Rouquidão

1 O Descobrimento do Novo Mundo


ATO I

Meu irmão possuía um perfume que me dava calafrios porque sempre que ele usava esse perfume, algo muito ruim acontecia.

Ele havia ganhado esse frasco aos sete anos, um perfume de vidro azul, quadrado e fosco, de fragrância lavanda e nome “fortune”. Era um cheiro particularmente suave, característico, interessante e tranquilo, mas seu cheiro sempre me trazia a mente as piores memórias que uma criança podia ter.

Dois anos mais novo que Lúcio, meu irmão, eu me lembro de ele ter usado esse perfume apenas três vezes: no dia que ele quebrou a perna durante uma partida de futebol, em um campeonato muito importante para ele, que acabou dando tudo errado, resultando em inúmeras contusões, uma perna quebrada, um joelho danificado e a impossibilidade de voltar a fazer esportes ou exercícios físicos de forma normal; num dia de muita neve em uma viagem internacional que fizemos, que era para ser ótima pois iríamos esquiar, e a neve era um requisito importante, mas que resultou em um capotamento de carro comigo, mamãe, Lúcio e papai, acabando com três dos quatro em coma; e no dia que vovó e vovô faleceram. Não apenas vovó, não apenas vovô: vovó e vovô faleceram juntos enquanto faziam sua primeira viagem de balão, que acabou dando errado por causa de ventos fortes e uma chuva repentina, que desandou e atordoou o balão para lados errados, que acabou por chocar com rochas, que por sua vez detonaram o balão e resultou numa queda grotesca e na morte das duas pessoas que eu e Lúcio mais admirávamos.

Todos esses acidentes me veem a mente com o cheiro característico do perfume de lavanda de Lúcio. Ele também, por causas óbvias, não gostava de usar esse perfume, mas, diferente de mim – uma criança apegada demais à fantasias e superstições – Lúcio tentava fazer com que aquele cheiro bom e aterrorizante de lavanda não nos trouxesse mais lembranças horríveis.

Naquele dia, Lúcio decidiu que iria usá-lo pela quarta vez.

Papai não poderia ir conosco para a cabana na praia que mamãe tinha alugado. Era uma viagem de duas horas e ficaríamos lá durante cinco dias, mas papai havia confirmado presença em uma convenção de psicologia, então deveria viajar, não conosco, mas para outra cidade, para participar dessa convenção. Minha mãe aceitou facilmente; diferente de nós dois, que estávamos achando horrível a ideia de viajar sem papai, ela sabia que era uma oportunidade importante para ele. Há algum tempo que ele buscava pela oportunidade de divulgar o próprio consultório e aumentar a renda da família.

Com o perfume no pescoço, Lúcio, eu e mamãe saltamos para dentro do jipe e dirigimos até a cabana na praia.

Foram três ótimos dias de muita maresia, água de coco, areia nos cabelos e na sunga, sal no rosto e nas costas e queimados de sol. Eu me sentia revigorado pelo calor suave da praia, pela individualidade que era estar apenas com mamãe e Lúcio na praia, pela paz que eu tinha perto dos dois. Havíamos marcado cinco dias de viagem, mas mamãe recebeu uma ligação da empresa onde trabalhava pedindo que ela retornasse com urgência.

Lúcio colocou novamente o perfume no corpo, ajeitamos nossas malas que sequer haviam sido desfeitas, pulamos para dentro de jipe e fizemos as duas horas de viagem de volta para casa.

Após entramos em casa e colocarmos nossas malas ao chão, nós três conseguimos ouvir um barulho vindo do andar superior. Não era nenhum barulho que conseguíamos decifrar, só barulho de gente, de qualquer coisa. Meu pai estaria na convenção e nós estaríamos na praia, então mais que depressa minha mãe ligou para a polícia e avisou que havia gente em casa.

O policial perguntou.

— A senhora tem certeza que não é nenhum conhecido, ninguém que possua a chave da casa que entrou?

— Tenho.

— Estaremos enviando uma viatura.

Ela nos colocou atrás dela como um pássaro que acabava de ver seu ninho ameaçado.

— Faz silêncio, meninos.

O cheiro de lavanda começava a ganhar ainda mais força, talvez por memórias que começavam a vir até minha mente, talvez porque eu estivesse perto demais de Lúcio. Eu queria abraça-lo. Lúcio era sempre muito complacente e amoroso comigo. Eu via as outras crianças reclamando de seus irmãos, mas eu só conseguia pensar que tinha sorte. Lúcio era bom, amoroso, mesmo sendo o irmão mais velho.

Ele me deu um sorriso de que ia ficar tudo bem, mas o cheiro de lavanda em seu pescoço me dizia o contrário.

Devíamos simplesmente ter voltado para o carro e esperado a polícia aparecer em casa. Provavelmente seria o que qualquer outra mulher teria feito naquelas condições, mas mamãe caminhou até a cozinha e pegou uma faca.

Ela repetia para que fizéssemos silêncio.

Ouvimos passos descendo a escada e, quando finalmente a pessoa apareceu, nua e alta, mamãe acertou o bíceps do homem com a faca, que deslizou na diagonal quando mamãe não conseguiu forçar a faca direito.

A cena foi assustadora e inquietante, talvez porque ninguém fez um barulho sequer, e o único som que se seguiu foi da lâmina acertando o assoalho e balançando uma, duas e três vezes. Minha mãe encarou o homem e, em silêncio, deu as costas, vindo em nossa direção a passos rápidos.

Meu pai levou a mão até o bíceps cortado, onde o sangue escorria fino e suave, e talvez tenha tentado tapar o próprio pênis dos nossos olhos, mas a única coisa que eu e Lúcio transparecíamos era de total incredibilidade. Não fazia diferença se papai estava nu ou ferido, aquilo ainda parecia mentira.

Minha mãe pegou nos nossos ombros e nos mandou voltar para o carro.

— Anda, meninos — disse ela em tom firme.

Nos viramos também e começamos a caminhar, na mesma velocidade que mamãe, que tinha as duas mãos em nossas costas, uma nas costas de cada filho, até o carro. Ela me levou primeiro para a porta esquerda do passageiro, abriu, me sentou ali, me olhou nos olhos e passou o cinto em mim. Ela me deu um beijo na testa.

Repetindo a cena, mamãe dirigiu-se ao lado oposto, abriu a porta, sentou meu irmão, passou o cinto, lhe deu um beijo na testa e fechou a porta.

Tudo aconteceu em segundos.

Quando ela sentou no banco do motorista e passou o cinto em si mesma, ela soltou o ar alto e pisou no acelerador.

O carro deslizou a tempo de papai vir correndo, agora em cuecas samba canção, e bater no capô do jipe duas ou três vezes. Mamãe foi mais rápida: trocou a marcha e, numa velocidade digna de motoristas experientes, deu ré, fez curva e endireitou o carro na rua.

Papai pedia para ela esperar.

— Verônica, vamos conversar.

Ela pisou forte. O carro arrancou com tamanha violência que bati minha cabeça no encosto e senti a velocidade e a paisagem ganhando forma. Em minutos estávamos longe dali.

Acho que por fim eu tinha me acostumado com o cheiro da lavanda porque já não me incomodava mais. O silêncio dentro do carro era um pouco aterrorizante. Lúcio tinha os olhos fixos na paisagem, ou no vidro, eu não sabia dizer, e mamãe dirigia rápida como guepardo na selva. Eu sabia que as lágrimas corriam o rosto dela com voracidade e eu quase podia vê-la, mas a única coisa que eu realmente via eram seus cabelos castanhos claros, quase dourados, que brilhavam com a luz do sol.

Lúcio era muito parecido com ela. A cor dos cabelos, o semblante doce, as sobrancelhas espessas, os olhos claros... eu não. Eu era diferente dos dois. Uma mistura bem-feita de meu pai e de minha mãe, de cabelos muito escuros e muito finos. Eu tinha uma pele muito opaca e pálida, que me deixava com as olheiras mais arroxeadas do que uma pessoa normalmente tem. E boca muito fina, e nariz meio grande, traço que puxei de meu pai, porque mamãe e Lúcio possuíam um nariz elegante e esguio. Meu pai tinha pele pálida também. Lúcio e mamãe possuíam pele branca, mas de tom ameno e leitoso, que lembrava saúde. A minha e de papai eram como peles de cadáveres, de tom incerto e acinzentado. Eu tinha olhos tão escuros que na maioria do tempo era impossível de distinguir a íris da pupila. Mas minhas sobrancelhas eram iguais às de mamãe e Lúcio.

Inquieto, eu alternava entre olhar para Lúcio, mamãe ou para a paisagem. Eu observava os pinheiros que passavam velozes pela janela e sabia que estávamos voltando para a cabana na praia.

Eu não entendi muito bem o que aconteceu, mas um vulto surgiu na estrada antes que qualquer um de nós pudesse ver.

Ele acertou o lado direito do para-choque do carro, subindo até o para-brisa, que quebrou com o impacto, e depois rodando por sobre o teto do jipe, caindo atrás de nós e voltando rolando para a floresta. Foi tudo muito rápido.

O impacto fez com que Lúcio acertasse a cabeça no vidro, que eu batesse a nuca no encosto e que o carro deslizasse na pista, enquanto mamãe lutava com o volante para retomar o controle da direção. Durante uma fração de segundos pensei que fôssemos capotar. Contudo, minha mãe conseguiu diminuir a velocidade, dominar a direção e frear o carro antes disso.

Ela olhou para nós, firme e séria, com os olhos azuis avermelhados pelo choro, com todos os pequenos capilares visíveis nos olhos.

— Vocês machucaram?

Eu e Lúcio, sem soltar um som, balançamos a cabeça em negação. Tínhamos os olhos arregalados. Eu soltei o cinto e subi no banco, olhando para trás.

— O que foi aquilo? — perguntei.

— Só foi um bicho — disse Lúcio.

— Era grande demais para ser um bicho — afirmei.

— Sim, mas era burro demais para ser uma pessoa — disse mamãe. — E saiu da mata. Veio devagar, surgiu do nada, acertou o para-choque... Não sei o que era. Mas vocês estão bem?

Estávamos bem a medida do possível. Sei que Lúcio estava segurando a barra por mim e por mamãe, e que mamãe estava se contendo sozinha. Eu só estava confuso. Ainda não havia entendido todos os acontecimentos, era como se eu não pudesse processar todas as informações sozinho. Minha mãe apoiou no banco ao lado dela.

— Me perdoem — ela falou, agora em um timbre não tão firme quanto o anterior. — Não devia ter dirigido tão rápido.

— A senhora não tinha como imaginar que um bicho invadiria a pista.

— Tá tudo bem, mãe.

Ela voltou a olhar para a frente. Encostou a cabeça no volante. O para-brisa estava muito rachado, com um círculo enorme no lado direito.

— É... está meio ruim, sabe, para enxergar com esse vidro assim — falou ela.

— Quer que eu vá na frente contigo? — Perguntou Lúcio.

— Fica com Bartolomeu aí. Tá tudo tranquilo. Eu só estou pensando. Qual a cidade mais próxima de lá? Acho que é a próxima. Teremos que ir até lá primeiro.

— Tá escurecendo.

— Eu sei. Não dá pra dirigir com esse vidro assim a noite.

— Vamos esperar algum carro passar para dar ajuda para a gente? Ou a gente liga para alguém? — Perguntou Lúcio.

— Estou pensando...

Eu sabia que na cabeça de todo mundo havia passado a mesma ideia: papai. Era a única pessoa que viria correndo para salvar a gente, mesmo depois de tudo que havia acontecido. Eu não entendia muito bem. Mas não tive coragem de citá-lo.

Uma sombra veio surgindo atrás do jipe antes que qualquer um de nós três pudesse ver. A coisa bateu no vidro de trás estupidamente, arrastando as mãos cheias de sangue no vidro. Tremulei.

O homem estava com o pescoço quebrado. O rádio do braço estava exposto e ele batia esse osso visível no vidro enquanto batia cabeça tentando nos alcançar. Engoli um grito e senti um medo horroroso subindo das entranhas até a boca e quis vomitar. Minha mãe olhava com os olhos num misto de terror e pânico. Lúcio suspirava como bicho que levou tiro no lugar errado e agora agonizava durante a morte.

A resposta rápida de mamãe foi pisar no acelerador e dirigir para frente, e eu que estava sem cinto fui arremessado contra seu banco. Ela gritou para que eu colocasse o cinto.

— Coloca o cinto, coloca o cinto — repetia alto.

Lúcio esticou os braços a medida do possível e me empurrou contra o banco. De dedos longos e ágeis, apertou o cinto em mim.

— Vai — gritou para mamãe.

Ela acelerou.

Notas finais
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