Notas iniciais
Estão gostando de Lince Walters? É engraçado como ele é parecido com Yasmin Pyrath em alguns aspectos e em outros bastante diferente.
E não se preocupem, eventualmente vou abordar os acontecimentos do final de Roots of Rebellion. Eventualmente.

Gabriel descansava num quarto simples, no qual haviam apenas os móveis mais comuns e necessários: duas camas, um armário e uma escrivaninha. Teria de dividi-lo com Lince Walters, mas como era por apenas uma noite não se incomodaria. Para passar o tempo o alquimista lia um livro sem título, com uma capa preta e desbotada, prova de sua velhice.

A leitura era muito interessante e mantinha Gabriel entretido de tal forma que ele se sentiu incomodado em ter que desviar os olhos das palavras para observar a pessoa que havia aberto a porta do quarto. Um rosto familiar e, de certa forma, que ele já esperava ver.

–Então era verdade, você veio mesmo, irmão.

A semelhança entre ele e Gabrielle D’Illusie era evidente, ninguém se surpreenderia ao saber que era irmãos. A cor dos cabelos e o estilo eram idênticos, embora os da jovem bruxa fossem menores e ela não usasse nenhum adorno na cabeça. Os olhos também eram da mesma cor, azulados. Gabrielle era mais baixa que seu irmão, realmente pequena. Suas vestes eram o padrão do Monastério da Deusa da Lua e sua faixa da cor verde-escura.

–Sim, Gabrielle, mas não para vê-la.

–Poderia ao menos se dar ao trabalho de me dizer “oi”.

Gabriel ficou alguns momentos calados, observando sua irmã e pensando na melhor resposta, até que final se pronunciou.

–Oi, Gabrielle. Satisfeita agora?

A garota suspirou. Sabia muito bem que seu irmão só tinha interesse pelas suas pesquisas, em especial compartilhar suas descobertas com um dos magos da corte do Rei Secrett, um homem que, para a tristeza de Gabrielle, era a única pessoa realmente respeitada pelo alquimista, tanto que ele o chamava de irmão.

–É, estou. Afinal de contas, o que veio fazer aqui? Eu nunca imaginei que veria você num lugar como este de novo.

–Cumprindo ordens do rei. Creio que tenho de demonstrar um pouco de lealdade a quem financia meus experimentos.

–Certo...

A bruxa já estava prestes a ir embora, mas deteve-se ao ouvir algo que definitivamente não estava esperando.

–E você, Gabrielle, tem passado bem?

–Ah... sim. – Respondeu a menina, desconcertada.

–Cuide-se então, e é melhor que você aprenda tudo que aquela tal de Anya tem a ensinar.

Aparentemente este era o máximo de preocupação que Gabriel tinha pela irmã, mas já era o suficiente para deixá-la um pouco animada. Embora muitos pensassem que o alquimista era uma pessoa ruim, Gabrielle tinha certeza de que no fundo ele apenas desejava o melhor para o reino e sua população.

Embora a lua cheia iluminasse perfeitamente a campina ao redor do monte onde se encontrava o monastério, várias lamparinas metálicas com cerca de dois metros de altura cada estavam espalhadas por lá, dispostas em um círculo, definindo os limites do campo de batalha.

Ao redor do círculo de lamparinas, poucas dezenas de bruxas estavam reunidas, observando com atenção. No interior estavam somente Lince Walters, Erika Secrett e Anya Wald.

–Eu não vejo necessidade de impor nenhuma regra, mas se constatar que um de vocês dois já não tem mais condições de lutar, darei a batalha por encerrada. – Comentou a líder das bruxas.

–Tudo bem, estou já estou pronto. – Respondeu Lince.

–Igualmente. – Disse, Erika, confiante.

–Da mesma forma, se um de vocês dois quiser desistir a luta será encerrada no mesmo momento.

Após esta última orientação, Anya se afastou, deixando somente os dois lutadores dentro do círculo. A luta estava prestes a começar e, empunhando duas adagas brilhantes de prata, Erika fez o primeiro movimento. Veloz como um lampejo, a garota avançou com o braço direito estendido. Gotas de sangue espirraram no chão.

–Parece que essa garota vai dar trabalho. – Comentou cinicamente Gabriel.

Com o pescoço inclinado em diagonal, Walter sentia o sangue escorrer devagar do corte em seu rosto. Erika estava atacando para valer e o capitão poderia ter morrido com aquele golpe, se hesitasse seria o seu fim.

–Qual o problema, Lince?

O braço esquerdo da bruxa avançou, mas nada atingiu, pois Lince a empurrou com força para trás. Sacando sua espada longa, ele manteve uma postura defensiva, aguardando o próximo ataque, que veio tão veloz quanto o anterior.

A espada de Walters cruzou o ar sem ferir Erika, que já havia saltado dois segundos antes. Estupefato, o militar apenas observou enquanto era atingido por um chute certeiro no rosto e derrubado. Definitivamente sua antiga amiga era muito forte, mais do que ele havia imaginado.

–Que performance ridícula! Não é à toa que querem nossa ajuda, está claro que o exército de Empericia é incompetência pura.

Levantando-se devagar, Lince sentiu uma pontada de amargura. Justo Erika, que sempre admirou a força militar de seu reino, agora a xingava sem hesitar. Mas que direito tinha o capitão de culpá-la?

–“Ela certamente merece vencer essa luta para compensar seus sonhos roubados. Se eu lutar para valer e derrotá-la, vou acabar até mesmo o novo sonho que ela encontrou...” – Pensou, o rapaz, sendo dominado pela culpa que vinha sentindo desde o momento de seu reencontro com Erika.

–Pare de sonhar acordado!

A bruxa bradou enquanto avançava novamente, pronta para golpear. Contudo, Walter permaneceu completamente imóvel, uma atitude que fez com que sua oponente se detivesse a menos de meio metro de distância.

–Eu desisto. – Disse o capitão quase num sussurro.

Uma expressão de puro espanto dominou o rosto de Erika, mas apenas por um segundo. No momento seguinte ela atingiu Walter com um soco e o colocou no chão novamente antes de exclamar.

–Eu venci!

Notas finais
Para preservar o orgulho de sua amiga, Lince está disposto a sacrificar sua missão.
Capítulo 106: Por Que Você me Deu um Soco?
Em breve.