Rude
1 Rude.
Sábado de manhã, pulei da cama
E vesti meu melhor terno
Entrei em meu carro, corri como um jato até você
Bati em sua porta com o coração nas mãos
Para te fazer uma pergunta
Pois eu sei que você é um homem clássico
Yeah, yeah
Sete da manhã, esse é horário que acordo Lily beijando seu rosto suavemente. Eu adoro os dias que ela dorme aqui em casa e podemos aproveitar as horas de uma noite em fuga. Tenho que leva-la para casa em trinta minutos, antes que você chegue do turno noturno do trabalho. Ajudei Lily a subir na arvore que tem perto do telhado e a observei atentamente caminhar com cuidado para a janela do seu quarto, mandei um beijo para ela que sorriu amplamente para mim antes de fechar a janela em silencio.
Meus amigos dizem que preciso criar coragem para fazer com o senhor, que está na hora de tornar tudo oficial, e eu quero dar aquele passo na minha relação com Lily, e ela vai querer que o senhor esteja de acordo. Por isso naquela noite eu me arrumo, são exatamente 20h quando eu paro na frente do espelho para ver se estou apresentável. Troquei meus jeans rasgados por uma calça social, e a blusa dos Beatles por uma social, até mesmo os all star resolvi tirar.
Não me entenda mal, não quero que você pense que sou quem eu não sou, ei apenas quero lhe agradar nessa noite. Até por que você já me viu outras vezes, e até já sabe que namoro Lily há quase dois anos. Mas eu também sei que você é um homem das antigas e que achou um absurdo Lily anunciar que estava namorando e não pedi para fazerem um jantar e eu pedi-lhe sua benção.
Mas agora eu tenho uma pergunta importante, algo que vai muda a vida de todos e que me faz bagunçar os cabelos toda hora, Lily vai fazer você ficar de bom humor, deixando o terreno mais brando para eu poder lutar. Mas ainda sinto que sou um filhotinho tentando avançar contra o líder da matilha.
Não fiz um discurso e até tentei evitar pensar no que eu vou falar. Sempre gostei da ideia de ser espontâneo, mas agora estou me arrependendo de não ter ficado na frente do espelho treinando. Devia ter decorado cada palavra que iria te falar e até mesmo ter treinado com meus amigos as possíveis reações.
Peguei a minha moto e segui no limite de velocidade, como se você já estivesse me olhando e avaliando se eu sou bom o suficiente para sua filha. Tudo o que eu sinto é o meu coração batendo cada vez mais rápido a partir do momento que eu começo a ver a casa bege de cerca branca se aproximando.
Vejo pela janela vocês sentados na sala, esperando pelo jantar. Talvez me convidem para participar, agora como um futuro e certo membro da família. Estou nervoso, minhas mãos não param de suar, e a parte interna de minha bochecha já está com gosto de sangue.
Mesmo assim eu bato na porta da frente três vezes. É você que abre, com Lily parada a quase três metros de você encostada na mesa do telefone que fica na frente da escada, ela ostenta um sorriso confiante e vejo seus lábios sussurrarem um “está de bom humor”, mas seu rosto se contorce de desgosto ao me ver. É um mau jeito de começar.
Posso ter sua filha pelo resto de minha vida?
Diga sim, diga sim pois eu preciso saber
Você diz, “Eu nunca te darei a benção, até morrer
Que pena, meu amigo, mas a resposta é não!”
No início as palavras engasgam em minha garganta, e em um momento de pânico me pergunto se vou paralisar bem aqui, mas quando eu finalmente consigo falar, o que sai me deixa até orgulhoso:
— Posso ter sua filha pelo resto de minha vida? – pergunto com a voz tremida pela apreensão. – posso tê-la ao meu lado como minha esposa?
Em minha mente repito “Diga sim, diga sim” sem parar como se fosse um mantra. E tudo o que você faz é dá um sorriso de lado, um tanto debochado, como se estivesse tirando uma com a minha cara pelas quantidades inapropriadas de vezes que deixei Lily aqui depois da meia-noite.
— Eu nunca te darei a benção, até morrer, que pena, meu amigo, mas a resposta é não!
Primeiro eu fiquei desnorteado, sem saber o que fazer. Doeu em meu peito saber que eu não consegui. Atrás de você, Lily cobriu a boca com as mãos no mais completo choque, e seus olhos se enchem de lagrimas. Meus ombros, que antes estavam erguidos em uma postura respeitosa, caíram, minhas sobrancelhas se juntaram e eu quis argumentar.
Mas você bateu a porta na minha cara.
Por que você tem que ser tão rude?
Não sabe que eu também sou humano?
Por que você tem que ser tão rude?
Eu me casarei com ela de qualquer jeito
Casar com aquela menina
Casar com ela de qualquer jeito
Casar com aquela menina
É, não importa o que você diga
Casar com aquela menina
E nós seremos uma família
Por que você tem que ser tão rude?
Fico encarando a porta fechada durante uns minutos, lá de dentro vem o som dos gritos de Lily e os seus, discutindo sobre algo que eu não consigo assimilar. Precisava você falar daquele jeito? Daquela forma? Não podia fazer como um pai normal e perguntar quais meus planos para o futuro? E se eu realmente amo sua filha? Tinha que ser tão rude? Tão direto? Tão sem opção?
Noto que eu a perdi, e talvez seja para sempre, ela não vai querer ir contra você, o próprio pai, por causa de mim. Beleza, eu vou respeitar a opinião de Lily acima de tudo, a perdi e você ganhou. Até mesmo começo a caminhar para minha moto, para voltar para casa e escrever uma música sobre isso.
Mas não pense que seja assim tão fácil. Se eu passei cinco anos para conquistar Lily, não vou desistir assim. Essa é apenas uma primeira batalha da guerra do amor. E não será você que vai me impedir de ser feliz com ela.
Eu odeio fazer isso, você não deu escolha, não vivo sem ela
Me ame ou me odeio, seremos os garotos naquele altar
Ou correremos para outra galáxia
Você sabe que ela me ama, onde eu vou ela vai
Lily abri a porta e corre para meus braços, penso que é à hora, hora dela subi na minha moto e nós iremos embora para bem longe. Mas você vem atrás dela e a segura pelo braço, a tirando de mim e levando-a para dentro de casa.
Antes de fecha a porta em minha cara uma segunda vez em tão pouco tempo você manda eu não voltar mais. Pego meu celular, antes que você possa pensar em tomar o dela, e mandou a mensagem simples que ela irá entender.
“Venho aqui amanhã à noite”
Posso ter sua filha pelo resto de minha vida?
Diga sim, diga sim pois eu preciso saber
Você diz, “Eu nunca te darei a benção, até morrer
Que pena, meu amigo, mas a resposta ainda é não!”
É a segunda tentativa, e eu não desistirei até consegui-la para mim. Dessa vez pus até terno e tentei pentear os cabelos, mas não deu muito certo. Antes de sair de casa porem Lily me mandou uma mensagem, do celular da irmã. Você organizou um jantar, queria apresentar um amigo do trabalho para ela, aparentemente alguém respeitoso e com um futuro promissor, um partido muito melhor do que eu.
Bati na porta três vezes como na outra vez, e quando você abriu com sua costumeira cara de desgosto, arrisquei a sorri. Lily estava lá atrás, e ela tinha uma sobrancelha erguida, como se não acreditasse que eu estivesse ali novamente.
— Posso ter sua filha pelo resto de minha vida? – pergunto como na noite anterior. – posso tê-la ao meu lado, como minha esposa?
Repito em minha mente novamente “Diga sim, diga sim”, não que tenha dado muito certo da última vez, e obviamente não dá certo dessa vez também, você se limita a semicerrar os olhos, aperta os lábios e responder, da forma mais agressiva possível:
— Eu nunca te darei a benção, até morrer, que pena, meu amigo, mas a resposta ainda é não!
Por que você tem que ser tão rude?
Não sabe que eu também sou humano?
Por que você tem que ser tão rude?
Eu me casarei com ele de qualquer jeito
Cassar com aquela menina
Casar com ela de qualquer jeito
Casar com aquela menina
É, não importa o que você diga
Casar com aquela menina
E nós seremos uma família
Por que você tem que ser tão rude, rude?
Você podia ser menos rude! Podia ter me deixado falar mais! Podia ter me deixado falar com Lily! Podia ter me deixado falar do quanto eu amo! E como ela me ama! E como seriamos felizes juntos!
Você demora um pouco mais para bater à porta, e eu tenho tempo de ver Lily se sentar na mesa do telefone, em sua mão está o celular rosa de sua irmã que ela balança para mim sutilmente. Mais tarde eu mando uma mensagem para Lily, dizendo que passarem lá mais tarde, que se ela quiser pode arrumar suas coisas, que podemos viver nossas vidas juntos. Porque você escolheu não me dá a benção?
Posso ter sua filha pelo resto de minha vida?
Diga sim, diga sim pois eu preciso saber
Você diz, “Eu nunca te darei a benção, até morrer
Que pena, meu amigo, mas ‘não’ ainda é ‘não’!”
Meu coração ainda dói, e sinto que você é tão teimoso quanto eu. Sinto medo de que você nunca vá deixa, então decido que, se na próxima não rolar, terei que tomar decisões drásticas.
É a terceira e última tentativa, agora a decisão estar nas mãos da ruiva. Não estou mais nervoso como antes. E dessa vez até coloquei a camisa do Pink Floyd no lugar da camisa social.
Bato três vezes na porta, acho que já um ritual, quando você abre a porta, vejo que você acha um absurdo eu estar ali quase meia noite, mas Lily não te dar tempo de me enxotar. Ela carrega uma pequena bolsa de viagem na mão, e passa pela porta como uma furação.
— É sua última chance, pai. – ela afirma de forma severa.
Você olha para minha camisa, e revira os olhos como se pensasse algo sobre eu ser uma péssima escolha de Lily ou quem sabe uma péssima companhia. Você ergue uma sobrancelha e, de forma firme, responde:
— Eu nunca te darei a benção, até morrer, que pena, meu amigo, mas ‘não’ ainda é ‘não’!
Por que você tem que ser tão rude?
Não sabe que eu também sou humano?
Por que você tem que ser tão rude?
Eu me casarei com ele de qualquer jeito
Casar com aquela menina
Casar com ela de qualquer jeito
Casar com aquela menina
É, não importa o que você diga
Casar com aquela menina
E nós seremos uma família
Por que você tem que ser tão rude?
Você não precisava ser tão rude, nem ser tão agressivo. Podia ter aceitado que Lily me escolheu, e só será feliz só se for ao meu lado. Podia ter apertado minha mão, e ter me mandado cuida bem dela. Podia ter levado ela ao altar, e ter feito discurso na festa.
O anel já está em meu bolso, me ajoelho na calçada, com você e sua esposa observando na porta. Não preciso falar nada, todos os mandas de “Diga sim, diga sim” finalmente fazem efeito e Lily grita a palavra em plenos pulmões. Poderemos casar assim que raiar o sol. E você não terá como fazer nada, a não ser aceitar. Eu vou ser um bom marido, não se preocupe, vou fazê-la feliz. Teremos filhos lindos, e quem sabe você vá nos visitar no dia de domingo.
Por que você tem que ser tão rude?
Por que você tem que ser tão rude?
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