Notas iniciais
Capítulo dedicado à Ernessa! *-* E obrigada, gente, por tantos comentários! Vocês são maravilhosas.

Capítulo Seis

– Tris, você está agindo de maneira estranha – falou minha mãe, analisando meu rosto com preocupação.

Joguei minha cabeça no apoio do banco do carro, cansada. Em seguida, olhei para minha mãe, forçando um sorriso para fingir que estava tudo bem comigo.

– É impressão sua, mãe – eu afirmei, sentindo meu sorriso vacilar um pouco – Só está sendo uma semana difícil.

Mamãe olhou para mim. Sua mão estava em minha testa, provavelmente, tendo o intuito de verificar minha temperatura. Mais uma vez, eu bufei, achando tudo aquilo meio desnecessário.

– Também não estou doente, mãe – retruquei, um pouco irritada – É sério.

– Eu sei que tem algo de errado com você, Tris – ela retrucou de volta – Eu sou sua mãe.

Desde pequena, ela tinha aquele dom: o de saber quando eu estava mentindo. Pessoalmente, eu nunca fui uma boa mentirosa. Toda a vez que eu tentava mentir, minhas mãos tremiam e eu falava de maneira nervosa, denunciando tudo o que eu mais tentava esconder. No entanto, tudo ficava ainda pior quando sua própria mãe reconhecia que você não estava dizendo a verdade. Por isso, eu tentava ser o mais honesta quanto possível. Mas agora que o assunto era voltado a Tobias Eaton, tive de morder a minha língua para não contar tudo de uma vez.

Quando o carro parou em frente à escola, desci o mais rápido possível e peguei minha mala, não antes de dar um beijo estalado na bochecha de minha mãe.

Como a primeira aula era educação física, tive de ir para o vestiário e pôr a roupa adequada para a atividade de corrida. Depois, seriam horas de tortura na mesma sala que Tobias Eaton.

E, ainda por cima, como se bastasse toda a minha maré de azar, eu tive o azar de encontrar Al no meio do caminho.

– Tris – ele exclamou, quando me viu chegando – Finalmente encontrei uma oportunidade para conversar com você, não?

Forcei um sorriso, sentindo o dobro de cansaço pelos últimos dias.

– Sim, Al – minha voz não passava de um sussurro – Sim.

Ao meu ver, ou Al era uma pessoa muita ingênua para não notar que eu não estava nem um pouco empolgada em conversar com ele, ou ele simplesmente ignorou minha atitude.

– Eu estava mesmo querendo falar com você esses dias, sabe? – Agora, ele parecia extremamente ansioso – Sei que parece que eu estou sendo chato ou algo do tipo, mas... apesar disso, eu ainda queria apenas poder ter a chance de tentar... Antes que você fale qualquer coisa.

Nesse momento, eu queria poder fugir. Eu sabia exatamente o que Al queria me perguntar, e eu não estava nem um pouco animada para respondê-lo.

– Al, nós podemos conversar sobre isso depois, está bem? – Eu disse, com a maior quantidade de gentileza que eu pude.

– Não, Tris – ele forçou, parecendo mais determinado do que nunca – É sério. Só vai levar alguns minutos.

Eu não sabia que cara eu estava fazendo naquele momento, mas fiquei imensamente feliz ao notar que, apesar de adorar me empurrar para cima dos garotos, Christina veio ao meu resgate, parecendo preocupada.

– Tris, onde é que você estava? – Ela arfou, fazendo tudo parecer mais dramático – Nós precisamos ir. Eu tenho uma coisa urgente para te contar.

– É muito sério? – Eu perguntei, tentando conter um sorriso.

Christina estava quase à beira de lágrimas.

– Sim, Tris! – E me abraçou, levando-me para longe de Al – Venha, rápido!

Lancei um olhar culpado para Al, que pareceu compreender a situação. Quando estávamos longe o suficiente dele, Christina olhou para mim, seu sorriso ficando mais largo a cada segundo. Depois, começamos a gargalhar.

– Eu nunca pensei que você seria uma atriz tão boa assim! – Eu exclamei, abraçando-a bem contente – Qualquer pessoa acreditaria naquilo! Foi genial, Christina.

– Eu tento – disse ela, olhando para as unhas – Agora, vamos. Temos uma aula chata de educação física para fazer.

Dito e feito. Corremos em volta da quadra mais vezes do que eu poderia contar. Rapidamente, vi as outras me ultrapassarem. Então, enquanto corria um pouco atrás, aproveitei para colocar meus pensamentos em ordem.

Era inegável a forte atração que eu sentia por Tobias. Se antes eu queria me manter o mais longe possível dele, agora, eu sentia como se ele e eu fôssemos alguma espécie de imã para o outro.

E depois de ontem, onde decidimos ignorar tudo e nos beijarmos, eu sabia que teria ido bem mais longe do que um simples tocar de lábios. Porque, naquele momento, todo o pensamento racional havia fugido para o mais longe possível de mim. Era quase como se minha mente estivesse nublada.

Agora, tudo ficava ainda pior pelo fato de ele ser o meu vizinho. Seria quase impossível contar as vezes em que nos veríamos por dia. Tanto na escola quanto fora dela. Em outras palavras, eu continuava encrencada, porque, uma hora ou outra, eu cederia... Mais uma vez.

E tudo isso apenas pelo físico. Eu não conseguia me ver apaixonada por ele ou algo do tipo. Na realidade, essa ideia passou bem longe de minha cabeça. Sinceramente, eu duvidava muito que Tobias Eaton pudesse passar mais de uma semana com a mesma garota, porque tudo o que ele sabia fazer era chutá-las como brinquedos descartáveis.

E o pensamento de ser uma delas me enojava, embora esse não fosse o único motivo. Mesmo que tivéssemos qualquer tipo de relação amorosa, eu não sabia se poderia dar certo. Quero dizer, mesmo que fizéssemos brincadeiras um com o outro, era quase impossível evitar que alguma briga acontecesse, logo em seguida.

Eu ficaria cansada.

Ele ficaria cansado.

Mas eu tinha uma ideia, e eu poderia muito bem evitar que toda aquela confusão acontecesse.

Porque, se tinha uma coisa que eu tinha certeza, era que eu não me apaixonaria por Tobias Eaton.

~ • ~

– Tris, pode parar de fazer essa cara – Christina me alertou – É sério, estou ficando com medo de você.

– Quieta, Christina – eu ri – Não está vendo que eu estou no meio de uma reflexão importante?

– Só sei que é bom você parar com essa merda logo – ela ficou séria – Não gosto quando você fica desse jeito, pensativa. Já falei: é extremamente assustador.

Eu dei de ombros.

– Você fala como se eu estivesse escondendo alguma coisa de você.

– É porque eu sei que você está – ela retrucou, em tom de censura – Esse mês que eu o diga. Seus segredos aumentam cada vez mais.

De repente, notei que ela estava ficando estressada. A cada palavra dita, seu tom de voz aumentava um terço. Aguardei pacientemente que ela não ficasse irritada comigo, até porque, eu havia notado perfeitamente que eu não era a única agindo de maneira esquisita esses últimos dias. E, apesar disso, eu não havia pressionado Christina nem uma vez para que ela me contasse o que estava acontecendo com ela.

Enquanto isso, o professor explicava algum trabalho em dupla que teríamos de fazer para semana que vem, e, conhecendo Christina do jeito que eu conhecia, eu deveria ter previsto que ela faria uma idiotice daquelas comigo apenas por estar com raiva:

– Ei, Zeke! – Ela chamou, conseguindo a atenção do garoto, que estava do outro lado da sala – Quer fazer dupla comigo?

Olhei para ela, estupefata. Pensei que ela fosse rir a qualquer momento e me dizer que era apenas uma brincadeira e que ela não estava brava realmente, mas eu havia me enganado.

Um pouco hesitante, Zeke acenou com a cabeça, enquanto Tobias lançava um olhar raivoso para o melhor amigo.

Christina foi ao seu encontro, fazendo com que Tobias tivesse de levantar-se de sua cadeira para dar espaço a garota. Zeke deu de ombros para o amigo, como se estivesse, ao mesmo tempo, tentando dar um pedido discreto de desculpas.

Tobias parou em frente à minha mesa. Ao meu redor, notei que todos já tinham dupla e, num gesto com a cabeça, deixei ele se sentasse ao meu lado.

– Eu não sabia que a sua amiga estava fazendo um complô contra você – ele começou, pensativo – Pensei que esse fosse o meu trabalho.

– Parece que você está perdendo o jeito – eu apontei, com ironia.

Ele me deu um sorriso malicioso.

– Beijar minha principal inimiga sempre bagunça a minha cabeça — Tobias concluiu, ainda sorrindo.

Eu corei violentamente, querendo enfiar minha cabeça num buraco sob a terra.

– Você, definitivamente, não precisa ficar me lembrando disso! – Eu exclamei, chamando a atenção de algumas pessoas na sala.

O professor nos lançou um olhar de censura, indicando que deveríamos estar nos concentrando em nosso trabalho para a próxima semana. Com isso, bufei, sentindo a tensão se espalhar em todo o meu corpo.

– Mas – ele retornou a falar, e eu já havia imaginado que ele não estava referindo ao trabalho -, pelo o que me parece, eu não sou o único que está confuso com isso tudo.

Tobias acertou em cheio, e ele mesmo sabia disso. Fiquei abrindo e fechando minha boca, procurando o que dizer. Eu não sabia como encontrar uma resposta para aquilo, já que tinha um quê de verdade no que ele havia dito.

– O que você está fazendo comigo, Tobias? – Eu perguntei em um sussurro para que ninguém ouvisse.

Seu sorriso morreu e ele me encarou, mais sério do que eu já pensei tê-lo visto.

– A questão não é essa — ele deu um longo suspiro, mostrando, pela primeira vez, o quanto ele também estava cansado com a nossa situação – O fato é o que você está fazendo comigo, Tris.

~ • ~

Guardei meus materiais em meu armário, ainda tentando me recuperar pela última hora na presença de Tobias. Fiquei imaginando como tudo teria sido, caso eu nunca o tivesse beijado naquela estúpida festa.

Tudo teria sido bem mais fácil, concluí, por fim.

– Ei, Tris – pelo tom, logo reconheci que aquela era a voz de Al – Posso falar com você... agora?

Eu me virei para ele, sabendo que, daquela vez, eu não conseguiria achar uma escapatória para fugir dele.

– Diga, Al – dei um longo suspiro, extremamente cansada.

Ele remexeu na manga da blusa, puxando-a para cobrir ainda mais o seu braço, como se fosse um tique nervoso. Olhei para os meus pés, esperando.

– Eu só... – ele corou violentamente – Eu só queria saber se você gostaria de sair comigo.

Suspirei. Não esperei que ia ter de rejeitá-lo.

– Olha, Al – eu comecei, coçando a nuca -, gosto muito de você, é verdade... Mas não é da forma como você gostaria, entende? Eu não consigo, não conseguiria, ver você mais do que um amigo.

Parecia que um minuto de silêncio inteiro se instalou pelo local. Eu esperava qualquer reação, para falar a verdade. Esperava que ele ficasse chateado, que nunca mais olhasse na minha cara, mas não esperava que ele fosse ficar tão irritado daquele jeito.

– É assim agora, não é? – Ele explodiu, batendo a mão no armário e fazendo-me dar um pulo pelo susto – Não pense que eu não notei vocês dois juntos. É por causa dele, não é? Meu deus, Tris, como você pode ser tão burra?

– Burra?! – Eu perguntei, ficando com raiva – Eu nem sequer sei do você está falando.

– Você e Tobias Eaton – ele grunhiu, parecendo estar prestes a bater em alguma coisa – Não faça a burrice de se apaixonar por ele, Tris. Por que você não consegue ver que eu sou melhor do que ele?

Ele agarrou meu braço. Notei que ele estava usando muita força e tentei me soltar dele, em vão. Eu estava prestes a dar um tapa na cara dele, mas alguém o empurrou para bem longe de mim, muito antes que eu tivesse qualquer reação raivosa para cima de Al.

– Ei! – Tobias me puxou para perto dele, parecendo extremamente irritado.

Al levantou-se e olhou para mim com repulsa. Depois, balançou negativamente a cabeça e andou rapidamente pelo caminho oposto.

Tobias me segurou pela mão e me levou para uma sala de aula vazia. Assim que ele fechou a porta, eu me sentei no chão, em estado de choque.

– Você está bem? – Tobias se sentou ao meu lado, verificando a vermelhidão em braço.

– Um pouco – sorri, e notei que algumas lágrimas escorriam de meus olhos pelo susto de antes – Obrigada, Tobias.

– Sem problemas.

Ficamos em silêncio.

Eu não queria me contentar com poucas palavras. Eu precisava falar com Tobias, e precisava falar agora. Finalmente, eu havia tomado uma decisão sobre nosso estranho relacionamento. E eu sabia que não era o caminho mais sensato, mas eu precisava tentar, mesmo que minha ideia fosse a coisa mais estúpida que eu já inventara.

– Não estamos em um relacionamento – eu comecei – Não estamos.

– Tris? – Ele estava confuso, mas não deixei que ele me interrompesse.

– Somos completamente opostos. Na realidade, somos o típico clichê adolescente: unidos por essa ridícula relação de amor e ódio – eu suspirei alto – E, por causa disso, não podemos negar a atração que temos um pelo outro.

– Eu não estou negando nada disso – retrucou Tobias.

– E nem eu – eu concluí – Mas nós não estamos em um relacionamento, e eu não quero isso para mim. Posso apostar que, assim como eu, você não me vê de uma forma romântica, ou algo desse tipo... Gosto da sua companhia, e não me importaria que fôssemos amigos, mas.... Se vamos continuar a ignorar nossa razão, eu queria deixar claro: você pode me beijar, sim, mas não quero quaisquer laços de compromisso nos unindo.

– Então, você está dizendo que...?

– Me beije – eu pedi, ofegante – Me beije agora.

Quando fui ver, Tobias já estava com os lábios nos meus, beijando-me de forma agressiva. Suas mãos apertavam firmemente meus cabelos, e eu o puxei para cima de mim. Gostei da sensação desesperadora que tivemos, quando nos beijamos. Era como se não pudéssemos mais esperar. E, bem, eu realmente não podia. Porque, mesmo Tobias sendo a pessoa mais chata que eu conhecia, mesmo que eu e ele fôssemos inimigos declarados, eu não podia negar: eu me sentia atraída por ele, assim como eu sabia que ele se sentia o mesmo por mim.

E, naquele momento, eu admirava toda aquela loucura. Porque, de uma hora para a outra, eu também fazia parte dela.

– Não estamos em um relacionamento – Tobias me lembrou, enquanto beijava o meu pescoço.

Não estamos em um relacionamento.

E, por meia fração de segundos, seus lábios já estavam de volta nos meus, levando-me à loucura.

Notas finais
Então, gostaram desse capítulo? Até o próximo domingo, gente.