Roses And Demons: Warbloom

102 Uma Garota que Nunca Chorou


Notas iniciais
Pode não parecer, mas eu garanto que Viper está entre meus personagens favoritos de Roses and Demons.

O sentimento que tomava conta da mente de Erika era de urgência. Era quase como se conseguisse sentir o veneno injetado por Viper infectando suas células uma a uma, causando sua série de efeitos nocivos. Dores de cabeça, tontura, entorpecimento, e isto apenas piorava com o tempo.

Seus ataques, cada vez mais ou ousados, geravam resultados também e a cada rápido embate, Priscilla recebia uma nova ferida que ajudava a manchar seu uniforme de vermelho. Mais isto tinha um preço, pois a princesa era incapaz de evitar todos os ataques lançados em retaliação.

A manipuladora da Ordem se divertia e estava confiante de que a vitória era apenas uma questão de tempo. Lamentava uma única coisa: seu desejo de ter sido enviada à frente de batalha antes. Quantas lutas emocionantes teria perdido durante todos aqueles dias em que foi obrigada a permanecer em Capital? Ainda assim, nem mesmo Priscilla Minson teria a ousadia de desobedecer uma ordem direta de Inferno.

Nisto, a realidade a atingiu como um choque. Seu próprio grito de dor a assustou enquanto cambaleava para frente e tentava se proteger com ataques elementais para impedir a inimiga de continuar a agressão. Suas costas ardiam horrivelmente, resultado de um corte raso, mas extenso, que a bruxa traçou de seu ombro direito até a lombar.

–Aaaargh, isso doeu demais! – Exclamou a controladora do veneno, enquanto sua oponente sentia os joelhos cedendo em protesto ao esforço contínuo que vinha realizando. – Mas acredite, eu já senti coisas muito piores.

Viper se endireitou e abafou um riso, dando-se conta de que também não aguentaria tanto tempo assim. Mesmo se ignorasse todas as suas outras feridas, esta última a obrigaria a passar algum tempo se recuperando. Não fosse isto o bastante, Erika estava resistindo bravamente aos efeitos de seu veneno, mesmo sem conseguir esconder o fato de que sofria muito. Era uma mulher a se respeitar. Não, não somente isso, era também uma mulher a se temer.

–“Isso não é nada comparado ao que já tive de suportar...”

Dois homens truculentos trajando armaduras de couro acompanhavam uma garotinha através de um corredor escuro e encardido. O que ela vestia não poderia ser descrito de outra forma senão como um monte de trapos remendados e seus cabelos curtos e de cor castanho claro estavam desgrenhados. Não tinha mais que seis anos e era puxada pelo braço, que um dos capangas segurava elevado enquanto a conduzia em direção àquela horrível porta de ferro enferrujado. Atrás dela estava um homem que tentava se vestir de forma elegante, mas seus mantos de falsa nobreza, pois sangue azul ele não tinha, estavam sempre amassados e manchados.

–Nós a encontramos, chefe. – Disse o troglodita que mantinha a pequena firmemente presa.

–Ah, estou tão feliz em vê-la novamente, Priscilla. Você não imagina o quanto fiquei preocupado quando soube que você sumiu.

A garota se debateu, mas logo cessou, percebendo que era absolutamente inútil. Estava à mercê dos três.

–Eu sou um homem justo. – Continuou o chefe. – Trato bem as pessoas que entendem sua posição e cumprem o combinado. Por outro lado, aquelas que quebram as regras precisam ser educadas. E é justamente isso que farei com você.

Nisto o homem que segurava Priscilla a jogou para frente e ela se viu cambaleando até cair prostrada no chão. Então eles deram as costas e saíram, fechando a porta com um sonoro rangido atrás de si. Quando ela finalmente voltou a olhar para a frente, viu que seu algoz tinha um ferro de ponta fumegante em mãos.

–O que eu disse quando nos vimos pela primeira vez ainda está valendo: você está absolutamente proibida de chorar.

Três horas depois, a última coisa de que Priscilla teve consciência antes de desmaiar foram braços robustos erguendo seu corpo sem qualquer sutileza e uma voz autoritária que dizia “Joguem ela com as outras”.

Nos cinco anos que se sucederam, Priscilla viveu como uma garota apática, suportando os horrores de uma vida sem liberdade, de uma existência em que os demais apenas se aproveitavam dela, mas sem derramar uma lágrima sequer. No fundo, já estava conformada que não tinha valor nenhum, que poderia morrer e ninguém se daria sequer ao trabalho de enterrá-la.

Porém, sua vida se tornou uma espiral de confusão certa noite, quando o “chefe” morreu devido a uma infecção misteriosa. Ela sabia que tinha algo a ver com isso, mas não teve tempo de indagar como, pois se viu obrigada a fugir para salvar sua vida no conflito que se seguiu, em que grupos criminosos rivais aproveitaram a chance para acabar de vez com seus inimigos, antes que surgisse um novo líder.

Depois de algumas semanas vivendo na rua, ela foi encontrada por Ent, da Ordem da Rosa Branca, e o homem lhe revelou algo surpreendente: que era uma manipuladora. Priscilla não pensou duas vezes antes de aceitar o convite para se juntar ao grupo e, mesmo quando soube que seus poderes estavam, pouco a pouco, destruindo seu corpo, ela nunca pareceu se importar com isso. Afinal de contas, para alguém que sequer tinha uma vida antes, aquilo era um paraíso. Tudo que ela queria, antes de morrer, era aproveitar ao máximo o pouco tempo que tinha.

Não existia emoção maior que uma batalha, principalmente quando se colocava a própria vida em jogo. Viper estava bem ciente da contradição que isto traduzia, afinal de contas algo tão precipitado poderia acabar com sua curta existência ainda mais cedo do que o esperado. Mas para alguém como ela, cujo tempo estava contado, qualquer coisa abaixo de viver no limite seria o mesmo que já estar morta.

–Erika, de uma forma ou de outra, esta será a última luta para nós duas nesta batalha. Vamos aproveitá-la ao máximo até o fim!

–Viper... – A bruxa não aparentava compartilhar deste desejo.

–Eu ainda não estou satisfeita! Venha, ataque, faça isto valer a pena!

Mas Secrett permaneceu no mesmo lugar, meramente fitando o sorriso quase insano da garota de cabelos de esmeralda. Então, esta assumiu um tom mais sóbrio e voltou a falar, desta vez com uma voz mais carregada de seriedade, mesmo que apenas superficial.

–Se você não virá até mim, então eu vou até você.

Priscilla desatou a correr, lançando múltiplos jatos serpenteantes de veneno durante seu avanço, forçando a rival a se movimentar novamente, ainda que sem sua graça e precisão costumeira. Como Erika não avançava, coube à manipuladora cumprir o que prometera, alcançando-a finalmente e iniciando um confronto corpo a corpo.

–Já chegou ao seu limite? – Perguntou Minson, desferindo golpes com sua espada enquanto a bruxa dedicava esforços a bloquear e esquivar.

–Você está louca, Viper! – Acusou Erika.

–Nada disso, só estou me divertindo.

E nisto, a controladora do veneno lançou uma bolha para o alto, que Secrett observou com uma expressão de trêmula hesitação. Mas quando a toxina choveu sobre ambas, seus olhos se tornaram afiados e ela saltou para trás. Ilesa, a bruxa se impulsionou à frente assim que se tornou seguro fazê-lo e evitou mais jatos, retomando o confronto físico, mas desta vez com muito mais velocidade.

Quanto mais golpes trocavam, mais Priscilla ficava acuada, incapaz de acompanhar os movimentos da inimiga devido ao cansaço. Não que a discípula de Anya estivesse em situação melhor, pois esta também se encontrava à beira da exaustão e queria apenas colocar um ponto final na luta o mais rápido possível. Num instante derradeiro, seus olhares se encontraram e Erika pôde notar que, apesar de estar em desvantagem, sua adversária tinha um sorriso sereno no rosto. Ela estava de fato se divertindo com aquele confronto acirrado e, acima de tudo, agora parecia satisfeita. Então, subitamente, sua expressão se tornou ameaçadora ao gritar.

–Eeeeeriiiikaaaaa...!

Segurando sua lâmina com os dois braços, Viper a projetou à frente com o maior fluxo de veneno que tinha capacidade de controlar, poder que esteve canalizando todo o tempo em que pouco pôde fazer além de se defender. A bruxa reagiu o mais rápido que foi capaz e cravou suas adagas nos próprios antebraços para então lançar o corpo para trás, apoiando-se nas mãos.

–“Se eu não conseguir, é o meu fim.”

Durante seu treino, havia optado por dominar primeiro a velocidade da magia Libero Repagula e, portanto, tinha apenas um conhecimento básico a respeito dos outros aspectos. Ainda assim, à beira da derrota, conseguiu acessar por um breve momento uma força sobre-humana graças a seu método desesperado.

Com isto, Erika impulsionou o corpo ao alto, por cima do ataque enquanto girava com várias cambalhotas. Ainda no ar, arrancou as adagas de sua carne e, por fim, ao cair ao lado da controladora do veneno, abriu um corte em seu pescoço.

Imediatamente Minson se ajoelhou, levando uma das mãos à ferida de onde escorria sangue. Em sua face e nos olhos agora esbugalhados estava estampada a incredulidade. Então, quando ergueu o rosto, viu o quanto sua adversária parecia descontente com aquele resultado. Uma única lágrima escorreu pelo rosto de Priscilla.

Notas finais
Quando a situação parecia crítica para os empericianos. Capítulo 203: Encontre Agas Pyrath! Em breve.