Royalty
9 Uma conversa normal.
Notas iniciais
Richard já havia voltado pro seu quarto enquanto eu havia ficado na cozinha comendo um delicioso sundae. Segurando uma colher, apoiada no balcão observando Martha lavar a louça do jantar.
Ela havia ficado resmungando por alguns minutos sobre como nós não deveríamos comer doces e como ela deveria não fazer quanto nós pedíssemos, mas ele sempre acabava se rendendo aos nossos olhinhos pidões e nossos 'por favor'.
Eu já havia tirado os sapatos e meus pés doíam com o desconforto de ter passado o dia cinco centímetros acima do que eu realmente queria, e o chão frio deve uma sensação de alívio que só poderia ser substituída por um longo banho quente. De preferência, de banheira.
Sentada em um banco alto, com os cotovelos apoiados no balcão, suspirei. Não aguentava mais comer sorvete, e por mais que Richard também tivesse comigo comido, não havíamos chegamos nem na metade do pote.
Martha ouviu meu suspiro e se virou pra mim enquanto ensaboava um prato.
— Você é gulosa. — ela disse sem nenhuma repreensão na voz, apenas declarando uma coisa que ela já sabia
— Sou. — concordei abaixando a colher — E você é uma ótima pessoa, que me ama tanto que vai fazer um chazinho pra me esquentar.
Ela riu e voltou a lavar a louça.
— Não sabia que você tinha que chantagear para conseguir coisas, princesa.
Ouvi uma voz as minhas costas e tentei segurar o suspiro, juntando minhas energias para não virar.
— Não é chantagem quando a pessoa tem a opção de escolher sem ser rechaçada. — falei voltando a colocar a colher no pote
Ele me contornou e puxou um banco para se sentar a minha frente, sorrindo enquanto pegava a colher cheia de sorvete da minha mão e colocava em sua boca.
Ele havia tirado as roupas características de príncipe, usando apenas uma camiseta cinza de pijama e uma calça cargo preta, assim como eu, ele não tinha sapatos nos pés.
Engoli e seco com a visão dele e foquei meus pensamentos em outra coisa. Como na injustiça dele poder andar assim pelo castelo. Aposto que se eu tentasse andar com algo que não vestidos eu seria xingada. Bom, não pela minha mãe ou pelo meu pai, mas pelos empregados.
Eles, pelo menos, me olhariam torto.
E é por isso que o máximo que eu havia conseguido fazer para aliviar o peso das minhas roupas era ter tirado o sapato e a saia de armação do vestido, que costumava pinicar a cada passo que eu dava.
A essa hora do dia eu já estava rezando pela minha cama.
Por isso eu demorei alguns segundos para processar tudo que havia acontecido durante o dia, sobretudo no jantar, sentindo o meu rosto esquentar enquanto eu observava o homem a minha frente que calmamente puxava meu pote de sorvete em direção a ele, continuando a comer.
Respire.
— Você sabe que você pode apenas mandar nas pessoas certo? Você é uma princesa. — ele disse pegando mais um pouco do pote
Eu estava meio atordoada com toda essa situação. Não me dei conta de que Martha observava de canto de olho a nossa ceninha.
— Não se pode fazer com que as pessoas façam algo que não querem. É errado. — eu disse levantando
Ele deu um meio sorriso e levantou as sobrancelhas.
— E ainda sim, eu estou aqui.
Bufei um tanto indignada. Ele estava mesmo me dizendo que não queria estar aqui?
— Se não está feliz com a hospitalidade que o rei e a rainha proporcionam pra você e sua família, fique mais do que a vontade para fazer bom uso da porta da frente do castelo. — levantei do banco e me virei para Martha sem dar a chance de ele me responder — Pode levar o chá ao meu quarto quando acabar aí?
Ela sorriu pra mim e concordou.
— Claro querida, pode ir.
Abaixei a cabeça ao passar por ele e segui por a fora sem me pronunciar.
Quando estava chegando às escadas senti uma mão em meu braço me puxar para o lado.
Fiquei de frente para Justin e não me contive em levantar o queixo, como da primeira vez e mostrar que eu não estava nem um pouco inclinada a ceder.
Ele suspirou me soltando e passou uma das mãos pelos cabelos castanhos.
— Eu... eu acho isso uma atitude de respeito. — ele murmurou tão baixo que achei que estava inventando — É nobre. Bem mais nobre do que eu consigo ser.
Deixei meus ombros relaxarem com aquele pedido de desculpas velado e tentei abrir um mínimo sorriso.
— Treinamento de princesa.
Ele riu e se apoiou no corrimão dourado da escada ao nosso lado.
— Você — ele limpou a garganta e vi seu pomo de Adão subir e descer, de repente eu havia começado a salivar — você vai ser uma ótima rainha quando assumir.
— Se. — eu murmurei pensando que eu não tinha certeza se conseguiria mesmo assumir o trono com toda aquela confusão acontecendo
Ele franziu as sobrancelhas.
— Você não pretende assumir? — ele perguntou
Eu ri.
— É claro que pretendo. Mas, às vezes, as coisas não saem como planejado.
Ele assentiu.
— Você precisa se casar pra conseguir cumprir o roteiro.
Olhei para surpresa por ele ter percebido isso tão rápido. Claro que minha mãe nem ao menos tentava esconder esse fato, mas achei que levaria mais tempo pra ele entender qual era o objetivo do baile pelo qual ele estava ali.
Inspirei fundo e concordei.
— Infelizmente, por ser mulher eu tenho que me casar para poder assumir o trono.
Parecia que eu vivia repetindo essa maldita frase e pensei o quanto não teria sido melhor se em vez de ser a mais velha, eu fosse a mais nova, e meu irmão fosse o herdeiro legítimo.
Ninguém esperaria nada de mim além de parecer bonita e real.
A vida seria um doce.
Justin inclinou a cabeça para o lado e olhou em meus olhos.
— Você não quer realmente se casar. — ele afirmou, mas seu tom soou mais como uma pergunta
Apoiei as mãos na cintura.
— De verdade? Não, mas não é como se eu tivesse muita escolha.
Ele fez que ia falar, mas eu o interrompi.
— É, na verdade, muito simples. É isso ou abrir mão do meu país.
Ele se inclinou para frente pronto para me contrariar.
— Não é fácil. É escolher entre ser feliz ou não.
Dei de ombros e, assim como ele, me apoiei na escada.
— Somos da realeza. Por mais que isso soe ridículo, é esperado que façamos alguns sacrifícios pelo bem maior. Isso inclui abrir mão de certas coisas.
— Acho que essa lei que é ridícula.
Eu ri e me inclinei para frente.
— Realmente, essa lei é bem ridícula.
Ele abriu um sorriso e o meu caiu do rosto. Ele tinha um ótimo sorriso. Os dentes brancos e bem alinhados me fizeram querer contorcer os dedos dos pés e hiperventilar.
— Percebeu que estamos tendo uma conversa normal sem nenhum insulto? – perguntei inclinando a cabeça para ele e soprando uma mecha de cabelo que havia caído na minha testa
Levantei o olhar para ele e ele cuidava a mecha de cabelo que eu havia jogado para o lado. Limpei a garganta e seus olhos se voltaram para os meus.
— Ahn... – ele suspirou e negou com a cabeça – Então, eu já vou indo. – ele se afastou lentamente e deu um mínimo sorriso – Até mais, princesa.
Esperei alguns segundos, enquanto ele dava a volta no corrimão para subir a escada, e respondi.
— Até mais, príncipe.
Escorei-me na parede ao lado da escada e expirei fundo. Pensamentos indecorosos não me levariam a lugar algum nesse momento. Deveria guardar eles apenas para mim.
E voltar a odiar o Justin assim que eu parasse de suspirar por ele.
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