Rubro.

1 Era uma vez.


Notas iniciais
Oi, espero que goste da leitura e dos personagens que adaptei.Nunca participei de um concurso de fics antes, mas espero ao menos ficar entre os três primeiros...Boa leitura!


_Estique as mãos, Lílian.


Com os dedos trêmulos, a garota obedeceu a mãe.


_Diga por que vou ter de te bater.


A mulher segurava um pedaço fino e comprido de madeira enquanto encarava a criança, sua voz saía fria e dura.


_Sujei o chão com terra.


O primeiro golpe tratou de avermelhar a pele clara, os seguintes aumentaram a mancha até que um grande vergão se formou. Lílian sabia que não podia chorar, choro apenas piora toda e qualquer situação.


_Obrigada, senhora.


Murmurou com a voz sôfrega quando a mãe deu-lhe as costas. Todos na vila conheciam as proezas maternas de Annet, desde as punições físicas, passando pelas privações de alimento até as tarefas insensatas para uma criança de dez anos. Mas o fato de todos saberem não significava que alguém havia feito algo para impedir-lhe.
Como ela mesma dizia, a criança lhe pertencia.


_Agora limpe este chão. Quando terminar a estarei esperando em meu quarto.

Lílian andava lentamente, com as mãos ardendo por conta do produto utilizado para limpar, que entrara em contato com as feridas.Respirou fundo antes de impulsionar os nós dos dedos na porta delicadamente.


_Posso entrar?

_Rápido.

A porta se fechou sem som algum sob os dedos castigados da menina. Liandra andou até a beirada da cama onde a mãe se encontrava e baixou a cabeça, aguardando.


_Tem mais uma coisa pra fazer. Quero que pegue sua cesta e leve-a até a casa de sua avó.

_Posso comer um pouco antes, mamãe?

Annet sentou-se e olhou para a filha com a testa franzida.

_Eu te mandei comer antes?

Lílian pediu desculpas rapidamente enquanto saia do quarto e descia as escadas.
A cesta estava sobre a mesa da cozinha, perto dos pães recém saídos do forno, os quais a criança encarou por alguns segundos.
"Não, ela vai perceber se faltar" concluiu antes de tomar a cesta em mãos e se dirigir a porta.

"Tinha mesmo de nevar justo agora?"

Ela suspirou, puxando o capuz rubro de sua capa sobre os cabelos louros. Seria uma longa viagem.

Os pés da garota mal tocavam o chão enquanto ela se apressava para chegar até a casa da avó e livrar-se do frio. A neve começava a cair com uma intensidade maior, molhando a capa que lhe cobria, deixando-a ainda mais angustiada.
Seus dedos estavam duros e os dentes batiam violentamente, as feridas na mão protestando em um latejar doloroso. Sentia falta da mãe. Mesmo temendo as punições severas e as palavras ferrenhas, ela a amava. E acima de tudo, odiava ficar só.
Foi este último pensamento que fez com que Liandra abrisse um sorriso ao ver, sentado sob um abrigo de madeira, o lenhador da vila. Mais que feliz, ela percebeu que Laurent acendia uma fogueira.

_Oi.

O homem franziu a testa por alguns segundos, até identificar quem estava ali.

_Olá, Lily. Senta comigo.

Ela o fez, esticando os braços em direção ao calor. Deixou escapar um suspiro em um misto de prazer e alívio, mas logo teve as mãos tomadas pelas do homem.

_De onde vieram os machucados? – Perguntou, com voz baixa e calma. Liandra levantou levemente o rosto, vendo o reflexo de seus olhos castanhos nos verdes dele.

_Mamãe me castigou.

Laurent não pareceu feliz com a resposta, vasculhando em sua bolsa. Quando endireitou-se tinha consigo um vidro cujo conteúdo espalhou pelas mãos da menina. Ter as feridas curadas por Laurent lhe era tão comum quanto tê-las feitas pela mãe. Gostava de passar o máximo de tempo possível com ele, já que não gostava das outras crianças da vila. Ele era o único adulto que a divertia, com brincadeiras bobas e simples e histórias complexas de palavras grandes.

_Pronto. Agora diga-me o que faz no meio da floresta.

Lílian contou-lhe sobre o dia, desde o começo quando fora brincar com as rosas do jardim e trouxera terra nos sapatos até o momento em que deixara sua casa. Recebeu como resposta um afago leve nos cabelos louros que lhe caíam soltos pelos ombros.

_Tudo bem, pequena. Pode deixar que levarei a cesta para você, não é certo isso que sua mãe faz.

Um leve rubor esquentou a face da menina, que assentiu.

_Obrigada.

Alguns minutos de silêncio se seguiram, enquanto Liandra tinha o rosto apoiado em um dos ombros do homem, que acariciava-lhe a bochecha. Silêncio este que durou até o som do bater de dentes encher o ambiente.

_Não acha melhor tirar esta capa? Molhada assim só vai servir pra impedir que se esquente.

Levantou-se rapidamente e puxou um dos fios que compunha o nó em seu pescoço, deixando o pano vermelho cair no chão aos seus pés. Ia voltar a sentar quando ouviu novamente a voz do amigo.

_Sua avó sabe que está indo até ela?

Lílian não percebeu o olhar que lhe era dirigido. Tinha as pernas descobertas pelo vestido negro, assim como os braços pescoço.

_Acho que não. – Respondeu.

_Então só sua mãe sabe que está aqui, mas não é como se ela se importasse com isso.

Na confusão que se seguiu, quando Laurent levantou bruscamente e a empurrou para o chão, a única coisa que a criança pode distinguir entre as palavras que Laurent dizia fora “Oportunidade”. Ela reclamou de dor, quando os cotovelos atingiram o piso coberto por gelo duro. Nunca havia sido tocada de forma agressiva pelo homem, e agora não podia entender o que acontecia.

Fizera algo errado?

_Eu até te diria para não fazer barulho, Lily. Mas estamos tão longe, que ficarei feliz em ouvir cada com que você puder me dar.

O primeiro dos sons foi o arfar assustado, seguido do grito ao ter as roupas rasgadas.

Finalmente

O corpo era forçado para baixo com o peso dele, causando-lhe uma dor indescritível pelo frio.


Não sabe o quanto esperei


Os gritos em busca de perdão, as súplicas desesperadas eram jogadas ao vento gélido.


Ah, isso é tão bom.


A dor se espalhava agora dentro e fora dela, fazendo as lágrimas quentes escorrerem pelo rosto.

Você... Inteira.

O chão agora estava manchado com o vermelho de sua inocência, a mesma cor forte de sua capa.

Isso, grite mais e mais alto.

Dor. Frio. Medo.

Você não imagina o quão bem isso me faz.


_Por favor... Pare. – A voz era rouca e fraca, o corpo já não tinha forças.

Não se preocupe... Já estou terminando.


Ela chorou ainda mais ao vê-lo levantar.

_Não vamos mais brincar juntos, princesinha. Mas vou levar isto – Ele pegou a capa rubra no chão – Comigo, para poder lembrar de você e de nosso... Segredinho.

E se foi.

O sol brilhava forte demais para o meio do outono. Lílian encarava o céu pela janela.

_Feliz aniversário, Lily...

O sussurro frio saíra de sua própria boca, enquanto se virava e encarava a si mesma no espelho.

Seis anos.

Não mudara muito. Tinha o corpo tão esguio quanto na infância, apenas alguns centímetros mais alto, embora agora este possuísse curvas delicadas. O cabelo claro descia em linha reta até o queixo fino e os lábios se tornaram mais cheios. Checou uma última vez as vestes negras antes de sair do quarto.

Hoje.

Ouviu a voz da mãe na cozinha enquanto descia as escadas.

_Vai sair?

_Não te interessa.

A mulher largou a faca que usava sobre a mesa e andou até a filha, segurando-lhe o braço.

_Me responda direito!

Os olhares se cruzaram. Annet tinha a expressão de raiva que Lílian tanto temera na infância, mas agora esta lhe provocava um desprezo tão grande que era digno de riso.

_Vá se foder, mulher. – Puxou o braço bruscamente e dirigiu-se a porta.

_Que morra em sua viagem!

_A senhora não sabe como isso é provável.

Tocou a mão sobre a adaga presa em sua cintura pela bainha.

Seria uma longa viagem.

Cada ano lhe fora precioso até a chegada daquele momento. Finalmente descobrira onde ele estava e teria a chance de encontrá-lo. Sentiu um sorriso involuntário espalhar-se pelo rosto.

Mal podia esperar.

O homem acabara de comer, jogou rapidamente os ossos para fora da janela e passou a mão pelos cabelos negros. Tivera um dia puxado, ali naquela nova vila não lhe pagavam bem por poucas porções de lenha e nem mesmo seu trabalho desmatando áreas para construções lhe era suficiente para viver em luxo. Mas poderia dormir e descansar agora, tentando esquecer que pela manhã voltaria a sua rotina desgastante.

Andou até o quarto e jogou-se grosseiramente na cama, que rangeu sob seu peso. Sentia os olhos começar a pesar quando ouviu as batidas fortes em sua porta.

Merda.

Arrastou-se resmungando até a sala e quase urrou em ódio ao perceber que não havia ninguém ali. E a porta ainda por cima estava destrancada. Se o tivessem roubado algo...

_Porra de crianças. Ainda pego uma ou outra e ensino a como me resp—

Mas calou-se ao virar para trás. Uma garota ainda estava ali, parcialmente oculta pela falta de luz em sua sala.

_Boa noite, Laurent.


_Quem te deu a permissão de entrar na merda da minha casa?

Ela riu.

_A porta estava aberta, considerei isso como um convite. Só bati por educação.

Laurent grunhiu, diminuindo a distancia entre eles.

_Que quer, pirralha?

Estavam a menos de dois passos de distância, Lílian sentia todo o corpo arder em fúria. A adrenalina pulsava nas veias de uma forma tão intensa que mal podia se manter parada, quando tornou a falar a voz saiu agressiva e alta.

_Não se lembra de mim?

Ele negou, enfiando a mão no bolso e acendendo um fósforo para enxergar plenamente o rosto retorcido em ódio na sua frente. Quando o fez, sentiu o coração falhar por um segundo.

_Lílian?

O grito que se seguiu foi alto, quando por pouco o homem desviou o rosto do ataque da garota, tendo a adaga fincada em seu ombro.

Tudo se seguiu muito rápido depois disso.

Lílian tentou puxar a adaga, mas teve o braço empurrado para o lado bruscamente e a próxima coisa que sentiu foi um impacto tão forte no rosto que seu corpo foi jogado para o lado, caindo dolorosamente no chão. Laurent gritou enquanto puxava a adaga e jogava-a para trás. O som metálico foi abafado pelo gemido de dor da garota que levantava-se.

_Vadiazinha nojenta.

Ela olhou em volta em busca de algo para utilizar como arma, mas a cabeça latejava tão fortemente que mesmo desviar do segundo golpe lhe foi difícil.

Podia não ser forte como ele, mas era muito mais rápida. Correu até o outro extremo da sala e procurou a adaga com olhares frenéticos no chão.

_Que bosta é essa que está fazendo? Nosso último encontro não lhe bastou?

Ele vinha caminhando até Lílian lentamente, sabendo que ela não tinha para onde correr, mas ao se aproximar o suficiente para um toque sentiu o estômago protestar contra o chute que levara.

_Este vai ser nosso último encontro. – A voz de Lílian ecoou pela sala quando ela arriscou um novo chute. Desta vez Laurent estava preparado e segurou-lhe a perna jogando-a no chão uma segunda vez.

_Veio atrás de vingança? – Debochou – Sozinha? Continua com a cabeça de uma criança de dez anos.

A garota tentou se levantar novamente, mas antes disso foi erguida pelo pescoço.

_Vou matar você.

A voz foi abafada quando ele começou a apertar-lhe o pescoço, grudando-a na parede. Inicialmente a dor lhe atingiu, fazendo com que ela batesse com toda a força que tinha nas mãos dele, mas quando o ar lhe faltou o corpo reagiu sozinho, esperneando-se freneticamente enquanto tentava atingir qualquer parte dele.

Até que chutou-o com força entre as pernas. A próxima coisa que sentiu foi o impacto do chão sobre seus pés. Manteve-se firme a acertou outro chute no mesmo local enquanto ele ainda se contorcia em dor.

_Vou matar você. – Repetiu, quase em silêncio e enquanto corria para longe dele sentiu o pé golpear algo e sentiu-se aliviada pegando a adaga novamente.

Fora da casa, a chuva começou a cair.

Lílian tinha a respiração ofegante e as costas coladas em uma parede. Sua cabeça girava pelo golpe e a privação de oxigênio. Devia tê-lo atacado enquanto dormia.

Maldito orgulho.

Com os olhos ardendo e marejados ela respirou fundo. Não iria chorar. Viera até ali com um único objetivo e perderia a vida tentando cumpri-lo se assim fosse necessário.

_Onde você está?

O grito cortou o ar, com a voz grave do homem. Ela sabia que não tinha chances contra ele em uma luta, portanto deveria aproveitar toda e qualquer oportunidade de surpreendê-lo. E foi o que fez quando saltou por trás dele e correu com toda a força para fora da casa, sendo prontamente seguida.

Entre as árvores na noite escura era quase impossível identificar a silhueta da garota, que se esforçava ao máximo para não emitir um som sequer.

_Não adianta se esconder agora, Lily. Não foi você que veio até mim? Me enfrente!

A voz dele mais se parecia com o rugido de uma fera enquanto seus passos pesados quebravam galhos e o que mais estivesse no chão, denunciando sua localização.

Ele não estava muito longe. A menina ouviu vários sons abafados seguidos e gritou assustada quando uma árvore caiu a poucos metros dela.

_Eu vou derrubar cada uma até esmagar você. EU vou matar você.

Ela correu. De arvore em arvore, corria com agilidade e leveza enquanto gritava novamente para ele.

_Você já me matou, seu pedófilo filho da puta!

Ela passou por trás dele, fazendo-o virar para encarar o nada. O próximo grito veio de mais longe.

_Você me destruiu. Eu não sou nada! NADA!

A chuva aumentou severamente, quando ele a procurava.

_Tudo em mim foi quebrado, sujo, maculado e a culpa é SUA!

O golpe que ela tentou lhe infligir falhou completamente, quanto teve a mão golpeada por ele. Laurent a segurou com força enquanto lhe acertava um soco no estômago.

_Este é sim nosso ultimo encontro, Lily. – Ele murmurou bastante próximo a ela, prensando-a em uma árvore enquanto jogava seu machado ao seu lado, no chão. – Então vamos fazer com que ele valha a pena.

Ela sentiu um arrepio passar-lhe por todo o corpo.

_Não.

Lílian tentou lutar, mas a força dele era muito superior a dela. Tinha os pulsos puxados para trás e presos na mão esquerda do homem, enquanto a direita vagava-lhe pelo corpo.

_Não.

Ele riu de leve da voz dela e a golpeou no rosto antes de jogá-la no chão e rasgar-lhe as roupas.

_Aqui estamos novamente.

_Não.

Em poucos minutos, ele estava distraído o suficiente para não notar quando Lílian puxava a adaga das vestes rasgadas ao seu lado.

_Gritou mais... Da última vez...

A voz dele era ofegante e deleitosa, exatamente o contrário do arfar surpreso que deu ao sentir a adaga comprida lhe perfurar o estômago. Uma, duas, três vezes.

Retirou-se dela para tentar escapar, mas caiu de costas ao ter a face atingida com uma rocha.

_Você vai gritar mais nessa.

Ela pegou no chão o machado esquecido e, enquanto ele se afastava rastejando ela começou a falar.

Finalmente.

Ele se afastava sofregamente enquanto ela andava, com o corpo nu sendo limpo pela chuva.

Não sabe o quanto esperei...

Um golpe forte da lâmina arrancou-lhe o pé esquerdo e ele parou onde estava, jogando ao ar o grito mais profundo de sua vida.

Ah, isso é tão bom...

Ela ria entre as palavras, golpeando ambas as mãos dele e virando-o de bruços.

Você... Inteiro.

A adaga adentrou-lhe a carne perto das costelas.

Isso, grite mais e mais alto.

Dor. Frio. Medo.

Você não sabe o quão bem isso me faz.

_Por favor...

Não se preocupe. Eu já estou terminando.

E com um último golpe sobre o peito...

Ele se foi.

Ela andou lentamente até a casa dele. Adentrou todos os cômodos até encontrar o quarto. Sim, estaria ali.

Procurou rapidamente em um armário até que um baú ao canto lhe chamou a atenção. Abriu-o e confirmou.

Ali, entre vários outros objetos como bonecas, sapatilhas, vestidos.

Estava ali.

Andou até a porta, sorrindo para si mesma antes de jogar a capa em volta do corpo despido.

_Finalmente...

Puxou o capuz rubro sobre os cabelos e não olhou para trás nem uma vez sequer durante o resto do caminho.

Notas finais
É isso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!