Rubi e Rosa, uma história em três atos
1 Primeiro Ato
Notas iniciais
O estresse me consumia. Respira fundo, eu gritava para e em meu consciente.
— Por que você namora uma menina, Rubi? – a pergunta veio como uma calmaria ao meio da tempestade. A voz doce e inocente do meu priminho sempre foi um calmante natural.
Eu abaixei minha cabeça e olhei nos olhos, a luz da geladeira iluminava os primeiros sinais da puberdade no rosto, alguns cachos finos e indefinidos caiam teimosamente nos olhos, enquanto outros repousavam em seus ombros. Quando suas mãos agarraram a garrafa de água azul na porta da geladeira, eu comecei a ter dúvidas se estava preparada para isso.
— Posso te contar um segredo? Algo que não contei a ninguém? – os olhos joviais explodiam de ansiedade, ainda me surpreendo no quanto somos conectados.
— Pode, por favor...
— Eu namoro com uma menina porque quando meus olhos bateram nela algo dentro de mim queimou, tudo em mim veio a tona, tudo o que sou, tudo de bom e tudo de ruim – respirei fundo e sentei em uma das cadeiras antigas de madeira, tentei olhar a sala, mas a cortina da porta de correr estava estranhamente fechada. Vinicius deve ter fechado após ter me seguido aqui. Fechei meus olhos e continuei – Eu tenho uma teoria que quando a gente gosta de alguém que não gosta da gente, independente da intensidade, a superação é mais fácil, acontece tão rápido que a gente mal vê e tá gostando de outra pessoa.
“Mas quando a gente gosta de alguém que gosta da gente, tudo complica. Ela também gostava de mim. E não importava o quanto eu me negava esse sentimento, o quanto eu sofria calada, eu não superava. E, sinceramente, eu nem queria. Toda vez que nos falávamos ou nos víamos aquela mesma sensação que tive no primeiro dia acontecia. Era como um vulcão prestes a entrar em erupção, sabe? – o observei tomar mais um gole de água, sacudir a cabeça negativamente, parar por um segundo e assentir com tamanho entusiasmo – Ela teve em primeira mão o meu pior lado, eu me senti tão cruel, ela se afastou, foi embora de vez. Eu não aguentei. Simplesmente, eu não tinha mais nada em mim que não fosse ruim. – Eu conseguia sentir as merdas das lágrimas querendo ser formadas – Quando ela voltou, não para mim, obviamente, eu fiz questão de pedir desculpas e guardar esse lado”
— Eu não sabia que você tinha um lado ruim...
— Todo mundo tem um lado escuro, Vini – ele abaixou a cabeça e sacudiu a mão esquerda, criando o símbolo da nike – Enfim, eu achava que explodindo iria afastá-la de mim, ia me fazer esquecê-la. Eu estava quase certa. Eu conheci o lado sombrio dela também e toda célula do meu ser, as boas e as ruins, queria protegê-la de si mesma, do mundo e até de mim. Tudo que irradiava quando a via, aumentou numa escala infinita. Eu... – respirei fundo, amarrei os meus cachos bagunçados em um coque – Eu, finalmente, decidi que o melhor para mim era aceitar o que meu coração diz que ele quer.
Vini continuou olhando para mim, os olhinhos fixos nos meus. O medo de ter falado de mais e explicado de menos era grande. Eu odeio quando fico assim, toda emotiva. Merda, ele não entendeu nada. O nervosismo aumentava, comecei a segurar a pedra no meu colar.
— Desculpa, eu consegui responder a sua pergunta? Ou causei mais confusão? – eu queria sair dali, eu sabia que era uma má ideia tudo isso. Merda, ela sabia! Mental note: Rosa sempre está certa.
— Na verdade, não – um sorriso brotou em seus lábios e de repente, ele tinha 5 anos de novo e parecia ter aprontado algo – mas eu entendi, gostei de sua resposta. Posso te perguntar outra coisa?
Respiro aliviada.
— Claro, meu príncipe – e segurei sua mão
— Por que você não contou antes? Sabe? Eu teria te ajudado, eu não sou mais uma criança – Eu fico em choque como toda criança acha que dizer que não é mais criança mudará alguma coisa na idade delas e mesmo assim fico feliz em como elas acham que são imbatíveis, que o mundo é só um globo feito para ser explorado e conquistado.
— Porque eu não estava pronta para ser feliz antes – e para pagar minhas contas se fosse expulsa de casa, e para manter um bom estilo de vida, e para perder o amor da família... Eu não precisava adicionar os detalhes racionais, só dizer o mais verdadeiro e sentimental que bastava, dizia tudo, gritava tudo – Eu não estava pronta para ser dela.
— Entendi.
O silêncio reinou por uns bons cinco minutos quando ele decide falar novamente.
— Eu gosto dela, sempre gostei. O povo vai superar isso, cê vai ver.
Rolei os meus olhos. Não gosto de ter esperanças, sei quem eles são. 25 anos de convivência. Eu estava por perto na época das (muitas) vacas magras, eu cresci com as vacas sumindo e engordando, e agora estou aqui. Sem ter certeza se terão a coragem de expulsar ou de me aceitar.
Respirei fundo, levantei-me da mesa e segui em direção a porta de correr. Ao abri-la, percebi que todos estão espalhados pelas salas. A cozinha estava teoricamente mais abafada, com todas portas e janelas fechadas, mas a sala (apesar de ventilada pela varanda gourmet) me fazia sentir mais quente. Talvez o estresse, o medo, a decepção e a vontade de gritar estivessem elevando a minha temperatura corporal.
— Eu não sei o que dizer – o primeiro a falar foi minha avó, o sotaque do interior (o que raramente ouvimos) expresso em cada palavra, se eu fosse sulista diria que dava para ouvir a melodia da fala.
— Não precisa dizer nada, é o que é. – toda a minha paciência estava concentrada em não parecer grossa, pelo olhar de minha mãe, falhei miseravelmente
— Mas você teve namorado! E teve aquele cara velho – revirei meus olhos a menção mínima de meu passado,
— Olha, uma coisa não anula a outra. Já lhe disse antes, vô – tentei respirar fundo e não consegui, revirei os olhos mais uma vez – Vou ser mais específica com vocês – mexendo meus braços, gesticulando loucamente – Eu não me importo se a pessoa tem uma pica ou uma buceta, se ela tem uma bunda gostosa, já me é o suficiente. Agora, com licença, que tenho que alimentar meus bebês – tentei não observar os meus familiares paternos enquanto eu pego a minha bolsa e coloco no ombro. – Rosa, rápido – dirigi meu olhar a ela, que vem correndo para o meu lado.
Ela abraça meu braço direito e maneja segurar a minha mão. Um sorriso escroto aparece em seus lábios, consigo sentir com sua cabeça colada em meu ombro. Saímos do apartamento e, felizmente, o elevador já estava parado no andar.
Ao entrarmos, ela solta meu braço e fica em minha frente. Suas mãos me entrelaçam e fazem uma parada nas minhas costas, quase tocando meus ombros. As minhas mãos apertam a sua cintura.
— Cê sabe que eu não tenho bunda, né? – ela sorri e me dá um beijo no maxilar. Uma risada cresce em meu interior, seguro em minha garganta e um som estranho a faz sorrir mais.
— Eu sei, mas eu gosto dela de qualquer forma, ela tem sido uma boa companheira – aperto levemente sua bunda e a puxo para mais perto, nossos seios se espremem – Além disso, é gostosa pá’ caralho.
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