Roxanne
1 Capítulo 1
— Porra! — Disse o adolescente, seu topete banhado em gel reluzindo sob a luz elétrica. Estava barrando a porta dos fundos do salão de educação física do colégio, que naquela noite era a pista de dança do baile de formatura anual do ensino médio.
— Não acredito que é sapatona. Aposto que falou isso só pra me afastar.
Ele chutou uma lata de lixo, que ecoou pelo beco solitário que dava fim ao terreno escolar. Uma grade alta tornava aquele corredor em uma espécie de armadilha, e Roxanne, sempre calada e ignorada por — quase — todos, era a caça. Presa entre as paredes altas do colégio, pressionada pela violência daquele garoto, que a impedia de seguir pela única saída disponível, ela juntou forças para conter um gemido amedrontado.
Tudo o que ela queria era solidão. Afastar-se da massa borbulhante de jovens, da música alta e repleta de futilidade, das bebidas batizadas e da sensação de ser obrigada a beijar algum garoto até o final da festa. Era isso ou pagar o caro preço do estigma social: “Você é sapatão?”. Sendo quem ela era e como se comportava, lhe soava impossível que alguém fosse ter interesse em segui-la e tentar forçar-lhe um beijo. Não tinha amigos ou conhecidos. Ninguém a chamaria para dançar. Não que isso importasse, pois ela tampouco desejava estar ali. Foi obrigada, assim como acontecia com todo tipo de socialização que todos julgavam obrigatória a uma garota de dezessete anos. Felizmente, tudo aquilo acabaria logo. Depois daquela noite, jamais teria que ver aquela gente de novo. Finalmente estaria livre para viver sua vida só e tranquila. Isto é, se sobrevivesse ao garoto bêbado primeiro.
— Fala a verdade pra mim, sua… Piranha. — Disse o garoto.
Palavras longas e frases coerentes pareciam um fardo grande demais para ele naquele momento. Arrastava cada linha de raciocínio como pesadas bolas de chumbo. E num esforço tal qual, caminhava na direção de Roxanne.
Tudo parecia acontecer em câmera lenta. À medida em que ele balbuciava ameaças incompreensíveis, aproximava-se de Roxanne impetuoso, feroz. Por sua vez, ela recuava sem saber como reagir. Passo após passo, seu peito acelerava e seu ventre era como o olho de um furacão. “Socorro”, “vá embora”... Palavras tentavam abrir caminho para serem ditas, mas sua timidez era mais forte que os próprios instintos. Quando suas costas finalmente tocaram a grade, o fedor do álcool que o garoto exalava lhe socou o nariz. Um alarme que até então vibrava semi-dormente disparou em seu âmago. O garoto apoiou as pesadas mãos sobre seus ombros, o peso do seu corpo jogou Roxanne como uma estátua de mármore contra a grade.
Roxanne queria gritar. Queria chorar e espernear e lutar. Mas não conseguia. Fosse por estar perdendo o fôlego com o peso do garoto sobre si ou pelo terror de ter seus gritos de socorro desperdiçados na noite fria, permanecia odiosamente calada. Ela seria estuprada. E não havia nada que pudesse fazer para mudar isso.
Havia?
Fale com o autor