Roses And Demons: Warbloom

77 O Preço do Heroísmo


Notas iniciais
O flashback deste capítulo é de 10 anos atrás, época em que Ent era o líder da ordem. Seis anos depois ele indicou Inferno para assumir seu posto, acreditando estar velho demais.

A capela era um lugar bem simples, uma pequena construção redonda com dezenas de ferros com suporte para velas pendurados nas paredes. Na direção oposta à entrada havia uma mesa semicircular com cinco símbolos feitos de cobre separados entre si por uma distância de meio metro. Adriel era representado por uma balança, Vitae por uma escultura de árvore, Aneth por um livro aberto, Argenta por uma representação da lua minguante e Nobile por uma ampulheta. Um único sacerdote estava lá, usando um pano para limpar o altar.

O homem vestia uma toga branca que cobria o corpo inteiro com uma corda amarrada na cintura e outra que dava a volta em diagonal sobre o ombro esquerdo, presa à primeira. Seu calçado de madeira, que mais parecia um chinelo, criava um ruído oco sempre que ele movia os pés, mas o detalhe mais marcante ainda era o capuz que cobria sua cabeça, ocultando quase que completamente seus cabelos escuros e curtos.

–Saudações, clérigo. É você o homem chamado Fabius Illumire?

O devoto analisou a pessoa que acabara de entrar na capela, um senhor que deveria ter em torno de cinquenta anos de idade por suas feições. Sua roupa era um uniforme da Ordem da Rosa Branca, com caules azuis e verdes. Seu cabelo quase completamente raspado era de um verde escuro, quase desbotado.

–E o que a Rosa Branca tem a tratar com um homem simples como eu?

Ent deu alguns passos à frente e analisou os símbolos sagrados por um breve momento. Em seguida voltou seu olhar sério para o sacerdote.

–É você quem sempre limpa estas esculturas?

–Sim.

–Eu notei que esta balança está muito mais bem cuidada do que as outras. Suponho que você tenha preferência pelo deus Adriel.

Fabius ficou em silêncio, pois embora o estranho tivesse razão, ele não desejava passar a impressão de que favorecia um deus sobre os outros.

–Embora sejam aliados uns dos outros, os deuses possuem pontos de vista diferentes. É a mesma coisa com nós humanos, portanto é normal que tenhamos mais afinidade com um ou outro.

–Onde quer chegar?

–Adriel é o deus que representa a justiça. Que clama para que os fortes protejam os fracos da opressão e da maldade. Se você realmente acredita nos ensinamentos divinos, então deveria estar lutando em nome disso, não limpando estátuas de cobre.

–Mas eu... – Illumire tentou pensar numa resposta, mas nada vinha à sua mente.

–Disseram que você é um homem bondoso e dedicado, e eu sei que além disso você também possui um grande poder. Precisamos de pessoas como você na ordem.

Foi assim que a minha amizade com Ent começou, e também como eu deixei o nome Fabius Illumire para trás e me tornei Inferno.

Três pares de asas agora cintilavam nas costas de Elbio e, mais do que enfeites, elas o concediam uma velocidade estonteante. Num instante ele atravessou a distância que o separava de seu inimigo, mal dando a ele tempo para reagir. O líder da ordem rapidamente ergueu as mãos ao lado do corpo e despejou uma torrente de chamas negras à sua frente, numa tentativa de deter o avanço.

Numa manobra igualável apenas por alguém capaz de manipular o vento, o bruxo parou de súbito no ar, usando todas as asas para formar um escudo à sua frente e deter as chamas. Em seguida ele prendeu os membros de Inferno com correntes prateadas e o forçou a baixar os braços, anulando sua concentração e dissipando o fogo. Com uma espada mágica recém-surgida em suas mãos, ele pretendia dar o golpe final.

O tempo parecia correr devagar na mente de Lumarc enquanto a lâmina se movia, comandada por sua mão. Ele só pensava em derrotar o adversário, mas a crença de que emergiria vencedor beirava o inacreditável. Ele, que há pouco tempo atrás não tinha forças nem para derrotar um soldado, agora venceria o líder da Ordem da Rosa Branca? Parecia até mesmo um sonho.

E talvez fosse, pois o controlador das chamas negras não estava derrotado. Ele abriu a boca e vomitou uma torrente explosiva de fogo que afastou os dois e quase derrubou Elbio, mas suas asas o salvaram de uma queda dolorida. Ainda assim não havia tempo para retomar o fôlego, pois um gigantesco dragão negro aterrorizava os ares. Feita de pura chama, a besta preparou um voo rasante para atingir o bruxo, que em resposta disparou um raio de pura energia mágica.

Ele sorriu, pensando ter desfeito o ataque, mas logo percebeu seu engano quando as centenas de feixes flamejantes que se espalharam ao redor da rajada se uniram novamente. A fera de Inferno continuou sua descida vertiginosa, mas agora tinha como obstáculo uma muralha que se ergueu rapidamente à frente de seu alvo. Novamente o dragão se desfez em centelhas que ultrapassaram a barreira por cima e pelos lados, envolvendo Elbio e criando um tornado de fogo ao seu redor. E quando as chamas finalmente cessaram, ele caiu.

–No fim das contas era só isso.

O controlador das chamas negras suspirou, decepcionado. Mesmo assim, tudo que aquele oponente dissera antes havia invariavelmente afetado sua determinação. Ele ergueu os olhos aos céus, como se esperasse uma resposta divina, algum sinal que removesse suas dúvidas, mas viu apenas as nuvens cobrindo o sol. As únicas coisas que poderiam indicar qual o caminho certo, no fim das contas, eram sua mente e seu coração.

O barulho de enormes asas se abrindo fez com que Inferno desse, instintivamente, um passo para trás. Nas costas do bruxo caído novamente surgiram os três pares e ele lentamente se colocou em pé.

–“Manter a magia num estado sólido exige energia demais e não está me ajudando. Só tem uma forma de vencer essa luta.”

Elevando-se às alturas uma última vez, o clamor de Elbio envolveu todas as energias de seu espírito. Fabius, que o observava, foi ofuscado quando as nuvens finalmente permitiram que o sol brilhasse em toda a sua majestade. Um pensamento súbito cruzou a sua mente, o de que aquela era a visão de um anjo.

–Receba!!!

Círculos concêntricos que aumentavam de tamanho em alta velocidade surgiram diante dos braços estendidos de Lumarc, parecendo até ondulações na água. Inferno não esperou para ver o que ia acontecer e lançou um verdadeiro inferno de fogo ao alto, mas as chamas sumiram num instante quando um raio enorme desceu ao solo.

Todos que lutavam ali perto olharam na direção do impacto e viram um homem caindo na nuvem de poeira abaixo. Apreensivos com o resultado, soldados e bruxas cessaram seu confronto e continuaram assistindo enquanto a situação se tornava mais nítida. A poucos metros de um buraco no chão estava o controlador das chamas negras, coberto de feridas e com o uniforme cheio de rasgos.

–Nunca mais chamo ele de jumento... – Kate deixou escapar enquanto tentava localizar seu amigo no meio da confusão.

Apesar de tudo, Inferno estava vivo e consciente, ainda que, obviamente, estupefato com aquele poder que, num momento, superou até o seu. E então, para sua maior surpresa, seu inimigo se colocou em pé, cambaleante.

–“Mesmo depois disso, mesmo tão exausto, ele ainda consegue se levantar?”

–Eu... eu venci... – Disse o bruxo, tossindo.

O corpo de Fabius nunca havia sofrido tantos ferimentos e a dor se tornava insuportável quando tentava se mover. Ele se deu conta de que pela primeira vez, desde que se tornou um membro da Rosa Branca, se via diante da derrota. Era diferente de ser ludibriado, como ocorreu quando o último pilar caiu, pois naquela vez ainda havia se provado superior a William em combate. Mas agora o garoto que ele acusou de ser um criminoso ainda estava em pé para defender suas crenças.

Continuar no chão era o mesmo que invalidar sua fé e seu juramento. Sucumbir à dor era destruiria seu exemplo como líder da ordem. Para se mostrar à altura da alma ardente de Elbio e para alcançar a verdadeira justiça, Inferno também se ergueu. – Vamos terminar isso agora. Com nossos punhos. – Ele disse, sentindo uma certa paz interior.

Sob olhares ansiosos, os dois combatentes correram e atingiram um ao outro. Por um breve instante permaneceram imóveis, com os punhos deformando os rostos em caretas. E então Lumarc caiu, exaurido.

–Agora sim, acabou.

Após dizer isso, Illumire desabou sobre os próprios joelhos. Seus soldados irromperam em vivas enquanto as bruxas, aterrorizadas, davam sinais de desânimo. Mas o líder estava alheio a tudo isso, seus olhos fixos no inimigo vencido. Ele sentia simpatia por aquele rapaz, pois assim como o próprio Inferno, Elbio havia pago o preço do heroísmo.

–Para que uma pessoa possa se tornar um herói e salvar as vidas dos outros, ela tem que arriscar a sua própria...

Notas finais
Como vencedor, Inferno faz valer o que acredita ser a verdadeira justiça. Já no castelo, o grupo de Samantha inicia a invasão. Capítulo 178: O Jardim de Nathalia Em breve.