Notas iniciais
Esta talvez tenha sido a luta mais difícil de escrever de toda a série. E tem mais pela frente.

O exército de Chesord sempre foi visto como uma organização secundária diante da glória da Ordem da Rosa Branca. Os doze manipuladores sim eram considerados os verdadeiros campeões do reino, principalmente porque enquanto aos soldados cabia a tarefa de manter a ordem, capturar criminosos e enfrentar o ocasional monstro desgarrado, as verdadeiras situações emergenciais eram resolvidas pelos guerreiros que vestiam os mantos brancos.

Mesmo neste contexto, Agas Pyrath conseguiu resgatar parte da dignidade das tropas que comandou, adquirindo fama nacional antes de resignar seu posto para cuidar da própria família em Furnace, sua cidade natal. Mas diante de uma situação que nem mesmo a Ordem poderia conter sozinha, principalmente depois de ser descreditada com a queda dos pilares, ele foi chamado para se tornar um general novamente.

Com a morte de Roger e a traição de Yasmin pesando em sua cabeça, ele jurou garantir um futuro para o caçula, Olumor. E assim, sob o comando de Pyrath, os soldados chesordianos se tornaram capazes de enfrentar Empericia, uma nação constantemente envolvida em conflitos.

Tudo isto era evidenciado mais uma vez na batalha decisiva ao redor de Brokefront. Porém, as forças adicionais trazidas pelo coronel Froz, o auxílio das bruxas e a experiência dos soldados que resistiram juntamente com Lince Walters equilibravam a balança. Havia um único detalhe que poderia fazer com que um dos lados alcançasse um estado de vantagem.

De forma parecida, a batalha entre Lince e Electron não estava definida. O controlador dos relâmpagos estava mais que surpreso com isto, pois não imaginava que alguém que contasse somente com habilidades físicas e uma lâmina pudesse resistir de tal forma às investidas de um manipulador. E Leonard Thoulash não era qualquer manipulador, mas um dos membros mais respeitados da ordem, tanto que considerava apenas Inferno, Vortex e Ent claramente superiores a si.

Ainda assim, ele enxergava uma possibilidade de vitória. Seu adversário já não conseguia esconder os claros sinais de cansaço. Obviamente, o próprio manipulador também estava exaurido, mas ainda tinha energia à sua disposição. Com certeza o suficiente para ao menos mais um ataque decisivo. Agora que o capitão empericiano não seria mais capaz de retaliar com tanta velocidade, o controlador dos relâmpagos sentia que deveria arriscar.

Os pensamentos de Walters eram um tanto parecidos, pois ele sabia que num confronto de armas ele certamente superaria o oponente, e justamente por este motivo tomou a iniciativa, cobrindo a pequena distância que os separava para forçar uma furiosa troca de ataques e bloqueios. Na defensiva, Leonard era pressionado enquanto Lince dava passos em movimento circular, ora para um lado ora para outro, procurando uma abertura nos flancos.

Na situação precária em que se encontrava, Electron não teria como colocar seu plano em prática. Por fim, se limitou apenas a se defender, algo que fazia com grande dificuldade por manobrar a lança com apenas a mão esquerda. Era algo necessário, contudo, pois no braço direito ele concentrou energia suficiente e depois a liberou contra o solo.

A tática, inesperada pelo empericiano, impediu que ele pudesse evitar o impacto concussivo. Com isto, os dois combatentes foram arremessados para direções opostas, criando uma distância considerável. Isso era tudo que o controlador dos relâmpagos precisava e Leonard já começava a concentrar suas energias enquanto se erguia.

–“Esse louco quer ferir a si mesmo?” – Ponderou Lince, mas ele não podia deixar de concordar que não restavam muitas opções ao inimigo. – “E duvido que vá cair no mesmo truque duas vezes.” – O empericiano sabia que se tentasse arremessar algo, desta vez Electron estaria preparado. – “ A menos que...”

Walters olhou ao redor e viu algo que poderia ajudá-lo: uma lança caída ao lado de um corpo. Rapidamente ele a ergueu no ar com seu pé, segurando e depois a arremessando com sua mão esquerda. Como previsto, Thoulash se defendeu com sua própria arma, mas este era apenas o primeiro ataque. Com a outra mão Lince lançou sua espada, obrigado seu oponente a liberar parte de sua energia contra a lâmina, que saltou girando para o alto.

–Chega dis-!

Antes de chegar ao fim da frase, o controlador dos relâmpagos sentiu uma dor terrível no joelho direito. Instintivamente baixou o rosto e pôde ver um pequeno pedaço de metal côncavo no chão. Quando seus olhos voltaram a focar no inimigo, que agora se aproximava impetuosamente, entendeu de onde vinha aquele último objeto: da ombreira esquerda que ele mesmo havia trincado.

–Não acredito que ele tirou vantagem disso...!

Walters agarrou a própria espada enquanto ela caía, forçando Leonard a agir com seu avanço. Este, assustado, disparou a energia que tinha acumulado contra os pés do inimigo e, apesar de não acertá-lo, conseguiu tirar seu equilíbrio com o impacto. Caindo, o capitão tentou se apoiar com o braço esquerdo, mas a dor em seu ombro se tornou insuportável e deteve seu ímpeto. O manipulador tentou se afastar novamente para continuar atacando de longe, mas seu joelho ferido o atrapalhava.

A tensão estava tão densa que até mesmo os soldados próximos pareciam ter esquecido que estavam no meio de um confronto mortal naquele instante. E então, como se estivesse alheio a tudo isso, o empericiano se levantou rindo.

–Não tem jeito mesmo, não é? Não conseguimos terminar essa luta.

–Verdade. Em toda a minha vida nunca havia visto alguém como você, que consegue lutar com tanta perícia sem magia ou manipulação. – Respondeu o loiro.

–E é o mesmo com nossos exércitos. Eles se enfrentam praticamente em igualdade, e no fim essa batalha não vai terminar com um vencedor, mas sim com dois perdedores exaustos.

–Walters, você não está insinuando...?

–Estou mais que insinuando, estou afirmando! Nenhum de nós quer continuar vendo os amigos perdendo a vida. Vamos declarar trégua e tentar acertar nossas diferenças conversando.

Uma ideia louca, com certeza, ir contra as ordens do rei, mas depois de tudo que havia presenciado naquela guerra, Leonard tinha dúvidas demais a respeito da verdadeira natureza do mundo. Aquilo parecia uma batalha entre mortais, não a invasão de um exército demoníaco. O brilho que enxergava nos olhos de Lince era o mesmo que via em Inferno: o de um líder que nada mais quer além de proteger e servir.

–Muito bem, eu convencerei nossos soldados a recuar, você pode fazer o mesmo?

Largando sua espada, Walters se aproximou de mãos erguidas, determinado a demonstrar que não tinha nenhuma intenção agressiva. Então, quando estavam face a face, estendeu sua mão esquerda para cumprimentar o rival canhoto.

–Claro que sim. Obrigado por aceitar.

–Só quero terminar logo com essa insanidade.

Apertar a mão de alguém que deveria ser seu inimigo mortal era estranho, mas nesse momento Leonard teve mais certeza do que nunca de que aquele homem era dono da própria alma, que não havia nenhum demônio o controlando ou influenciando.

–Inclusive, Electron, eu realmente sugiro que você comece a usar um capacete.

–Por quê?

Enquanto ambos ainda estavam apertando as mãos, o capitão impulsionou a cabeça para frente e atingiu com força a testa de Electron, o suficiente para nocauteá-lo. Isso espantou os chesordianos, que fugiram para se reagrupar. Walters permaneceu observando seu oponente caído por mais um tempo e murmurou.

–Desculpe por isso, mas podemos conversar depois que esta luta tiver terminado com a vitória de Empericia.

–Senhor, devemos prendê-lo? – Indagou um soldado.

–Não, deixem-no aí mesmo. Quando ele acordar tudo já vai estar terminado mesmo.

Em outra parte da campina, onde a confusão reinava, duas garotas tentavam prestar o máximo de auxílio possível para seus respectivos companheiros, até que inevitavelmente ficaram diante uma da outra e se reconheceram imediatamente.

–Você é a bruxa que feriu Electron! – Exclamou Aurora.

–A garota do gelo. – Lembrou-se Gabrielle D’Illusie.

Notas finais
Chegou a vez de Aurora e Gabrielle acertarem suas diferenças. Capítulo 198: Coração Caloroso Em breve.