Eu sentia escalando pelos meus braços e tentando se misturar ao sangue que escorria pelos meus cortes profundos. Eu tentava inutilmente me livrar mas não conseguia, cada vez que passava a mão direita no meu braço esquerdo machucado tentando empurrar aquilo pra fora de mim, por mais que conseguisse tirar um pouco da minha pele, era como se mais surgisse do nada, de um vácuo existencial. Eu sentia a ausência de algo gerar algo, gerar aquilo, e aquilo gostava de se apegar a mim, queria invadir meu corpo, me corromper em meio ao seu vazio. Eu não podia parar de tentar e não iria parar de tentar, mas eu não tinha como focar naquilo, eu precisava ainda fugir daquela monstruosidade que quase dilacerou meu braço.

O ar entrava em meus pulmões fatiando cada pedaço de mim que percorria por dentro do meu corpo. Parecia acelerado, não só pela minha respiração, mas parecia projetado em sua existência, como se só existisse para que eu pudesse respirá-lo e não precisasse existir se eu não respirar, surgindo apenas o necessário logo na entrada de minhas narinas e por mais que apenas surgisse para que eu inspirasse-o, se eu puxasse mais, mais surgia, num paradoxo criativo constante, como se a própria natureza já não soubesse como se comportar, operando como uma aberração de si própria, quebrando toda e qualquer lógica possível.

Cada passa adiante, apressado e com pouco toque ao chão, era pesado, mais que o necessário, o chão estava ali o tempo todo, mas parecia querer existir como entidade física apenas quando eu o tocava, assim, pego desprevenido, tentava compensar a força dos meus pés um pouco além do necessário, deixando minha pisada mais pesada. Eu sentia cada pequeno atrito do asfalto acinzentado contra meus dedos. Cada nova passada, meu calcanhar recebia um novo golpe que reverberava quase por todo meu corpo, mas eu não podia parar, eu não tinha como parar.

Eu passava por pedras, entulhos e pedaços de concreto. Me esquivava de carros, sucatas, lixo, restos. Ziguezagueava entre os ferros distorcidos e os pedregulhos de algo que já foi, mas hoje não passavam de memórias distantes.

Será que eu já estava longe o suficiente? Será que ainda estava atrás de mim? Será que eu deveria arriscar olhar pra trás? Não sei se era o certo a se fazer, mas eu precisava, meu corpo já não aguentava mais e meu braço esquerdo já quase não pertencia a mim, aquilo estava chegando ao meu cotovelo, um pouco mais e teria entrada franca para todo resto do meu interior. Eu precisava olhar, eu precisava saber. Tentei reduzir o ritmo e olhar pra trás.

Já não me perseguia mais.

Eu precisava descansar, mas eu não podia relaxar, precisava estar a postos caso a qualquer momento eu o visse virando a esquina em minha direção, mas ao mesmo tempo, agora eu estava prestes a sucumbir para algo ainda pior. Comecei a tentar chacoalhar o braço para remover mais daquela peste que me infectava e por um momento até vi que estava cedendo. Eu não entendia porquê estava cedendo, mas cada vez mais tentava menos incorporar a si em meu corpo. Eu não deveria estar aliviado, com certeza ainda haveria mais para me preocupar, mas não pude deixar de notar. Meu braço dilacerado, com feridas profundas, agora mal sangrava. Feridas profundas, agora leves feridas. Caí de bunda no chão e de certa forma acabei relaxando meu corpo apesar de não dever, mas não havia como não me sentir melhor. Feridas leves, agora cicatrizes fechadas.

Não fazia sentido algum. Que tipo de lugar maldito é esse e por que está tudo tão cinza?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.