Royals
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Quando acordei de madrugada ele não estava mais ao meu lado e eu estranhei um pouco. Fiz com que as luzes de acendessem precisei conter meu susto.
Ao invés de um garoto irritante havia uma mulher alta, pálida e ruiva que me encarava sem muita simpatia. Mais uma sanguessuga, sem dúvida alguma.
–Já acordou, princesa? Seu sono de beleza foi interrompido? –Ela perguntou com a voz carregada de sarcasmo. Coisa da espécie, pensei, porém sentia que aquela mulher poderia realmente me fazer mal se quisesse.
–Quem é você? –Perguntei, controlando a voz.
A ruiva riu.
–Sou Jennifer, mas acho que isso não te interessa. –Grossa.
–Me interessa o motivo pelo qual está aqui. –Minha voz soou mais fria que o normal e eu me levantei da cama, ignorando totalmente o frio.
–Não fique estressada, princesa. Você não quer estragar sua beleza ficando irritadinha comigo, não é mesmo?
–Quem quer que você seja eu a quero fora do meu quarto. –Disse, impaciente.
–Oh, por favor, você não me dá ordens aqui, criança, e nem em lugar algum. –Ela riu e se levantou da poltrona em que estava sentada.
–Enquanto este quarto for meu eu decido quem entra. Vá para fora! –Aumentei drasticamente meu tom de voz.
–Ou o que? –Ela provocou. –Você não pode usar magia, Amy, mesmo se soubesse.
–Onde está Thomas? –Perguntei, ignorando-a por completo.
Ela sorriu com maldade e eu apenas esperei.
–Ele se cansou de você e saiu, não é óbvio? Nem mesmo ele merece uma noite inteira de roncos.
Fuzile-a com os olhos sem saber exatamente qual parte tinha me irritado mais.
–Vá embora. –Soou quase como um rosnado e eu me assustei comigo mesma, não sabia que podia falar assim.
Senti meus olhos queimarem quando ela deu mais uma daquelas risadas nojentas e sem nexo.
–Não se estresse, princesinha, você.... –Não a deixei terminar a frase. Meus olhos começaram a doer e minha barriga revirou, me deixando claro que eu já havia perdido todo e qualquer controle.
–Eu mandei ir embora. Agora! –Eu teria assustado com meu próprio grito se não estivesse fora de controle.
Meu coração bateu mais forte e minha cabeça girou mais ainda, porém meus olhos estavam focados na sanguessuga estúpida. Foi o suficiente para que o chão começasse a tremer sem que eu ao menos tivesse piscado um olho ou algo.
–O que está fazendo? –A ruiva gritou, perdendo totalmente o comportamento anterior. –Faça isso parar, pirralha!
Aí que está a parte complicada da coisa: mesmo que eu quisesse, eu não era capaz.
A porta se abriu com um estrondo horrível e eu não consegui me assustar, estava numa espécie de transe físico e mental.
–O que está acontecendo? –Eu reconheci a voz, mesmo que as imagens estivessem borradas o suficiente para fazer qualquer um passar mal.
–Essa garota é doida! –Jennifer se exaltou.
–Saia daqui, agora. –Ele ordenou e a ruiva finalmente foi obrigada a obedecer, saindo em passos rápidos. –Pare com isso, Amy. –Ele me disse quando estava perto o suficiente para segurar meus ombros. Tentei raciocinar ou algo similar, porém foi simplesmente impossível. –Você não está respirando! Pare com isso! –Ele me chacoalhou e foi só aí que eu percebi que não havia oxigênio algum sendo inalado. Aquilo era mal.
–Eu não consigo! –Eu finalmente consegui gritar e segundos depois me vi mil vezes mais leve e então sendo chocada contra um colchão e milhares de travesseiros.
Tudo simplesmente parou como se nada tivesse acontecido e o silêncio foi assustador. Eu nunca fui capaz de abrir uma mísera porta e então faço a droga do chão tremer. Alguma coisa estava muito errada e eu estava totalmente fora de sincronia comigo mesma. Meu coração parecia que iria explodir a qualquer momento e minha cabeça tentava parar de girar.
Eu tinha que considerar a parte na qual eu estava me sentindo completamente envergonhada, é claro. Foi como uma criança de sete anos fazendo um escândalo porque a mãe não quis comprar um brinquedo ou algo do tipo. Então eu fiz a atitude típica de uma criança, só para finalizar o show, e enterrei meu rosto num travesseiro.
–O que você fez? –Estremeci quando ele resolveu falar, porém tive de agradecer por ele não soar irritado. Não respondi. –Você está bem? –Ele apoiou uma mão gigante sobre minhas costas e eu irritantemente estremeci de novo.
–Eu não estou bem, tá legal? E eu não tenho ideia do que eu fiz. –Grunhi, os dentes cerrados.
–Você precisa segurar seus ânimos, apenas isso. Não dá para destruir um prédio à cada surto. –Ele repreendeu e aí sim eu fiquei com raiva.
–Não teria acontecido nada se você não tivesse deixado sua amiga ruiva entrar sem a minha permissão. –Retruquei e senti alguma coisa quente em meus olhos. Pelo menos eu estava com a cabeça no travesseiro.
–Não deixei Jennifer entrar. –Ele respondeu em tom firme. –E de qualquer jeito eu saí porque achei que a senhorita estaria com fome quando acordasse. –Foi só ele falar que meu estômago roncou alto.
–Você trouxe? –Perguntei, doida para mudar de assunto.
–Você é inacreditável. –Ele murmurou depois de alguns segundos. –Mas eu trouxe alguns pacotes de salgadinho, água e frutas.
É, foi o suficiente para que eu saísse da posição criança em drama. Peguei um dos pacotes de salgadinho que estava sobre a cama e o comi inteiro sem nem notar o sabor. Depois eu comi umas duas bananas, mais um pacote de salgadinho e muita água.
Ignorei o ser que me assistia e fui ao banheiro dar um jeito no meu estado, uma vez que meu rosto de zumbi e meu cabelo era tudo menos um cabelo.
Quando saí Thomas estava me esperando perto da porta.
–Pegue um casaco forte e calce alguma coisa. –Ordenou.
–Por que? –Perguntei sem realmente me mover um centímetro que fosse.
–Sair desse lugar vai ser bom para você. Agora ande logo.
–Mas são quatro horas da manhã! –Contestei e ele arqueou uma sobrancelha.
–E qual é o problema? Apenas faça o que eu disse.
–Mas para onde nós vamos? –Insisti e ele cerrou os dentes, impaciente.
–Floresta. Agora faça o que eu disse ou você irá congelar e eu não irei me importar.
“-Agora faça o que eu disse porque eu sou Zeus.” –Tentei imitar seu tom enquanto cedia e ia buscar minhas botas, minha blusa de lã e minha paca. Pelo menos eu o irritei e pude sentir seus olhos brilharem irritados para mim. Sorri. –Pronto. –Resmunguei ao terminar de abotoar a paca. Eu devia estar uma coisa muito estranha vestida com roupas adequadas em uma parte e uma calça de pijama na outra, porém ninguém iria reparar, nem mesmo eu.... Bem, talvez ele, mas quem se importa?
–Agora siga-me e mantenha a boca fechada, por favor.
–Eu estou tentada em cantar durante o caminho inteiro. –Retruquei quando ele saiu do quarto, indo na direção oposta à saída. –A saída é para o outro lado. –Falei.
–A diretora é para o outro lado. Agora fique quieta.
–Você é quem devia ficar quieto já que consegue ser a pessoa mais irritante e insuportável do planeta.
–Se você continuar eu juro que vou deixar os lobos de calarem. –Tudo bem, aquela sim era uma ameaça significativa.
–Tanto faz. –Resmunguei, mas cedi novamente.
Acho que eu andei uns cinco corredores e mil portas até chegar em uma outra maldita porta de um quarto que era exatamente igual ao meu, tirando as cores das cobertas, tapetes e decoração e uma janela enorme. Por que ele tinha uma janela e eu não? Aquilo era totalmente injusto.
–É seu quarto, não é? –Me certifiquei e ele concordou com um movimento de cabeça. –Okay, por que você tem uma cama se vampiros não dormem? –Perguntei e me arrependi de ter aberto a boca momentos nenhum.
Seus olhos faiscaram com alguma diversão.
–Quem disse que é para dormir?
Senti minha face esquentar, porém tentei ignorar.
–Tanto faz. Mas por que você tem uma janela e eu não? –Aquela sim era uma pergunta decente.
–Porque uma janela significa saída e não podemos deixar crianças saírem desacompanhadas.
–A gente vai sair por essa janela? –Perguntei, hesitante. –Então seu plano é me jogar dela aí eu morro e todos vão pensar ter sido suicídio e então seu pai não te deixará de castigo. –Acusei.
–Exatamente. Quando você ficou tão inteligente? –Ele revirou os olhos. –Eu vou pular primeiro e aí te pego quando você pular, é bem simples.
E bem impossível também, claro.
–Eu teria de confiar em você e isso não está na minha lista de um milhão de coisas para se fazer antes de morrer.
–Bem, vamos deixar claro uma coisa. Eu vou pular e se você tentar voltar correndo para seu quarto, te pego antes mesmo de você passar pela minha porta, entendeu? –Precisei me segurar para não me encolher, na verdade, porém acabei concordando com a cabeça.
Não sei, tinha vezes em que ele falava e era como se ele pudesse me matar com apenas um olhar.
–Bom. Tente não demorar. –Ele se fez ser entendido e pulou pela janela. Me atirei ao parapeito para ter certeza de que ele não ia morrer e de que ia ficar mesmo lá embaixo. Só que eu não conseguia enxergar porcaria nenhuma naquela falta de luz. Como eu poderia saber?
Subi no parapeito e me agarrei à parede lateral, só para ouvir um uivo bem próximo. Minhas pernas tremeram e eu não queria mesmo pular. Sem falar que eu não sabia se ele realmente estava lá e o ar estava frio demais para tê-lo contra meu rosto sem me matar de pneumonia antes de atingir o chão...
–Pule! –A voz veio de trás de mim e eu pulei, ou melhor, caí em direção ao breu.
Conforme meu corpo ganhava velocidade e o vento me chicoteava eu tinha certeza de que iria morrer. A voz atrás de mim era feminina e eu nunca tinha ouvido antes. Achei que tivesse caído numa armadilha e estava me sentindo totalmente indignada quando o vento simplesmente parou meu estômago se acalmou. Havia uma mão debaixo de meus joelhos e outra em minhas costas, porém não houve impacto nenhum.
–Seu lábio está sangrando e você parece que acabou de morrer. –Ele sussurrou e me trouxe de volta à realidade. Soltei meu lábio inferior da mordida e ardeu bastante.
–Eu não acredito que eu não morri. –Falei alguns segundos depois e minha voz saiu horrivelmente rouca.
–Eu pensei que você não fosse pular. –Ele contou e começou a andar, sem se preocupar em me colocar no chão antes. Não reclamei.
–Eu não pulei, eu caí porque tinha alguém no seu quarto e eu levei um susto. –Contestei.
–Entendi agora. –Foi só isso o que ele disse.
–Você mantém suas garotas em seu quarto? –Escapou e senti que ele achou engraçado.
–Por que? Ciúmes? –Provocou.
–Jamais. –Resmunguei, embora alguma parte de mim estava meio inquieta... Estranho. –Mas eu gostaria de saber se tinha alguém querendo minha morte ou algo do tipo.
–Não há ninguém querendo sua morte sem que possa ter os dentes cravados em sua clavícula, então não se preocupe.
–Me sinto tão aliviada agora. –Revirei os olhos. –Mas quem estava em quarto então?
–Nenhuma pessoa com vida. –Estremeci sem querer. Aquilo significava uma criatura que me amedrontaria até no inferno.
Era estranho aquilo, eu tentava dizer para mim mesma que uma vez que eu era uma bruxa e convivia com vampiros, fantasmas ou espíritos não eram nada.
–Você não tem que ter medo. –Ele estava tentando me reconfortar ou algo do tipo?
–Como não? Uma vez que você sai do meu quarto qualquer um entra. –Resmunguei.
–A única coisa que fantasmas podem trazer é informação. Eles não podem tocar o que é vivo.
–Mas podem me jogar uma pedra na cabeça quando eu estiver dormindo! –Contestei.
–E é por isso que estamos aqui. –Olhei para trás com curiosidade e reparei que eu finalmente era capaz de enxergar algo.
Estávamos em uma clareira pequena, porém totalmente iluminada pela luz da lua que parecia estar somente ali. Era estranho.
Thomas me colocou no chão bem quando ouvi barulho na mata e me encolhi ao seu lado. Ele não estaria me mandando para a morte, não é mesmo?
Quando eu vi o que era algo dentro de mim me fez relaxar. Cerca de meia dúzia de lobos adentravam o local, todos muito peludos e com as orelhas baixas enquanto vinham em minha direção. Eu não senti medo, como era o esperado, apenas me impressionei com a beleza que eles irradiavam e depois com o toque de seus pelos contra minhas mãos.
Eles me deixaram tocá-los tão facilmente que aquilo parecia tudo menos real.
–Sua família e lobos são ligados. Eles morreriam por você, se fosse necessário.
–Isso é fantástico. –Falei.
–E eles têm algo para você. –Completou, me chamando a atenção para um lobo maior e caramelo, que andava calmamente até mim.
Me abaixei para receber o animal e me surpreendi quando um menos pulou em meus braços. Era um filhote do tamanho de um cachorro de porte médio, com os pelos totalmente brancos e os olhos de um castanho meio familiar. Quando aquele animal me olhou nos olhos eu me vi e senti uma sensação estranha, como um choque.
–Todo membro de sua família tem ligação com um lobo em especial e esse é o seu... Ou a sua, melhor.
–Ela é minha? Tipo, eu vou poder ficar com ela? –Perguntei sem acreditar embora eu não me via indo embora de lá sem trazer aquele filhote comigo.
–Você deve leva-la.
–Como você sabia? –Perguntei.
–Eu venho aqui todos os dias e ontem sua mãe estava em trabalho de parto. Eu soube que era para você quando te vi nos olhos da mãe, foi bem simples. Você reparou que o filhote tem seus olhos, não é?
Meus olhos? Olhei para o bicho de novo e era verdade. Por isso que achara familiar.
–Isso é fantástico. –Murmurei, me erguendo com a loba nos braços. Ela era tão leve e me esquentava bastante.
–Mas agora precisamos ir antes que o sol nasça. Você precisa dormir.
–De novo? Dormir foi tudo o que eu fiz nesses últimos dias. –Mesmo embora eu estivesse exausta por dentro....
–Sim. Agora vamos. –Determinou e cerca de dez minutos depois eu já estava de volta em meu quarto, com o filhote nos braços e uma mistura maluca de emoções desconhecidas que eram assustadoras.
–Eu não quero dormir agora. –Reclamei, deixando Lupa livre para explorar o quarto. E sim, ela chamava Lupa.
–E eu não quero ter que aguentar você pelo resto da noite. Então acho que temos um problema. –Aquilo não soou legal para mim.
–Não vou dormir então e você pode fazer o que quiser. –Eu determinei, indo tirar minhas botas e os casacos.
–Você não se cansa de agir como uma criança mimada e irritante? Porque isso cansa muito os outros. –Ele queria mesmo morrer?
–Eu não sei exatamente qual é o seu distúrbio, mas ele é muito sério. –Me virei para encará-lo nos olhos, embora tenha precisado ignorar sua presença para conseguir falar. — Eu não te pedi para ficar aqui, para me prender no quarto ou qualquer outra porcaria que fosse. E não sei também de onde você tirou que e sou uma criança mimada, porque se eu fosse uma, certamente não teria deixado com que fizessem o que quisessem comigo. –Terminei algumas oitavas acima do normal.
–Você não é a vítima aqui.
–Assim como você não é, okay? Você me vê como uma criança porque eu simplesmente não tenho essa força absurda e totalmente sobrenatural e injusta. –Por que eu estava andando em sua direção mesmo?
–Não é por isso. –Ele murmurou e cerrou os lábios numa linha reta, se calando e me deixando um tanto abalada. Meu corpo.... Eu parecia uma criança para ele? Como? Eu tinha um busto maior do que o que me agradaria, cintura fina e pernas não tão finas assim. Nunca gostei de andar na rua porque homens me olhavam e eu odiava isso.... Talvez meu rosto fosse infantil demais? E eu era baixa.... Talvez ele me achasse feia mesmo e essa ideia era extremamente desconfortável, embora fizesse sentido. Se eu dormisse ele não tinha mais que olhar para minha cara.
Mas por que eu me importava afinal? Eu costumava a me olhar no espelho e achar um rosto não tão terrível assim, mas talvez eu estivesse errada.
–Você está bem? –Ele perguntou, franzindo o cenho e eu virei o rosto para algum outro lugar qualquer e resolvi procurar por Lupa.
–Eu estou cansada, vou dormir. –Falei e achei Lupa já deitada sobre minha cama. –Você pode sair, fazer o que quiser, tanto faz.
É claro que eu não seria capaz de dormir, mas fiz as luzes se apagarem e fui para a cama.
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