Run

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Terminei de ler hoje "Sangue Quente" (que apesar de parecer ridículo à primeira vista, é surpreendentemente bom! Sério, vcs deveriam ler.) e simplesmente me veio a cabeça essa mini fic. Pra falar a verdade, nem eu sabia sobre o que se tratava enquanto escrevia isso. Foi algo que fiz apenas parar passar o tempo. Não sei se ficou bom (nunca gosto do que escrevo), mas senti vontade de compartilhar. Enfim, espero que gostem!

Um gostoso sol de fim de tarde ilumina o extenso gramado abandonado á minha frente. E lá estou eu, correndo de um zumbi faminto.

Chuto dizer pelo seu tamanho que este deveria ter entre quinze ou dezesseis anos antes de morrer, e a julgar por seu estado de decomposição isso não havia acontecido há muito tempo. Não tenho tempo para examina-lo com calma, mas pelo que vejo quando dou rápidas olhadas para trás, este garoto deveria ter sido bem bonito um dia. Enquanto corro tento imaginar como ele era enquanto ainda humano. Rebelde? Atleta?... Parecia ser do tipo inteligente, e a julgar por suas roupas – agora sujas e esfarrapadas – tinha também uma boa condição social.

É engraçado, porque isso de nada adiantou no final das contas. Pobre ou rico, jovem ou velho… todos foram atingidos por essa maldita praga que lentamente contaminou a humanidade e nos destruiu. Todo dinheiro e inteligência de nada adiantaram contra essa maldição e nossa única escolha foi sentar –E em alguns casos, orar para um Deus que nem mais tínhamos certeza se existia– e assistir o mundo apodrecer bem diante dos nossos olhos enquanto todos morriam.

Eu sou o próximo.

Sei disso porque já posso sentir minhas pernas falharem, já posso sentir o cansaço tomar conta de mim e a vida se preparar para deixar-me. Sei que não aguentarei correr por muito mais tempo e é inútil tentar.

Mas ainda sim corro.

Não porque ainda haja alguma esperança. Simplesmente corro porque isso me faz bem. Me faz sentir vivo.

Meus pés mal tocam o chão, corro como se não existisse amanhã – e bem, pra mim realmente não há –, meus pulmões queimam e gritam por oxigênio, enquanto eu simplesmente ignoro e corro mais e mais. Meus músculos ardem e praticamente imploram por um descanso, mas a dor já não me afeta mais.

Nada mais importa realmente.

Sinto o zumbi aproximar-se de mim ao poucos. Ele não tem pressa, afinal, está morto e dispõe de todo tempo que resta. É engraçado como suas passadas arrastadas e sem vida conseguem ser mais rápidas que eu, que corro usando a ultima fagulha de vida que ainda resta em mim. Mas sei que, não adianta o quanto eu corra, ele irá me alcançar alguma hora. Ele também sabe disso, sabe que meu corpo vivo irá me trair alguma hora, sabe que irei me cansar e então ele poderá me devorar lentamente, saboreando a carne e o sangue. Ou talvez ele não saiba… Me pergunto se por trás de tudo isso os zumbis ainda pensam. Será que têm consciência do que está acontecendo ao seu redor? Será que são capazes de enxergar a iminente destruição do nosso mundo? Provavelmente não; e é isso que mais invejo neles. Ou sabem ou não dão à mínima, o que os interessa é apenas andar por aí sem rumo e ocasionalmente soltar grunhidos estranhos. Eles estão mortos, não há porque se preocupar com mais nada. Ao contrário de mim, que ainda sou estupido de perder tempo me importando.

Isso não adianta de nada. Nada mais adianta.

Então eu paro. Não porque eu queira, mas porque não posso mais. Minha respiração é rápida e descompassada, tento inspirar o máximo possível de oxigênio enquanto ainda posso; meus pulmões se deliciam com o oxigênio puro e limpo, o último que receberão antes de pararem para sempre. Minhas pernas finalmente recebem o descanso que tanto ansiavam, e então simplesmente resolvem parar de funcionar, me fazendo cair no chão com um baque surdo. Meu cérebro é o único que ainda se importa, e não sei por que, mas isso dá vontade de rir. Inclino a cabeça em direção ao céu azul e me delicio com uma estrondosa gargalhada que escapa por minha garganta.

Estou prestes a morrer e nunca me senti mais vivo.

–– EU ESTOU LIVRE! – grito, e essa frase ecoa pelo mundo vazio.

O zumbi se aproxima por trás de mim e com precisão ataca minha garganta, dando mordidas profundas e dolorosas. Já não me importo com a dor.

O sangue morno e viscoso escorre pela ferida e junto com ele sinto a vida ir embora também. Tudo parece mais calmo agora. Sem dor, sem sofrimento, sem preocupações…

Provavelmente voltarei como um zumbi e farei companhia ao pobre garoto. E isso não me aterroriza mais, fico feliz de tirar a solidão daquele pobre menino que assim como eu foi vítima dessa praga tão cruel e devastadora.

Eu já não ligo para mais nada, e isso é tão bom! A última coisa que vejo antes de fechar os olhos é o céu azul, e por um brilhante momento, sinto algo se aquecer em meu peito:

Esperança.

É uma pena que ela chegou tarde demais…

Notas finais
Reviews? Nem que seja para criticar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!