Runaway

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Espero que gostem :D

O barulho do despertador me fez virar na cama e colocar um dos travesseiros sobre a cabeça. Quando o apito fino parou eu choraminguei, sabendo o que viria a seguir.

Anne puxou a coberta de cima de mim, fazendo o frio cortar minha pele e eu me encolhi.

— Vamos, Eve, você não pode se atrasar. – ela disse em seu tom calmo.

Bufei e sentei na cama, vendo os olhos castanhos me observando. — Tudo bem, eu já acordei. – Grunhi me espreguiçando.

— Vou trazer jornal e plástico para você cobrir seus móveis quando chegar do trabalho. – Sorriu, colocando uma parte dos cabelos loiros para trás da orelha. — Ligue se precisar de algo.





Eu não era a única a seguir a pé para a escola. Na verdade, sequer entendia a necessidade de um estacionamento naquele lugar, já que a cidade inteira ficava a vinte minutos de qualquer lugar.

As pessoas falavam sobre mim sem realmente se preocupar em esconder, mas isso era esperado num lugar desse tamanho.

Apesar de a escola ser maior do que eu imaginava, não foi difícil encontrar a secretaria e pegar meus horários. A secretária sorria e era simpática enquanto explicava direções para as salas, para o meu armário e me dava a combinação do mesmo.



Saindo para o corredor, encontrei Kevin encostado na parede oposta. Não precisei pensar muito para perceber que ele me esperava.

— Deixe-me ver seu horário. – pediu puxando o papel das minhas mãos. — Nós temos muitos períodos juntos, todos exceto o quarto e o quinto. – Constatou com um sorriso.

— Que bom! – forcei-me a parecer animada. — E onde é a nossa primeira sala?

— No terceiro andar. – disse segurando meu braço e encarando com superioridade as pessoas que nos observavam.



Em toda a minha vida, nunca conhecera alguém como Kevin, não por ser gay, mas pela animação e vontade de falar. Como esperado, ele sabia coisas de quase todos e me contava os segredos mais estranhos sobre nossos colegas de classe e até de pessoas que passavam no corredor.

No horário de almoço, tive que sentar com algumas garotas, as quais ele já havia me falado bastante, citando qualidades e defeitos. O nome delas não era muito definido na minha cabeça, mas eu sabia que uma delas era lésbica não assumida, uma era falsa santa e a outra cuspia nos copos das pessoas que não gostava.



Foi só no quarto período que eu me encontrei sozinha, quando Kevin me deixou na sala de história e seguiu para a sua.

A falsa santa tinha essa aula comigo e sentou-se ao meu lado, tendo a gentileza de me lembrar de que seu nome era Amy. Os longos cabelos negros e grandes olhos azuis lhe davam um ar angelical e eu podia entender como as pessoas acreditavam que ela era santinha.

Durante metade da aula eu me distraí conversando com ela, que me informava coisas sobre os colegas de classe, diferente de Kevin, ela dava informações academicamente úteis, como a quem eu deveria recorrer se precisasse entrar em grupos de estudo. O restante do tempo sentei-me e encarei o velho professor de história. Ele me lembrava o papai Noel, velho, barrigudo e grisalho, só lhe faltava deixar a barba crescer. Arrependi-me de não prestar atenção nele desde o início, parecia ser um bom professor.



Quando a sineta tocou, puxei minha bolsa para o ombro e segui para a porta, sob o olhar de todos os outros alunos que passavam por mim.

Sofri de um pequeno momento de confusão, afinal, não tinha a menor ideia de onde era minha próxima sala. Pensei em procurar por mim mesma, mas Amy parou ao meu lado e se ofereceu para me guiar. Grata, segui-a por alguns corredores, sendo encarada sem o menor pudor daqueles que o faziam.

Ser a garota nova não seria tão normal quanto costumava ser, Anne tinha feito uma escolha horrível e eu me queixaria com ela mais tarde.



Ao entrar na sala de espanhol meus olhos procuraram por Kevin, encontrando-o em uma carteira do canto esquerdo. Um garoto loiro estava sentado sobre sua mesa, falando com ele enquanto jogava sua borracha de um lado para o outro nas mãos.

Kevin sorria de forma aberta e eu ergui uma sobrancelha, pensando se aquele era seu namorado ou alguém por quem ele nutria uma paixonite. Se fosse, eu iria parabenizá-lo pelo bom gosto.

Tentando ao máximo não atrapalhar, ocupei a mesa ao lado e peguei meu celular da bolsa, mandando uma mensagem para Anne, lembrando-a de levar o jornal para mim.



Algo apertou meu ombro e eu me virei, encontrando Kevin com seu sorriso radiante para mim, sua mesa desocupada.

— Fico feliz que tenha encontrado a sala! – disse animado enquanto eu varria o local com os olhos, encontrando o loiro sentado na última cadeira, olhando pela a janela sem muito interesse.

— Amy me trouxe. – respondi dando de ombros. — Aquele é seu namorado? – perguntei curiosa, apontando com a cabeça e ele riu negando.

— Quem me dera. – suspirou de forma sonhadora e eu tive que rir. — Não sei nem se ele joga no meu time. Já o vi com algumas garotas, mas Nolan não me corta totalmente, então... – encolheu os ombros.

— Bem, boa sorte, de qualquer forma. – sorri encorajando-o.

— Obrigado.



O professor de espanhol entrou fazendo mais barulho do que qualquer outro, falando alto com um garoto que estava sentado em sua mesa, repreendendo-o. Segundo Kevin, aquele era o capitão do time de futebol, o que eu identifiquei como sendo algo ruim. Entretanto, se não havia outra escola na cidade, não me parecia necessário ter um time, mas não verbalizei meus pensamentos, preferindo guardá-los para mim mesma.



Enquanto o professor explicava algo sobre verbos irregulares, meus olhos vagaram até a janela, fazendo com que eu me perdesse no céu azul e nos topos das arvores que rodeavam a estrada maldita que me trouxera até aqui.

Cidades pequenas tinham a terrível particularidade de serem agradáveis e aconchegantes. Tornava mais fácil se apegar às coisas e pessoas, coisa que eu não era permitida, uma vez que minha vida era baseada em fugir e me esconder.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.