Rossyia
2 o herói iludido
Notas iniciais
Ele não era um homem mau, pelo menos não se considerava como tal. Homens maus eram aqueles que passavam a vida fazendo coisas ruins, cujo objetivo de suas vidas era fazer ruindades e que tinham prazer ao fazê-las. Ele não era assim... Bom, primeiro porque não sabia o que queria fazer de sua vida e, segundo, pois não via prazer algum no mal.
Depois da morte de Nikolai, ele se vira como o alvo das expectativas não apenas de seus pais, mas também de todos que o conheciam. Ora, ele era o único herdeiro da maior fortuna do império russo, maior até do que aquela pertencente à família imperial. E também era o filho imaturo, não? Nikolai era o sério, o responsável, aquele que herdara a responsabilidade do pai, enquanto ele... Bom, ele era o filho que saía as escondidas para visitar os ciganos, que se divertia ao colocar as roupas de sua mãe e passar-se por uma moça para enganar os homens, que gastava dinheiro com coisas frívolas como cachorros e obras de arte. Se ele não levasse a sua família à falência, quem mais o faria?
A Grã-Duquesa Elizaveta Romanova dizia o contrário. Para ela, ele era o futuro, ele seria lembrado, ele era um homem bom. A amável grã-duquesa era a única que o via assim, pelo menos dentro da corte. Não lhe era desconhecido a antipatia que a Imperatriz tinha para com ele, assim como a filha desta e prima de sua Irina, a Grã-Duquesa Olga Romanova. Elas não eram as únicas, é claro, haviam mais. Alguém não pode ser feliz sem ter algumas dezenas de pessoas falando mal de si às suas costas.
Aliás, Irina era, naquele momento, a sua maior preocupação. Falassem o que quisessem sobre ele e as suas preferências, mas Irina era o seu céu e a sua terra naqueles dias. Ela também acreditava que ele não era um homem ruim, aquilo devia bastar.
Mas, não, ele tinha que ir atrás de mais. Ele tinha que ser lembrado como algo a mais do jovem frívolo e cabeça-de-vento, diferente de como todos queriam que ele fosse visto. E ele estava destinado à isso! Ele estava destinado à grandeza, isso era certo, já haviam lhe falado isso, haviam previsto tal acontecimento assim como previram a morte de Nikolai.
Ele não era um homem mau. Ele se recusava a ver a si mesmo como um vilão, até mesmo quando ergueu a pistola e apontou-a para aquela criatura revoltante que se dizia um santo – Santo! Aquilo era o vilão! Aquele demônio cujos poderes conseguiam convencer todos, hipnotizando-os e fazendo com que eles obedecessem à ele cegamente! – e nem quando puxou o gatilho, fazendo o outro cambalear para trás com as mãos apertando o ferimento em seu peito.
Ele seria lembrado como aquele que libertou a Rússia das garras sombrias do monge louco, como alguém que fez algo pelo seu país. Tal pensamento inundou a sua mente o tempo todo desde que viu Rasputin caído sobre o tapete de seus pais até quando voltara para pegar o seu casaco... O seu frio somado à curiosidade o fez voltar para o porão, para olhar, mais uma vez, o trabalho que fizera. Não se sentia bem por ter matado o homem, mas sim por ter salvado o seu país. Matá-lo era uma conseqüência.
A única coisa que o jovem não esperava era a voz baixa e rouca que escapou dos lábios do morto – morto, sim, eles haviam confirmado isso. Fe-Felix, Felix... Antes que este se erguesse e, como que em uma cena de livro, pulasse para cima de si, alcançando o seu pescoço com suas mãos enormes e imundas. Ele gritou, arranhou, chutou e sentiu seu coração querendo pular para fora de seu peito ainda quando seus companheiros conseguiram tirar aquele animal de cima dele. E aí ele escapou... E depois tudo foi como um sonho muito confuso. Eles corriam atrás do monge, atiravam nele, mentiam para um policial, atiravam novamente e o carregavam para longe. Seu destino final fora o gelado Rio Neva, lugar que, talvez, fosse até bom demais para um demônio como aquele.
Ele não era um homem mau... Este virara um tipo de lema seu pelo resto de sua vida. Ele não era mau por livrar o mundo de criatura tão revoltante quanto Rasputin, ele não era mau por ter feito o seu dever como cidadão do império russo.
Ele não era.
Ele era um homem bom.
Ter Deus em um olho e o Diabo em outro não significava que ele fosse ruim.
Notas finais
"Você tem Deus em um olho e o Diabo no outro." Isso foi dito à ele pela bailarina Anna Pavlova, quando ele a conheceu.
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