Rubis e Esmeraldas
7 Dia 7: Feliz aniversário!
Notas iniciais
Era aquele dia de novo. Os anos passavam como piscares de olhos para Gilbert e os ponteiros do relógio não corriam mais rápido no dia 18 de janeiro. E o prussiano também não via a menor necessidade em aniversários para nações, ainda mais ele que nem tinha nação para comemorar. Além do mais, o 18 de janeiro era apenas o dia em que nasceu o Reino da Prússia; ele tinha alguns outros aniversários para comemorar por causa de suas outras encarnações (Ordem Teutônica, Brandemburgo-Prússia, RDA, entre muitos outros). Ainda assim, foi por pedido de amigos e familiares que ele manteve essa data como o seu aniversário.
Era sete horas já, e Ludwig chegaria em exatos quinze minutos com aquele sorriso gentil que ainda derretia o albino por dentro. O mais velho daria um abraço (bem) apertado no irmão, convidando-o a entrar. Os dois alemães terminariam a faxina na casa em um tempo curtíssimo, recompensando-se com duas garrafas da melhor cerveja.
Os próximos a chegarem seriam Francis e António, com uma grande torta de creme e uma garrafa de champanhe. Ainda bem que Gilbert ainda estava de pijama, mas nada que um banho e a devida troca de roupa não resolveriam. Os instrumentos e as caixas de som estavam todos na caçamba da caminhonete do espanhol. Depois dos cumprimentos secretos que chegavam a durar um minuto, mais trabalho braçal pré-festa.
Seguindo a ordem, chegaram os irmãos italianos. Feliciano já corria para dentro da casa procurando pelo aniversariante, atirando-se nele para tascar-lhe o famoso “mata-leão do amor”. Lovino bufou e sentou-se no sofá, cuspindo um “parabéns” antes de ligar a televisão.
Depois vinha a van de Sadiq trazendo Dragomir e Marko de carona. Acabada a tiração de sarro uns dos outros por causa de suas idades milenares, os velhos colegas do leste europeu ajudavam a mover os móveis e organizar a churrasqueira.
Roderich chegava logo depois, às dez (mesmo tendo se comprometido a estar ali com Ludwig). Por incrível que pareça, os dois estavam em ótimos termos, com direito a sorrisos sinceros, apertos de mão e alguns afagos na cabeça por parte de Gilbert. Mas no fim das contas, o austríaco ficava sentado na poltrona preferida de seu primo, lendo um de seus milhares de livros e desorganizando sua biblioteca perfeitamente ordenada alfabeticamente.
E nem sinal de Erzsébet.
Em seu apartamento na Hungria, a morena se remoía de raiva por causa da papelada repentina de seu chefe. “Preciso desses documentos e dados decorados para uma reunião de emergência amanhã,” ordenou o político no telefone.
“Gil, não vou poder chegar aí a tempo. A porra do meu chefe me mandou uma porrada de coisa pra eu resolver de última hora, mas feliz aniversário, csíllagom[1],” dizia a mensagem de texto da húngara para ele. Apesar do revés, Gilbert ainda sorriu momentaneamente pelo uso da palavra na língua que ele aprendeu a amar.
“Ela vem?” Ludwig perguntou ao perceber seu irmão com o celular em mãos e o sorriso nos lábios.
“Pior que acho que não. Chefe filho da puta contra-ataca.”
“Bom, convenhamos que ele tem alguns motivos para ter feito isso de propósito.”
“Só porque teve aquela vez em que ela se esqueceu de esconder as manchas no pescoço.”
“… Gilbert.”
“Ludwig, não se faça de bobo, porque você sabe como é.”
“Vocês parecem crianças…”
“Caralho, cê sabe que no meio do rala não tem esse negócio de se segurar, ainda mais quando estamos falando da Erzsi e mais ainda quando ela manda você continuar chup– “
“Me poupe dos detalhes, por favor.”
O resto dos convidados foram chegando gradativamente, mas a ausência dela fazia com que a festa permanecesse incompleta. Realmente estava faltando alguma coisa ali. Nem mesmo os drinking games, as milhares de partidas de pôquer, a música alta e as piadas ocupavam sua mente.
Já era quase dia 19 e nem sinal dela… Meia hora para o fim do dia.
Gilbert olhou no relógio de pulso quando uma mão, alguém o puxou para fora da multidão.
“Ei, ei, ei!” ele protestou na hora, um pouco sonolento por causa da bebida. “O que é que você quer–”
“Oi, babaca,” a voz feminina ecoou em sua mente em meio ao escuro da casa. As luzes magenta e azul da pequena pista de dança montada no meio da sala vinham iluminar seu rosto, revelando a última convidada a aparecer para o aniversário. “É aqui a festa?”
Sem conceder ao albino o devido tempo para responder à sua pergunta um tanto retórica, ela o agarrou pela camisa, prendendo seus lábios aos dele. Gilbert até tentou responder alguma coisa, mas sua voz saía de sua garganta para viajar à boca que o beijava e o entorpecia. Os dois rapidamente se separaram após o súbito movimento.
“Como foi que você…”
“Longa história. Tem a ver com sair escondida, desacato à autoridade e não dar a mínima para as minhas obrigações,” ela riu, levando-o para o primeiro andar. “E eu sei que sua chave reserva fica escondida perto da casinha do cachorro.”
“Garota danada.”
Os dois pares de lábios voltaram a se encontrar, a se perderem no movimento que eles mesmos criavam. Ele a empurrava contra a parede até finalmente pararem e lentamente interromperam o ósculo.
Cada vez que ela olhava nos olhos dele, ela se fascinava como da primeira vez em sua infância.
Cada vez que ele a tocava, sentia o calor invadir-lhe o corpo, tingir seu rosto de vermelho e fazer seu coração pulsar mais rápido.
Cada vez que ela o beijava, ele sentia-se seguro de que aquele sentimento era real, era humano.
Cada vez que ele se desculpava, ela ria, ignorava os erros até eles passarem despercebidos.
Cada vez que ela sentia seus passos, suas respirações em sincronia, ela percebia que as duas almas pertenciam uma à outra.
Cada vez que ele fechava os olhos e imaginava apenas ela ali, acima do som alto e das luzes que os procuravam nas sombras, ele deixava todas as incertezas e os medos de lado para perseguir o coração pelo qual o dele batera, batia e bateria sem remorso.
E, finalmente, mesmo que nenhum dos dois amantes soubessem até quando teriam um ao outro para se amarem, sabiam que a melhor escolha que poderiam fazer ali era se amarem no hoje, naquele dia.
Não havia presente maior para Gilbert do que o próprio Presente.
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