Royals
8 Capítulo 8
Notas iniciais
–Você está maravilhosa e parece que acabou de perder alguém. Não dá para você se animar pelo menos hoje? –Kate ralhou.
–Eu já tentei, okay? Eu estava melhorando até Maurice me escolher hoje. –Murmurei.
–Só porque ele te chamou de coisinha frágil?
–E eu não aguentei! Eu chorei, você viu. Todo o mundo viu! –Contestei. –Meu pai é sei lá quem importante e as pessoas esperam que eu seja assim também, e aí eu vou lá e mostro que eu não consigo nem mesmo suportar algumas verdades.
–Hey, pare com isso, certo? –Ela segurou minhas mãos. –Ninguém nem liga para o que aconteceu hoje e Maurice vai conseguir o suicídio de todos pelo final do ano. Agora você vai arrumar a maquiagem que borrou e largar esse cobertor. Hoje nós vamos congelar.
–Não sei porque você está tão animada. –Resmunguei.
–Porque eu estou linda e você mais ainda. Nem todas as mulheres podem usar vermelho, apenas as que tem o corpo e a pele certa, e eu te invejo por isso. Agora vá fazer o que eu mandei.
Eu resmunguei alguma coisa sem nexo algum e fui terminar de me arrumar. Eu não achava que estava feia como vestido vermelho queimado, porém estava um pouco desconfortável. Essa semana tinha sido simplesmente caótica e eu sentia que ia acabar pior ainda, ainda mais que eu não tinha pego praticamente nada das matérias que foram dadas e que eu havia conseguido explodir uma poção simples de apenas três ingredientes.
Soltei meus cabelos para ter algo no qual me esconder e arrumei os cachos que tinha feito algumas horas mais cedo. Tinha separado também um sapato com o salto maior que a minha cabeça e algumas poucas joias da caixa. Se eu me olhasse no espelho veria um vestido extremamente sexy tomara que caia e com uma abertura cumprida demais lateral e eu. Duas coisas separadas e esquisitas quando juntas, porém não havia nada que eu pudesse fazer em relação à isso.
–Vamos logo, Cinderela, já está na hora. –Kate bateu na porta do banheiro com impaciência e eu a abri. –Até que enfim! Você está maravilhosa, Amy, e devia se ver assim. Então sorria e ignore qualquer possível sanguessuga que apareça em sua frente, sim? Se vamos congelar esta noite, o faremos juntas e felizes.
–Wow, isso foi motivador. –Comentei, não contendo uma risada. –Hey, Lupa, nós voltaremos mais tarde, sim? –Falei para a loba, me abaixando com certa dificuldade para tocar seu pelo. O animal grunhiu em resposta e foi se aninhar em minha cama. –Agora vamos antes que eu troque esse sapato por uma pantufa.
–Nem me fale. –Kate concordou quando saímos do quarto. –Eu mal coloquei e não vejo a hora para tirá-lo.
–Vocês por acaso precisam de ajuda? –Eu quase caí com o susto. Era Paul, Alex e Jason vestidos em ternos extravagantes e bem atrás da gente.
–Se alguém me puder levar no colo seria bem agradável. –Comentei e percebi que Paul estava disposto a me carregar. –Não precisa! –Falei rapidamente o impedindo. Ele ficou confuso. –Só me dê a mão e eu vou tentar não cair. –Concertei a situação e me apoiei o caminho inteiro em seu braço.
A música estava muito alta, os gritos estavam muito altos, havia muita comida circulando e muita gente.
–Eu acho que estamos um pouco atrasados. –Alex murmurou atrás de mim.]
–Ninguém mandou o Jason dormir. –Paul resmungou.
–A senhorita da realeza que me atrasou. –Kate jogou a culpa em mim e eu lhe mostrei a língua.
–Vocês não acham que tem vampiros demais nessa coisa? –Jason perguntou e eu fiz uma careta, concordando.
–Nós somos melhores que eles, cara. –Alex o tranquilizou. –Qualquer coisa Amy faz um terremoto e nós fugimos para uma nova dimensão antes dessa coisa velha cair.
–Criar um terremoto está parecendo coisa fácil perto da segunda parte do plano. –Comentei.
–Hey, gente! –Alguém nos chamou e nossas atenções foram voltadas para Sarah lá no meio da pista. –Venham logo! –Mandou e voltou para uma roda que eu reconheci como sendo de apenas bruxos dançantes e malucos.
–Eu acho que temos um lugar. –Paul apontou. –Vamos lá.
Descer as escadas foi a pior parte e eu quase caí duas vezes, mas cheguei inteira para contemplar meus colegas de classe parecendo que perderam o juízo.
–Nós estávamos esperando por vocês. Agora que estamos aqui podemos começar nosso campeonato de dança! –Ryan tinha perdido até o cérebro. –Todos têm que ir para o centro pelo menos uma vez, em dupla, trios ou sozinho.
–Então vamos esperar pela próxima música. –Lena cantarolou.
Como não tinha como discutir, nos arrumamos num círculo perfeito e quando a próxima música começou, Ryan pulou para dentro do círculo. Ele começou um rap estranho com movimentos descoordenados e bem falhos, mas foi a coisa mais engraçada que eu tinha visto desde que entrara nessa coisa que eles ainda chamam de colégio. Nós gritamos para Ryan e quando ele saiu, escolheu Mary para entrar, e esta levou Julie e Scarlet junto. Elas fizeram outra roda sem sentido e fingiram dançar alguma coisa enquanto gargalhavam e saíram, dando a vez para Matt e Sarah, que não fizeram absolutamente nada além de rir.
Mais algumas pessoas circularam e a música mudou. Foi a vez de Kate gritar.
–Você sabe dançar Kiki? –Ela perguntou e eu vergonhosamente sabia sim. –Então vamos! –Falou e me arrastou para o meio.
Sim, nós duas sabíamos como se dançava, porém aquele negócio era tão empolgante, engraçado e terrível que eu quase caí no chão de tanto rir enquanto todos batiam palmas no ritmo da música. Nós saímos meio que tropeçando e rindo e demos a vez para Paul e Alex, que ainda não tinham ido. Esses dois realmente não sabiam dançar Kiki, mas pelo menos eles tentavam....
Quando começou a tocar Diva, acho que todos esqueceram de qualquer campeonato porque todas as meninas foram dançar numa roda menor localizada bem no meio da maior. Era meio idiota, mas legal pra caramba quando você está no seu último nível de insanidade.
Outras músicas começaram e eu comecei a achar que os movimentos ficaram cada vez mais carregados e menos inocentes, talvez o que tenha me feito dançar com Paul, Alex e Ryan.
Fiquei umas três horas seguidas na pista e só saí quando meus pés começaram a doer e eu tive que comer alguma coisa com urgência. Arrastei Sarah comigo para uma mesa uma vez que ficar sozinha não era algo que eu estivera presando nos últimos dias.
–Hey, não é aquela ruiva que te irritou semana passada? –Fiz uma careta e soube que se eu olhasse eu me arrependeria profundamente, mas não tive escolha. Virei o rosto para o outro canto do salão e vi a sanguessuga nojenta vestida de praticamente transparente e se apoiando em um Thomas sério, mas que a mantinha a seu lado pela cintura. Os dois me viram e, enquanto eu recebia um choque maluco de um, a outra doida me mandava um beijo. Revirei os olhos e voltei a falar com Sarah, ignorando qualquer espécie de sentimento que tinha feito meu peito pegar fogo.
–Sim, é aquela coisa mesmo. –Concordei.
–E você fez um terremoto inofensivo? –Sarah perguntou incrédula.
–Não foi inofensivo! –Contestei. –Eu quase me matei.
–Se você tivesse escolhido lançar chamas.... –Ela fingiu desapontamento e eu sorri.
–Eu provavelmente iria acabar acertando a mim mesma, é claro. –E foi aí que eu chutei a mesa tão forte que o salto enroscou numa tira do outro pé e eu me cortei lindamente. –Merda! –Grunhi.
–Você cortou? –Ela perguntou, meio exasperada. Assenti com a cabeça. –Vá para o quarto agora! Você não pode sangrar aqui! –E aí ela já estava entrando em desespero, mas como eu não queria virar prato principal para ninguém, concordei e me levantei da mesa com a maior pressa possível. –Eu vou me assegurar de que ninguém suba atrás. –Ela avisou quando eu já estava longe.
O corte ardia e o frio já não era tão brando quanto era na pista de dança, mas eu não conseguia muito me importar, só sabia que eu precisava arrumar aquilo antes que me desse realmente muito mal.
Cheguei esbaforida no quarto e agradeci que não tinha ninguém no caminho. Murmurei alguma coisa para Lupa e fui ao banheiro para limpar o machucado.
Era um corte grande, porém bem raso e só precisava de limpeza e uma facha fina para proteger. Peguei o que eu precisava na maleta de primeiros socorros, arrumei o cabelo e calcei um sapato ainda de salto, só que mais baixo e que não pegaria no machucado.
–Prontinho, Lupa. –Anunciei, buscando minha loba com os olhos. Não a vi. –Lupa? –Chamei e nada. Foi só aí que eu reparei que a maldita porta estava aberta. –Só pode ser brincadeira. –Grunhi e saí para o corredor. –Lupa? –Chamei mais alto e ouvi um barulho do lado oposto ao da festa. Aquilo era mal. –Venha cá, Lupa! Agora! –Falei mais alto e nada. Não tive outra opção, alguma coisa me dizia que eu tinha de achar minha loba em um período um pouco apertado de tempo. –Venha cá, Lupa! Por favor. –Acho que eu repeti isso mil vezes enquanto andei por boa parte daqueles cobertores sem saber para onde estava indo. Já estava começando a ficar dolorida por causa do frio quando escuto alguém limpando a garganta bem atrás de mim. Seguro um grito e faço com que as tochas se ascendam.
Encostado na parede estava um cara bem alto e esguio, cabelos impressionantemente vermelhos e olhos verdes famintos. Sua expressão não era nada boa também, ele parecia com um predador que acabara de pegar sua presa.... Na verdade ele literalmente era o predador e eu sentia no fundo do meu ser que ele tinha acabado de pegar sua presa.
Tentei recuar e em dois segundos estava prensada contra a parede, com seu corpo esmagando o meu e seu rosto feio bem próximo.
–Você perdeu alguma coisa, princesa? –Sua voz soou como metal enferrujado para mim e me fez querer colocar para fora tudo o que eu tinha comido no último mês.
–Onde ela está? –Perguntei assim que me livrei do meu estado de choque e surpresa.
–Ela foi para o outro lado, que pena. –Tentei afastá-lo com uma mão e ele prendeu minhas duas sobre minha cabeça, terminando de me deixar sem movimentos.
–Me solta. –Ordenei, abolindo a ideia de tentar não entrar em pânico.
–Oh, mas por que? Eu tenho de confessar que sua dança hoje me chamou muito a atenção. –Ele soprou aquele hálito nojento em mim e eu senti o cheiro agonizante de sangue. –Diga-me, você também dança para ele daquele jeito? –E ele lambeu meu rosto.
–Para com isso! –Gritei.
–Oh, princesa. Se você gritar eu terei de agir mais rápido.... –Uma de suas mãos adentrou meu vestido pelo corte lateral e apertou minha coxa com tanta força que eu tive vontade de morrer.
–Não me toque. –Minha voz estava totalmente engasgada e meus olhos já ardiam com as lágrimas desesperadas.
–Você não gosta? –Ele zombou. –Aposto que quando Thomas te toca você não reage assim. –Sua mão subiu mais ainda por minha coxa e a apertou novamente.
–Ele não o faz. E você vai me soltar agora! –Gritei com todo o ódio que eu poderia sentir.
–Se você não se calar eu vou ter que o fazer, gatinha, e vai ser para sempre. –Ameaçou e soltou minha perna, levando sua mão até o zíper do vestido. Quando ele abriu a roupa o suficiente para me fazer querer morrer apedrejada, gritei tanto que recebi um tapa forte do rosto, fazendo meu lábio sangrar. –Eu avisei, princesa. Comporte-se.
–Me solta agora! –Gritei de novo, engasgada pelas lágrimas. Ele ficou tão irritado que me apertou ainda mais contra a parede com as mãos em meu peito. Tentei afastá-lo novamente num movimento desesperado e ele simplesmente cravou os dentes em meu pescoço da pior forma que aquilo poderia ser.
Aquilo doeu o inferno e parecia queimar e rasgar minha pele como se fosse um tecido barato. Pelo menos durou pouco, cinco segundos depois eu havia caído no chão por fraqueza e ninguém me segurava mais.
Ouvi alguns baques, palavrões e ofensas pesadas, além de berros e urros, porém não era nada comigo. A confusão acabou rápido e eu ouvi passos em minha direção, me encolhi sem nem pensar antes.
A pessoa ficou parada e eu sentia seus olhos me analisando, e foi o suficiente para saber quem era. Eu estava tentando inutilmente parar de chorar quando alguma coisa foi jogada sobre mim e eu reconheci como sendo um paletó, então mãos me tiraram do chão com um cuidado desconhecido e me carregaram rapidamente até meu quarto.
–Está tudo bem agora. –Ele sussurrou em meu ouvido, porém eu tive certeza de que ele não sabia o que dizer tanto quanto eu não sabia o que pensar.
–Não está tudo bem. –Contestei em meio ao choro. –Ele me tocou. –Aquilo era ainda mais humilhante dito em voz alta, principalmente quando Thomas não respondeu, apenas me segurou com mais força e cerrou os dentes audivelmente.
Senti algo macio abaixo de mim e percebi que estava em minha cama. Aquilo era bom.
–Eu preciso que você me diga exatamente o que está sentindo. –Mas aquilo não era óbvio?
–Nojo, desespero, humilhação, dor....
–Fisicamente. –Ele arrumou.
–Eu acho que vou desmaiar e então morrer engasgada.
–Você não vai nem considerar desmaiar, entendeu? Você vai olhar para mim e pode começar por abrir os olhos. –Ordenou e só aí eu percebi que meus olhos estiveram fechados por bastante tempo. Eu o vi ajoelhado de frente para mim e me encarando com uma expressão indecifrável. –Eu preciso limpar suas feridas e você vai ter que me deixar, okay?
–Onde está Lupa?
–Ela veio me buscar e então ficou com Sarah, você não tem que se preocupar. –Ele falou e afastou meu cabelo para ver a mordida que sangrava até demais. Pegou um pano úmido e algodões e limpou aquilo para mim, com uma expressão que era capaz de assustar o cara que se considera o mais corajoso. –Você tem mais algum corte debaixo.... Você sabe.... –Ele não conseguiu terminar e eu neguei com a cabeça. –Bom. A mordia no pescoço vai sair em algum tempo, o corte do lábio vai sair rápido... Ele podia ter poupado seu rosto. –Murmurou.
–Quem sabe assim melhora. –Foi uma piada sem graça, mas para mim não era uma piada, afinal.
–Ou ele podia ter poupado seu cérebro. –Ele devolveu, irritado. Não entendi muito bem. –Eu espero que não me arrependa depois, mas você é uma garota muito bonita, Amy. E é a mais estúpida também por não perceber e ficar fazendo drama.
Maldito coração, ele não podia simplesmente parar?
–Você me acha bonita? –Perguntei incrédula. Ele não me respondeu, continuou me encarando sério. –Então por que você me vê como uma criança?
Ele engasgou. Vampiros engasgam? Que porcaria que estava acontecendo ali?
–Era esse o problema da semana passada? –E então ele parecia estar prestes a voar em meu pescoço. –Eu não consigo acreditar nisso. Vá se arrumar para dormir antes que eu perca o controle. –Mandou e dessa vez eu corri para obedecer, fazendo minha higiene e vestindo meu shorts e a camiseta do pijama e indo correndo para debaixo dos cobertores.
O vampiro me esperava de pé ao lado da cama e bem sério. Não soube o que fazer então deixei que as luzes se apagassem e me ajeitei para dormir, uma vez que eu estava morta de cansaço.
–Se você for um pouco inteligente eu te responderei qualquer pergunta. Mas agora você vai dormir e ficar quieta por um bom tempo antes que me tire do sério, entendido? –Eu assenti com a cabeça sabendo que ele veria. –Então durma bem, Amy. –Ele murmurou e meu coração quase parou quando a minha próxima sensação foi a de lábios macios roçando minha testa.
Que porcaria estava havendo?
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