Rua sem saída
3 Capítulo 3
Notas iniciais
♦ Capítulo 3 ♦
– Hoje é seu aniversário? — perguntou ainda desesperada com a data que viu em minha carteirinha. — Hoje é seu aniversário de... — Ela então fez as contas, como havia dito que em dois mil e oito teria feito onze anos, em dois mil e doze faria então... — de quinze anos! Não, espera, me explique tudo de novo... você realmente está no ano de dois mil e doze? — Ela gargalhou. — Agora eu realmente te acho louca.
Comecei a mexer na minha bolsa a procura de mais alguma coisa que a mostrasse que eu realmente estava no ano de dois mil e doze. Peguei meu celular que ganhei duas semanas antes do meu aniversário, mas de presente adiantado, não extra. Era de alta tecnologia, se realmente voltei no tempo e estou em dois mil e oito, isso a mostraria que eu não estava enganada de que viajei no tempo.
A entreguei o celular e seus olhos pareceram saltar de seu rosto.
– Não acredito! Que tipo de celular é esse? Cadê as teclas? — Ela o alisou, procurou de todos os lados depois o pesou, levantando a mão e descendo novamente. — Ele não pesa nada! — terminou, abismada.
– Isso se chama smartphone... esse é o mais desejado do momento, ganhei de aniversário... mas enfim, isso te prova que não estou mentindo que viajei no tempo ou algo assim, né? — pergunto esperançosa.
– Sim... — sibila. Ela continuava procurando as teclas no meu Iphone.
Voltei a mexer no interior da minha mochila. Tirei meus dois cadernos, meu livro de biologia que era enorme e o meu de história. Meu estojo todo mulambento e quase vazio. Ela largou meu celular e começou a fiscalizar meus cadernos. Tudo parecia novo para ela, mas nem imaginava o quanto tudo parecia estranho para mim também.
Voltei no tempo... estranho. Surreal.
E mesmo assim, ela já era acostumada a andar de elevador, e eu não, uma viajante do futuro que nunca havia andado de elevador... patético da minha parte. E eu ainda quase chorei... ridículo.
Dei um gole no suco maravilhoso de morango. Sim, suco e não vitamina, diferente para mim que vim do interior.
– Olha isso aqui... foi você que escreveu? — Ela então me entregou meu caderno de matemática, em uma das primeiras folhas, mas já estávamos praticamente no final do ano, nem me lembro do que dei no primeiro bimestre na escola e isso nem me interessava.
Quando comecei a ler, entendi o que ela quis dizer com se fui eu que escrevi isso. Em cima de toda a matéria, de todas aquelas anotações malucas e contas impossíveis de se resolver, cálculos inigmáticos, cheios de frações, estava, em uma caligrafia nada usual e em letra de forma, escrito repetidas vezes a frase: "Me salve".
– Não... deve ser alguma brincadeira das minhas amigas... — Nem me preocupei, afinal, sei o quanto a Laura e a Lorena detestam matemática como eu, e de brincadeira devem ter colocado essa frase pois já estão em prova final, pelo menos dessa eu me safei, estudando muito com a Paola vários dias seguidos.
– Ah... — disse ela, aliviada. — Pensei que fosse uma mensagem do além dizendo pra você salvar alguém aqui no passado. — Ela riu e disse passado fazendo aspas com as mãos.
Amanda começou então a vasculhar meu caderno de história.
– Olha... aqui também tem zoação das suas amigas... — disse ela, mostrando-me o caderno.
– Estranho... elas são boas em história, além disso, não havia nem pensado nisso, elas jamais escreveriam com essas letras tão feias, são patricinhas, sabe, gostam de tudo enfeitado e certinho... — disse, mas ainda sem me preocupar.
Amanda então se levantou, pegou meu copo vazio e o seu também e seguiu até a pia atrás de si. Depositou os copos e se virou para mim de novo. Seus cabelos lisos e loiros, cortados na altura do final das orelhas, bem franzino e cheio de mechas azuis e vermelhas. Sua jaqueta de couro, sua camiseta rosa choque por debaixo da jaqueta e que deixava seu umbigo com um um piercing a mostra me anunciavam que ela realmente era uma garota da cidade grande. E além disso, gostava de rock como Paola, de acordo com a estampa da banda Kiss em sua camiseta.
– Vamos para o meu quarto... daqui a pouco a empregada chega, ela foi fazer as compras. Quando meus pais chegarem à noite eu falo que você vai dormir aqui, afinal, estou com você, temos que descobrir o que a fez se perder no tempo...
– Mas eles nem sabem quem eu sou...
– É só enrolá-los dizendo que você é da minha escola, ou que eu te conheço do curso de inglês.
– Ok... se for assim... — E pelo visto deveria ser, eles devem trabalhar o dia inteiro, nem devem saber da vida da filha, que, com certeza, nasceu em berço de ouro, mas longe do olhar dos pais, sendo criada por empregadas e babás.
Levantei-me e a segui pela imensa sala até um estreito, mas longo, corredor. Entramos na terceira porta à direita. O quarto não é muito grande, mas tem uma sacada que só em vê-la de longe, já tive vontade de desmaiar. Tenho medo de altura, e é óbvio que do décimo quinto andar, a pessoa perde todas as sete vidas, caso as tivesse como um gato.
– Tem medo? Eu também... nunca abro essa sacada, entra um vento terrível, que além de frio é forte e derruba tudo daqui.
– Hum... — balbuciei enquanto olhava em volta. Que quarto legal... cheio de coisas que eu adoraria ter também e que seria invejado pela Paola, repleto de almofadas coloridas jogadas no chão e várias prateleiras cheias de coisas divertidas, algo que não podia pois dormia junto com minha irmã mais nova, que tinha que ter, de qualquer jeito, todas as prateleiras com ursinhos que a fizessem se sentir melhor, agora meus livros, meus cds, ficavam todos atolados em meu armário, sem direito de serem exibidos para admiração, só minha, claro.
– Gostou do quarto? Em dois mil e doze, o que se usam na decoração? — perguntou ela, com certeza em tom de brincadeira, mas não via sinal nenhum de sorriso em seus lábios. Eles estavam serrados e seus olhos brilhantes, precisando desvendar tantas dúvidas idiotas diante de todas que eu tinha.
– Coisas normais...
– O que seriam coisas normais em dois mil e doze? — perguntou novamente em tom de brincadeira enquanto se jogava na cama e se acomodava, encostando a cabeça na parede, na qual a cama era encostada. Ela pegou dois pirulitos escondidos em baixo de uma almofada que estava ao seu lado e me ofereceu um. Neguei e a vi colocar o outro em sua boca.
– Ah... nada de muito interessante, prateleiras, poltronas, pufs... — disse com os braços cruzados, apoiada no batente da porta. Seu quarto era pequeno em comparação com a sala.
– O que seria um puf? — inquiriu após dar uma lambida em seu pirulito rosa.
– Puf é puf. É uma poltrona sem encosto e sem braços, coloridas, estampadas... tem como colocar sua foto neles também... são legais.
– Gostei, quando você voltar para dois mil e doze lembre-se de trazer uns pufs pra mim...
Ela gargalhou, mas não senti vontade de rir. Isso não era brincadeira para mim, eu realmente não sabia onde estava, se era realmente dois mil e oito ou se essa garota só estava de zoação com a minha cara. Afinal, não sabia nem mesmo como vim parar aqui...
– Ok... você não gostou da piada... vamos brincar de outra coisa então... — Ela se levantou e descalça, após tirar seus tênis, seguiu até sua escrivaninha, que deveria ser usada para estudo, mas tinha várias coisas em cima que não tinham nada a ver com física ou geografia, e procurou pelo seu celular, o que me fez ter uma grande ideia, que eu não sei por que não tive antes, talvez pela minha falta de interesse em se preocupar comigo mesma, muito menos com o a preocupação dos meus pais. Ligar para o meu pai. Será que meu celular funciona em dois mil e oito? Será que ele tem sinal? — Vou ligar para um amigo meu... — Não a deixei terminar e me pronunciei antes mesmo dela começar a digitar o número no seu celular antiquado.
– Eu vou tentar ligar para o meu pai... vou lá na sala pegar minha mochila e meu celular, já volto...
– Ok... — Ela falou e logo depois voltou a digitar o número em seu celular, enquanto eu seguia pelo corredor até a sala.
Ao chegar na sala, encontro meus cadernos caídos no chão, além de tudo estar de cabeça para baixo, como a televisão em cima da mesa de centro, os móveis revirados e em total desordem, as janelas escancaradas, ventilando tudo a sua volta, as almofadas em cima do ventilador e várias plumas voando pelo lugar, como se um furacão tivesse passado por ali.
– Amanda! — chamo-a boquiaberta, com vontade de sumir, não para um outro tempo, óbvio, pois sei que coisas estranhas como essa agora iriam acontecer novamente, mas sumir para fora do planeta Terra, ir parar em Júpter não parecia mal coisa agora.
Quando ela chega, começa a se desesperar.
– Meus pais vão me matar, alguém invadiu essa casa, vamos morrer, vamos morrer! — Ela me abraçou e fechou os olhos, respirando em meu pescoço, fazendo-me sentir cócegas, mas não estava preocupada com o que seus pais iriam achar dessa bagunça, muito menos estava preocupada com ladrões silenciosos que invadem a casa, deixam tudo em total desordem e fogem sem nem ao menos serem notados.
Eu estava preocupada comigo.
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