Notas iniciais
Acredito que seja interessante explicar melhor como funciona a magia Vínculo. Em tempo, este é um dos encantamentos menos complexos e permite que seu usuário controle um único objeto a quem está ligado de uma forma quase telecinética. Evidentemente, a escolha de Gabrielle não se deve a falta de talento, mas sim porque ela dedicou seu tempo e seus estudos a outros tipos de conhecimento, como será evidenciado neste capítulo.

Três anos atrás, tarde da noite. Gabrielle D’Illusie estava debruçada sobre uma mesa, seu olhar cansado fixo sobre um livro cujas linhas ela murmurava de forma quase inaudível, na tentativa de fixar o conteúdo em sua mente sonolenta. O lampião posicionado um pouco à frente fornecia a luminosidade necessária para a leitura, mas em pouco a ajudava a permanecer acordada.

–As propriedades incluem uma forte capacidade de envenenamento. Embora normalmente não seja letal, uma dose moderada resulta em impotência permanente...

A visão estava cada vez mais desfocada, mas a garota não queria se dar ao luxo de dormir ainda. Ao invés disso pegou o livro em suas mãos e o aproximou do rosto, mas o objeto subitamente adquiriu um peso absurdo, impossível de segurar. Abriu um buraco na mesa ao cair sobre ela e então fez o mesmo com o assoalho de madeira abaixo.

No andar inferior havia outra pessoa acordada, seu irmão Gabriel, que conduzia um de seus vários experimentos. Naquele momento em particular, ele misturava alguns reagentes, balançando um tubo de ensaio enquanto uma fumaça rosada se erguia. Virou-se imediatamente quando ouviu o som de madeira rachando a tempo de ver o livro cair sobre uma mesa repleta de vidros com substâncias variadas.

–Maldição!

O xingamento se perdeu no estrondo da explosão. O alquimista imediatamente correu na direção de uma de suas estantes e pegou um béquer com uma substância esverdeada e gosmenta. Lançada sobre o fogo, a gosma se expandiu até acabar de vez com o incêndio. Contudo, ele não demonstrou nenhuma expressão de alívio, mas sim de profundo desgosto ao ver, dentro de uma jaula de metal, um corpo pequeno e peludo carbonizado e coberto de verde.

–Meu coelho albino vampírico! Paguei uma fortuna ao reino de Renylvania por um desses...

Dois dias depois, Gabrielle recebeu de seu irmão a notícia de que havia sido aceita como aprendiz num convento de bruxas. As últimas palavras que ouviu do alquimista antes de ser levada por uma carroça foram: “Trate de estudar muito e aprender a dominar esse poder se quiser ser alguém útil nesse mundo.”

Aurora reagiu estendendo seu cajado até atingir o peito da bruxa. O impacto não feriu de forma alguma, mas imediatamente uma enorme camada de gelo começou a envolvê-la. Aumentando sua própria força, Gabrielle conseguiu se libertar, mas perdeu o impulso e, durante o tempo que levou para se libertar completamente, sua adversária conseguiu se colocar em pé novamente e abrir uma distância de três metros.

Desta vez, D’Illusie atirou sua arma num ângulo de quarenta e cinco graus, embora a controladora do gelo continuasse reto à sua frente. A intenção era atacar de uma forma inusitada e, valendo-se de sua magia, Vínculo, a irmã do alquimista puxou o braço esquerdo furiosamente para o lado, alterando a trajetória de seu martelo em pleno voo, transformando-a num semicírculo em rota de colisão com Maya.

Esta já desconfiava que isso fosse acontecer e, prestando atenção ao filete mágico quase imperceptível, deduziu de onde viria o golpe e se abaixou, evitando um impacto terrível. Ao mesmo tempo, lançou seu poder elemental para congelar as pernas da oponente.

Enquanto Gabrielle novamente se valia de sua manipulação para se libertar, Aurora lançou uma aposta arriscada, adiantando-se à frente e agarrando o rosto da bruxa com sua mão direita. Num instante a encobriu com uma massa de gelo de meio metro de espessura antes de recolher o braço, dando alguns passos para trás.

Apreensiva, ela observou enquanto uma minúscula fissura surgia, tornando-se então uma miríade de rachaduras até que toda a massa congelada se espatifou. Livre, D’Illusie repetiu seu ataque anterior, desta vez puxando do chão martelo com a mão direita.

Um ano depois de Gabrielle ter se juntado às bruxas de Anya Wald, ela ainda não tinha um domínio completo sobre seus poderes elementais. Para ajudá-la nisto e evitar acidentes, Jenipher Chaneel a acompanhava durante os treinos. Certa tarde, nos arredores do templo, D’Illusie praticava seu controle tentando segurar seu martelo com a mão esquerda estendida. Depois de alguns segundos, o objeto caiu.

–Ah, desculpe, Jenipher.

–Não se preocupe com isso, vamos novamente.

Nisto, Erika Secrett surgiu carregando um balde e com suas vestes manchadas de preto. A bruxa da Ordem Natural então perguntou:

–O que aconteceu com você, Erika?

–Estraguei uma mistura e derramei por cima da minha mesa inteira. Agora estou indo buscar água para limpar a bagunça.

–Você tem que esperar a solução de mandrágora raivosa esfriar antes de adicionar o veneno de áspide. – Comentou a bruxa de cabelos negros.

–É mesmo? Mas como você sabe disso? – Disse Erika, surpresa.

–Isso está descrito no capítulo sobre reações instáveis da Teoria da Complementação Química Natural. Aquele livro escrito por Defteri.

O trio permaneceu em silêncio por um momento, cada bruxa divagando em seus próprios pensamentos, até que D’Illusie resolveu ir embora.

–Desculpe Jenipher, mas eu realmente estou cansada. Vamos continuar amanhã.

Agora sozinha na companhia de Jenipher, Erika, que praticamente havia esquecido que deveria encher seu balde com água, expressou sua admiração.

–Como ela sabe tanto sobre química? Ainda deveria estar aprendendo os básicos.

–Verdade. Ela tem dificuldades para usar seus poderes elementais e não parece ser muito boa com magia, mas nunca vi uma irmã que soubesse tanto sobre alquimia.

–É claro que não! É a coisa mais chata que temos de aprender, não sei como a Gabrielle consegue gostar disso.

–Ou talvez ela tenha algum outro motivo para se dedicar tanto.

A irmã de Gabriel ergueu seu martelo, mas logo em seguida o direcionou ao solo novamente. Aurora conseguiu evitar que seus pés fossem atingidos, mas o impacto a desestabilizou, o suficiente para que a bruxa pudesse ameaçá-la com um golpe físico.

A controladora do gelo foi obrigada a se defender criando uma grossa barreira de gelo diante de si mesma, mas ainda assim o chute de Gabrielle a espatifou. Com seu bastão à frente, a guerreira da Ordem evitou que seu corpo fosse atingido diretamente, sendo então arremessada para trás com o impacto.

Vencer dependia de continuar aplicando pressão enquanto seu corpo era capaz de resistir ao frio penetrante. Assim, a garota com poderes elementais da terra disparou adiante, trazendo seu martelo de volta para a mão esquerda. Maya, assim que se colocou em pé, também correu na direção da oponente, mas instantes antes de se encontrarem lançou uma onda de gelo em seus pés.

Desequilibrada, D’Illusie tombou diante da controladora do gelo e no instante que se sucedeu se viu presa dentro de um enorme bloco disforme de gelo. Tentava se levantar, mas suas forças já estavam esgotadas. O frio inclemente tomava conta de cada fibra de seu ser e até mesmo sua mente parecia congelar aos poucos.

–“No fim das contas, vou acabar assim. Será que você vai sentir minha falta, meu irmão...?”

Infelizmente, isto não parecia ser algo muito provável. Conhecendo Gabriel, talvez ele até ficasse contente em saber disso. Saber que não tinha mais nenhuma família que pudesse atrapalhar sua pesquisa interminável.

–“Eu odeio você por ter me abandonado, mas ao mesmo tempo...”

Se morresse ali, nunca mais veria o rosto do irmão novamente, sempre fechado, sempre com a expressão de quem nunca estava contente. Jamais teria a oportunidade de ver a surpresa estampando este rosto quando o alquimista se desse conta de que ela havia se tornado uma bruxa excepcional. Uma pessoa digna de seu respeito.

–Eu venci. – Disse Aurora, depois de vários segundos em que nada aconteceu. Colocou sua mão sobre a massa de gelo e sentiu: não havia nenhum movimento, a inimiga não estava sequer se esforçando para tentar se libertar. E embora fosse alguém que tivesse ferido seus amigos, Maya sentiu uma pontada de tristeza ao vê-la assim.

–“Eu não aceito isso!” – Gabrielle não tinha como ouvir a controladora do gelo, mas mesmo assim algo em seu interior despertou seu cérebro da estase. Com seus poderes elementais ela já não tinha mais força física para quebrar o gelo, mas existia uma segunda alternativa. O martelo que segurava firmemente na mão esquerda era a prova de que havia dominado uma magia. Embora fosse um encantamento simples e outras bruxas questionassem sua competência, ele agora salvaria sua vida.

Aurora se assustou e caiu sentada quando subitamente a arma estourou parte do gelo, erguendo-se rapidamente ao alto. Parcialmente livre, a irmã do alquimista finalmente encontrou forças para se erguer e, fixando seu olhar no da oponente, lançou um único e derradeiro soco. O ar imediatamente congelou ao redor do rosto de Bonrealis, criando uma espessa proteção que se desfez em dezenas de lascas brilhantes.

A garota de cabelos brancos caiu e não levantou mais.

Notas finais
Finalmente chegamos ao capítulo 200! E o que nos aguarda é Capítulo 200: Erika e Viper Em breve.