Rotten Flesh
1 Capítulo I
Notas iniciais
Amber:
“O fim do mundo havia começado e eu ainda nem havia tomado café da manhã.
Era primavera, a brisa fresca entrava pela janela do hotel
em que eu e meu irmão estávamos hospedados com seu time de baseball em San Diego. Eu deixei de aproveitar uma semana de férias de primavera com meu namorado e meus amigos para acompanhar meu irmão mais novo, George, e seus amiguinhos esquisitos nessa viagem.
Meu pai é o real treinador do time, mas como ele estava muito mal por causa da droga da “Gripe Asiática”, eu, que sou a única da família que entende o suficiente de baseball, tive que ir a San Diego em seu lugar.
George passou a madrugada toda vendo aqueles filmes de terror que ele tanto gostava, mesmo que o jogo fosse depois do almoço e ele precisasse estar descansado, ver “A volta dos Mortos Vivos” na grande tevê do quarto era três vezes mais importante. [suspiro] Aquele geek.
Mas dessa vez eu não acordei com ele gritando para a tela da tevê sobre o quão burros eram os protagonistas.
O barulho da batida de carro lá em baixo foi tão alto que eu caí da cama ao acordar. Corri até a sala e encontrei George com olheiras enormes correndo aos tropeços até a janela. Lá em baixo dois carros haviam batido na frente do hotel
, a frente de cada um deles havia sido amassada de uma forma horrível, um dos motoristas tinha sido jogado para fora do carro pelo vidro da frente e estava caído sobre os destroços do capô do outro, o outro motorista saiu de seu carro com a testa sangrando e alguns arranhões, mas nada comparado ao outro.
Este parecia desesperado encarando o outro e passando as mãos na cabeça, enquanto isso algumas pessoas se juntavam ao redor.
George assoviou.
—Essa foi feia. —falou
—Oh, meu Deus! George, isso não foi feio, foi uma tragédia! Que horror!
Ele ia falar algo, mas as pessoas lá em baixo o interromperam com seus gritos, o homem caído sobre os destroços começou a se arrastar sobre os mesmos em direção ao outro motorista que estava perto tentando acudi-lo. Ele mordeu seu pulso. Eu vi o sangue espirrando para todo lado.
George recuou e eu gritei.
À distância uma fumaça negra subindo aos céus e ouvimos o barulho dos carros da polícia.
Havia começado.
////
George começou a correr pelo quarto e pelos corredores gritando os garotos do time para arrumarem suas coisas para irmos embora dali, eu ainda estava em choque..
[Amber: Até hoje não superei]
...Estava sentada no sofá agarrando os cabelos, e pensando: ‘Que droga foi aquela?’
George voltou dos corredores arfando, pegou as garrafas d’água que o hotel
deixava na geladeira da cozinha e com alguns pacotes de salgadinhos que havia tirado de eu sei lá onde.
Ao passar por mim para ir ao quarto pegar sua mochila, que havia sido intocada desde a manhã anterior quando a preparou para ir viajar, ele parou.
—Você vai ficar aí sentada o tempo todo?! Nós temos que ir! —Ele bradou
—Aquele cara... ele matou o outro, ele mordeu o outro. —gaguejei
—Amb, eu sei que é difícil lidar com isso, eu estou em pânico, mas não dá para ficar sentado olhando o tempo passar. —ele falou sério—Nós temos que agir ou talvez acabemos como aquele cara.
Puxei o ar com força, meus pulmões doeram, mas isso me deu incentivo para me levantar.
—O que quer que eu faça?
Ele me lançou um sorriso torto.
—Pegue tudo o que for útil, comida e água se achar, encontre meu taco reserva e arrume suas malas. Rápido.
E eu o fiz, corri para todo o canto naquele quarto e também tentei falar com meus pais e com Adam, meu namorado, mas só caia secretária eletrônica, na de meus pais eu ouvia as vozes de George e meus velhos e na de Adam eu ouvia nossas vozes, mas nada de alguém atender.
Tentei me acalmar e por na minha cabeça que tudo estava bem, que mamãe e Adam estavam visitando papai no hospital e só. Mas era difícil.
—Amb, vamos, os garotos já estão no ônibus! —George apareceu na porta quase sem folego
Peguei seu taco de baseball reserva em cima do sofá e a minha mochila, corri com ele pelo corredor. Tinha um daqueles cara lá em baixo no saguão atacando um dos meninos do time de George, um baixinho de uns quatorze anos. Era o motorista do nosso ônibus, ele também estava gripado, mas foi gentil em se disponibilizar assim mesmo para nos levar, era estranho vê-lo pálido como um cadáver e rosnando para o menino. Mas o pior foi ver George arrebentar a cabeça dele com seu taco de baseball.
Quando terminou, estava com o rosto todo respingado de sangue e as pessoas do saguão já tinham fugido desesperadas. Ele olhou para o menino.
—Foi mordido? —indagou
—N- não... —gaguejou—Você matou ele?
—Não acho que ele estivesse vivo, mas sim, eu matei. —ele disse—Era isso ou você teria virado lanchinho da tarde.
Ele não esperou o menino falar nada e correu para fora. Lancei um olhar para o menino e segui meu irmão, lá fora estava um caos, o motorista... “mortorista” ainda devorava o outro pobre coitado e ninguém fazia nada, nem nós. Nós não fizemos nada além de correr.
O ônibus estava estacionado lá perto, nós três entramos e demos de cara com os outros andando de um lado para o outro no ônibus.
—G! —um dos garotos chamou quando entramos—O que está acontecendo? Cadê o motorista?!
—Morreu. —George falou sem pudor jogando sua mochila em uma poltrona e tentando limpar seu rosto—E se não sairmos daqui rápido... nós também vamos.
///
Por ser a única com carteira de motorista e a única com mais de dezoito anos, eu tive de dirigir a droga do ônibus. Enquanto isso George e alguns dos caras mais maduros, ‘o grupinho dos 17’, que já haviam entendido a situação criavam um plano.
—Se chegarmos a Bay Area e as coisas estiverem como estão aqui em San Diego vamos ter que tomar algumas providências. —George falou
—O quê? —um dos garotos questionou com escarnio—Assaltar farmácias e supermercados?
—Talvez.
O garoto revirou os olhos.
—Isso não é um dos seus vídeo games ou filmes idiotas, seu nerd, as coisas aqui são diferentes, isso aqui é real. —o garoto disse autoritário, acho que seu nome era Jim, ele e George não se davam bem—Temos que achar os militares, eles vão nos levar para um lugar seguro e não vamos ter que arriscar nossas vidas em um plano feito por um idiota que passou metade da vida escondido do mundo no quarto.
George grunhiu de raiva, enquanto isso eu finalmente havia nos tirado de San Diego e estava na estrada...bem, havia muitos carros na estrada para sair da cidade, tipo, muitos mesmo. Então...se for parar para pensar eu não havia saído de lá exatamente...
—Não temos certeza se os militares vão nos ajudar logo de cara, precisamos nos precaver, achar nossas famílias, um lugar seguro e suprimentos. —tentou argumentar
—Vamos decidir isso logo! —Jim disse alto—Quem apoia irmos procurar por uma base militar ou pedir ajuda para a polícia levante a mão.
Praticamente todos os garotos levantaram as mãos, exceto por aquele garoto que George salvou, ele estava de braços cruzados e uma expressão carrancuda, e o próprio George.
Jim sorriu com escárnio.
—Parece que vamos atrás dos militares.
—Vocês nem sabem se eles tem uma base! E suas famílias, vocês vão deixa-los para trás?! —George estava muito irritado
—Provavelmente vão para a base também, qual é G, é a escolha mais inteligente. —Jim disse e muitos concordaram
George deu as costas e veio até mim, cruzou os braços e fez a mesma expressão carrancuda que o menino que não levantara a mão.
—Não se irrite com eles, todos estão assustados assim como nós. —sussurrei e baguncei seus cabelos castanho-claros como fazia quando erámos menores
—Mas nem por isso estamos nos esquecendo de nossas famílias ou acreditando que os militares vão ser nossa salvação, nos filmes...
—Isso não é um filme George. —falei séria dessa vez—Pessoas estão morrendo lá fora e é real, eu não sei como é possível, mas é de verdade. Temos que pensar no que realmente pode nos salvar.
Ele desviou o olhar e não disse nada. Suspirei.
—Mas talvez você esteja certo também, e se estiver eles vão notar isso, temos um longo caminho pela frente até lá.
Ele bufou.
—Eu espero.”
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