Runaway
4 The Chance
Notas iniciais
Tris
Um mês havia se passado desde o incidente. Eu estava totalmente recuperada e mil vezes mais alerta. Evitava andar muito tarde por aí, e sempre que precisava, andava armada, pronta para atirar no primeiro que me ameaçasse. Para um grande alívio meu, nada aconteceu nesse mês. Eu ainda tentava entender tudo aquilo, mas não tinha chegado a conclusões muito boas e convincentes.
Outra coisa que me intrigava era o fato de terem anunciado a morte de Luke Duncan como suicídio. Luke era o homem que eu havia matado. Nunca que um corte do coração passaria despercebido pelos peritos da Audácia. Eu tinha certeza que eles planejavam ou escondiam alguma coisa, e eu precisava descobrir o que era o mais rápido possível.
Se algum dos líderes tivesse mandado Luke atrás de mim, seja para matar ou me manter prisioneira para algum tipo de teste macabro, eles com certeza estavam confusos. Quatro tinha razão, ninguém nunca poderia dizer que eu tinha jogado o cara por cima da grade. Ele tinha, no mínimo, três vezes mais do meu tamanho. Eu tinha um corpo definido, forte, mas nunca conseguiria erguer o cara. Será que eu não era a única da lista? Ou será que Luke não obedecia ordens dos líderes? Eu odiava ter perguntas demais e respostas de menos.
Essa semana estava sendo maias uma semana normal. Nada demais havia acontecido. Ninguém tentara me matar, ninguém tinha feito insinuações sobre divergência perto de mim e ninguém e ninguém nem pensava mais em Luke. Nem tinha se passado tanto tempo assim.
Cheguei um pouco tarde para o café da manhã naquele dia. Havia passado pra fazer uma tatuagem no mesmo local que eu carregava uma cicatriz. No rumo dos rins, onde Luke havia me atingido.
Tori, era a outra única pessoa que sabia da minha divergência. Ela havia me aplicado o teste quando eu ainda era uma garota da abnegação. Tori e Quatro haviam me protegido esse tempo todo. Ela havia ficado pensativa sobre o acontecido, quando eu contei.. Pensativa e triste. Isso a fazia lembrar de seu irmão divergente. Morto por conta de sua diferença.
Ajeitei meu blazer e entrei no refeitório quase vazio a uma hora dessas. Me deprimia não ter ninguém para conversar durante o café e saber que eu provavelmente tinha perdido alguma discussão idiota e engraçada entre Chris e Will.
Me sentei, por costume, na mesa que eu costumava dividir com eles, mesmo estando sozinha.
_Vejo que já está melhor, Tris — Uma voz me tirou dos meus pensamentos. Encarei quem falava comigo. Max. Ele parecia normal, parecia uma conversa casual, mas meu canivete pesava, escondido no cós da minha calça — Fazia tempo que eu não te via. Achei que tinha acontecido alguma coisa grave.
_Bem melhor Max. Não foi nada grave com o meu tornozelo, só torção mesmo — Eu dei um sorriso pra ele. Ele se sentou em frente a mim. — Como você está?
_Um pouco atarefado, e com alguns problemas — ele disse, suspirando alto e se encostando na cadeira.
_Sinto muito — eu disse, medindo as palavras — Se precisar de ajuda… — eu disse, deixando a frase morrer.
_É sobre isso que eu vim falar com você — ele disse me pegando de surpresa. Eu o encarei e me mantive em silêncio — Lauren se machucou ontem. Não vai poder ajudar na Iniciação dos nascidos na Audácia.
_O que aconteceu com ela? — eu perguntei. Eu sabia que os Iniciados haviam se juntado a nós ontem, e que hoje provavelmente estaria começando a primeira fase.
_Se acidentou ontem. Quebrou um braço e uma perna. Não tem condições de voltar — ele deu de ombros — Então, eu juntei os iniciados vindos de fora e os da Audácia, mas sei que Quatro está sobrecarregado.
_No que eu posso ajudar? — Eu perguntei, aliviada por ele não ter falado em divergência nem em assassinato comigo.
_Eu não posso entregar um grupo na sua mão. Você não tem experiência em treinar Iniciandos. Ninguém mais tem — Ele começou a bater as pontas dos dedos na mesa — Mas pensei em te pedir para auxiliar Quatro. Você é um dos nossos maiores talentos, e suas notas na sua iniciação foram ótimas. E acho que você e Quatro tem uma boa relação.
_Eu e Quatro somos amigos — eu disse, dando de ombros. Nós havíamos conversado bastante nesse último mês. Ele também estava intrigado com o que tinha acontecido e com o rumo que as coisas tinham tomado.
_E então Tris, você aceita? — Max perguntou, me encarando.
Pense rápido, pense rápido, pense rápido. Se eu aceitasse, poderia ficar mais próxima de Quatro, passar mais tempo na Audácia, e não na minha sala, e me misturar. Nós dois poderíamos tentar investigar alguma coisa. Duas cabeças sempre pensam melhor do que uma. Eu poderia descobrir quais dos iniciados são Divergentes, assim como Quatro descobriu sobre mim a dois anos atrás, e ajudar a protege-los. Não vi muitas desvantagens.
_Eu aceito Max — eu disse, encarando ele de volta.
_Ótimo, ótimo — ele deu um sorriso de leve — Bem, quando terminar seu café, pode se dirigir até o Centro de Treinamento — seguiu-se uma pausa — Se não me engano, hoje vocês vão ensinar luta.
Max sorriu e se levantou.
_Max, só uma pergunta — eu o chamei, antes que ele virasse as costas e saísse dali — Por que Eric não pega uma das turmas? — Eric também treinava os Iniciados, ele poderia muito bem treinar a turma de Lauren.
_Eric está ocupado com... outras coisas — ele respondeu, vagamente. Eu fiz meio que uma confirmação com a cabeça.
Ocupado com coisas como caçar Divergentes? Pensei. Eric era bem capaz disso. Aliás, eu desconfiava, desde minha iniciação, que ele adoraria colocar as mãos em um Divergente.
Max foi embora. Eu não tinha mais estômago para tomar o resto do meu café. Me levantei. Coloquei um sorriso no rosto. Ajudar Quatro seria uma boa. Será que ele já sabia? Eu esperava que ele não se importasse de eu ser sua ajudante.
Me dirigi então para o Centro de Treinamento. Eu não estava devidamente vestida para treinar, mas fazer o quê? Eu havia sido pega de surpresa. E eu não teria realmente que fazer alguma coisa, só ensinar. Ou melhor, tentar aprender a melhor forma de ensinar o que era ser Audácia, sem ser brutal. Eu teria que aprender como Quatro conseguia ser um ótimo tutor, e tentar, pelo menos, fazer um pouco do que ele fazia.
O barulho dos meus passos ecoavam em meus ouvidos. Eu olhava constantemente para trás. Não via ninguém me seguindo, mas sempre era bom me manter atenta. Eu realmente estava paranóica, de um mês pra cá.
Minha iniciação havia sido interessante. Eu me dava muito bem com armas, no geral, tanto em manusea-las como em arremeça-las, mas havia apanhado muito nas lutas. Eu estava bem melhor agora. Quatro tinha me dado aulas particulares a dois anos atrás. Eu era rápida, ágil, não muito forte, mas tinha aprendido a usar minhas habilidades a meu favor, apagando assim minhas falhas e meus pontos fracos. Era uma boa lutadora, embora não fosse a melhor.
As portas no Centro de Treinamento para os Iniciados estava encostada. Eu a abri vagarosamente, sem querer chamar a atenção e sem querer atrapalhar. A voz de Quatro invadiu meus ouvidos.
A turma era grande. Quase vinte, chutando por cima. Eu tinha ouvido boatos de que o número de transferidos havia sido alto. Pelo jeito os que permaneceram por aqui também.
_É tudo sobre controle. — Quatro dizia — Para atirar uma faca, ou um punhal e acertar o alvo, vocês tem que se concentrar na respiração de vocês e no alvo — Max estava enganado. A primeira aula não seria luta, mas sim, facas. Tiro ao alvo — Mentalizem o alvo. Fixem o olhar nele. Não pensem muito... Tris?
Os Iniciados se viraram pra trás e me encararam. Fixei meus olhos em Quatro, ignorando os outros a minha volta. Os lábios dele se moveram, formando a frase está tudo bem? Afirmei discretamente com a cabeça.
_Quatro, posso falar com você um instante? — Eu perguntei, dando um sorriso fraco. Eu odiava que todos estivessem olhando pra mim, como estavam fazendo agora.
_Claro — ele respondeu, e passou pelos Iniciados. Nós nos afastamos uns passos.
_Quatro, Max me mandou aqui. Ele quer que eu auxilie você, já que você está com duas turmas agora. Ele acha que eu sou umas das pessoas mais aptas para o trabalho — dei de ombros.
_Quer dizer que somos uma dupla agora? Ótimo — ele sorriu e eu afirmei com a cabeça. Ele então se virou para os outros, que nos encaravam descaradamente, tentando captar o assunto de nossa conversa — Essa é Tris, sua nova instrutora. Nós dois vamos instruir vocês durante a Iniciação.
Eles murmuraram um oi um pouco tímido. Respondi com um sorriso e um aceno de cabeça. Acompanhei Quatro até o local que ele estava antes de se interromper para falar comigo.
_Parece que vocês deram sorte. Tris é uma exímia atiradora de facas. Por que não faz uma demonstração, Careta? — ele sorriu. Meu velho apelido. Soquei seu braço de leve.
_Você vai ser o alvo, Quatro? — Eu perguntei, fazendo ele rir.
_Você não atiraria uma faca em mim — Ele disse, me fazendo lançar um sorriso cínico para ele.
_Quer apostar? — Eu perguntei, pegando uma das facas que estava na mesinha ao nosso lado.
Ele deu de ombros, abriu um sorriso e se dirigiu para perto dos alvos.
_Já sei. Você quer se vingar de dois anos atrás, quando eu atirei facas em você, né? — Ele perguntou, me provocando.
_Vou vingar a minha orelha cortada, se você me provocar de novo — eu disse, rindo. Ele deu de ombros e fez um gesto de rendição, depois se virou para o grupo.
_Além de mostrar como se atira uma faca, vamos dar uma demonstração de confiança. Tris vai atirar uma faca de cada lado meu, e uma acima da cabeça. Não vou me desviar. As vezes, principalmente aqui na Audácia, a confiança no próximo é essencial. Pode salvar sua vida se você confiar na pessoa certa — ele tomou seu posto — Confio em você Tris, não me decepcione.
Olhei fixamente e atirei a primeira faca.
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