Rubi
2 O Início
Minha relação com o príncipe não estava sendo das melhores. Eu não gostava dele e fazia questão de demonstrar isso sempre que podia. E ele ria de mim, vivia dizendo que admirava a minha coragem por ser tão petulante com o príncipe. Eu sabia que ele escolheria apenas um, e que se queria ser o escolhido precisava ser mais amável, amigável. Porém esquecia completamente de tudo quando ele fazia questão de me lembrar sobre a minha entrevista com ele.
Ele tinha me feito perguntas realmente tão indiscretas. E eu tive que ser sincero, eu acho que esse foi o meu maior erro em todos os meus dezessete anos.
— Você é virgem? — Ele me perguntou. Estava sentado atrás da mesa de madeiras e me encarava sério.
Eu tremi. Estava pelado e olhando para um desconhecido que queria saber se valia a pena pagar por mim.
Balancei a cabeça em afirmativa.
— Fale! — Ele disse com sua voz grossa. Eu estremeci e isso não o abalou.
— Eu sou... — Consegui responder, minha voz baixinha e rouca.
— Os virgens são sempre os melhores. O cuzinho apertado consegue levar qualquer homem a loucura! — Ele disse sério. Aquele homem parecia um robô.
Eu senti náuseas, senti meu corpo amolecer. No que eu tinha me metido?
— Você acredita que seria capaz de me dar prazer e administrar minha vida? Não estou procurando apenas um garoto para esfolar. Eu procuro um garoto de companhia, um soldado. — Ele falou ainda mais sério.
— Eu... Eu não sei! — Falei baixo. Estava realmente sendo sincero. — Quando você diz soldado quer dizer que terei que usar armas? Defender a sua segurança? Eu nunca segurei em uma arma.
Ele sorriu pela primeira vez.
— Não se preocupe quanto a isso. Vocês todos passarão por treinamentos. Apenas o melhor de vocês ficará comigo. Porém você não respondeu a minha primeira pergunta. Você acredita ser capaz de me deliciar com noites prazerosas depois de um dia estressante? — Ele perguntou me encarando.
— Não. Eu não quero transar com você. — Eu falei e mordi meu lábio logo após isso. Eu tinha cometido um erro. Dei sorte por ele não ter me dado um tapa na cara e mandando me enxotar daqui.
Ele apenas sorriu.
— Nossa entrevista esta encerrada. Fique de pé que quero avaliar o seu corpo.
Depois desse episódio o príncipe me olha como se eu fosse a melhor mercadoria, como se fosse um cavalo bravo precisando ser amansado antes de ser montado. Eu virei seu jogo principal. A sua diversão central no meio de tantas outras. Ele mesmo disse isso. “Eu vou fazer você implorar...” Ele disse logo depois de chegarmos ao castelo. Eu só não sabia sobre o que imploraria para ele me foder? Ou para ele parar de me foder?
No segundo dia no castelo ele me apareceu no meu quarto. Ele veio pessoalmente me falar sobre os horários do castelo, disse que seus criados era quem deveriam fazer isso. Porém ele estava com tempo livre e que ele mesmo lidar com a ovelha rebelde do rebanho.
Notei que a cada encontro ele fazia questão de me comparar a algum animal. Era isso que eu era pra ele? Era isso que todos os pobre de Jollon significam para a família real e para as famílias de posses?
Na segunda semana no castelo acordei com o príncipe soprando em meu ouvido. O seu sorriso perverso estampado na face quando notou que me assustou.
— O escolhi do príncipe deve ser destemido! — Ele disse me avaliando ainda deitado na cama.
— Eu não dou a mínima para isso! — Eu falei sério e me sentei na cama.
— Insubordinação aqui no castelo gera punição. Que tal aproveitarmos sua cama para uma boa punição? — Ele falou tocando minha perna.
Eu me afastei assustado.
Ele riu.
Eu encarei sério.
Ele saiu do quarto.
Não iria demorar muito para ele voltar. Ele sempre voltava para implicar comigo.
Eu acordei cedo aquele dia, havia esquecido as cortinas da grande porta que dava para a varanda aberta e o sol da manhã veio me incomodar. Era verão em Jollon. Aqui essa época do ano costuma ser muito quente, temperatura para mais de cinquenta célsius e um sol capaz de cozinhar alimentos. Eu pulei da cama e fechei as cortinas, porém não me sentia mais com sono. Dei uma olhada no meu quarto, quinze dias naquele lugar, mas não conseguia me adaptar aquele lugar. Era tudo muito lindo, porém não me pertencia.
A cama tubular de ferro era gigante e brilhava em tons prateados. O colchão macio me dava à impressão de dormir em nuvens de algodão, aqueles travesseiros de penas de ganso eram tão perfeitos, mas nada me fazia sentir melhor. Eu sentia saudade de casa. Eu sentia falta até mesmo de dormir naquela cama dura e fedida no quarto com goteiras em baixo da casa de ferros do meu pai.
Não podia ficar me prendendo a essas coisas. Eu tinha que ser forte, precisava focar no que acontecia aqui. Precisava me adaptar e principalmente, precisava aprender a respeitar o príncipe. Estava me olhando no grande espelho da penteadeira de madeira quando ouvi batidas na porta.
— Entre! — Eu falei alto para que a pessoa ouvisse por trás daquela porta grossa e pesada.
Ouvi o ranger da porta pesada e a mesma batendo sem muita força. Essa tinha sido a primeira observação. Nunca bater as portas.
Ouvi risadas e passos a correr pelo piso de mármore do meu quarto. Então um baque fofo na cama.
Eu tinha certeza de quem era. Ninguém além de Chaelsha e Gormau vinham ao meu quarto. Os outros garotos não iam muito com a minha cara. Eles sabiam do meu potencial e não viam a hora de me derrubar. Porém por sorte encontrei esses dois amigos. Eles são os melhores em tudo.
Chaelsha é magro e tem a pele morena. Os olhos esverdeados e um cabelo que parece ter sido queimado com uma vela amarela. Ele veio do distrito litoral. Esteve sempre envolvido com água salgada e sol. Alguns garotos começaram a implicar com ele e chama-lo de cenoura. Se não fosse por Gormau, ele teria os cabelos tingidos de verde agora. Aqueles garotos não medem esforço para suas sabotagens.
Já Gormau é o oposto de Chaelsha, é incrível que nós três sejamos amigos, não nos parecemos em nada. Gormau é baixinho e têm os cabelos mais negros que eu já vi na vida, eu já até perguntei se ele pintava seus cabelos com petróleo. Ele vem do distrito dos minerais, esteve sempre entocado em minas, não apreciou muito a luz solar, sua pele é muito branca, alvo feito à neve. Ele tem um sorriso tão bonito que dá vontade de ficar o encarando sem parar.
Eles são os melhores. Eles são as melhores pessoas que conheci nesse castelo. Que conheci na vida.
— E então, você já sabe da novidade? — Perguntou Gormau sorrindo e me encarando no reflexo do espelho.
— Eu tenho certeza que quando você souber vai cair pra trás. — Falou Chaelsha rindo.
Eu franzi a testa e virei de frente para eles. Encostei-me a penteadeira e fiquei esperando que me contassem. Eles se entreolharam e riram baixinho.
— É o Nathman. Ele acordou todo mundo lá do nosso andar só para dizer que dormiu com o príncipe. — Gormau disse segurando o riso. Ele provavelmente achou que isso me surpreenderia, porém eu não estava nem um pouco surpreso. — Ele contou todos os detalhes, o príncipe é dotado. Dotadíssimo. Meio bruto na cama até.
Então Geor é dotado? Surpreendente. Eu sempre imaginei que os caras mais magros tivessem o dote maior. Porém nosso príncipe contradizia as regras.
— Você não vai dizer nada? — Gormau me perguntou com um sorriso diabólico nos lábios.
— O que eu deveria dizer? Eu sempre imaginei que em pouco tempo isso iria acontecer. E é claro que ele escolheu o mais bonito de todos para começar. Não me sinto mesmo surpreso. O Nathman esteve investido desde que chegamos ao castelo. Acredito que ele pensa haver vantagens em entregar seu corpo para o príncipe, será que está certo? — Eu disse sério e eles ficaram pensativos.
Eu não estava mesmo surpreso. O jeito que o príncipe investia sempre em mim deixavam claro suas intenções. Ele estava louco para foder todos esses garotos. Mais fofocas como essa vão surgir logo logo. Ele tinha até demorado em começar isso. É para isso que eles nos trazem certo? Usar-nos como objetos sexuais e depois nos descartar e ficar com o que transa melhor.
— Será que ele obrigou o Nathman a transar com ele? — Gormau perguntou se referindo ao príncipe.
Eu não podia ter certeza. Acho que não. Ele nunca me obrigou a nada. Pelo menos até agora.
— Não dessa vez, acho que não foi preciso obrigar a vadia do Nathman a transar com ele. O que você acha Iwo? — Chaelsha me perguntou. Ele me encarou de uma forma diferente. Era como se precisasse da minha confirmação.
Eu preferi não falar nada. Assim como eu, Chaelsha tinha muito medo de quando esse momento chegasse, de quando o príncipe nos obrigasse a fazer algo. Eu vivia me perguntando se o dinheiro pagaria isso. Ou ainda pior, será que nossa amizade mudaria?
— Eu acho melhor a gente deixar essa conversa pra lá. Não vamos ficar pensando muito nisso. E vocês não acreditem em tudo que o Nathman fala, ele seria capaz de mentir para conseguir vantagem sobre todos nós. — Eu disse levantando e caminhei até a minha cama sentei entre eles e eles me abraçaram. — Só vamos ficar unidos e aproveitar esse primeiro mês, é só agora que teremos moleza. Precisamos nos adaptar, porque em quinze dias as provas irão começar e nós não fazemos ideia de como elas serão.
— Você tem razão e é por isso que eu sei que me tornei amigo da pessoa certa. — Gormau disse rindo e me abraçando mais forte.
— Ei, Iwo. É impressão minha ou seu cabelo está ainda mais vermelho? — Perguntou Chaelsha me olhando sério Eu pulei da cama e me olhei no espelho. Ele tinha razão, meu cabelo estava ainda mais vermelho. — Eles te deram algum shampoo para realçar?
— Não me disseram nada, mas deve ser isso! — Eu falei tentando mudar o assunto. Era estranho pra mim falar sobre meus cabelos vermelhos. Ninguém sabia explicar porque eu os tinha daquela cor. Eu era o único na minha casa. — Então vamos tomar café da manhã? Vocês estão prontos, eu preciso me arrumar ainda.
O príncipe fazia questão que comêssemos juntos a mesa do Rei. Nós precisávamos aprender, pois um de nós ficaria ali para auxiliar e acompanhar o príncipe nas refeições.
— Então vai logo porque está quase na hora. O Rei odeia atrasar sua refeição por qualquer motivo que seja, e garanto que se por acaso o motivo for um dos garotos ele não irá se importar de nos colocar no tronco. — Falou Gormau sério. Ele tremeu de leve como se repugnasse a ideia. Eu repugnava.
Corri para meu closet e procurei uma das várias roupas que tinham ali dentro. Eu não sabia o que vestir. Nos primeiro dias levei várias broncas e muitas risadas dos outros garotos, foi só depois de Chaelsha me ajudar que eu entendi que não podia me apresentar ao Rei de qualquer forma. Eu apostei no básico aquele dia. Vesti uma calça bege e uma jaqueta cinza. A camisa de babado branca e um colete meio amarelado. Acho que não estava tão ruim. Os cabelos foi que não teve jeito, ficaram rebeldes como sempre.
— Você vai assim? — Perguntou Gormau logo que parei em frente deles. — Está bem, né? Não está horrível, porém você podia fazer melhor, não é?
— Ora, se não está ruim então está ótimo. Eu não ligo para essa frescura toda. — Eu falei sério e mostrei a língua para meu amigo. — Vamos!
Nós saímos do quarto e passamos a percorrer os longos corredores. Eu vivia me perdendo naquele emaranhado de corredores. Os meninos riam, porém eu estava pensativo. Não sabia da cabeça a conversa de minutos atrás. Será que eu seria o próximo? Não queria isso.
— Bom dia, garotos! — Ouvi o príncipe dizer.
Os meninos foram rápidos para responder.
— Bom dia, Príncipe!
Eu levantei o olhar e o encarei. Ele sorriu. Os cabelos longos na altura do queixo estavam amarrados para trás e a barba estava bem feita diferente da última vez que o tinha visto. Os olhos castanhos brilhavam de um jeito diferente.
— Garotos eu sei que estão indo para o café agora, porém poderiam me dar uns minutinhos com o Iwo? — Ele perguntou sorrindo para os outros. Eu tinha que confessar, ele era muito educado até, quando tinha pagado para nos ter ali. — Prometo que será rápido e ele logo se juntará a vocês.
Os garotos me olharam e balançaram a cabeça em afirmativa. Eu notei pela forma que eles andavam que eles queriam correr. Eles queriam sair correndo daquele corredor e se trancar quem seus quartos. Eu estremeci. O que ele queria? Será mesmo que veio avisar que me iria foder hoje à noite como havia feito no Nathman na noite passada? Senti um frio na barriga me tomar.
— O que foi? Está nervoso, Iwo? — Ele perguntou rindo. Eu estava dando o que ele queria.
— Não! — Respondi seco, indo contra tudo que tinha prometido para mim mesmo.
— Não é o que parece, as suas mãos estão tremendo? — Ele perguntou me olhando e sorriu de canto, perverso, sacana.
Eu escondi as minhas mãos atrás das costas.
— Não estão não! — Eu respondi baixo.
— Precisamos conversar. — Ele falou sério, não parecia brincar mais.
— Estou ouvindo, senhor! — Eu tentei mostrar respeito. Minhas mãos tremendo com mais forças. Eu estava arrependido agora. Eu não deveria ter aceitado vir pra cá, deveria ter fugido de casa quando meus pais me informaram o que fariam, não deveria ter vindo parar aqui. Isso não era certo. Eu não queria transar com esse homem pervertido e malvado.
— O que eu fiz na noite passada? — Ele me perguntou sério.
Eu engoli em seco e senti meu corpo tremer como uma gelatina. Respirei fundo.
— Eu não sei senhor! — Menti.
— Você sabe sim. Responda-me. O que eu fiz na noite passada Iwo? — Ele perguntou sério, parecia bravo.
— Não sei senhor, ouvi dizer que o senhor passou a noite com o Nathman! — Falei baixo, até mesmo eu sabia a hora de ceder. — Mas por quê? Você quer fazer o mesmo comigo?
Ele riu alto.
— Acha que eu o obriguei a fazer isso? Eu não obriguei. Porém faria se quisesse. E não, Iwo. Eu não vou pedir, ou mandar você se deitar comigo. Eu vou deixar você implorar por isso. — Ele falou sério. — E é isso que quero te explicar, não pense que vou obrigar você a nada, é você que vai pedir. Pode ir tomar seu café da manhã, tenho assuntos a resolver. Nós vemos à tarde na primeira reunião preparatória.
Eu o acompanhei com o olhar. “Você vai implorar!” Vai sonhando seu filho da puta.
Caminhei em passos rápidos para o salão matinal. Havia perdido a fome, porém o Rei me mataria se não estivesse lá.
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