Roses And Demons: Warbloom

93 Uma Magia que Reverte Tudo ao Estado Original


Notas iniciais
Nem as bruxas escapam das aulas de química.

A aula daquela tarde havia terminado e as alunas foram dispensadas do laboratório. Aquelas jovens bruxas organizaram o local, colocando equipamentos e componentes em seus devidos lugares para então ir embora. Uma delas, contudo, foi barrada.

–Você não, Jenipher. A mestra Anya deseja ter uma conversa e pediu para que aguardasse.

Chaneel, que na época tinha apenas dezesseis anos, sentou numa das muitas cadeiras vazias enquanto a professora recolhia seus objetos e se retirava. Por alguns minutos a ruiva não teve nada para contemplar além dos próprios pensamentos, até que finalmente a pessoa que esperava surgiu.

–Sinto muito por deixá-la esperando, Jenipher.

–Tudo bem, eu entendo que você é uma pessoa muito ocupada. – Respondeu a garota respeitosamente, colocando-se em pé.

–Sei que você tem estudado bastante os livros de magia. Por acaso já encontrou alguma que queira dominar?

A aprendiz estava ciente de que, após um ano de treinamento básico, esperava-se que uma bruxa começasse a se especializar num tipo de magia e iniciasse o processo de criação do objeto encantado que usaria como condutor de seus poderes pelo resto da vida. Infelizmente ela ainda não fazia ideia de qual caminho desejava seguir e, envergonhada, mal conseguia encarar Wald.

–Sinto muito, mas ainda não tomei uma decisão.

A mulher de cabelos cinzentos abriu um minúsculo sorriso.

–Já esperava por isso. Na verdade, eu vim justamente lhe fazer uma proposta. Penso que encontrei o encantamento ideal para você, mas ela exigirá muito esforço.

–Que encantamento é esse, mestra?

–Uma magia que reverte tudo ao seu estado original, conhecida como Ordem Natural. – O interesse da adolescente foi instantâneo e, percebendo que estava no caminho certo, Anya prosseguiu. – É um poder dividido em estágios. O primeiro, aprender a conter os elementos da natureza, já é bastante difícil. Para chegar ao segundo então você precisará de um esforço enorme, pois se trata de reverter a influência dos poderes mágicos, que beiram o sobrenatural.

Dominada pela tensão e curiosidade, Jenipher adivinhou o rumo daquela explicação, o que deixaria a mestra orgulhosa com a capacidade de percepção da menina.

–Existe um terceiro estágio, não é?

–Exatamente. Os livros não explicam do que uma bruxa que dominou completamente a Ordem Natural é capaz, mas eu não me surpreenderia se alguém assim pudesse influenciar até mesmo conceitos abstratos como a sorte ou o destino.

Aquilo era tudo que Chaneel precisava ouvir. Agora tinha certeza absoluta de que esta era a magia que desejava controlar, mesmo que para isso tivesse de pagar um preço altíssimo. E Wald, que enxergava isso nos olhos da discípula, viu-se na obrigação de dar um conselho.

–Tome muito cuidado com as decisões que tomar. Vou lhe contar uma história sobre uma mulher que desafiou o próprio destino e venceu. Ironicamente ela se chamava Jenipher, assim como você.

–Não há necessidade, mestra, eu conheço essa história.

Sem realmente estar surpresa, a velha colocou a mão sobre o ombro da garota e lhe disse algumas palavras gentis antes de sair.

–Então pense bem no significado dela.

Spectra sentia algo de diferente no ar, algo que não era capaz de discernir. O cheiro pungente de sangue e a mortalha de caos, tão intrínsecos à guerra, pareciam ter sumido. O ar ao redor parecia puro. Mas ela não se deixou levar por uma falsa sensação de paz, tinha certeza de que a responsável por isso era sua oponente e que isto não representaria nada de bom para si mesma.

Jenipher arrancou as adagas de seu braço com apenas uma mão e as jogou para trás, onde caíram sobre um empericiano caído e tilintaram na armadura. A controladora da névoa não deu bola a princípio e se preparou para empunhá-las novamente, mas nada aconteceu. Ela concentrou sua vontade com mais intensidade nos artefatos em seus pulsos, mas nada surgiu em suas mãos.

–Então foi isso!

Chaneel não tinha motivos para esconder, pois sabia que sua inimiga perceberia de imediato. – A Ordem Natural devolve tudo ao seu estado original, inclusive a magia. – Avançou girando seu tridente, acuando-a. Praticamente sem condições de revidar, uma vez que o alcance da arma era uma grande vantagem, Camilla se viu numa situação difícil.

–É mesmo? Estou lisonjeada.

Essa resposta deixou a bruxa confusa por um instante, em que ela balbuciou um “Por quê?”, antes de ser atingida por um gancho, seguido de uma rasteira. Porém, afastou a agressora rapidamente com seu tridente enquanto se levantava.

–Porque não está se contendo ao me enfrentar. – Elucidou a fantasma da ordem.

Jenipher temia usar seu encantamento com força total, pois sabia que assim atrapalharia suas irmãs. Dentro dos limites de sua Ordem Natural, nenhuma bruxa seria capaz de acessar seus poderes, mas se não abandonasse essa restrição estaria em apuros.

Apesar de ter recebido alguns golpes enquanto sua guarda estava baixa, a discípula de Anya já havia se recomposto totalmente e não deixava mais aberturas que pudessem ser exploradas. Enfrentar aquela mulher sem uma arma se mostrava um desafio colossal, mas a controladora da névoa manteve a calma. Conduzindo o confronto para onde precisava, ela rapidamente recolheu uma espada do chão e, finalmente, conseguiu bloquear um golpe.

–Devolver tudo ao estado original? No fundo você é quem mais tem medo dos seus poderes de enxergar o futuro, não é? – Comentou Spectra enquanto o metal das armas de ambas retinia a cada choque.

–Não fale como se me conhecesse! – Defendeu-se a bruxa.

A necessidade de provar suas palavras e a empatia pela adversária agora faziam um pouco mais de sentido para Camilla. Era estranho sentir tais coisas no meio de uma batalha, mas elas alimentavam seu desejo de vencer e ele escolheu abraçá-las. Contudo, isso trazia consigo um questionamento ominoso: se havia mesmo um futuro traçado, até que ponto a vontade humana seria capaz de influenciá-lo? Só havia uma resposta aceitável.

–Seja lá o que você viu, não está decidido enquanto você continuar lutando. – Apesar das bravas palavras, Spectra se viu com a espada presa entre os dentes da outra arma e, com um impulso brusco, Jenipher a desarmou. Aproveitando o movimento em que erguia a parte afiada do tridente, esta usou o cabo para atingir as pernas da adversária e derrubá-la de lado.

–E o que você faria quando visse diante de si um céu coberto de vermelho sangue e o ar te asfixiando com o aroma do terror e da morte? – Chaneel golpeou com o cabo de seu artefato mágico e o ergueu, já iniciando o giro para então atacar com as lâminas, mas Ellure ignorou a dor e reagiu com uma cotovelada.

O ataque no tornozelo colocou a bruxa de joelhos e ela não conseguiu completar o ataque. Nisto, a guerreira da ordem impulsionou o corpo para trás e, com a ajuda dos braços, conseguiu se colocar em pé. Depois, atacou com um chute, obrigando a primeira a defender com o braço ferido. Ela suportou e se ergueu traçando um semicírculo com o tridente.

Spectra girou o corpo para trás e em seguida se lançou para frente outra vez, agarrando o cabo da arma da oponente. Enquanto as duas tentavam arrancar o objeto uma das mãos da outra, a controladora da névoa cravou seus olhos nos de Jenipher e deu sua resposta.

–Eu lutaria até o fim para reverter essa desgraça!

Ao mesmo tempo em que exclamava, Camilla puxou o tridente com todas as forças, mas Chaneel não ofereceu resistência. Ao invés disso ajudou a empurrar e o impulso levou a parte chata da lâmina diretamente para a cabeça da fantasma da ordem. Embora não tivesse se ferido seriamente, o impacto a fez largar o cabo e deu à bruxa uma abertura.

Sem perder tempo, a discípula de Anya reorientou sua arma na horizontal e a forçou para frente, perfurando o corpo da mulher de cabelos cinzentos e espalhando as gotas de seu sangue.

Notas finais
O conto sobre Jenipher, a mulher que superou o destino. E chega a vez de Electron ter sua luta decisiva. Capítulo 194: Meu Nome Em breve.