Rua sem saída
1 Capítulo 1
Notas iniciais
♦ Capítulo 1 ♦
Nunca me preocupei muito com nada. Nem comigo.
Se um dia me perguntassem quem eu mais amo na vida, eu diria que é meu celular.
Religião, política, esporte, família, escola, namoro... Às vezes eu chego até a pensar que eu não sou normal.
E é óbvio que eu não sou normal.
É uma coisa humana se preocupar com algum parente ou melhor amigo, mas eu nunca senti nenhum afeto por ninguém.
Mas sabe que às vezes isso é bom? Sim, mas é claro que é bom! Imagina nunca sofrer, nunca chorar.
A última vez que lembro de ter chorado foi de dor quando tinha seis anos e ralei pela primeira vez o joelho. E isso foi deprimente para mim, pois chorar era algo surpreendente e novo.
Isso virou rotina. Não chorar, não amar, não precisar e nem se preocupar com nada nem ninguém...
Às vezes eu vejo minhas amigas chorando por causa de nota baixa, namorado, briga com os pais, etc... E eu sempre me perguntava: Será que isso é ruim?
Sim, é ruim. Muito ruim. Eu ainda me lembro do que eu sentia quando o meu joelho ardia e sangrava sem parar.
Mas esse não é o início que eu quero dar a essa história...
♦♦♦
Era segunda-feira, de manhã. O alarme do telefone tocou e eu abri os olhos devagar. Estava deitada na minha cama de barriga para baixo e com os braços encolhidos em baixo do travesseiro. Fui forçada a tirar um braço de lá e desligar o celular que ficava na cômoda ao lado da cama.
Minha irmã ainda estava dormindo na cama ao lado da minha, separadas pela cômoda. Dormia que nem uma pedra... nunca ouvia o despertador.
Sentei-me devagar na cama e com a coluna toda curvada, levantei-me.
Calcei minhas pantufas do pokemon e fui ainda toda curvada até a cama da minha irmã. A cutuquei nas costas, pois ela estava virada para a porta, e segui para esta.
– Vamos, dorminhoca, hora de acordar.
Quando a abri levei um susto. Minha mãe e meu pai estavam lá, parados, sorrindo e cantando.
– Parabéns pra você, parabéns pra você, nesta data querida...
Nem os deixei continuar e, os empurrando para trás para desbloquearem a porta, segui meu caminho, passando pela sala, cozinha, pelo corredor até o banheiro.
Chegando lá eu me encaro no espelho.
Cabelos caídos no rosto. Camisola de mangas compridas verde água e cinza listrada toda amarrotada e com olheiras um pouco proeminentes.
Perfeito. Não que eu ligue muito para aniversários, mas eu odiava dormir muito tarde antes de ir a escola. Só tinha feito isso porque minhas amigas queriam me dar parabéns antes dos meus pais, e assim ficamos até umas duas e meia da madrugada.
Lavo meu rosto, escovo meus dentes, penteio meu cabelo. Tomo um banho demorado depois saio do banheiro. Logo que chego na cozinha meus pais começam a me rodear. Meu irmão estava lá sentado, desinteressado no assunto que invadiu o clima da casa: meu aniversário. Ele continuou comendo a sua maçã sentado na mesa da cozinha.
Minha mãe me abraça primeiro e aperta as minhas bochechas. Logo depois vem meu pai, ele me abraça todo sorridente e depois se afasta ainda segurando nos meus ombros.
– Quinze anos, meu amor! — grita minha mãe cantarolando enquanto preparava alguma coisa na bancada.
Meu pai continuava segurando meus braços, me proibindo de ir me sentar junto ao meu irmão para comer maçã também. O modo dele de celebrar era cem vezes melhor e menos festivo, exatamente como eu gosto.
– No meu aniversário de quinze anos vocês não celebraram tanto assim... — murmurou Enzo.
– É que quinze anos é mais importante para meninas. É quando elas se tornam mulheres — debateu meu pai, todo sorridente e abobalhado.
Ele finalmente largou meus braços e se sentou ao lado de Enzo. Eu aproveitei e me sentei em frente a ele. Mamãe se sentou em frente ao Enzo.
Bianca acordou e saiu patinando até a cozinha.
– Bom dia, flor do dia — disse minha mãe.
– Bom dia... — murmurou Bianca num fio de voz. Ela seguiu para o banheiro e nós continuamos tomando o café.
Comi uma maçã, como meu irmão, e também tomei um copo de leite.
Levantei-me da mesa assim que Bianca chegou do banheiro e segui para o nosso quarto. Ela se sentou na cadeira onde eu estava, em frente ao papai.
Coloquei o uniforme bem devagar, afinal, eu nunca acordava muito atrasada. Arrumei a mochila rapidamente e me sentei na cama para pôr meus tênis. Bianca entrou no quarto e começou a se arrumar também.
– Natasha, me ajuda a calçar os meus tênis? — perguntou ela.
Os seus oito anos foram marcados por vários tratamentos de timidez, mas como em casa ela era bem íntima de todos, falava mais alto e com menos gaguejo que na escola ou em qualquer outro lugar em que precisasse ser apresentada as pessoas.
– Você tem logo que aprender a amarrar os tênis sozinha, senão todos vão pensar que você é retardada.
Acabei de amarrar os meus e me ajoelhei em frente a ela que estava sentada na sua cama. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e então ela tentou amarrá-los sozinha, antes mesmo de eu chegar perto deles.
– Ok, então... — sentei de novo na minha cama e peguei meu celular na cômoda. Estávamos sentadas uma de frente a outra. Ao mesmo tempo em que eu digitava rápido, prestava atenção em como ela amarrava os tênis. Ela ia fazer um nó enorme.
– Não é assim, deixa eu te ensinar.
Ajoelhei-me novamente em frente a seus pés e comecei a amarrá-los.
– Tá vendo? Você roda aqui, no seu dedo, depois você entra com ele aqui. Viu? É fácil...
Ela me olhou e fez uma careta. Eu entendi que ela não tinha aprendido nada, mas ainda teríamos muitas aulas. Levantei-me e peguei minha mochila em cima da cama. Sai do quarto e vi minha mãe ajudando meu pai a colocar a gravata na sala, como sempre. Passei por eles dois e só me despedi na porta de saída.
– Tchau, até de tarde.
Sai de casa sem nem ao menos dar-lhes a chance de se despedirem, segui até o portão da frente e o abri com a minha chave com alguns chaveiros de animes fofinhas, dadinhos e de corações de pelúcia, entre outros. Assim que sai um vento vindo do sul me atingiu, fazendo meu cabelo voar todo para a minha cara. Bato a porta e sigo para o ponto de ônibus subindo a rua em direção à esquerda. Mais meus cabelos batiam no meu rosto, eu estava contra o vento. Chegando no ponto eu torci para não encontrar com Vinícius.
Vinícius era o filho do patrono da nossa casa e sempre tentava puxar assunto comigo, mas eu não gostava dele.
Ele morava na gigante casa de frente a nossa e sempre estava na varanda do segundo andar olhando diretamente para a janela do meu quarto. Isso o fazia parecer um stalker...
Infortunadamente ele estava lá, sentado no banco e com uma agenda aberta nas mãos apoiadas nas coxas dele. Quando ele me olhou abriu um sorriso simpático que eu mais entendia como uma ameaça. Ele chegou para o lado para me dar espaço no banco. Eu me sentei.
– Bom dia.
Sua voz soou suave e alegre. Odeio isso nele.
– Bom...
– Ah, e feliz aniversário, Natasha. Eu e meus pais vamos hoje à noite na sua casa, seus pais nos chamaram.
O que? Chamaram para o quê? Festa surpresa? Ah, não...
– Te espero lá.
Falei ao me levantar com a cara mais normal que pudesse fazer em uma situação de crise. Estava repleta de raiva, agonia, desespero e ainda por cima muito assustada.
Subi no ônibus, dei o dinheiro ao trocador, passei pela roleta e me sentei no banco antes do ônibus sair. Pude ver o Vinícius me olhando e sorrindo.
♦♦♦
Chegando na escola eu logo encontro com a Laura e a Lorena. Gêmeas e ruivas. Ela me abraçaram juntas e gritaram "Parabéns!". Quando me soltaram, vi a Paola vindo correndo do fim do corredor e logo que chegou perto de nós, me agarrou.
– Não acredito! — exclamou ela estupefata.
– O que houve? — Eu perguntei já corando enquanto ela se afastava.
– Você é mais velha que eu... — Ela cruzou os braços e fez uma careta olhando para o chão.
Fiz cara de sonsa. Era realmente só isso?
– Você já sabia disso, Paola.
– Eu sei! Mas... sei lá, é diferente te ver mulher agora.
Corei. Não, não me sentia mulher como todos diziam que eu iria me sentir quando completasse quinze anos, pelo contrário, me sinto ainda mais infantil do que quando tinha dez anos.
– Eu... bom, eu... eu ainda não sou mulher...
– Ah, eu queria ser a primeira a te desejar feliz niver pessoalmente, pelo menos aqui na escola, né, mas pelo jeito a Lou e a Lau me passaram também.
Ela mudou de assunto, descruzou os braços e tirou uma mecha de cabelo encaracolado escuro do rosto. Lorena se pôs a comentar o ocorrido:
– Mas também com os pais dela super corujas mesmo que dormíssemos lá não seríamos as primeiras a dar parabéns a ela, ainda mais no niver de quinze anos.
Pensei um pouco e... era verdade. E isso só me deixou menos animada para a festa surpresa que eles iriam fazer, o que só demonstrava ainda mais o quanto eu odiava a corujice deles dois.
– Tá bom, gente, vamos entrando por que o sinal já vai tocar... — alertou-nos a Laura.
Entramos correndo no corredor em direção a sala, rindo à toa, devido alguma bobagem que a Paola falou. Elas eram especiais para mim, mas não ao ponto de eu me preocupar com elas tanto quanto elas se preocupam comigo. Eu não fazia isso nem com meus próprios pais ou meus irmãos. Nem comigo.
A primeira aula durou pouco tempo, a segunda, de história, só podia ser, durou quase um século, mas finalmente veio o recreio, botânica na estufa e as aulas acabaram.
Paola saiu da escola comigo. Eu e ela fomos para um lado e a Laura e a Lorena foram para o outro. Demos tchauzinhos animados e sorrimos. Após cruzarmos a esquina, paramos no ponto de ônibus e tudo parecia estar ficando diferente. Não sei por que, nem como, mas eu me senti em outro lugar.Estranho.
Nos sentamos no banco e começamos a conversar.
– E aquele garoto da sua rua? — perguntou Paola toda animada.
Eu ri.
– Bom, ele... — Não queria contar a ela, mas acabei desabafando no fim. — Nos encontramos hoje no ponto, de novo, né, como sempre. Parece que ele me persegue... Ah, ele disse que iria lá em casa hoje.
– É hoje então! É hoje que vocês se beijam! Que ele se declara, que você fica toda envergonhada... — Paola já estava delirando e inventado histórias.
Eu sorri e fiquei acanhada, olhando para o chão. Ele poderia até ser bonito, inteligente, etc e tal. Mas ele não mexia comigo. Não me fazia o querer, sei lá, ou algo do tipo. Beijá-lo poderia ser um erro. Ele era apaixonado por mim e isso era óbvio, mas dar chances a ele eu não queria, principalmente chances erradas.
Eu não gosto dele.
– Não sei, Lola — cruzei os braços.
– Ah, amiga, para com isso, ele gosta de você e ele é gatinho, dê uma chance a ele e eu tenho certeza de que você não vai se arrepender e vai ficar na dele!
Ela sorriu. Seu sorriso branco se destacava na sua pele negra. Ela era relamente linda. Seus lábios vermelhos e os olhos bem delineados de preto. Uma verdadeira princesa do rock. Ela tem uma banda, mas como eu não sei tocar, nem curto muito, eu não participo. Muito menos nossas amigas patys, a Lou e a Lau.
Pegamos o mesmo ônibus já que ela iria para a casa da vó dela que ficava dois quarteirões depois da minha. Descemos no ponto final onde eu tinha encontrado com o Vinícius e então fomos andando até a esquina da minha rua.
– Pelo jeito você descobriu a festa surpresa que seus pais estavam planejando, né. Aquele vizinho não devia se meter!Ai,... mas enfim, até hoje de noite, então.
– Tchau, Lola, até.
– Tchau, tchau, Lala! — Sim, era assim que ela me chamava. Era assim que todas do nosso grupinho me chamava. Dávamos apelidos que começassem com L, como eu era a única que tinha o nome sem letra L, fiquei com Lala.
Ela se despediu aos gritos enquanto subia o quarteirão até a casa de sua avó. A observei até ela desaparecer. Entrei na minha rua. Deserta como sempre. Segui andando vagarosamente.
O vento pelo jeito não mudou de posição. Ele continuava soando para o norte, vindo do sul. Mas desta vez, como eu estava voltando para a casa, o vento levava meus cabelos para trás, os tirando por completo do meu rosto.
Rosto livre, boca livre para passar um gloss e livre de cabelos infortúnios grudando.
Assim que passei o gloss uma rajada de vento veio por de trás, passou pelas minhas costas e levou todo o meu cabelo para o meu rosto.
– Droga! — exclamei sozinha na rua. O vento mudou de posição. Mas que droga... isso não acontece geralmente. Isso não é normal. Como a minha sensação de estar num local desconhecido quando eu estava no ponto próximo a minha escola.
Quando cheguei no meu portão tudo parecia normal de novo. Ufa... cheguei a sentir uma pressão no meu coração e uma dor imensa na cabeça. Esse aniversário estava bem estranho.
Enfiei a chave no buraco mas ela não encaixava direito. Pensei ter enfiado a chave errada, mas não, essa era a chave de casa. Só tinha cinco chaves no meu chaveiro então tentei com todas.
Primeira, nada. Segunda, nem pensar. Terceira, com certeza não era aquela. Quarta, nada novamente. Quinta e última e eu surtei. A chave não deu novamente.
Enzo poderia ter feito alguma pegadinha comigo. Ah... se eu o pegasse sozinho...
Fui tentar tocar a campainha. Quando eu olhei para cima eu vi um portão diferente do meu. Mas que vergonha, eu errei o portão. Se bem que eu não tinha percebido que alguém da rua tivesse trocado o portão por um desses tão sofisticado.
Afastei-me e a única coisa que eu vi foi uma rua diferente. Olhei para os lados e a rua em que eu estava não era mais a minha rua. Minha rua sem saída, pequena e com vizinhos idosos e calmos.
Essa rua em que eu estava era enorme, parecia que não tinha fim. As casas eram de luxo e as pessoas dali pareciam ter grana. Eu me perdi. Era a única coisa que eu conseguia pensar. Me perdi, me perdi, me perdi.
Droga!
Minha amiga pareceu conhecer o lugar, e eu também tinha o reconhecido. Era minha rua a poucos minutos atrás! Por que não era mais? Fui andando apressada.
Andei muito e a rua não acabava. Parecia que quanto mais eu andava, menos eu encontrava alguém para me ajudar. Mas ao mesmo tempo eu fui vendo vultos rápidos virando pessoas, carros passando na rua, barulhos turbulentos de cidade grande.
Eu realmente não estava mais na minha cidade tranquila.
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