Rubbergeddon
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Will sentiu a brisa fresca da manhã acariciar seu rosto. De pé na sacada do abrigo, ele segurava uma caneca vermelha cheia do café fumegante que ele acabara de fazer.
Quatro dias haviam se passado desde que eles chegaram no abrigo. E esses quatro dias se passaram com uma incrível tranquilidade: pela primeira vez, parecia que eles estavam em paz.
Mas ele sabia que aquilo não duraria. Não pode haver paz enquanto houver guerra. E ele e Dylan passaram muitas horas desses quatro dias estudando e analisando mapas da cidade, tentando encontrar um lugar onde eles poderiam encontrar e recrutar pessoas para trabalhar com eles.
O garoto bebeu um gole do café e entrou no quarto pela porta da sacada atrás de si.
Julie estava dormindo profundamente na cama, sob um cobertor marrom cheio de felpos. Seus longos cabelos negros estavam espalhados pelo colchão, parcialmente cobrindo seu rosto angelical enquanto sua respiração lenta saía por sua boca entreaberta.
Will preferiu não acordá-la. Em vez disso, ele cuidadosamente fechou a porta do quarto, ao lado de uma sapateira, e desceu os degraus até a cozinha.
— Se formos sair, precisamos de disfarces — disse Julie, apoiando os cotovelos na mesa de granito.
Enquanto almoçavam, eles discutiam entre si meios de sair rua afora sem serem notados, porque precisavam sair: Dylan e Julie iam comprar suprimentos em algum mercado no centro da cidade, e Will e Gabriel tentariam dar início ao plano de recrutar pessoas.
— Ela tem razão. Somos procurados, lembram? — concordou Gabriel, levantando-se do chão após completar uma série de abdominais.
— É só a gente colocar um boné ou uma blusa, ou até um lenço na cabeça — disse Dylan, um pouquinho impaciente. — Sei lá, dá pra improvisar. Temos óculos escuros?
— Só precisamos mudar um pouco a nossa aparência. Só pra não dar na cara — concluiu Will.
— E armas, levaremos? — quis saber Julie, levantando-se, já preparada para se trocar.
— Facas e pistolas, apenas — respondeu Dylan, certo de sua decisão. — Nada muito chamativo; coisas que podemos esconder.
— Eu sou muito bom com pessoas — falou Will —, então posso tentar convencê-las na parte da lábia. Se precisarmos de um charme, bem, aí é com você, Julie — acrescentou, olhando para a garota. — Caso precisemos enganá-las ou ludibriá-las, é com o Dylan. — Ele respirou fundo, olhando para cada um dos amigos presentes na cozinha. — Certo, vamos nos arrumar — concluiu.
Poucos minutos depois, os quatro já haviam se trocado e estavam de volta à cozinha. Dylan, que havia tirado seus óculos levemente tortos, estava vestindo uma camisa casual, uma bermuda simples, de cor preta, e um boné. Julie fez tranças em seus cabelos e pôs no rosto um par de óculos escuros, disfarçando muito bem sua aparência — também vestindo um boné. Will e Gabriel apenas vestiram uma blusa com capuz por cima de suas roupas normais, e o líder estava usando um par de óculos escuros.
Eles partiram durante a manhã, lá pelas 11 horas. O céu estava claro, e o sol brilhava alto no céu, quase em seu ápice. Após uma caminhada razoavelmente curta, com a duração média de vinte minutos, eles chegaram ao centro comercial da zona sul de Wendlyn. Julie e Dylan entraram em um mercado para comprar suprimentos e mantimentos para o abrigo — a comida já estava acabando — enquanto Will e Gabriel permaneceram na feira do lado de fora para iniciarem o projeto de recrutamento de pessoas.
— O que devemos levar? — perguntou Julie enquanto pegava uma cesta de compras próxima a um dos caixas.
— Pacotes de bolacha, enlatados, doces, alimentos não perecíveis e recrutas — respondeu Dylan, descontraído, mexendo em uma prateleira.
— Não vamos... encontrar... recrutas... aqui — murmurou Julie, ficando na ponta dos pés pequenos para tentar alcançar uma lata de molho de tomate na prateleira mais alta.
— Quer que eu pegue? — ofereceu Dylan, sorrindo levemente: adorava provocar a amiga por causa de sua altura.
— Não, eu consigo... hgn... — Julie pulou para pegar a lata, mas acabou derrubando alguns produtos das prateleiras mais baixas na tentativa fracassada. Então, bufando, ela desistiu: — Por favor.
Dylan, sem esforço, pegou o enlatado para a amiga e colocou-o dentro de sua cesta de compras. Então, ao olhar descontraidamente para o caixa, ele viu.
Com as estaturas corporais elevadas, roupas de exército com proteção extra nos ombros, peito, costas, cotovelos e joelhos, e com capacetes negros que lembravam os de motoqueiros, os dois soldados Kaiser estavam dialogando de forma nada pacífica com a operadora do caixa.
Dylan abaixou o tronco, curvando a coluna, e empurrou a aba do boné para baixo para esconder o rosto. Então, cutucou Julie no ombro, inclinando-se para a frente para sussurrar no ouvido dela.
— Têm dois soldados Kaiser no caixa ali na frente. Precisamos sair daqui agora. — Ele olhou de esguelha para os capangas de Trevor, que já estavam apontando os fuzis para a mulher do caixa. — Cubra o rosto com o boné.
— Mas... e as coisas? — perguntou Julie, já se agachando para esconder-se. As tranças a faziam parecer outra pessoa.
— Deixe-as aí, depois voltamos para pegar. Não podemos ser vistos.
Os dois deram a volta na estante de produtos e, pelo outro lado, mais próximo à parede, foram vagarosamente andando para fora do mercado, agachados. Tiveram a sorte de não serem vistos — ou reconhecidos.
Andando na rua principal, Will ainda olhava as barracas de uma feira artesanal que ocorria por ali. Gabriel estava em outra área da feira, mas os dois ainda podiam se ver. Então, quando o líder passou por uma barraca que expunha artefatos históricos — como armas antigas utilizadas em guerras importantes —, avistou um cartaz intrigante.
O folheto impresso mostrava a foto do que parecia ser um hangar, mas ao olhar mais de perto, Will notou que era um armazém de armas que pertencia a um tal de Matthew Von Draher. Ele nunca ouvira aquele nome. Então voltou-se à linda mulher que cuidava da barraca e perguntou:
— Quem é Matthew Von Draher?
— É o herdeiro imediato da empresa Von Draher, a grande fabricante de armas — respondeu a jovem feirante com um sorriso brilhante no rosto.
— Certo... obrigado pela informação — disse Will, e já havia se virado para ir embora quando ouviu uma voz chamar por ele.
— Ei! — exclamou a feirante.
Will virou-se e voltou à barraca.
— Sim?
— Você é solteiro?
O líder corou.
— Hã... é... s-sou, por quê? — respondeu ele, gaguejando levemente, acanhado e um pouco envergonhado pela inesperada pergunta.
— Quer sair comigo? Ou, bem, eu poderia ir na sua casa a qualquer hora — ronronou a moça, inclinando o corpo sobre o balcão.
— Bom... hã... como eu posso dizer...?
— Eu entendo que você esteja se sentindo desconfortável — disse a feirante. — Eu também me sentiria assim se eu pedisse para sair comigo.
Will coçou a nuca. A jovem já era confusa, e a situação tornava ainda mais difícil para ele compreender com clareza o que ela estava tentando dizer. Então Gabriel se aproximou, seu sorriso contido mostrando que ele aparentemente estava ouvindo a conversa entre o líder e a feirante. Will suspirou.
— Bem... nos vemos por aí, então — disse ele, sem graça. — Ah, posso levar o cartaz?
—Tudo bem, pode pegar. Até mais — murmurou a jovem enquanto Will pegava o folheto sobre a mesa, cabisbaixa ao vê-los se afastarem da barraca.
— O que foi aquilo? — perguntou Gabriel, rindo, olhando para trás descaradamente.
— Não sei — respondeu Will, ainda corado.
Então eles viram Dylan e Julie correndo na direção deles, os bonés abaixados, as tranças da garota esvoaçando para trás conforme ela corria.
— O que vocês fizeram agora? — quis saber Gabriel, assustado, quando os amigos o alcançaram.
— Nada — respondeu Julie, ofegante. — Só corremos para não sermos vistos por dois soldados Kaiser que simplesmente brotaram lá no mercado. — Ela e Dylan ajustaram o boné.
— E bota “brotaram” nisso — incrementou Dylan, fungando com o nariz. — Eles simplesmente apareceram lá e começaram a discutir com a mulher do caixa.
Então eles ouviram um tiro ao longe, vindo do mercado onde Dylan e Julie estavam; não demorou nem um segundo até as pessoas próximas começarem a correr para longe do local, gritando, apavoradas. Logo, os dois soldados Kaiser saíram do mercado enquanto outras pessoas entravam, algumas já segurando seus telefones celulares para filmar a situação.
— É — disse Dylan, surpreso —, lá se foi a mulher do caixa.
— Vamos ali para aquele canto para não corrermos o risco de sermos avistados — falou Will, apontando para um pequeno beco isolado que ficava entre duas barracas da feira. — Descobri uma coisa que pode ser útil.
— Espero que não seja mais um plano de invasão à base dos Kaiser — murmurou Julie, seguindo os três amigos que já se dirigiam ao beco. Passando por caixas de papelão rasgadas e latas de lixo, eles se escoraram na parede.
— Então — disse Dylan —, o que você descobriu?
Will segurou o folheto nas mãos.
— Von Dreher... Empresas Von Drag... Von Drahe... Ah, não consigo pronunciar isto — bufou Will.
— Eles vendem whisky? — perguntou Dylan.
— Não, eles vendem armas, mesmo — respondeu Will, sem tirar os olhos do folheto, aparentemente convencido de que a pergunta do amigo tinha sido séria. — Nós podemos ir até lá e tentar fazer um acordo — continuou o líder. — Algo do tipo: nós protegemos vocês dos Kaiser e vocês nos fornecem armas para fazê-lo.
— Não custa tentarmos — afirmou Julie.
— Verdade — concordou Gabriel.
Dylan tomou o cartaz da mão de Will e analisou-o.
— Não é muito longe daqui — observou, apontando para o endereço na parte de baixo do folheto. — Podemos ir agora.
E eles saíram da feira quase vazia. Passaram pelas monótonas barracas montadas até saírem do local. E, tranquilamente caminhando, não demorou muito até que chegassem ao hangar — foram menos de quinze minutos andando.
A fachada do local era caracterizada principalmente pela curta rampa de concreto sobre um gramado baixo. A entrada era protegida por um alto portão metálico, com os numerais — desbotados — 1 e 8 postos lado a lado, formando o número 18. Eles subiram a rampa.
O portão não abriu, então Will experimentou bater nele suavemente, como se isso fosse adiantar. Mas eles ouviram o ruído leve vindo do alto — uma câmera de segurança se virara para vê-los, e poucos segundos depois um som alto predominou o local: o portão estava se abrindo automaticamente, de forma lenta e barulhenta.
E a imagem de um enorme galpão coberto foi se formando, o chão cinza-escuro recém-encerado brilhando. Inúmeras caixas — obviamente cheias de armas — estavam espalhadas pelo local, empilhadas pelo recinto. Grandes janelas nas altas paredes permitiam a entrada da luz da tarde, tornando desnecessária a utilização das lâmpadas penduradas no teto por cabos de metal.
No fundo do vasto pátio havia uma pequena área de conforto, com dois sofás e duas poltronas sobre um grosso tapete vermelho e uma mesa de centro baixa. E então, de um lugar que eles não sabiam onde era, apareceu uma mulher esbelta vestindo uma camisa social de mangas compridas, uma saia justa que descia até os joelhos e calçando um par de saltos altos carmesim. Seus cabelos negros estavam presos em um coque alto, e seu rosto era demarcado por óculos de armação negra.
— Boa tarde — cumprimentou ela —, em que posso ajudá-los?
Will pigarreou.
— Boa tarde. Hã... precisamos falar com algum representante da empresa — disse. — É um assunto sério.
— Muito bem. Irei contatar o Sr. Matthew, que é o imediato da empresa. Aguardem um instante — finalizou a recepcionista, e se retirou.
Os quatro se direcionaram à área de conforto. Will e Julie sentaram-se em um dos sofás, e Gabriel e Dylan sentaram-se cada um em uma poltrona. E logo, no distante horizonte do interior do hangar, eles viram um homem — jovem adulto — aparecer pela porta lateral e caminhar na direção deles.
O homem — Matthew — era alto, esbelto e sério. Vestia um blazer preto que fazia contraste com sua pele quase branca, no qual, junto ao seu topete para o lado, ele ficava extremamente charmoso e elegante.
— Boa tarde, meu nome é Matthew Von Draher — apresentou-se quando os alcançou. — Minha assistente disse que vocês precisam falar de negócios comigo.
— Sim, precisamos — disse Julie, boquiaberta, a voz sonhadora, encantada ao ver o belo homem.
Matthew assentiu suavemente.
— Sigam-me até o meu escritório — falou.
O quarteto se levantou e seguiu uma linha reta, atrás de Matthew, até o escritório dele. Ao entrarem pela porta de carvalho, foram recebidos pelo alívio de adentrar um ambiente resfriado pelo aparelho de ar condicionado que havia na sala não tão grande do homem. E Matthew foi até sua poltrona, atrás de sua escrivaninha, e apoiou os braços sobre a superfície de vidro da mesa.
— Sentem-se e fiquem à vontade — disse o gerente, apontando para as (coincidentemente) quatro cadeiras à frente de sua escrivaninha.
Então os quatro tomaram seus assentos. O escritório de Matthew era envolto por dois armários altos, provavelmente cheios de documentos, e uma singela janela iluminava o ambiente com a luz solar.
— Podemos começar a tratar de negócios? — perguntou Will.
— Diga-me o que deseja — falou Matthew.
Will respirou fundo.
— Precisamos de armas — disse. — Muitas armas.
— Em troca de?
— Proteção! — exclamou Will. — Protegeremos você e o povo da opressão dos Kaiser!
Matthew estalou a língua.
— Eu não posso aceitar se não houver dinheiro na jogada — disse ele.
— Faremos assim — interviu Dylan —: você nos fornece armas, nós lutamos nesta guerra, vencemos, e então pagaremos você depois de tudo.
— E quem garante que vocês ganharão?
— Eu garanto. E suas armas irão atirar a glória — afirmou Dylan.
Matthew crispou os lábios.
— Já te falaram que você é muito persuasivo, garoto?
— Falam isso constantemente.
— Enfim — suspirou Matthew —, eu me convenci. Quais armas serão necessárias?
— Todas — disse Will — Uzi's, Thompson, Ar15, AK 12, 47 e 74, Glocks, Ingram, Magnum e Colts, e alguns rifles de caça com alta precisão
— A sua conta ficará cara, amiguinho — advertiu Matthew, um leve sorriso em seu rosto magro.
— Pode nos fornecer?
— Assine este papel e teremos um acordo fechado — falou o gerente, arrastando um contrato pela mesa.
— Will! Leia todo o contrato — alertou Dylan.
— Não se preocupe — falou Matthew, ainda sorrindo. — Eu não ousaria passar a perna em quatro rebeldes como vocês.
Julie e Gabriel arregalaram os olhos.
— Como você sabe que... — começou a garota, mas lembrou-se de que Will deixara bem claro que eles eram rebeldes. —... esquece.
— Foi bom fazer negócios com vocês — disse Matthew, estendendo a mão para Will, que a apertou.
Então os quatro se levantaram e se retiraram em silêncio, logo se distanciando do armazém. Um pouco tomados pelo cansaço — afinal, haviam caminhado consideráveis quilômetros —, eles resolveram parar para descansar em uma praça, sentando-se todos em um único banco comprido de madeira.
— Que saudade dessa época — disse Gabriel, observando as crianças brincando alegremente nos brinquedos do parquinho da praça.
— Era uma época em que a minha única preocupação era chegar em casa a tempo de assistir meus desenhos favoritos — complementou Will, os cotovelos apoiados nas coxas. — Ou de conseguir um Pokémon raro naquelas máquinas de supermercados.
— Uma época em que a gente não entendia o que significava “ditadura” — falou Julie, em um leve tom de tristeza.
Dylan franziu a testa e estalou a língua, o braço apoiado no encosto do banco.
— Olhem só para esses pirralhos. Devem achar que tudo não passa de um joguinho. É impressionante como eles conseguem ficar todos felizes e alegres em tempos difíceis que para eles não existem.
Embora cada um tivesse comentado nostalgicamente sobre a infância naquele momento, as palavras de Dylan foram as mais profundas, as mais carregadas de uma verdadeira saudade. E calaram a todos.
Então algo chamou a atenção de Will — porque não havia como não chamar a atenção de alguém.
Sentada completamente sozinha em um dos bancos da praça, ameaçadoramente olhando para eles, havia uma mulher misteriosamente sedutora. Ou sedutoramente misteriosa. Seus longos cabelos negros e soltos escondiam parcialmente a maquiagem gótica em seu rosto de pele morena e caíam por sua jaqueta preta que cobria um top branco. Suas mãos tinham unhas compridas e pontiagudas como garras, e sua mão direita segurava o cabo de um chicote. Era visível a lâmina de uma faca que estava presa à sua cintura — talvez propositalmente exposta. Suas pernas cruzadas vestiam calças jeans pretas, e, com o pé direito erguido daquela maneira enquanto ela o girava, era evidente o par de All Stars que ela calçava.
E ela estava olhando para os quatro pelo canto daqueles olhos negros e macabros contornados por um grosso rímel preto.
— Não estou gostando daquela mulher — sussurrou Will para Dylan, que, coincidentemente, também a estava encarando.
— E eu muito menos — respondeu o amigo, de braços cruzados agora. — Olha só. Ela não tira os olhos da gente.
Mas Gabriel e Julie não pareciam tê-la notado: estavam distraidamente conversando no canto do banco, ainda presos ao assunto da infância e da nostalgia. E Dylan teve que cutucar as costelas da garota com o cotovelo para atrair a atenção dos dois.
— Vamos embora daqui — disse para Julie, baixinho, quando ela se virou. — Aquela mulher me parece problema.
Julie abriu a boca para responder, mas se calou ao notar o chicote e a faca que a mulher portava. Então os quatro se levantaram, Gabriel ainda um pouco confuso, e começaram a caminhar para fora da praça, ainda apreensivos. Poucos segundos depois, Will se virou para checar se a mulher ainda os continuava observando.
Mas ela já não estava ali.
Ela já estava a dois metros de distância à frente deles — assim como Dylan, imobilizado por ela, a cabeça empurrada para cima enquanto a lâmina da faca da mulher pressionava sua jugular perigosamente.
E Will apontou sua arma para ela tão rápido quanto Julie e Gabriel, mas não ousou puxar o gatilho quando viu a gota de sangue que acabara de se derramar do corte raso no pescoço de Dylan.
Os olhos negros e sombrios da mulher viajaram de Will para Julie, desta para Gabriel e deste de volta para a garota, e para Will novamente, repetidas vezes. E Dylan arfava, consideravelmente desesperado: qualquer movimento suspeito poderia causar sua morte.
— Quem é você? — gritou Will, o dedo tremendo para puxar o gatilho. Mas Dylan servia como um escudo perfeito para a misteriosa mulher.
Os lábios com batom preto dela se abriram.
— A Destruição — sussurrou ela.
E, com isso, a mulher beijou o pescoço de Dylan.
O efeito foi imediato: os olhos do rapaz giraram para cima e ele caiu mole no chão, e logo a mulher já havia desaparecido entre as sebes e os arbustos que ladeavam o corredor que levava para a avenida ali à frente.
Enquanto Gabriel corria para checar o estado de Dylan, Will e Julie correram atrás da mulher. Entraram e saíram dos arbustos, e assim que o líder avistou a inimiga à frente deles, em um movimento muito rápido, ela usou seu chicote para desarmar Will, puxando sua pistola para longe — mas Julie agarrou a ponta de seu utensílio antes que ele pudesse voltar à mulher, fazendo a pistola do amigo colidir contra o próprio rosto dele, desnorteando-o.
E a mulher puxou o chicote com força, fazendo Julie perder o equilíbrio e ir de encontro com ela — e levar uma joelhada na boca do estômago, perdendo o fôlego. Então um chute na coxa fez Julie cair no chão de vez.
Ainda levemente atordoado, a visão desfocada, Will atirou contra a mulher, mas seu tiro passou longe do alvo. Então ele correu na direção dela, que errou duas tentativas de socá-lo, dando tempo para Will agarrá-la e derrubá-la no chão e usar o chicote para rapidamente amarrar os braços dela atrás das costas.
Will a deu uma cotovelada na nuca com força, fazendo-a desmaiar. Então arrastou-a para baixo de um banco na praça, onde as crianças corriam para longe, com medo do som do tiro que Will havia disparado.
E o líder imediatamente correu até Julie — que, muito felizmente, não havia se machucado seriamente. Ele a ajudou a se pôr de pé, segurando sua mão, e quando a garota se recompôs, Will começou a tirar o pó do rosto dela.
— Estou bem, sério — disse Julie, forçando um sorriso, gentilmente afastando a mão do amigo.
Will assentiu, sério, e os dois caminharam lado a lado, apressados, em direção ao local onde Dylan fora atacado.
Ao darem a volta nos arbustos e nas sebes, encontraram Dylan deitado no chão, com Gabriel ao seu lado, ajoelhado. Os olhos dele estavam abertos, e ele parecia capaz de falar — embora não parecesse capaz de andar.
Julie se jogou de joelhos ao lado do rapaz, mas assim que fez menção de abrir a boca, Dylan a interrompeu:
— Estou... vivo. — Ele conseguiu sorrir levemente antes de soltar um grunhido. — Ah, isto é horrível...
Gabriel socou o chão com raiva.
— Parece que não teremos paz nunca! — esbravejou, bufando. — Mais uma pessoa quer nos matar.
— Você está bem? — perguntou Julie, pousando a mão no peito de Dylan. Havia uma grande mancha negra ao redor da marca do batom preto da mulher.
Dylan virou os olhos para ela.
— Parece que alguém... se preocupou com a minha pessoa — respondeu ele com uma leve risada. — Não consigo mover minhas pernas, mas... consigo falar. O que era... aquilo? Veneno... paralisante?
— Provavelmente — respondeu Will, apreensivo, olhando em volta. — Precisamos voltar, e rápido. Vou dar sinal para o próximo táxi que passar...
Julie tocou a área semelhante a um hematoma no local onde Dylan fora beijado.
— Dói aqui? — perguntou.
— N-não.
— Isso é novo — comentou Gabriel. — Um veneno paralisante que não precisa ser injetado na veia para surtir efeito?
— Mais intrigante ainda é o fato de o veneno não a afetar, porque estava no batom, que estava nos lábios dela — disse Julie.
— Ela deve ter... criado a toxina por si própria — disse Dylan. — Deve ter criado... um antídoto, também...
Eles viram Will erguer o braço para chamar um táxi que passava por ali. E Julie e Gabriel ajudaram Dylan a se levantar, os dois segurando-o com certa facilidade, porque o rapaz era magro e leve.
Will se adiantou quando o táxi parou. E o taxista imediatamente reconheceu o líder da Estrela Vermelha, porque seus olhos se arregalaram e ele abriu a boca para gritar. Mas Will o calou ao mostrar uma cédula fresquinha de dinheiro de alto valor, balançando-a no ar, enquanto o motorista a seguia com os olhos.
— Eu te pago este adicional se você ficar de boca fechada — disse o líder, e o taxista engoliu em seco, apanhando a nota de dinheiro e guardando-a no bolso.
Julie, Gabriel e Dylan entraram no banco de trás. O rapaz intoxicado foi do lado da janela, onde podia se apoiar, já que ainda não tinha o movimento das pernas. E nem iria ter tão cedo, aparentemente. Will deu a volta no carro, abriu a porta e sentou-se no banco do passageiro.
— Deixe-nos no fim da rua dos abrigos — disse Will.
O motorista assentiu, ainda um pouco apreensivo. Então se agachou para pegar algo improvável — uma máscara branca, sem enfeites adicionais, apenas com o formado tridimensional de um rosto neutro, com buracos para os olhos e para as narinas.
— Coloque isto — disse o taxista. — Não quero correr o risco de alguém te reconhecer. Vou me ferrar junto.
Will franziu a testa, mas compreendeu a situação e vestiu a máscara. O motorista pegou mais três máscaras e entregou-as aos passageiros de trás, então acelerou o carro.
Dentro de cinco minutos, eles chegaram em frente ao abrigo. A viagem foi tranquila, mas o taxista olhava para os lados o tempo todo, com medo de alguém reconhecer os integrantes do grupo rebelde. Will pagou o preço da viagem ao motorista e saiu do carro, logo indo para a porta de trás para ajudar Dylan a se levantar.
Com a ajuda de Julie, ele levou o rapaz, com o corpo ainda paralisado da cintura para baixo, até o portão do abrigo. Gabriel o destrancou e o abriu, e após atravessarem a garagem e entrarem na casa acolhedora, Will deitou Dylan no sofá, apoiando as pernas imóveis do amigo de forma confortável.
— Ele foi intoxicado — disse Julie. — Um chá de limpeza deve ajudar. Vou fazer.
— Certo — disse Gabriel. — Eu estou morto de cansaço; quase não dormi à noite. Vou tirar um cochilo lá em cima. — Ele começou a subir as escadas. — Qualquer coisa, podem me chamar.
— Igualmente, vou estar disponível caso algo aconteça — falou Will, fechando a porta da sala. — Estarei estudando no sótão, mas podem me chamar.
E então Will também subiu as escadas.
— Não se preocupe — disse Julie. — Vou tratá-lo.
— Você está preocupada comigo, não é mesmo, senhora coração de gelo? — provocou Dylan, rindo.
Julie retribuiu a risada.
— Parece que você pode falar normalmente agora, né? E saiba que só estou te salvando porque você é importante para a missão — respondeu. — Eu nunca te ajudaria em outra ocasião.
— Ahã, beleza. Vai fazer o seu chá, vai.
Julie riu mais alto.
— Idiota — disse, entrando na cozinha.
Dylan encarou o teto. Sozinho na sala, como antigamente.
Um momento perfeito para lembrar das desgraças do passado.
— Olha só para ela — disse Trevor, um explícito tom de desprezo em sua voz. — Como é que o Ratbag deixou ela entrar aqui?
Jake assentiu, profundamente concordando. E Angel permaneceu, como sempre, neutra. Apesar de que, neste caso, ela não concordava totalmente com o irmão e o amigo.
— Não podemos julgá-la agora — disse a garota, escondida pelas sombras do corredor. — Mal sabemos quem ela é.
— Dá um tempo. Quem medita hoje em dia? — disse Trevor. — Olha lá.
Um fuzil repousava no chão ao lado de um par de coturnos negros. Sentada descalça e com as pernas cruzadas no chão de mármore, havia uma mulher consideravelmente misteriosa.
Ela vestia uma jaqueta de couro. E seus cabelos longos e negros desciam pelas suas costas. Suas mãos com luvas pretas estavam pousadas sobre os joelhos, cobertos com calças legging, e seus dois pés estavam sobre as coxas, a pele clara das solas brancas e lisas contrastando com a cor escura da calça.
Seu rosto estava sereno e seus olhos cerrados enquanto ela tranquilamente meditava. Sua respiração era lenta, entrando pelo seu nariz e saindo pela sua boca entreaberta. Era inegável que ela era muito bonita — mas a única coisa que Trevor e Jake sentiram e sentiam ao observá-la era ódio e desprezo.
Angel tentou segurar o braço de Trevor quando ele, junto a Jake, começou a caminhar na direção dela, por trás. E a mulher pareceu perceber que eles vinham, porque ouviu seus passos e apurou os sentidos, mas não deixou sua posição de meditação e nem abriu os olhos.
— Ei! — exclamou Jake. — Quem é você?
A mulher respirou fundo.
— Não é da sua conta — respondeu, definitivamente.
— Você deveria ter mais educação com seus superiores — disse Trevor, se aproximando.
A moça riu.
— Superiores? Acho que não.
Trevor bufou.
— Vire-se — ordenou.
— E se eu não estiver a fim?
— Eu mandei você se virar!
Ela não deu ouvidos. Angel pareceu pressentir o perigo iminente que aquela mulher exalava. Contudo, se reteve no seu lugar: Trevor precisava aprender a não julgar todos a quem via.
— Com licença, madame — disse Jake, ultrapassando Trevor —, o líder desta mansão mandou você se virar e nos encarar!
— Não sou surda — respondeu a mulher.
— Então obedeça! — gritou Trevor.
— Também não sou sua empregada!
Então Trevor perdeu a paciência: puxou sua arma e apontou-a para a cabeça da mulher.
— Vai se virar ou não vai? — ameaçou ele, como uma criança sedenta por superioridade.
— Vá em frente, atire — falou a mulher, ainda na mesma maldita posição. — Me mate e seu chefe te mata.
Trevor arregalou os olhos, mas não deixou transparecer o choque e a surpresa.
— Então você é a nova arma do Ratbag? — perguntou.
— Arma? — zombou Jake. — Você não é uma arma. É no máximo uma isca.
Então Trevor fez a pergunta decisiva; a frase que faltava para desencadear a besta dentro da mulher:
— O que te faz pensar que é qualificada para caçar os quatro?
A mulher abriu os olhos de forma tão repentina que Trevor pôde sentir. E ela finalmente deixou sua posição, movendo o braço para o lado para pegar e calçar seus coturnos, calmamente.
— Meu nome é Eduarda. E não, não me acho totalmente qualificada — respondeu ela, enfiando o calçado no pé esquerdo. — Mas eu lhe garanto que, se eu tivesse três deles aprisionados, não os deixaria escapar como vocês fizeram — continuou, calçando o outro sapato — Isso foi no mínimo vergonhoso.
Então ela se levantou e finalmente fez o que Trevor dissera — se virou. Não porque ele mandara, mas sim porque ela quis.
Angel já estava do lado de Trevor.
— Como ousa falar assim? — indagou a irmã do líder, com raiva.
Eduarda riu com deboche.
— Olha só! A cachorrinha sabe falar!
Trevor foi o primeiro e o único a avançar contra ela, rapidamente, mirando seu rosto pálido com um soco. Mas Eduarda desviou com uma facilidade absurda, e usou o cotovelo para socar o estômago do homem antes de usar o calcanhar para jogar a perna dele para a frente, derrubando-o vergonhosamente no chão, completamente derrotado.
Jake fez o mesmo, estupidamente — e Eduarda se agachou, de forma que o soco passasse por cima de seu ombro, e agarrou o braço dele, fazendo-o descrever um arco no ar por cima de seu corpo em direção ao chão, onde ele jurou sentir uma de suas vértebras ser danificada.
Então Angel não se conteve mais, e suas unhas pontiagudas abriram três cortes na bochecha de Eduarda.
O olhar lançado para a irmã do líder dos Kaiser foi tão amedrontador que a obrigou a recuar, mas Eduarda não permitiu: agarrou-a pela gola da camisa e passou-lhe uma rasteira para derrubá-la de costas, então a arrastou para a borda da fonte de mármore, onde apoiou a cabeça dela e encarou-a bem fundo nos olhos.
— Me ouça, sua cadela imunda! — berrou, ignorando o sangue que escorria dos cortes. — Se você tentar me tocar mais uma vez, eu arranco seus olhos e faço brincos com eles!
Ela largou uma Angel chocada e dolorida na fonte e se dirigiu até Trevor, que ainda gemia de dor.
— Você havia perguntado o que me fazia pensar que eu era qualificada para caçá-los, não é? — Eduarda pisou peito do líder. — Isto faz.
E Ratbag, assistindo à cena pelas câmeras de segurança, deu um leve sorriso de canto de boca.
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