Royals

1 Capítulo 1


Meu pai sempre me disse que o primeiro passo para ser um bom caçador é fazer silêncio.

“Você deve controlar sua respiração, manter a calma e sobre nenhuma, nenhuma circunstância assustar a presa”. Bem, eu tinha me tornado uma excelente caçadora. E ainda abatia um cervo ocasional às vezes, mas desde que o inverno começara a pairar sua sombra depressiva sobre nós, eles migraram para o sul para sobreviverem ao longo período sem comida. Eu me estiquei em um tronco para ver melhor minha presa. Um filhote de Javali que havia se separado de sua mãe e que vasculhava a terra em busca raízes e pequenos insetos. “As leis da vida dizem para nunca se afastar dos mais fortes, amiguinho.” Eu recitei em voz baixa, me preparando para atirar. Eu coloquei uma flecha em meu arco e o alinhei próximo ao queixo, soltando pequenas respirações. Não percebi que o vento tinha mudado e que agora soprava na direção oposta. O filhote, -que devia pesar o equivalente à três esquilos – pareceu notar minha presença, pois levantou a cabeça e farejou o ar para saber a minha localização. Mas eu atirei antes que ele escapasse, saindo da arvore e indo onde seu corpo se contorcia antes de dar o golpe de misericórdia. Não gostava de matar, mas depois que meu pai se fora em uma cruzada para defender nosso reino contra os homens sem rosto, tive que assumir a responsabilidade de cuidar de minha mãe doente. Então entre manter nossas barrigas cheias ou definhar até a morte quando o inverno chegasse, tirar a vida de um animal não me parecia uma opção tão ruim.

Eu busquei por uma corda e amarrei o cadáver pelas patas, foi então que eu escutei um grunhido feroz que fez minhas entranhas congelarem.

Eu me virei cautelosamente a tempo de ver um par de chifres brilhantes de uma mãe nenhum pouco feliz soltando vapor pelas narinas do outro lado da campina. E para piorar tudo eu tinha deixado meu arco perto de uma raiz há pouco mais de três metros de distancia. Não tinha como pegá-lo. A mãe por outro lado parecia cada vez mais feroz e apavorante e agora começara a raspar uma das patas dianteiras no chão.

Eu engoli em seco. Talvez se eu conseguisse correr até o tronco da arvore pudesse subir nele para me proteger, mas no intervalo de uma respiração o enorme animal correu em disparada na minha direção. Eu me levantei e comecei a correr, mas tropecei em uma raiz exposta caindo de cara no chão. Era o fim.

Quando eu fiquei a centímetros da morte, uma flecha veloz e certeira atingiu a javalina bem no coração fazendo-a cambalear e errar o alvo.

Eu fiquei ali, tentando recuperar o fôlego, olhando para o Animal que há poucos segundos poderia ter me matado.

- Deveria ter mais cuidado. – Disse uma voz fria saindo das arvores.

Eu devo confessar, que quando a luz da lua o atingiu por completo eu perdi a respiração outra vez. Ele era muito bonito. Usava roupas de linho perfeitamente limpas, e sua camisa estava aberta no colarinho deixando parte do peito a vista. O meu salvador, tinha os cabelos bem pretos e penteados para trás, sua pele era pálida como a neve, e seus olhos frios era de um tom azul céu. Seu rosto estava fechado, o que apenas delineou a barba por fazer em seu rosto. Seu corpo era alto e esguio. Eu não me lembrava de tê-lo visto no mercado. Na verdade eu nunca o tinha visto em lugar nenhum.

- Quem é você? – Perguntei arfando.

Os olhos dele hesitaram e por um momento ele pareceu pensar.

- Não importa quem eu sou... Por que está na floresta a essa hora da noite? Sabe que não é seguro já que nossas fronteiras não estão sendo mais vigiadas.

Eu olhei para o rosto estonteante dele, perplexa.

- Estava caçando. – Respondi me sentindo como uma criança errante.

- Percebi. – Ele revirou os olhos. – Volte para casa. Há minotauros, centauros e muitas outras criaturas que vagam por ai durante a noite. – Ele andou até onde estava meu arco, se abaixou e o apanhou. Eu me levantei e bati as mãos em minhas roupas para limpa-las quando o estranho lançou o arco para mim e se virou para ir embora.

- Hey, você ainda não me disse quem é! – Reclamei, mas ele continuou andando. Até andando ele era de tirar o fôlego.

Fiz o inimaginável. Puxei uma flecha do meu arco e apontei para ele. A adrenalina disparou pelo meu corpo outra vez.

- Se você não me responder eu atiro em você. – Minha ameaça chamou a atenção dele.

Quando se virou estava relaxado como se eu tivesse apontado uma pena para ele.

Hunf. Ele deu um sorrisinho.

- Tremendo desse jeito? O máximo que conseguiria é acertar um pobre texugo em sua toca... Se quiser ferir alguem deve ser mais precisa. – Ele puxou seu arco tão rápido que num segundo ele estava apontando para mim de volta. Os olhos firmes de caçador me observando astutamente. Ele parecia perigoso. Meu coração disparou.

Muito habilmente suas mãos miraram o céu e num segundo uma coruja caiu entre nós, com uma flecha no coração.

- Não ponte uma espada para um guerreiro melhor do que você. É tolice. – Ele disse quietamente e então se virou e começou a andar floresta adentro.

Eu soltei meu arco e corri para alcançá-lo. Mas ele havia sumido de vista.

- Hey! – Eu chamei adentrando mais entre as arvores. – Hey, onde você está?

Eu iria gritar outra vez, mas uma mão tapou a minha boca e a outra me arrastou para trás de uma arvore abruptamente.

Eu tentei gritar, mas a mão dele estava pressionando meus lábios.

- Shhhhh! – Ele sibilou em minha orelha e aquilo me fez arrepiar.

Nossos corpos estavam colados um no outro e a respiração calma dele estava em minha nuca.

- Centauros. – Sussurrou e eu parei de gemer automaticamente. Centauros não eram criaturas amigáveis.

Segurei o ar, enquanto o meu salvador vigiava o grupo de centauros se afastar.

Quando ele me libertou seus olhos azuis ameaçadores me fitaram e minhas bochechas arderam.

- Qual é o seu nome?

Eu fiquei sem voz.

- Ariana. – Respondi. Era irritante como as palavras escapavam de mim.

- Ariana. – Ele repetiu. – Volte para casa. E isso não é um pedido.

2-

Eu entrei em casa e coloquei minha caça sobre a mesa enquanto ia verificar minha mãe. Fisicamente falando minha mãe e eu teríamos sido gêmeas idênticas em uma vida em que eu não fosse sua filha, ainda que deprimida. Eu tinha o mesmo tom de pele que o dela, ainda que a febre dos últimos dias a deixara com um aspecto esverdeado. Os cabelos castanhos eram castanhos, por que todos os Goldfrey que vieram antes de mim estabeleceram essa linhagem. Mamãe dormia calmamente em seu colchão de palha, sob a luz quente da lareira.

Nossa casa ficava nas periferias do reino de Firen, e eu precisava apenas atravessar alguns pastos para estar na floresta.

Antes de ser um guerreiro meu pai cuidava de um pequeno grupo de ovelhas que alimentavam o mercado da cidade. Aprendi com ele a tirar leite e a vender o queijo. E graças a isso tínhamos o que comer na mesa. Mas as constantes crises da minha mãe estavam começando a me preocupar.

Ela tinha se fechado tão profundamente dentro de si depois da morte do meu pai que se esquecera de que ainda tinha uma filha de treze anos para cuidar. Eu não a culpava por isso.

Fui para o meu colchão de palha pensando no estranho garoto da floresta e adormeci pensando em olhos azuis.

Eu acordei na manhã seguinte e me preparei para ir até a cidade para trocar o filhote de javali. Eu embrulhei-o em um pano e o amarrei em meu vestido. Selei Safira, minha égua branca que tinha ganhado de presente do meu pai e parti.

Não demorou muito para eu estar nas terras do reino. Firen estava localizado ao norte do continente de Azhur, onde o terreno é montanhoso e viviamos graças a um poderoso encantamento da pedra da prosperidade, assim como os anões no lendário reino de Avalon escondido em algum lugar do subsolo e as fadas em Gaddwick na floresta das vozes. Nossa vida seria boa se não fossem os constantes ataques dos homens sem rosto ao nosso reino. Em todas as vezes que eles vieram, deixaram uma marca para nos lembrar de que estavam chegando.

A rua principal do reino estava cheia de comerciantes, homens velhos e camponeses vendendo suas verduras. Todos se atrelavam uns contra os outros em uma corrente viva pela busca dos legumes mais frescos. Ao horizonte a sombra majestosa do poderoso lar imperial tirava o fôlego.

Em dias de agitação o rei visitava o mercado na companhia de seu filho mais novo, Raga da terceira casa. E nesse dia todas as jovens solteiras que cobiçavam fazer parte da realeza se reuniam na praça na esperança de que ele as notassem. Eu me lembrava de tê-lo visto apenas uma vez quando tinha catorze anos. Ao contrário do pai, Raga não tinha os cabelos negros, na verdade eles eram dourados em um tom quase cobre e mesmo naquela época ele era muito bonito também.

Eu amarrei Safira quando cheguei a loja mais cheia de toda Firen. A “Riddots bugigangas e acessórios.” que ficava no centro do comércio. A Riddots Bugigangas e acessórios não era só isso, você poderia encontrar uma infinidade de coisas lá, desde cerveja de limão até filhotes de tatu-corujas para suas plantações. Como eles conseguiam aquilo ainda era um completo mistério...

No balcão de madeira improvisada, eu fui recebida pelo dono do estabelecimento, Sir. Utah Flawburg, um homem robusto e muito talentoso na arte de ser artesão.

- Ariana! – Ele exclamou com um sorriso no rosto enquanto eu colocava minha mercadoria no balcão. – Que bom vê-la outra vez, e viva! O que tem para mim hoje querida? – Ele perguntou verificando a mercadoria.

Sir Utah era um velho experiente de guerra. Comandou pessoalmente a primeira tropas de navios do reino na primeira batalha naval contra os homens sem rostos, mas agora ele se limitava apenas a cuidar de seu único filho, Galeon, que fazia a palavra “estabanado” ter um novo sentido.

- O de sempre. – Dei de ombros, me entretendo com uma gaiola de filhotes de galinha-gambá, que estava sobre o balcão. – Os bons cervos estão indo para o sul.

Ele suspirou tristemente com a informação.

- O inverno vai ser terrível. Há anos, não vejo noites tão frias como estas. Espero que você tenha um bom estoque de lenha para queimar. — Ele disse ao terminar de examinar o javali. Sir Utah, conheceu o meu pai antes dele partir. Ele foi quem me alimentou quando minha mãe não podia mais.

- Sim senhor.

- Tome. – Ele colocou um saquinho com trinta alções em cima da mesa. – Compre algo para se proteger dos dias frios, filha. – Ele piscou para mim por trás da densa cabeleira branca.

- Obrigada. – Eu disse me virando para ir para a próxima loja.

Fiz uma lista mental com o que eu deveria comprar. Eu estava na segunda avenida quando um grupo de mulheres passou por mim cochichando:

- Vocês ficaram sabendo? Ontem a noite um grupo de rebeldes do sul atacaram o palácio. – Uma delas comentou. – Fiquei sabendo pelo meu marido, que é guarda do castelo, que levaram algo do rei, mas ninguém sabe o que é.

Eu fiquei imaginando o que eles poderiam ter levado dessa vez, e cogitei mentalmente se a posição geográfica que meu casebre se encontrava seria segura.

Comprei folhas de erva cidreira de um senhor de expressões fechadas.

Estava saindo da loja quando um grupo de soldados entrou.

- O rei ordena que todos os súditos compareçam ao pátio do palácio imperial antes do fim do dia. – Um deles, o maior gritou pela rua enquanto os outros faziam o mesmo.

Instantaneamente os burburinhos começaram. O rei nunca convocava os seus súditos a não ser em casos de extrema urgência ou para discutir assuntos de interesse internos. Passei o resto da tarde cuidando da minha mãe e dando de comer a minha cabra. Comprei um arco novo também, feito de madeira e malha para caçar. Minha mãe estava piorando cada vez mais e eu percebi que em breve ela precisaria se tratada.

Quando o crepúsculo se anunciou no céu, eu peguei meu arco e Safira, e segui para a cidade.

A temperatura dos vales tinha caído e os primeiros sinais do granizo já se podiam ser vistos acumulando-se sobre as gramíneas. Eu usava um véu na cabeça para me proteger do frio e minha melhor roupa também. Não queria passar a impressão de uma morta de fome, ainda que a situação caminhasse inevitavelmente para tal. Tinha preocupações adicionais com a minha mãe e a promessa de nunca deixá-la. Mas minha situação não era das melhores.

Depois de amarrar Safia seguramente, eu acompanhei o fluxo de pessoas que iam para alem dos muros do palácio.

Fiquei surpresa com a possibilidade de alguém conseguir invadir aquilo e sair com vida.

Além das pessoas que se abarrotavam, havia um pódio onde quatro tronos repousavam vazios. Não imaginei que toda a família real fosse estar presente, o que só significava que a situação era grave.

O primeiro a aparecer foi o rei, acompanhado pela rainha Dayenna, segurando seu braço. Não precisava dizer que a rainha era linda para dizer que o rei tinha um casamento feliz. Seus cabelos estavam perfeitamente trançados com flores em espiral para combinar com seu vestido verde de renda. Ambos se sentaram e o publico se calou. Após isso, ouvi um suspiro coletivo quando o príncipe Raga da terceira casa, foi anunciado.

O motivo ficou evidente, assim que ele deu um sorrisinho de tirar o fôlego para todas as jovens, que soltaram mais suspiros extasiados. O príncipe Raga era atraente à sua maneira, o cabelo loiro emoldurava seu rosto até a altura do queixo e ele tinha uma barba por fazer. Os olhos cinza ele tinha herdado da rainha Dayenna, mas as covinhas na bochecha vinham do pai. E mesmo sendo grande, seus movimentos ainda eram perfeitos. Ele se sentou ao lado esquerdo da mãe e esperou a vez do seu irmão ser anunciado.

O príncipe Navi era o verdadeiro herdeiro do trono, mas quase nunca era visto em público. Muitos acreditavam que ele não queria ser rei, e duvidavam de sua aptidão para tal, verdade ou não ele ainda era um completo mistério.

Quando as cortinas se abriram e as trombetas soaram meu queixo caiu.

Ali, bem na minha frente estava o garoto que me salvou daquele javali. O olhar azul meio perdido, diferente do olhar perigoso da floresta. Ainda assim estava magnífico.

Eu ainda estava embasbacada quando nossos olhares se conectaram assim que ele se sentou. Tive a impressão de ter visto um fantasma de um sorriso atravessar o seu rosto, mas não tinha certeza.

Todos os Fireanos fizeram silêncio e enquanto isso eu tentei me concentrar no que o mestre de cerimônias estava dizendo ao invés de olhar para Navi.

Depois de algum tempo o rei Dhiren se levantou e deu alguns passos à frente.

- Boa noite caros cidadãos de Firen. – Ele começou. – Receio que estejam se perguntando o motivo pelo qual ordenei aos meus homens que os convocassem no mercado hoje mais cedo, não? Bem logo mais todos saberão, mas antes, gostaria de lhes contar uma história. – Olhar o rei andar de um lado para o outro era uma completa diversão. – Todos aqui sabem, que nosso reino foi fundado há mais de dois mil anos por colonizadores sulistas, que fugindo do rigoroso inverno encontraram em nossas terras as condições para construir uma nova civilização.

>— Firen assim como Gaddwick e Avalon, é um dos três reinos abençoados pelo próprio Deus Azhur, que julgou aqueles que não eram dignos de viver em seu país criando uma divisão conhecida como a floresta dos gritos, que separa nossas terras em norte e Sul, para que as trevas do sul jamais se encontrassem com a luz do norte.

>— Como prova de seu amor pela sua criação, Azhur presenteou cada cidade com uma pedra diferente. Para Avalon, o reino dos anões, lhes fora concedido a pedra da escuridão, para que eles vivessem em segurança. Para Gadwick, Azhur ofereceu a pedra da natureza, criando uma floresta ao redor do reino élfico para que nada os encontrassem. E para Firen ele deu a mais poderosa das pedras. A pedra da prosperidade, para que nós seus descendentes pudéssemos prosperar em seu nome.

O rei parou e naqueles segundos um alfinete caindo poderia ser ouvido.

- E Azhur disse para que nunca procurássemos o Sul, por que ele já está corrompido. Porém algo aconteceu com a barreira mística que ele colocou na floresta e a cada vez mais o escuro vem causando caos em nossas terras. Ontem a noite, homens do escuro estiveram no castelo e roubaram algo de extremo valor para o nosso povo. Não sabemos o que eles estão tramando... E temo por um caos generalizado, mas nosso reino perdeu sua proteção... Por que a pedra da prosperidade foi roubada.

Um burburinho se instalou mais rápido do que gafanhotos em uma plantação. O mestre de sala pediu ordem, até que o publico finalmente se acalmara. A expressão do rei era de culpa. Mas ninguém diria em voz alta e clara.

- E é por isso que estou enviando meus próprios filhos, Raga e Navi da terceira casa, para trazerem nossa pedra de volta para o nosso povo. – Nesse instante a rainha desatou a chorar. Senti pena dela, por que estaria arriscando a vida de seus únicos filhos, para salvar nosso reino. Raga acariciou o ombro dela como forma de consolá-la. – E a quem mais se voluntariar a ir com eles, garantirei que tenha abundancia de pão em sua mesa, e todos os benefícios que a família real usufrui. Seus familiares serão tratados como heróis e estatuas em suas homenagens serão levantadas no coração de Firen. Mas pensem cuidadosamente. Entrar no reino das sombras não será fácil, tampouco sabemos o que iremos encontrar lá. Mas se quisermos sobreviver ao rigoroso inverno nossa pedra tem que ser trazida de volta. Ao findar desta audiência, esperarei ao lado de minha família no salão principal por voluntários. Por ora é tudo o que tenho a anunciar.

E assim as pessoas se levantaram quando a família do rei se foi. Todos estavam preocupados, isso é claro. Nosso povo sobrevivera aos invernos duradouros graças a pedra que nos garantiu alimento e proteção. Mas se os homens das sombras roubaram-na isso significava que estávamos vulneráveis aos ataques do sul a qualquer instante. Fiquei pensando no que o rei dissera sobre nunca faltar comida para a família dos voluntários. E talvez a solução para o problema de saúde da minha mãe pudesse ser resolvido se eu me voluntariasse.

Eu tinha experiência em caçar, e já tinha ido até os limites da floresta dos gritos com meu pai antes, mas só de pensar em atravessá-la fazia milhares de borboletas estourarem no meu estômago. No entanto Raga e Navi iriam sozinhos, por que duvidava que alguém em nosso reino seria corajoso o suficiente para se voluntariar.

Eu sai com a multidão, mordiscando meu lábio inferior. Eu devia ajuda à Navi, por ter me salvado, e poderia ajudar minha mãe a não perecer de fome.

Meu coração bateu mais forte. Eu me virei não acreditando no que iria fazer.

As pessoas saiam pelo portão, espremendo-se umas as outras enquanto eu lutava para chegar até as portas do salão principal. Eu respirei fundo para dispersar a tremedeira dos meus ossos.

Ao chegar em frente as maiores portas de madeira que eu já vira na vida dois soldados abriram-na para mim. E tão logo o calor invadiu a minha pele.

O salão principal era gigantesco se comparado ao pátio do castelo. Pilastras de concreto formavam duas fileiras até os quatro tronos, onde toda a família real estava sentada. Navi olhava com desinteresse para qualquer ponto do castelo, enquanto Raga apertava afetuosamente a mão de sua mãe. Fiquei sem jeito por presenciar uma cena tão intima. Mas me mantive firme em minha caminhada até eles.

O rei foi o primeiro a me notar, os olhos brilharam com dúvida? Diversão? Curiosidade?

Fiz reverencia e esperei até que ele permitisse minha fala.

- Majestades. – Fiz um esforço para manter minha voz limpa.

- Levante-se filha de Firen. O que faz aqui? – Ele perguntou com voz bondosa.

Fiquei um pouco mais aliviada com o tom de sua voz, e quando me levantei me deparei com o olhar atordoante de Navi em mim, provavelmente ele se lembrara de mim.

Eu olhei de um por um, de Navi até Raga, que me olhava com ávida curiosidade também.

Eu fechei minhas mãos em punho.

- Gostaria de acompanhar vossos filhos em sua jornada até o sul se vossa majestade permitir. – Disse sem encará-lo nos olhos.

Vi pelos movimentos das pernas que o rei se remexeu em seu trono.

O rei olhou para a rainha, que me lançou um olhar terno.

- Estaria disposta a arriscar sua vida querida? – Ela perguntou docemente.

- Se vossa majestade permitir. Sim. – Decidi não contar sobre o estranho encontro na floresta com o príncipe Navi. Eu procurei pelo seu rosto e o vi bufar de fúria?

- Não há necessidade. – Ele interveio. – Raga e eu não precisamos de uma garota para acrescentar as nossas preocupações. Ficaríamos vulneráveis em um campo de batalha. Veja papai. – Ele apontou para mim. – Ela é apenas uma camponesa, se quer tem a postura de um guerreiro.

Senti vontade de chorar diante da sua fala, mas reprimi as lagrimas para não aumentar a minha humilhação.

A rainha disse algo em minha defesa, mas eu não ouvi o que era. Raga por outro lado estava sorrindo para mim, o que me fez corar e ficar mais nervosa.

— É verdade que sou apenas uma camponesa. – Eu disse. – E que nunca estive em um campo de batalha, tão pouco fui treinada para isso. Mas aprendi a sobreviver de um modo que garanto que sua alteza jamais precisou. – Puxei uma flecha e armei o meu arco, rapidamente mirei para uma estátua no canto esquerdo da sala e disparei a flecha atingindo-a no meio de sua testa. Meu coração pulsava com a adrenalina. – Mas eu aprendi a nunca apontar uma espada para um guerreiro melhor do que eu. Por que é tolice.

Raga explodiu em risadas enquanto a raiva consumia o rosto do irmão.

- Eu adorei ela! – Ele exclamou e aquilo fez o rei rir. – Eu quero que ela esteja conosco papai.

Eu respirava ofegante, mas segurei o riso.

O rei Dhiren olhou calmamente para Navi.

- Acho que não temos mais objeções.

Navi me encarou com fúria nos olhos, o que me fez encolher. Nunca vi seu olhar tão ameaçador.

- Que seja. – Ele disse seco.

A rainha Daiena se levantou e caminhou elegantemente até mim, pegando em minha mão. A mão dela era macia como um botão pela manhã, fiquei com vergonha pelo contraste de nossas peles e tive que lutar contra a vontade de puxar minha mão.

- Seja bem vinda, querida. – Ela me olhou com súplica. – Ficarei grata se acompanhar meus filhos nessa longa viagem. Há algo que eu possa fazer para retribuir?

- Por favor, minha mãe. – Eu implorei. – Ela é tudo o que me resta, e está muito doente, ajude-a, majestade.

Daiena balançou a cabeça e eu vi a carranca de Navi se desmanchar.

- Traremos sua mãe para o castelo, não se preocupe.

- Enviarei meus homens para buscá-la. No entanto você deve permanecer no castelo para se preparar. Vocês partirão logo pela manhã, devem estar descansados. Girald e Elia! – O rei chamou e duas empregadas apareceram rapidamente. – Preparem um quarto para a senhorita...

- Ariana.

- Ariana e um para sua mãe.

Raga, se levantou e veio até mim. Fiquei nervosa com a aproximação dele.

- Bem vinda ao grupo, Ariana, mal posso esperar pelo amanhã. – Ele disse sedutoramente e aquilo teve efeito imediato em mim.

O rosto de Navi ficou evidentemente vermelho e empurrando o trono ele saiu abruptamente.

Notas finais
Comentem Por favor, Obrigado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.