Notas iniciais
O nome da magia mencionada por Samantha neste capítulo é uma referência.

A sala de reuniões na sede da ordem causava uma certa sensação de isolamento em Vincent Blacdow. Com tantas cadeiras vazias o próprio recinto parecia ser maior do que realmente era, mas felizmente a discussão entre duas outras pessoas impedia que sua mente se aprofundasse demais em tais pensamentos. No lugar ao seu lado sentava-se Vortex e, na cadeira oposta, Inferno. Desde o momento em que o líder da ordem revelou a ação que seria realizada dentro de dois dias, Carbon tinha certeza de que haveriam protestos.

–Como pode considerar uma ação militar desse nível quando estamos em guerra com o reino vizinho? – Dizia o controlador dos portais, exasperado, ao passo que o das chamas negras mantinha sua compostura.

–São as ordens do rei, ignorá-las só nos traria problemas. Além disso, foi confirmado que as bruxas estão agindo em conjunto com os empericianos. Não vê o perigo que elas representam?

Depois de um breve momento em silêncio, Vortex virou o rosto para o lado e resmungou em voz alta.

–Faça o que quiser.

Inferno não estava exatamente satisfeito com a forma como aquela conversa havia transcorrido, mas sabia que pouco adiantaria continuar se justificando, portanto ausentou-se do recinto. Ele nutria esperanças de que, após pensar sobre o assunto por um tempo, seus aliados entendessem que não havia outra opção senão eliminar o inimigo interno imediatamente.

O controlador dos portais também se levantou pouco tempo depois, mas o que ele mais temia aconteceu. Foi detido pela voz firme de Vincent, e ele já sabia muito bem o motivo.

–Em que loucura é essa que você está fazendo, Adrian?

–Então você descobriu. Tremo só de pensar na forma terrível como você torturou aquela mulher para arrancar essa informação.

A expressão de desagrado tornou-se mais acentuada nas feições de Carbon e por fim ele também se colocou em pé.

–Você sabe que eu tento evitar métodos bárbaros. Fiz apenas um interrogatório e ela me deu as respostas que precisava. Não é culpa minha se o rei mandou executá-la logo em seguida.

–Muito bem, então não adianta fingir que não sei de nada. Quer saber o que estou fazendo ao colaborar com as bruxas? A coisa certa, seu tolo! Não vê a chance única que temos de expor aquele homem e acabar de vez com essa farsa?

–Isso é loucura, Adrian! Você vai acabar morto, igual ao Martin!

–Não se você mantiver a boca fechada.

Vortex não queria prorrogar aquela conversa. Dirigiu um último olhar penetrante, como que para garantir que seu aliado não faria nenhuma estupidez, e fechou ruidosamente a porta de madeira atrás de si mesmo. No fundo estava aliviado, enquanto apenas Carbon soubesse de sua traição, estaria seguro.

As aulas do dia chegavam ao fim, e Karin pensava apenas em tirar um cochilo. Era seu desejo aprender a ser uma bruxa, portanto não tinha direito de reclamar das professoras exigentes ou do ambiente sinistro, ao qual ela provavelmente jamais se acostumaria. Quando finalmente chegou ao quarto que dividia com suas amigas, um recinto simples com duas camas de beliche dispostas uma de cada lado e um armário recostado na parede, ela notou que pessoas estavam conversando.

–Qual é o plano, então? Fugir? – Perguntava a voz de Yasmin.

Quando a manipuladora da luz entrou, viu que Elbio também estava presente, junto das outras três garotas com quem a menina dividia o quarto, Yasmin, Luna e Samantha. Esta última foi quem deu a resposta para o questionamento.

–Não existe lugar para onde possamos ir. São pouco mais de cem bruxas que vivem aqui.

–E quanto ao esconderijo de onde veio Elbio?

A sugestão de Luna foi refutada pelo próprio bruxo.

–Nunca teríamos condições de abrigar tantas pessoas. Além disso, Samantha está certa. Se as irmãs tentarem escapar serão obrigadas a se espalhar e certamente muitas morrerão.

–Do que vocês estão falando? – Finalmente perguntou Karin.

–Sinto muito, Karin, estamos tão preocupados que nem vimos você. Samantha acaba de nos avisar que o exército de Chesord está preparando uma invasão a este local. – Explicou Luna.

–As barreiras mágicas não conseguirão segurar um ataque em larga escala, mas eu lutarei até a morte se precisar para proteger todas as bruxas que vivem aqui!

Apesar de grata pela demonstração de lealdade e bravura de Lumarc, a manipuladora das trevas também se sentiu levemente ofendida. Aparentemente ele pensava que ela e suas irmãs não passavam de damas indefesas.

–Seus esforços são apreciados e certamente serão úteis na hora do combate, mas você é muito ingênuo. Nós temos algumas medidas de emergência preparadas para situações extremas como essa.

–Vocês não estão pensando em liberar os espíritos terrenos de novo, estão? – Perguntou Yasmin, preocupada.

–Infelizmente foram todos mortos pela Ordem da Rosa Branca. Além disso, desta vez Madame Papillon vai liberar uma magia ainda mais poderosa. Tenho certeza de que nossos inimigos vão se arrepender de tentar nos atacar enquanto mais da metade de seus homens está ocupada com a guerra quando presenciarem o poder de Walkürenritt.

William seguiu Fernand por uma trilha montanhosa que terminava numa minúscula clareira com várias árvores robustas ao redor. Lá, pétalas de flores prateadas subiam e desciam em padrões aleatórios acima de um par de espadas que se cruzavam, cravadas no chão.

–Seja bem vindo, William Storde, ao túmulo de William Storde. – Disse o soldado da terra com sarcasmo excessivo.

–Quem diria que teriam tanta consideração?

O manipulador do vento sentia gratidão pelo gesto de carinho das bruxas após sua suposta morte. Tinha certeza de que se dependesse do exército de Empericia sequer teria direito a um funeral. Pior, provavelmente seu cadáver permaneceria para sempre no laboratório de Gabriel D’Illusie, ou pelo menos até que o alquimista decidisse destruí-lo em um de seus experimentos. Afastando tais pensamentos, William arrancou as espadas do chão.

–Agora estou quase completo, basta que os conselheiros de Jack Secrett enviem meu manto e minhas botas.

–Provavelmente o Capitão Walters deve ter mandado o pássaro mensageiro somente depois de se estabelecer naquela cidade com o nome que não me lembro. Se eles pretendem mesmo enviar o resto das suas vestes, então devem fazê-lo dentro das próximas 72 horas.

William retornou à trilha, iniciando o caminho de volta ao esconderijo. Fernand seguiu ao seu lado e fez uma pergunta, ansioso para saber quando finalmente poderia entrar em ação. Mal podia esperar para ver se havia conseguido alcançar os guerreiros da Rosa Branca depois de tanto treino.

–Tenho visto você anormalmente animado, meu amigo. Estou certo em imaginar que bolou algum plano interessante?

–Quando os chesordianos atacarem as bruxas será o momento ideal para entrar em ação.

–Ah, então você está pensando em invadir o castelo, aproveitando que as defesas estarão enfraquecidas.

–Obviamente, e estou analisando os mapas que as bruxas infiltradas forneceram para bolar um plano de ação cirúrgico. Vamos entrar, ir direto ao alvo, eliminá-lo e então sumir.

–Ótimo, finalmente vamos ensinar uma lição ao maldito Vladmir Banemare!

–Está enganado, apesar de todos os esforços a localização de Banemare ainda é desconhecida. O alvo a que me refiro é o rei de Chesord, David Follet!

Notas finais
É chegada a hora da Capítulo 174: Caça às Bruxas Em breve.