Rua sem saída
2 Capítulo 2
Notas iniciais
♦ Capítulo 2 ♦
De repente esbarro em alguém.
Eu estava tão desesperada que arregalei os olhos, observei em volta e agarrei a gola do seu casaco preto de couro.
Era uma menina. Da minha idade ou um pouco mais velha. Ela segurou forte em meus pulsos para eu soltá-la mas minhas mãos não largavam seu casaco.
– Você está bem? Tá perdida? Dá pra me soltar? Se me soltar eu te ajudo!
Eu não entendia suas palavras. Elas pareciam estar confusas, embaralhadas. Minha cabeça estava zonza demais e assimilar as coisas era a única coisa que eu queria saber, mas que parecia impossível nesse momento.
Eu a soltei. Cai ajoelhada no chão, abaixei a cabeça, fechei os olhos e pedi para que tudo voltasse ao normal. Segurei forte meus joelhos e senti alguém puxando meu ombro.
– Ei! Ou! Você está bem? O que houve?
Abri meus olhos. Olhei para o chão de cimento. Não, não, não podia ser verdade! Eu estava mesmo numa cidade grande. Tudo estava diferente. Eu estava confusa. Como fui parar ali? Como?
– Hã? — perguntei. Não ouvira o que ela havia falado. Na verdade, nem havia prestado atenção.
– Ai, garota estúpida. Fica ae fingindo que está passando mal, que tá tendo alucinações.
– Eu realmente não estou bem. Realmente. — repeti para provar que tudo estava mais confuso para mim do que para ela. — Onde eu estou? Onde?
Eu levantei minha cabeça e a olhei. Ela estreitou os olhos. Eu deveria estar sendo patética.
– É... pelo visto você não está bem mesmo... — falou ela, logo depois cruzou os braços. — Vamos, vou te levar lá em casa. Meus pais não vão ligar.
Ela me estendeu a mão e a ficou balançando até eu pegá-la. Segurei firme e levantei.
Olhei em volta e vi que as casas chiques tinham se transformado em prédios altos e muitas lojas, em uma rua estreita e abafada por sons de carros, buzinas, vendedores de rua, etc.
A segui enquanto ela segurava em minha mão. Esbarramos em muita gente e ao invés deles pedirem desculpas, nós virávamos as costas um ao outro e voltávamos a fingir que nunca havíamos visto a face um do outro. Totalmente desconhecidos.
♦♦♦
Nós seguimos para o apartamento da desconhecida. Ela estava sendo gentil com um estranho. Estava sedendo a sua casa para uma pessoa que havia feito um papel patético no meio da rua.
Ela entrou comigo no elevador e subimos até o décimo quinto andar. No instante que o elevador deu a partida eu surtei, agachei-me no chão e agarrei meus joelhos. Eu nunca havia subido num elevador antes e a pressão que se criava em cima da minha cabeça era amedrontadora.
– O que foi isso? Vamos cair? — perguntei quase chorando. Não deveria chorar por bobagem, não após anos sem chorar por coisas maiores, mas tudo isso era loucura.
– Fica calma. Assim vou achar que você é realmente maluca.
– Você não está entendendo. Eu não moro por aqui, eu moro longe, eu sinto isso. Eu não sei como eu vim parar aqui.
– Vai ver você pegou o ônibus errado...
Ela pareceu calma enquanto eu estava sem saber o que sentia. Frio, dor, solidão? Não estava mais me entendendo, esses não eram sentimentos comuns a mim.
– Em que cidade eu estou?
– São Paulo — Ela respondeu mas percebendo minha cara de perdida, continuou. — Capital.
– Eu não moro aqui perto, eu juro. Eu... realmente não sei como eu vim parar aqui. Eu sou de Volta Redonda.
– Volta Redonda, Rio de janeiro? Ué... não é tão longe assim.
É claro que era, com certeza é. A viagem de ônibus da minha escola até em casa só durava meia hora, agora imagina viajar de ônibus até a capital de São Paulo? Demoraria horas e horas.
Saímos do elevador, andamos um pouco no corredor e logo chegamos na porta de seu apartamento.
– É aqui, bem-vinda — disse ela enquanto abria a porta e esticava o braço para dentro, indicando que deveria entrar.
Entrei abismada. Tudo era tão chique.
– Ah, esqueci de me apresentar, meu nome é Amanda.
– Prazer. Natasha.
Ela colocou sua mão nas minhas costas e me encaminhou para a sua cozinha enorme.
– Tira essa mochila e me conte tudo.
Sentamos nos bancos altos próximos a bancada americana de sua cozinha.
– Quer um copo de suco? — ofereceu-me enquanto se levantava e seguia até a geladeira.
Tirei minha mochila, como ela havia me aconselhado e a coloquei em cima do balcão.
– Aceito sim, obrigada.
Eu deveria aceitar? Nunca, nunca, nunca aceitei ir para a casa de um estranho, mas ela não poderia me fazer nada e creio que ela também deveria tomar cuidado, afinal, eu também sou uma estranha para ela, não me conhece, não sabe nada sobre mim, estávamos agindo errado, mas de alguma forma, era bom tê-la encontrado, creio que nem metade da cidade me ajudaria assim como ela.
Amanda pegou o suco na geladeira. Era vermelho, só me restava saber do que era. Pegou dois copos na pia e os levou até a bancada.
– Obrigada — agradeci assim que ela colocou o copo cheio na minha frente.
– Me explica tudo isso ae. Eu realmente não estou entendendo nadinha. — Ela então deu um gole no seu copo e sentou-se no banco na minha frente. — Você veio de Volta Redonda?
Ela então apoiou os pés em cima do meado da cadeira.
– Eu não sei... de nada, nada mesmo. Eu só sei que minha amiga saiu do ônibus comigo, seguiu pra casa da vó dela e eu entrei na minha rua. Mas de repente eu estava perdida no meio da cidade grande.
– Olha, vamos fazer assim. Me prove que você é de lá me mostrando tudo que você tem dentro da sua mochila.
Abri minha mochila e comecei a procurar minha carteira da escola, como ela mandou eu fazer.
– Eu sai da escola e entrei no mesmo ônibus de sempre. Ai de repente quando eu fui tentar abrir o portão da minha casa eu vi que aquele não era mais meu portão.
Entreguei minha carteira da escola para ela.
– Hum... escola municipal Almeida Froujo. Volta Redonda, Rio de Janeiro.
– É isso ai.
Foi então que ela viu algo estranho e arregalou os olhos.
– Ano de dois mil e doze? Dois mil e doze?!?!
Amanda me apontou a data da minha carteirinha.
– Sim, estamos em dois mil e doze, não é? — estava quase rindo. Que estupidez perder a sanidade só por causa do ano.
– Não! Hoje é dia vinte e oito de setembro de dois mil e oito!
Meu coração pareceu desacelerar por um instante. Não, não, não....
– Continua sendo meu aniversário, só que no caso, de onze anos — pensei alto. Nada mais me assustava. Já estava em outra cidade bem distante da minha, sem entender nada... O que me restava era isso, viajar no tempo.
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