucumbir ao ódio, às trevas, não adiantaria de nada. Ele continuaria sendo o Ratazana de Navio, como o chamavam.
Sua mente martelava:
Vamos lá, Killian Jones! Respire... Respire... Sorria e diga que está bem. Não tente nada. Não mate ninguém. Deve ter pena deles. Deve rir de suas misérias. Deve sorrir e servir o vinho. Seja um bom garoto. Orgulhe a sua mãe. O bom garoto que tu és, Killian Jones. O bom garoto...
— O que está esperando, Ratazana de Navio? — perguntou-lhe um garoto.
Esse garoto, nada mais era que o Príncipe Kevin, de um reino pequeno em uma ilha litorânea, perto da Floresta Encantada.
Killian era seu servo. E, naquele momento, deveria servir o vinho para o Rei Edward, o príncipe Kevin, a princesa Audrey e a Rainha Elena.
Soltou um longo suspiro que estava lhe entalando a garganta e serviu o líquido para todos.
— A guerra está à todo o vapor no sul, meu filho. — contou o rei. — Não há quem possa receber os corvos e suas novas. Precisamos de mais mensageiros. Estou farto de pássaros! — praguejou o rei.
— A guerra não chega aqui, meu pai. Não precisamos nos preocupar com isso. — respondeu Kevin, depois de bebericar seu vinho.
— Precisamos saber sobre a ruína da Floresta Encantada, meu filho. Mais precisamente, Misthaven. Ah, como eu gostaria de ter o sangue real do Príncipe Encantado em minhas mãos... — sonhou com os olhos abertos.
— Basta de vinho, pai. Está começando a ter alucinações! — pediu Audrey.
— Um dia eu mato aquele James! — fechou os punhos sobre a mesa.
Killian respirou fundo.
Eles eram cruéis. Provocaram a guerra para ver o Grande Colapso dos reinos e da Floresta Encantada, principalmente o de Misthaven. Tinham ódio do Rei James, que nada fizera à eles, apenas recusou seu acordo de casar sua filha, a Princesa Emma — soa como um ruído na mente de Killian, já que odeia reis, rainhas, príncipes e princesas —, com seu primogênito, Kevin, de dezessete anos.
David — e não James, como todos pensavam ser — rejeitara por ver que o acordo pouco o favoreceria e não queria vender a sua filha. Se isso chegasse a acontecer, Emma decidiria se casar ou não. Acreditava, antes de tudo, que o mundo não gira em torno de si.
— Mas, pai... Como, exatamente, o príncipe... — Kevin fez uma pausa — ... Rei James, irá morrer?
— Não chame aquele verme de Rei, Kevin! — o rei ordenou — Eu te proíbo! — bebeu um longo gole de vinho. — Eu não sei. Mas ele vai morrer. Que não seja pelas minhas mãos, mas ele vai morrer! Coloque mais um pouco, inútil! — ergueu a taça para Killian.
— Não precisa ser grosso, senhor. — resmungou o rapaz enquanto servia o rei.
— O que falou? — perguntou a rainha.
Maldita seja esta mulher, pensou Killian ao lembrar-se do quão longe a mulher estava disposta a ir só para obrigá-lo a deitar-se com a mesma.
— Perguntei se o vinho estava bom. — mentiu.
A rainha deu uma piscadela para o rapaz, disfarçadamente. Sem expressão, ele pediu para se retirar e seguiu para a cozinha.
— Como foi? — perguntou a mãe do garoto.
— Ah, mãe... Apenas um vinho, nada mais. — respondeu Killian, puxando um banco e sentando.
— Oh, Killian... Não acha que deve ficar com seu pai? — perguntou a mulher, afagando seus cabelos negros e brilhantes.
— Não, não acho, mamãe. — disse o rapaz. — Não suporto viver aqui, mas não posso te deixar.
— Não quero ser um peso em seus jovens ombros, garoto. Eles querem guerra e guerra causaram. Quero que fique fora disto. Você não controla a si mesmo, meu filho... — acariciou o garoto.
— Tenho treze anos, mãe. Não sou uma criança. Sou quase um homem feito. E sim, eu tenho controle de mim mesmo. Aceitei terem me jogado no calabouço semana passada por ter posto sal demais na comida de Kevin. Mas, quem se importa? Aposto que aquela coroa maldita um dia cairá de seus cabelos ruivos e a verdade será dita: Kevin é um bastardo. A rainha sabe, e nada diz, apenas o aceitou como filho.
— Não, não, não, Killian. — sua mãe o abraçou. — Não deve conspirar contra a família real! — acariciou seu rosto. — Cale-se, por favor, meu filho. Não sabe o que diz. Se alguém ouvir... Ah, não quero ver sua cabeça rolar no pátio entre as gargalhadas frias e secas do rei...
— Estou mais do que pronto para morrer, mamãe. — disse com sinceridade.
A mãe, então, ficou preocupada. Como segurar o seu filho que não controla a língua? Não queria vê-lo morto. Não queria vê-lo partir. Mas ele devia ir com seu pai. Ele devia ser bom.
— Lauren? — um rapaz surgiu na cozinha silenciosa e praticamente vazia. Suas vestes de tecido barato estavam salpicadas de lama e seu cheiro era tão podre que era quase impossível ficar no mesmo ambiente que o mesmo. Killian torceu o nariz, e desejou encontrar uma desculpa para sair dali. — Ah, Lauren... Que ótimo foi te encontrar. E ainda mais com Killian! Que maravilha!
— O que se passa, Patrick? — perguntou Lauren.
— Bem, o rei ordena que convoque os cozinheiros para o jantar e separe algumas provisões para a viagem do príncipe e ele amanhã. — disse ele.
Lauren se retirou rapidamente do local, indo procurar os servos do rei cujo trabalhavam na cozinha.
Killian fitou aquele rapaz. Era um ano mais velho que Killian e ainda tinha os cabelos loiros — quase, já que a lama também consumia seus fios. Patrick era um dos bastardos do rei, mas não teve privilégios por isso. No entanto, ele pouco ligava para um lugar na corte infeliz do pai.
— Hm... Killian... Então... Kevin mandou avisar que você irá limpar o navio o qual ele e o rei irão viajar amanhã. — contou Patrick. — E quando voltarem também. Sabe que Kevin sempre vomita...
Já não basta limpar as roupas fedidas dele, também devo limpar os seus vômitos?, pensou Killian.
Killian tentou parar de respirar enquanto passava por Patrick e saía da cozinha. Já longe da mesma, aproveitou o ar fresco que ali tinha.
— Ah, aí está você, Ratazana de Navio! — Brandon apareceu ao lado de Killian.
Brandon também era servo, e como todos os outros, o chamava de Ratazana de Navio. Apenas quatro pessoas naquele castelo o chamava de Killian: sua mãe, Lauren; o ferreiro, Dylan; Liam, seu irmão e Patrick.
Esse apelido foi o príncipe que lhe dera, quando o viu dormindo no canto do navio, no meio de um mutirão de limpeza, quando tinha sete anos. Os outros gozaram dele e assim o chamam a partir de então, pois estava encolhido como uma ratazana morta.
— Kevin ordena que limpe o convés! — Brandon avisou.
Killian apenas balançou a cabeça positivamente e seguiu para fora do castelo. Atravessou o pátio, dois pequeninos vilarejos e a floresta, chegando em apenas uma hora no Porto Real, já que a distância era pequena, e o reino, minúsculo. O navio estava o esperando para ser limpado. Se apresentou para um velho resmungão que tomava conta do grande e gracioso navio. Este o deu um esfregão e um balde de água e sabão.
Lá se iam horas (que poderiam ser úteis) da vida de Killian, jogadas fora. Ele detestava limpar navios. Mas ele gostava de quando terminava e ficava observando o mar e sua calmaria. Ele gostava do cheiro do mar, da sua brisa. O oceano o chamava, o atraía, o convidava para dançar, cantar, navegar, e tudo o que Killian podia fazer era resistir.
Olhou ao redor, não havia mais ninguém ali. Fazia frio, e ele não queria voltar. Não, voltar seria quase um suicídio para a paz que o mar lhe trouxera. Ele encontrou um canto perfeito para deitar e um pedaço de trapos para se cobrir. E foi ali que dormiu. Com a paz, o cheiro e o som do mar. Aquilo era como um céu, o paraíso proibido.
Nos seus sonhos, Killian estava deitado em um bote de madeira, olhando para o azul do céu. Ele se sentou e percebeu que navegava em mar aberto. Sem ninguém, nada. Sorriu ao perceber que era apenas ele e o mar. Era o que desejava: só ele e o mar.
— Estou livre! — gritou, erguendo os braços e depois inspirando profundamente.
Enquanto aproveitava sua liberdade, um círculo luminoso se fez na água, ao redor do bote. Killian não percebeu até ouvir uma voz feminina chamar seu nome:
— Killian... Killian... — era de uma garota, não de uma mulher.
— Quem está aí? — ele se levantou de repente, então percebeu que aquilo era magia. — Isso é...?
— Sim, Killian... — a garota respondeu. Mas Killian não podia ver seu rosto. Apenas via o círculo, nada de garota. Não a via em lugar algum. — É magia.
— Onde você está? Quem é você? — ele gritou.
— Estou aqui. — dessa vez, a voz não veio de dentro da sua cabeça, e sim de dentro do mar.
Killian se sentou e inclinou-se na direção da água. Ele queria vê-la.
— O que você é? Onde está? — Killian observou cada parte do círculo.
— Aqui! — uma mão surgiu de dentro do mar, a erguendo na direção de Killian. Uma mão delicada e alva. Uma mão de princesa. Havia um anel em seu dedo anelar, cujo tinha uma pedra vermelha cintilante e formas indecifráveis ao redor da mesma. — Me ajude, Killian... Eu preciso de você! — pediu.
— Como? Por que não consigo ver seu rosto? — Killian se inclinou mais.
— Me ajuda! Por favor, me ajuda! — a garota implorava. — Segure minha mão, e prometa nunca soltá-la!
Receoso, Killian segurou a mão da garota. Sim, era macia e delicada. Era uma verdadeira mão de princesa. No entanto, estava gelada. Muito gelada...
— Prometa-me nunca abandonar-me, Killian! — a garota pediu.
— Não vejo seu rosto... — Killian sussurrou.
— Prometa! — ela insistiu, apertando sua mão.
— Eu... Eu prometo... — ele enfim disse, assustado.
— Eu preciso te contar, Killian. Mas agora eu devo ir... — disse a voz, com a sua doçura natural. Era música para os ouvidos de Killian.
— Não, não vá! Conte-me! Conte-me quem é! — ele se inclinou mais do que deveria. O Jones podia cair a qualquer momento.
— Não posso dizer quem sou, Killian. Mas tenho algo a te dizer.
Killian acariciou aquela mão gelada, tentando aquecê-la com o seu calor.
— Então conte-me! — pediu o rapaz.
— O mar é o seu lar, Killian, mas ele será a sua ruína... Hoje, e sempre. — a voz da garota se fez em outro tom. Parecia não ser mais ela. Estava fria, obscura, assustadora.
Quando Killian, com medo, decidiu soltar a sua mão, a garota o puxou para o mar antes mesmo do garoto completar sua ação.
"Hoje e sempre...", repetia em sua cabeça.
Debaixo do mar, Killian não via nada, senão escuridão... E um brilho sobrenatural vindo daquele anel estranho. Mas algo o continuou puxando pela mão, cada vez mais fundo. E antes que pudesse se soltar, Killian havia perdido todo o ar de seu corpo. O círculo luminoso ficou mais intenso, até se tornar um forte flash branco...
... E Killian acordar, assustado.
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