Royals
17 Capítulo 17
Notas iniciais
É incrível como canta minha satisfação
Minhas duas joias polidas ficarão
Se dançares na escuridão
Ouvires o bater de seu coração
Sinta-me alegre e felicitada
Mostre-me o caminho para casa
Se tinha algo que eu realmente odiava era o maldito alarme para despertar. Eu teria caído na cama se não o estivesse esperando há alguns minutos, apenas porque a voz tinha parado de cantar em meu sonho.
Respirei fundo mais ou menos umas dez vezes antes de me levantar, checando se havia alguém no quarto para que pudesse me trocar com mais conforto. Eu estava sozinha, como na grande maioria das vezes.
Troquei o pijama pelo maldito uniforme e fui fazer minha higiene no banheiro. Não é como se eu tivesse dormido mal, muito pelo contrário, porém eu não queria ter aula, eu não queria ter provas e eu não queria responder pergunta alguma.
Respirei mais algumas vezes antes de sair do quarto depois de devidamente vestida. Quase dei de cara com Olívia quando saí. A vampira parecia totalmente desconfortável, só não sei se era com o uniforme ou se com a situação.
–Relaxe, a coisa não costuma ficar muito complicada por aqui. –Falei.
–Você não parece ter muita segurança.
–Bem, o que vale é tentar. –Fiz uma careta. –E comer, é claro. Estou morta de fome.
–Posso te fazer companhia nesse aspecto. –Ela murmurou. Passamos pela porta de Kate e a mesma saiu rapidamente, com a maior cara de morta-viva que eu já presenciara.
–O que houve, Kate? –Perguntei.
–Pesadelos apenas.
–Com o que?
–Esse é o problema. –Ela soou irritada. –Eu esqueci!
Eu sorri.
–Quem sabe você se lembra mais tarde....
Nós paramos por aí simplesmente porque chegamos e eu estava com muita fome mesmo. Peguei um pão e umas fatias de bolos e tentei comê-los normalmente, sem parecer muito grosseira.
Felizmente eu terminei à tempo do primeiro sinal e me juntei ao resto da turma para começar as aulas.
–Bom dia, princesinha. –Alex me abraçou. –Vocês me largaram sozinho aqui pelo final de semana. –Resmungou.
–Eles me disseram que eu poderia escolher uma dama de companhia, não um mordomo ou algo do gênero. –Me defendi.
–Certo.
A Sra. Kingsley já estava na sala quando entramos, atrás de um livro enorme azul.
–Muito bem, crianças. Vocês podem se sentar. –E esperou alguns segundos antes de começar a falar e não parar mais. –Hoje nós discutiremos alguns mitos. Pegaremos o mito em si mesmo e então discutiremos suas razões.
“Todos sabem que os mitos muitas vezes são propositais. Eles podem servir como objeto de satisfação e explicação ou, para nós, eles podem muitas vezes servir como um aviso. Muitas vezes as histórias estranhas que lemos são nada mais do que verdades ocultas, ou metáforas para entrelinhas ou simples avisos como: não faça isso pois haverá consequência, jamais use tal ingrediente numa poção ou fique longe. A pergunta é: Como nós sabemos o que é real dentro de um mito?”
–Nós não sabemos? –Paul tentou.
–Quase, Paul, quase. Há coisas que nós sabemos, que podemos perceber ao longo do texto. Quando você pega um mito por escrito, o primeiro passo é ler por inteiro e entender o contexto. E então você procura por detalhes. Olhamos o tipo de letra usada, olhamos a quantidade de metáforas presentes, procuramos por entrelinhas e combinações que muitas vezes são colocadas como um pedido de ajuda, por exemplo, ou detalhes de algo que aconteceu há muito tempo. Podemos considerar um texto investigativo, por exemplo. Podemos considerar um texto ameaçador também, assim como podemos pegar um mito e entender como um texto narrativo. A única coisa que nós jamais podemos fazer ao olhar para um mito é desacreditar ou tê-lo como um conto de diversão.
“Eu vou contar-lhes agora uma das teorias para o nascimento de nossa espécie, então. Dizem que há muitos milênios havia seres pequenos, criaturas minúsculas que eram capazes de absorver a força natural das coisas. Conforme nosso mundo evoluía, essas criaturas não eram mais capazes de possuir toda aquela energia dentro de si mesmas, então conseguiram aumentar, tanto seu tamanho quanto sua capacidade. Dizem que essa magia atingiu seu pico quando duas criaturas distintas, hoje conhecidas como fadas e duendes, foram capazes de absorver toda e qualquer maneira de magia existente. Hoje não há registros de que essas criaturas tenham mesmo existido, porém diz a lenda que houve uma batalha legendária entre as espécies, o que resultou na tentativa de ambas de criarem mais soldados para lutar, porque seus números eram poucos. Nós, bruxos, teoricamente fomos fruto de uma tentativa de uma dessas espécies de se multiplicar mais rápido para a batalha. Para essa teoria há dois finais. O primeiro declara a extinção das duas espécies e o segundo diz que criaturas resultantes cansadas das batalhas conseguiram acabar com ambas.”
–O que nós podemos tirar desse mito? –Pergunta difícil. Fiz uma careta enquanto eu conseguia pensar.
–Que provavelmente há mais espécies por aí do que nós sabemos? –Alex sugeriu. Ele sempre tinha de ser o inteligente.
–É uma boa dedução, sim. Alguém mais?
–Como são descritos essas duas espécies? Eles eram simplesmente perfeitos? –Lena perguntou. A menina parecia maravilhada de alguma maneira.
–Perfeitos? Não sei. Eram descritos como criaturas das trevas por muitos por conta das supostas batalhas que teriam retardado a evolução dos mortais, por exemplo. Os duendes seriam seres bem altos e tinham como personalidade a arrogância. Já as fadas seriam seres hipnotizantes, porém dissimulados, capazes de atrair o inimigo à própria cova. Óbvio que não sabemos de nada à respeito, porém sabemos que nós surgimos de alguma maneira. Sabemos que haviam criaturas antecessoras, sabemos que havia muito poder concentrado antes.
–Se esses seres fossem mesmo reais, seriam perigosos, não? –Ryan perguntou.
–Talvez, não sabemos.
–Faz sentido, professora. Se eles fossem reais haveria muito poder concentrado e não é como se ninguém pudesse perceber. –Sarah apoiou.
–É um ponto mesmo, Sarah. –Ela acabou bem quando o sinal tocou. Impressionante.
–O que a gente tem agora? –Perguntei para Kate. Olívia parecia meio entediada.
–Estratégia em campo com o Roger. Algo do tipo. –Foi Sarah quem respondeu. Ela sempre sabia mais.
–Ótimo. Da última vez eu quase quebrei um pulso. –Resmunguei.
–Não deve ser tão ruim assim de novo. –Kate falou.
–O que é tão ruim? –Eu tropecei com o susto. Roger estava bem atrás de nós e nós mal havíamos passado pela porta.
–O bolo de chocolate. –Kate falou mais rápido do que o recomendável.
–Unh. Eu acho bom. –Deu de ombros e foi tomar sua posição em frente à turma. –Vamos começar logo pois não temos muito tempo para a atividade hoje. Vocês terão de trabalhar em grupos e conseguir decifrar uma frase qualquer antes das outras equipes. É simples, porém os grupos perdedores precisarão necessariamente me entregar um trabalho sobre técnicas de camuflagem amanhã. Podem formar os grupos, peço que haja quatro alunos em cada.
Fácil. Eu, Olívia, Kate e Alex. Olívia tinha mais conhecimento desse mundo de loucos, Alex era um gênio literal, Kate era esperta para coisas óbvias e eu era.... Bem, eu era eu.
Nós formamos um círculo afastado e Roger nos deu uma frase do tamanho da bíblia para traduzir. Era um texto formado por símbolos estranhos ao invés de letras inteligíveis. Dava medo só de olhar.
–Podem começar agora, crianças. –Roger não precisava ter dito aquilo, todos já estavam tentando quebrar a cabeça para descobrir.
–Eu vejo triângulos aí. –Kate constatou e todos a olharam como se ela fosse doida. –Não é o símbolo do fogo? –Explicou e só então a coisa fez sentido.
–Tem razão. –Alex concordou. –Será que é uma receita?
–Talvez tenha que colocar as primeiras letras. –Olívia sugeriu.
–Ou talvez tenhamos de desembaralhar os símbolos primeiro? –Minha vez. Sou inteligente, eu sei.
–Pode ser que esteja em latim...
Enquanto nós discutíamos o que aquilo poderia ser, íamos rabiscando os formatos da frase em milhares de folhas. Ora pensávamos em recordar cada letra, ora tentávamos encaixar numerologias esquisitas e às vezes tentávamos bater o número de letras em algumas palavras.
O que eu faria se aquilo fosse um texto muito importante? Comecei a pensar em mim e cheguei à conclusão de que eu era o ser mais burro do planeta. Ou eu esperaria por alguma voz do além que pudesse me dar a resposta ou eu daria um jeito de conseguir extrair algo de Thomas. Eu era mesmo um ser muito inútil, do tipo parasita mesmo.
Fiquei encarando aquele papel no maior estado de tédio possível e mal escutava o que meu grupo dizia. Eu era uma pessoa imprestável, eu sabia. Mas de algum jeito, não sei como, vi alguma coisa fazer sentido naquelas figuras rabiscadas de qualquer jeito. Talvez não tivéssemos que decifrar símbolo por símbolo....
–Por que vocês não juntam os pontos? –Perguntei. Minha vez de me passar de doida. –A única coisa que repete nisso são os triângulos, e essas palavras estão meio tortas para serem palavras de algo importante. –Expliquei. Ninguém pareceu entender de início, até que Alex começou a traçar linhas que passavam de algum modo por todos os vértices dos triângulos e resolveu se animar no meio do processo.
–Eu consigo ver palavras! –Murmurou, um tanto incrédulo.
No final, no meio daquele rabisco enorme, era possível ler “Tudo depende de como você vê as coisas” em latim, e, graças ao conhecimento prévio que estávamos sendo forçados a engolir, conseguimos traduzir.
–Terminamos! –Kate anunciou levantando nossa folha. Todos nos olharam boquiabertos e eu me senti muito aliviada por não ser uma completa parasita.
–Mesmo? –Roger pareceu feliz. –Ora, muito bem. Já era tempo.... –Ele resmungou alguma coisa. –Muito bem, crianças, a aula acabou para vocês. Quem não conseguiu chegar à resposta deve me trazer o trabalho sobre técnicas de camuflagem amanhã, sem falta. Tenham um bom dia.
Bom dia? Não seria muito possível porque eu tinha prova.
Não devia ter me preocupado muito com a prova de cálculos. Consegui todas as respostas sem ter de mover um olhar para o lado. Por isso que eu adorava tanto a magia.
O problema era....
–Meu cabelo está verde. –Constatei, sem querer acreditar.
–Não ficou tão feio....
–Meu cabelo está verde, Kate! –Aumentei o tom. Só podia ser brincadeira.
–Poderia ser pior. O meu está vermelho. –Era verdade. Porém vermelho era muito mais bonito para um cabelo do que verde.
–Sra. Morgan, eu não quero mais isso. Como eu tiro? –Scarlet choramingou atrás de mim. Seu cabelo estava com um castanho meio feio, porém era melhor do que verde.
–Essa é a lição de casa. Vocês só conseguirão se livrar da tintura por si mesmos. Agora vão, a aula já acabou.
Ela era simplesmente uma velha doida. Como assim você pinta o cabelo de seres inofensivos com uma tinta que só pode ser removida com um feitiço? Detalhe: Nós não tínhamos tal feitiço.
–Por que você está reclamando? O meu é rosa. –Paul era um dos mais infelizes, de fato.
Eu não queria entrar no refeitório com o cabelo daquele jeito. Preferia passar fome ou algo do tipo, mas eu acabei sendo levada pela multidão de seres estranhamente recém-pintados.
–Eu gosto do meu cabelo do jeito que ele é e não verde tipo lodo.
–Como se você fosse ficar feia de algum modo. –Olívia me disse atrás de mim. Ela também teve seu cabelo pintado de amarelo forte, mas eu não sei como ela iria conseguir realizar um feitiço para remover.
–Vocês são doidos, honestamente. Não quero ser vista assim. –Fiz uma careta quando entramos no refeitório. Óbvio que ele estava lotado e é óbvio que nós chamamos muita atenção.
–É só ignorar. –Ela disse. –Uma vez que você precisa andar muito em público, você aprende rapidinho a não ligar para qualquer coisa que seja. Você vai mesmo pegar isso? –Ela fez uma careta apontando para as folhas verdes que eu colocava no prato.
–Sim.
–Mas por que é saudável? Dizem que as espécies que se alimentam de comida não são muito fãs disso.
–Eu gosto. –Expliquei. –Mas não de tudo, óbvio. Mas alface, tomate e rúcula não são ruins.
–Certo.
Era meio estranho ter uma pessoa analisando cada tipo de comida que eu colocava no meu prato, mas levei mais como algo engraçado do que algo desconfortável.
Comi devagar, o que era meu ritmo normal mesmo, e quase não aguentei o prato inteiro, porém fiz um esforço. Fui com o pessoal até a cozinha para pegar alimentos industrializados para deixar no quarto e fui pegar mais carne para Lupa. Aquela loba simplesmente estava se duplicando a cada dia.
–Amy, eu vou para o seu quarto agora porque não tenho nada para fazer. –Kate avisou.
–Sem problemas. Você também deveria vir, Olívia. –Convidei e a vampira concordou.
Nos jogamos em minha cama assim que chegamos ao quarto. Eu porque estava com preguiça de fazer qualquer coisa, Kate estava sonolenta e Olívia parecia ainda um tanto tímida com relação a nova situação.
–Não temos lição de casa, não é? –Kate perguntou.
–Não sei, acho que não. –Dei de ombros.
–Tanto faz. Onde está Tommy? –É, Kate estava acostumada a encontrar Thomas em meu quarto quase sempre que vinha.
–Como é que eu vou saber? –Resmunguei. A pergunta pairou no ar e tivemos alguns segundos de silêncio.
–Ele parece gostar de você. –Olívia murmurou. De uma forma ou de outra achei que seu tom carregava alguma tristeza.
Fiz uma careta.
–Sério? Porque ele parece querer me matar todos os dias.... Mas você não deveria julgá-lo demais, ele te ama.
Ela riu com sarcasmo.
–Eu não acho que isso seja possível.
–Então você acha errado. Eu sei que ele gosta muito de você porque ele me disse. –Contei.
Fiquei bem melhor quando vi que os olhos de Olívia brilharam.
–Disse? O que ele disse?
Dei de ombros.
–Não sei se posso dizer tudo, porém ele disse alguma coisa sobre ter que te proteger.
–Eu o amo, sabe? Ele é uma das pessoas que eu mais prezo nesse mundo, mas nós somos tão distantes.... E ele não me diz nada, nunca me diz qualquer coisa que pudesse mostrar orgulho ou algo assim.
–Honestamente? –Kate começou. –Eu não acho que ele seja do tipo romântico incorrigível. Ele é essa criatura estranha, extremamente sexy e frio. Ao mesmo tempo ele nunca deixa a Amy cometer cagadas muito grandes. Eu acho isso excitante.
Minha amiga conseguiu dar um belo giro na situação. Eu e Olívia rimos.
–O que? Vai me dizer que você não concorda, Amy? –Ela provocou. Ah, como eu concordava, porém ninguém tinha que saber, então não respondi. –Nós assistimos àquela situação no baile.
Ela conseguiu fazer meu rosto esquentar, porém eu apenas ri.
–Foi bom? –Olívia quis saber.
–Sim.
–O que vocês fizeram depois? –Revirei os olhos para o ser indiscreto que era Kate.
–Discutimos. Depois eu dormi. –Resumi. Minha amiga revirou os olhos.
–Certo.
–É verdade.
–Okay. –Minha vez de revirar os olhos.
Ficamos conversando sobre coisas insignificantes até que Kate resolveu levar Olívia ao Suffugium para procurar um feitiço de reversão de tintura. Eu estava com preguiça demais para isso e fiquei em minha cama mesmo, rolando nela ao lado de Lupa por muitos minutos.
Talvez eu estivesse esperando por alguém. Sorte dele que ele não demorou.
–O que te fez optar por um visual exótico? –Mostrei-lhe a língua.
–Por acaso você sabe como eu tiro isso?
Ele deu de ombros.
–Raspe o cabelo e quem sabe ele vai crescer castanho novamente?
–Você é realmente tão incapaz assim de me dizer algo útil?
Ele fez uma cara pensativa.
–Você parece uma alga. –Provocou.
–Engraçado você. Vou tomar banho. –Avisei. Ele fez uma careta.
–Que foi?
–Nada, você apenas leva uma hora para fazer isso.
–Mentira isso! Eu sempre tomo em menos de meia hora. –Protestei.
–Não, você não o faz.
–Eu sei quanto tempo eu levo para tomar banho, Thomas.
–Eu não teria tanta certeza.
–Uma aposta então? –Sugeri.
Ele revirou os olhos.
–Tudo bem. O que você sugere?
–Se eu ganhar eu tenho direito a uma pergunta a qualquer hora.
–E se eu ganhar?
–Você escolhe. –Dei de ombros.
–Eu vou pensar então. Mas ficamos combinados que se eu ganhar eu escolho algo.
–Tudo bem, você não vai ganhar mesmo. –Dei de ombros. –São Sete e meia agora. Eu volto às oito.
E me tranquei no banheiro.
Liguei a torneira da banheira e esperei que ela se enchesse por completo para que eu pudesse entrar. Não gostava de passar frio, principalmente no banho. Depois que eu entrei tirei o elástico do meu lindo e perfeito cabelo verde e mergulhei.
Era legal ficar aquele tempo todo pensando em nada, apenas olhando para a água verde e pensando na vida. É, eu demorei alguns minutos para perceber que a água estava verde.
Levei as mãos à cabeça de imediato e quando as tirei, ambas estavam banhadas por uma tinta verde cor de lodo. Só poderia ser brincadeira que tudo o que eu tinha de fazer para remover a tinta era lavar o cabelo.
Voltei a mergulhar mais umas três vezes e exagerei no shampoo para que não restasse um único fio tingido. Depois tive que exagerar no condicionador, óbvio, meu cabelo estava muito pior do que um ninho de ratos.
Mas eu saí feliz do banho, bastante aliviada por ter meu cabelo de volta a cor normal. Vesti meu pijama e me preparei para chorar na hora de pentear. E doeu muito, principalmente quando a escova ficava enroscada. Quando terminei, metade dos meus fios estavam presos aos dentes da escova. Era uma visão muito deprimente.
–São oito e quarenta. Perdeu, princesa. –Thomas me avisou tranquilamente enquanto tentava tirar Lupa de cima dele.
–Não é justo! Eu precisei de tempo para tirar a tinta do cabelo.
–Você deveria ter pensado nisso antes de apostar. Lamento.
–Não é justo, Thomas.
–Tudo o que eu posso fazer por você é lamentar.
–Você é impossível! –Reclamei.
–De verdade, princesa? Eu acho que você deveria descansar, me parece um tanto exaltada hoje.
–Eu te odeio. –Falei, pulando dura na cama.
–Você sabe que não.
–Como você consegue ser tão orgulhoso? –Resmunguei.
–Anos e anos de prática. Vai dormir agora?
–Não, está muito cedo.
–Então o que pretende fazer?
–Não sei. Se você fosse uma pessoa normal eu ficaria conversando.
Ele fez uma careta.
–Eu acho que você está meio apática hoje.
–Estou em meu estado normal.
–Não, você está tensa. –Ele insistiu. Eu vivia tensa.
–É normal.
–Então vou te fazer uma massagem. –Falou. Óbvio que eu não pude evitar meu rosto de ficar vermelho.
–Não....
–Eu não pedi, princesa. E eu ganhei a aposta, lembra?
–Isso não é justo, Thomas. –Choraminguei. Ele revirou os olhos.
–Eu também não perguntei isso. –Ele não me pediu para virar, ou para deitar, ou para fazer porcaria alguma. Ele basicamente me pegou pela cintura e me jogou (é, jogou mesmo) na cama de costas para cima.
Eu não queria que ele me tocasse porque eu estava com muito medo das minhas possíveis reações.
–Você não tem que fazer isso. –Tentei.
–Você ainda não me entendeu, princesa. Eu quero. –Ele usava aquela voz rouca de propósito, certeza.
Thomas começou por meus ombros, demorando bastante para descer aquelas mãos enormes para minhas costas. E pelos deuses, aquilo era muito bom. Ignorando minhas batidas frenéticas, eu estava um tanto confortável ali. Mas ele sempre piora minha situação. Sem pedir permissão ou ao menos me avidar, suas mãos adentraram minha blusa e eu senti vários choques, o que resultava em minha pele rudemente arrepiada. O pior foi que a coisa começou a ficar melhor, como se eu estivesse saindo do meu autocontrole. Tive um sentimento forte de necessidade, o que me fez esconder o rosto nos travesseiros quando percebi o que eu queria.
–É difícil assim. Você fica mais tenda a cada toque. –Falou.
–Porque é meio difícil relaxar com você me tocando. –Pro inferno com aquela coisa de me esconder em travesseiros. Poxa, ele já me conhecia mesmo, meu rosto vermelho ou não ele saberia.
–Eu poderia fazer pior. –É, então, resolvi voltar ao travesseiro para tentar me acalmar.
–Poderia? –Grunhi. Suas mãos estavam apoiadas no topo de minhas costas.
–Sim. –Ele falou rouco de novo.
–Você quer? –Eu pensei que ele não fosse responder.
–Muito. Porém apenas quando você estiver pronta. –Ele disse.
–E você se dispõe a esperar? –Eu tomei coragem para me virar e encará-lo. Tão perto....
–Eu não faço o tipo romântico e delicado da coisa, princesa. Porém eu não poderia te machucar.
–E se eu demorar demais? –É, senti certo incômodo. Certamente ele não teria dificuldade nenhuma em dormir com qualquer outra.
–Nós compensamos depois. –Ele deu de ombros. –O fato é que eu quero você.
É, então. Nos filmes românticos o mocinho da história daria um beijo apaixonado na menina, e não a atacaria com tanta voracidade como Thomas gostava de fazer. Porém eu não poderia dizer de qual modo eu preferiria, só sabia que era bom.
E que durava pouco. O infeliz me fez ir dormir em poucos minutos, alegando que seria o melhor para ambos.
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