Rossetti
1 rossetti
Notas iniciais
“Me lembre outra vez a razão de estarmos recebendo o meu pai aqui?”
Abraxas respirou fundo e se forçou a sorrir. Toda e qualquer interação entre Tom e o pai necessitava de muito preparo e paciência, mas, naquele momento, todo o preparo e paciência de Malfoy estavam destinados à nova exposição na National Gallery, que abriria dali duas semanas.
“Porque é ele quem está negociando o empréstimo das pinturas de Rossetti para a exposição dos Pré-Rafaelitas e precisamos ver como vamos organizar a galeria.”
“E por que não fazem isso no museu?” Riddle torceu o nariz e cruzou os braços em frente ao peito.
“Porque eu não aguento mais ficar dentro daquele lugar.”
“E por que não um café? Ou a casa dele?”
“Porque, Tommy, nós moramos quase do lado da National Gallery e ele mora na droga da Bedford Square Garden-“
“São só dezesseis minutos a pé.”
“Eu quero fazer isso em casa, Tom,” disse Abraxas, tentando fazer a sua voz soar o mais séria possível e recebendo um olhar de desdém do outro. “Eu pensei que você já tivesse superado esse ranço. Não é por isso que você faz terapia?”
“Minha terapia não se resume aos problemas com o meu pai,” Tom resmungou, sumindo atrás do biombo outra vez. A julgar pelo barulho de água e louças batendo, o homem estava descontando toda a raiva na pobre porcelana.
“Você não precisa estar aqui,” o loiro falou, encolhendo os ombros e ouvindo a torneira ser desligada. “Mas, se estiver, sabe que pode ajudar. Você sempre teve ideias boas para disposições de quadros.”
Malfoy ouviu alguns resmungos incompreensíveis por detrás do biombo (Tom sempre dizia odiar o objeto que separava a cozinha e sala da cama deles, mas no momento o estava usando para se esconder com maestria). Depois de alguns segundos, o homem reapareceu, marchando até o outro lado da cama para apanhar a gravata e terminar de se arrumar.
“Bom trabalho para você também,” disse Abraxas, quando Riddle simplesmente pegou a sua pasta e se dirigiu para a porta do apartamento praticamente batendo os pés.
A porta bateu e nenhum indício da voz de Tom se fez presente. O loiro suspirou. Se fosse ser totalmente sincero, sabia que poderia escolher outro lugar para fazer aquela reunião, mas talvez fosse o seu lado otimista tentando colocar os dois Toms no mesmo ambiente e ver o que dava. Bom, ele sabia o que iria acontecer, já vira isso em outras ocasiões: Tommy ficava emburrado e parecia voltar a ter dez anos de idade, enquanto os níveis de ansiedade de Tom Maior se elevavam ao ponto de ele quase não conseguir parar quieto em qualquer lugar. Mas, da última vez, eles haviam conseguido trocar alguns diálogos genuínos, coisas que não pareciam forçadas. Além disso, trabalhar com o pai de Tommy resultava em volte meia ouvir o homem falar do filho, fosse para perguntar como ele estava ou comentar algo que lera sobre ele em algum jornal. O Riddle mais velho era, como Brax, um zero a esquerda para com o assunto de Direito, mas se esforçava pelo bem do filho.
Talvez ele estivesse sendo tão teimoso quanto os Riddle, mas teria aquela reunião na sua sala/cozinha nem que Tommy acabasse defenestrando o maldito biombo no meio do caminho.
***
“Eu adoro esse,” disse Tom Riddle Sr, tocando a foto da pintura com a ponta dos dedos e a deslizando até coloca-la entre outras duas fotos. “A maioria delas tem cabelos ruivos ou escuros, podemos... intercalar elas?”
“É uma boa ideia.”
Sobre a mesa, diversas fotos de pinturas mostravam mulheres com rostos sérios, cabelos fartos e lábios cheios. Apesar da ansiedade evidente no incessante bater do pé direito no chão, Riddle parecia relativamente relaxado enquanto movia as imagens para lá e para cá, imitando como deveria ficar cada pintura na galeria. Volte meia Malfoy tinha que pigarrear ou falar algo para tirá-lo de sua distração, quando o homem parecia se perder nas imagens, um sorriso discreto repuxando os seus lábios.
Tommy, é claro, permanecia em silêncio. Como previsto, o jovem não ocupou o tempo livre com algum passeio ou café fora, mas foi direto para casa depois de sair do escritório. Riddle, apesar de todas as reclamações, não iria deixar o pai ficar em seu apartamento sem estar junto. Além disso, era como se algo puxasse o rapaz para qualquer possível briga com seus familiares (na verdade, com o pai, pois a relação com os avós, um casal de idade de East Yorkshire, era relativamente boa).
“Todas elas são iguais,” disse Tom, esticando o pescoço de onde estava, na escrivaninha, para olhar os quadros. “Não me surpreende que você goste tanto delas. Todas são parecidas com Rowena.”
Apesar de ter quarenta anos na cara, Tom Maior sempre parecia um adolescente quando qualquer um falava de seu relacionamento com a jovem astrônoma. Abraxas já ouvira a história sobre os vinte a poucos anos que o homem passou tendo ataques de pânico toda vez que se aproximava de uma mulher e achava adorável (para não dizer ‘fofo’) como ele e a Ravenclaw acabaram juntos, dois eremitas em suas respectivas áreas.
Dito isto, não foi de se surpreender que, ao ouvir o comentário do filho, Tom Sr. tenha ficado mais vermelho do que Tommy quando alguém apontava alguma falha sua. Ele tentou se explicar, falando sobre Rossetti e o estilo Pré-Rafaelita, mas estava óbvio, pela expressão do filho, que de nada lhe interessava tais explicações.
“Vou fazer um chá,” disse Abraxas, se levantando e colocando fim na fala desenfreada do homem. “Quer, Tommy?” ele perguntou, vendo o outro assentir rapidamente.
“É um flat muito bom, esse de vocês,” disse Tom Maior e o loiro apenas respirou fundo, esperando que o mais novo não recebesse aquilo como alguma ofensa. “Em uma localização ótima.”
“Isso é uma quitinete,” Tommy corrigiu. “Nem todo mundo consegue comprar uma casa de frente para um jardim de Londres ou uma mansão no interior.”
Abraxas fechou os olhos, orando para que a água esquentasse logo.
“Ah, mas... é uma ótima quitinete,” o homem continuou. “E vocês conseguiram deixar tudo muito organizado. Se fosse eu morando aqui, teria cadernos caindo pela janela. Tenho mania de acumular coisas...”
A fala interrompida pelas palavras que pareceram se dissolver no ar foi seguida por um silêncio um pouco mais constrangedor do que os anteriores. Tommy ficara estranhamente quieto, algo incomum, já que ele não perderia a oportunidade de alfinetar o pai pela falta de organização.
Quando se virou para olhá-los, Abraxas não sabia se ria ou ficava envergonhado da situação. Os dois homens, ambos com uma expressão engraçada nos rostos bonitos e característico dos Riddle, olhavam para a mesinha ao lado do sofá, onde o mais velho estava sentado. Não havia nada demais ali em cima: uma foto de Tom e Abraxas enfiados em casacos pesados na Alemanha, uma vela meio usada, um telefone (que nunca era usado) e um frasco de lubrificante. Nada muito constrangedor, claro, se não fosse Tom Riddle Sr. ali, vendo a prova de que, na noite anterior, o filho e Malfoy tinham transado naquele mesmo sofá onde ele estava sentado.
Não que o fato de que os dois dormiam juntos fosse algum segredo, mas era levemente constrangedor quando a prova disso estava exposta aos olhos do pai de um deles. E não quer Tom Maior fosse tão inocente assim, mas ele era discreto e, não fosse pelos eventuais hematomas ou arranhões no pescoço do homem, Abraxas não desconfiaria que ele e a namorada se aventurassem em mais do que sexo carinhoso e programado.
O homem piscou, desviando o olhar para as fotos dos quadros outra vez. Tommy, com o rosto vermelho denunciando a sua timidez esporádica, voltou a mexer na papelada que havia trazido do escritório. Malfoy serviu a água quente sobre os saquinhos de chá em silêncio.
“Bom,” disse o Riddle mais velho, pegando uma das fotografias nas mãos. “Acho que podemos colocar La Donna della Finestra próximo ao Jardim de Proserpine, que tal?”
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