Ruína

4 Término Para Um Novo Começo


Notas iniciais
Capítulo inteiramente dedicado ao desenvolvimento da ideia apresentada no capítulo anterior. No próximo iremos apresentar diversos novos personagens, então aguentem firme hoho Quando a esse, créditos a: Evandro por Stefan, Lipe por Ariel e Ana por Kath.

Neste horário, o Salão Comunal estaria barulhento. Objetos não identificados cortariam o pouco ar que havia, acertando um e outro. Haveria guinchos, um bocado do bullying e comentários insultuosos. Agora, todos jaziam por debaixo dos lençóis, roncando e tendo os devidos sonhos. Menos Rufo.

Rufo sela suas pálpebras, forçando-se a dormir. Um turbilhão de ideias lhe invade o pensamento, transbordando, causando um desconforto considerável ao rapaz que terá de acordar cedíssimo para que o dia livre se dê aproveitado ao máximo.

A sugestão de um meio de rebelião, de oposição a Brian, lhe permeava o cérebro, lhe tomava todo e qualquer resquício de sono. Único e pertinente foco: o como. Havia de ser desenvolvido um meio de comunicação secreto e eficaz, que transpasse informações indetectavelmente, isto o garoto sabe. O sonserino também sabe que os membros deverão ser seletivos, não quaisquer que ouçam os boatos que surgirão. Outro ponto importantíssimo: os boatos deverão ser mínimos. Brian não é estúpido, se o ponto de interrogação brotar ao homem, todos serão interrogados e claramente não será da maneira legal.

Mas como? Esta é a pergunta.

E o tempo se esvaía. Aos poucos, Rufo cedia ao cansaço. Ciente de sua memória jovem, não anotou o que havia pensado nem nada, só cedeu. Não sonhou. Somente via o mesmo negro de antes...

Quando despertou — uma artimanha de Stefan, que o atingiu com o travesseiro —, a luminosidade inédita lhe tomou o foco. Por consequência da localização submersa dos dormitórios, raios solares pouco existiam nesses domínios. Por outro lado, as tochas possuíam brilho acentuado e eternamente queimavam, fornecendo calor e luz aos discentes.

— Ai, que saco! — Ralha o francês com o antigo companheiro de Quadribol. Mesmo com os roncos injuriantes de Stefan, ele jamais o acordou com tamanha injustiça. Quando ocorreu, foi com água.

Lençóis bagunçados, corpos sonolentos indo e vindo, burburinhos arrastados, comentários desconexos. Este é o ambiente às sete da manhã. Contrastando, como yin e yang, Stefan sorria.

— Já que está todo animadinho, me diz algo. — Aparentemente, Rufo terá de prosear com Brandon. Ainda que o relacionamento de ambos não seja dos mais saudáveis. O castelo é grandioso, encontrá-lo será complicado sem auxílio. — Me diz se viu o Brandon Drakhale por aí. — Cinco segundos. Dez... E não havia resposta. — Que saber? Melhor eu perguntar a Megan. Que inútil você.

Mesmo com os encargos similares, e a paixão por Quadribol, Stefan e Rufo são opostos. O romeno é explosivo, e indubitavelmente vingativo. Já Rufo é reservado, mas, quando é para ser engraçadinho, o é fácil, fácil.

Encontrou sua namorada, Megan, defronte à lareira. Em seu colo, um livro. Em seu envolvo, Ariel e Kath. Rufo os cumprimentou, depositando um beijo na bochecha rosada esquerda de Megan. Nestes tempos, um beijo é capaz de alimentar uma tempestade.

Após um diálogo de cumprimentos, ele a questiona.

— Algum de vocês viu Brandon por aí?

Se possível, Rufo registraria este momento por meio das fotografias mágicas. A mescla de surpresa e temor presentes nas feições de Megan possui um quê notoriamente cômico. O mesmo ocorreu aos amigos, que o encaravam.

— O que você vai aprontar? — Megan conhece Rufo, sabe que o monitor-chefe não mantém contato com Brandon. Sabe que ambos são como fogo e gasolina, um instante e bum! Queimam tudo.

— Preciso falar com ele, é só isso. — Rolou seus orbes, impaciente, o que tornou a situação pior. — É sério! Eu não vou amarrá-lo em uma vassoura nem nada. Só quero conversar. — Amarrá-lo a tal vassoura é uma ideia antiga, que por pouco não entrou em prática.

O ciúme e Rufo são melhores amigos. Mesmo anteriormente ao início do relacionamento amoroso com Megan, ele já possuía uma propensão à relação de posse. Sabe que é errôneo, mas não consegue evitar.

— Ele passou por aqui há uns vinte minutos, disse que iria à biblioteca. Olhe lá, garoto. Não vá entrar em encrenca. — Megan costumava chamá-lo de garoto desde o momento em que o conheceu, e mesmo com o início do relacionamento, pouco se importou em parar. Agora é um cumprimento carinhoso, nitidamente melhor do que “ser”, que também lhe é atribuído.

Quatro andares acima, a biblioteca ocupava um corredor por inteiro. Paredes e paredes abarrotadas de livros, organizados e catalogados, disponíveis para o uso. Livros com décadas, séculos, de idade. Para interessados em poções, plantas, encantamentos, a variedade o ponto forte. Excetuando, é claro, a seção reservada.

Afora, o céu possuía uma coloração extremada de azul, como que existente por efeito de um corante. Nem sinal de nuvens, o ar está seco. Os raios solares transpassavam pela vidraça principal — uma gravura colorida — e iluminavam as feições de Brandon, abandonando à penumbra o restante de sua corpulência. Isto lhe forneceu um ar misterioso que seria levado em conta se quem o visse não o conhecesse, pois o loiro é um livro aberto.

Rufo o alcança, se acomoda em um dos assentos, estando defronte ao rapaz. Olhando nervosamente para os lados, o observa em busca de sua atenção. Quando esta lhe é fornecida, despeja entre sussurros seus pensamentos, que há muito lhe impacientavam.

— Chris nos disse que podemos idealizar um jornal. Eu acho que é extremamente arriscado, sabe? Um documento como este, se em mãos erradas, pode nos colocar em grande problema. Estive pensando... Comunicação é a chave. Devemos nos comunicar e, se houver aglomeração de estudantes em qualquer ponto do castelo, Brian irá desconfiar. — Letra por letra, sussurros. Se não fosse pela aproximação dos rapazes, nem ao destinatário seria possível audição.

— É... — Por minutos encaravam-se, peregrinando por ideias plausíveis.

— Há de ser algo pouco identificável. Pequeno, ordinário... Um anel? Não, não... Vários anéis idênticos podem nos denunciar. O mesmo acontece com acessórios. Ou melhor, com acessórios visíveis.

Com este comentário, silêncio. A deficiência comunicativa é notória. Um turbilhão de pensamentos atinge Rufo, mas o rapazote os guarda para si. O mesmo ocorre a Brandon. Gotículas de suor escorrem pelo delineamento dos rostos, devido à tensão, ao trabalho constante da mente e ao ar sequíssimo.

— Meias. — Opa. O quê?

Os lábios de Drakhale estão iluminados pelos feixes de luz, eles decerto não se moveram — Rufo não deslocou o olhar das feições do garoto que compartilha dos mesmos fins que si e está certo de que sua voz é um tanto mais grave.

Ou seja, de quem é esta voz?

— Vocês, rapazes, são desatentos. — Christine gargalha timidamente. Ao olhá-la, os sonserinos percebem os trajes costumeiros do uniforme acompanhado de tons amarelados. Um broche florido é visível ao lado do distintivo de monitoria e há flores em seu coque. — Eu disse meias. Não vocês. — O risinho é ingênuo, espontâneo.

— Como esta. — Rufo declina o olhar, vislumbrando as longas meias que envolviam os pés e o início de suas pernas. Dotadas de listras amarelas e pretas. Brandon o mesmo, inclina-se curioso. — Quando há um encontro a ser realizado, há uma troca de cores. De amarelo e preto, por exemplo, para rosa e preto. Algo do tipo. Eu pensei antes de dormir e esta é uma ideia que eu venho relevado há um tempo, para que eu tenha dezenas de combinações.

Entreolhando a Christine, Rufo estica os lábios, sorrindo. A garota é de suma importância, sempre foi. Com uma ideia destas, tornou-se indispensável.

— Brilhante. — O comentário é de Rufo.

— Pago um galeão para ver Rufo usando meias cor-de-rosa!

Entre risadinhas, aos poucos, o contexto do diálogo se perde e o trio vê-se proseando sobre sapos lunares espontaneamente.

Como em uma fogueira, o fogo amenizou-se. A rotina escorre como usual, refeição, aulas, refeição, aulas, dormitório, consecutiva e ininterruptamente. Afora, o céu é límpido, azulado. Adentro, penumbra e descontentamento. Um contraste dos grandes.

Os corredores lhe surgem idênticos, um complexo de ires e vires que lhe atinge com fúria. Seu humor, por outro lado, está aberto, bom. Vinha do clube de teatro, no qual é membro por influência de Megan. Ainda recorda-se do sorrissinho abarrotado de segundas intenções, os elogios exagerados — “Ser, como você está lindo hoje!” “Criatura, amo você. Você sabe, não é?” “Sabe... Estava pensando... Você me deve alguns favores...” —, quando se dá por si está ouvindo um coral, em um clube que de longe não lhe apetece.

Sentia-se leve, ausente da capa que é a peça, talvez, crucial do uniforme. A camisa branca desabotoada em seus dois botões superiores, exibindo a palidez do peitoral discretamente. Ainda carregando consigo o sarcasmo que o teatro lhe requereu, sorria, exibindo dentes e tudo, a todos.

Em um assalto, Christine surge de detrás de uma estatueta, carregando-o consigo por um corredor coadjuvante, de amplitude desfalcada. Tentou protestar, mas o “shhh!” ajuizado e cristalino da Lufa-Lufa tornou a sequência de segundos toleráveis, e ele permaneceu-se em silêncio.

Conforme iam, aromas de frutas assomam no ar. Somando isto ao linear sumiço da luz natural, conclui-se que estão abaixo das masmorras, no subsolo. Do truque para adentrar as cozinhas Rufo sabe, o que a cabeça dos monitores não sabe é o porquê de estar sendo levado às mesmas.

Como se uma tocha gigantesca fosse acesa, tudo se clareia. Brandon está lá, mordiscando uma maçã, acenando sorridente.

— Deixe-me adivinhar, ela surgiu do nada, sem mais nem menos? — O Drakhale questiona enquanto mordia a maçã, permitindo escorrer o sumo por seus lábios. Rufo usa de um aceno de cabeça para confirmar a hipótese. — Eu sabia! Estamos em um encontro.

Christine remexia seu lóbulo, expressando estar em meio de seus pensamentos. — Garotos, eu consegui as meias. Estão encantadas, como vos disse. Cores iniciais diferenciadas, para que o uso de meias idênticas não levante suspeitas. Irão trocar de cores, é impossível não notar, pois serão trocas inteiramente notórias. De branco e preto para amarelo e verde, por exemplo. Sem conexões de cores.

Um elfo doméstico desliza sua diminuta corpulência ossuda, aproximando-se do trio, erguendo enfim uma bandeja com dezenas de minúsculos doces. Brandon abandona sua maçã para capturar um, e Rufo sorri, mais pela criatura do que pelo seu gesto gentil.

O tom de Christine adota um quê de profissionalismo. É visível o empenho da moça, que possui uma personalidade genuína e dócil que é opositora ao espírito do atual castelo de Hogwarts.

— O ponto de encontro pode vir a ser estas cozinhas, às vezes a dispensa, que é enorme. Os elfos são amigos fiéis meus, desde meu primeiro ano. Eles não falarão. — A texugo sorri para o que oferecia as guloseimas, piscando os seus olhos repetidamente de modo angelical. Quem não confiaria nestas criaturinhas? — Eu pensei em possíveis situações que nos denunciaria. Sonserinos do tipo maldoso não vêm para cá por preconceito. Certos corvinos o mesmo, mas a maioria para não invadir o território dos lufanos e sonserinos. Os que convidaremos serão de íntegra confiança, então não haverá problema maior.

Com dois dos açucarados na boca, Brandon se manifesta.

— ‘Ilhante! — O som do ato de engolir é ouvido, e há gargalhadas.

Christine retira um rolo de pergaminhos de sua mochila de estampa abstrata, lírios seguidos por lírios. Cooperativamente, os três pares de mãos empenham-se em escrever redonda e caprichadamente um convite, uma sentença de rebeldia. O conteúdo, o conjunto de fatos e uma proposta: agir.

Para mútua segurança, as sentenças, além de somente mostrarem-se ao toque da varinha do destinatário, estão escritas em runas.

“Hogwarts passa por um tempo de trevas. Todos nós sabemos. Com isto em conta, algo precisa ser feito. A afabilidade marcante do castelo se perde a cada segundo e estamos quietos, inertes.

Precisamos agir. Encontrar uma forma de afastar a penumbra que nos cerca. Para isto, precisamos de auxílio, interno e externo.

Cozinhas, sábado, 7 a.m.”

O término para um novo começo.

Notas finais
É isso. Por favor, nos digam o que acham. Seja por meio de comentários aqui no Nyah ou no Facebook, não importa, mas faça, pleasssse. Precisamos de opiniões e incentivo para que tudo decorra como esperado. Equilibrei o tamanho do capítulo para que não fique cansativo e tudo o mais. Obrigado, seus lindos