Notas iniciais
Quero agradecer meu amigo Boneco de Neve (vulgo Snowpuppet) por me ajudar com o planejamento técnico de Roses and Demons e por ser compreensivo também.

Anos atrás. Quando Thomas Ashfield, na época um menino magricela de cabelos loiros e curtos, deitou em sua cama a noite era igual a qualquer outra naquele pequeno vilarejo. Seu sono, contudo, foi conturbado e ele acordou durante a madrugada, assustado, sentindo alívio aos poucos ao entender que tudo não passava de um pesadelo. Infelizmente, ele havia acordado para se deparar com outro ainda pior.

O barulho de gritos e destruição o alcançou, espantando qualquer resquício de sono, deixando apenas uma sensação mista de medo e curiosidade. Cautelosamente, ele levantou de sua cama e caminhou até a janela de madeira que abria para os lados, empurrando apenas o suficiente para criar uma fresta. Não foi possível discernir muito mais do que vultos correndo, alguns assustadoramente robustos, balançando braços enormes com violência contra quem estivesse por perto.

Thomas estava tão confuso que até mesmo imaginava se ainda não estaria dormindo, mas aquela realidade distorcida não o permitiria escapar. Um estrondo furioso de madeira rachando o fez saltar de susto e cair sentado, ecoando pela casa inteira. O menino não tinha mais dúvidas, alguma coisa havia invadido sua residência e se o encontrasse sua vida não duraria muito tempo. Movido pelo pânico, ele saiu de seu quarto e correu em direção ao dos seus pais.

No momento que abriu a porta o odor de sangue invadiu suas narinas, mas a visão que o aguardava era ainda mais repugnante. Caído numa posição estranha num canto estava seu pai, completamente encharcado de fluidos vitais. Já sua mãe dava o último suspiro em meio ao ruído de ossos quebrados enquanto um vulto monstruoso de dois metros a arremessava para o lado.

Atrás da besta, cuja silhueta lembrava um oni ou ogro, havia um rombo aberto na parede. Ashfield não fez menção de tentar fugir, permaneceu lá, completamente imobilizado pelo terror, enquanto seu algoz se aproximava com passos pesados. A proximidade o permitia discernir que o monstro tinha pele avermelhada com linhas serpenteantes e escuras em seus membros que pareciam veias.

A resignação do menino foi substituída por surpresa quando algo pontiagudo atingiu e perfurou a cabeça da aberração, que caiu esmigalhando a cama com seu peso. Pelo buraco na parede entraram duas crianças de idade próxima à de Thomas, uma garota de cabelos escuros e compridos, mas levemente desgrenhados no momento, e também seu melhor amigo, Martin Dedsoyon, cujos cabelos eram encaracolados e castanhos.

–M-Maya? Martin?

–Santo Adriel! – Maya Bonrealis se assustou ao ver a triste cena dentro da casa. – Eu sinto muito, Thomas.

–Não temos tempo para isso! – Disse o outro garoto, segurando com firmeza o braço do amigo resgatado e puxando. – Precisamos dar o fora daqui. Não se preocupe, Thomas, eu vou proteger vocês dois.

–Foi você que fez aquilo, Martin? Como? – Indagou Ashfield.

–Eu não sei, eu tentei me defender quando eles atacaram minha casa e de repente conseguia criar e controlar cristal.

Martin, o antecessor de Roger Pyrath como Quartzo, já estava morto há dois anos e isto impactou seus amigos de formas muito diferentes. Enquanto Maya Bonrealis, Aurora, decidiu superar a perda sorrindo e fazendo com que aqueles ao seu redor sorrissem também, Thomas Ashfield, Vulcano, simplesmente se deixou afundar na amargura.

A única coisa que o mantinha vivo era algo que havia aprendido com o antigo controlador dos cristais: que o fato de ter recebido poderes elementais e ser aceito na Ordem da Rosa Branca trazia consigo uma importante responsabilidade, proteger os indefesos. Assim haveria menos tragédias como a que os deixou órfãos e desamparados, além de dar significado para suas próprias vidas. Infelizmente, mesmo mantendo estas palavras em seu coração, Vulcano nunca encontrou valor na própria existência.

Naquela guerra, como em todas as suas outras missões, o controlador do magma lutava sem emoção e sem se preocupar consigo mesmo. A despeito disso, seus poderes não podiam ser subestimados e, sozinho, derrubou diversos inimigos. Nenhum deles havia se mostrado sequer remotamente capaz de rivalizá-lo, até que lampejos de luz chamaram sua atenção.

Thomas correu até o local onde soldados chesordianos eram lançados ao alto, gritando e se debatendo ao cair. Indubitavelmente isso era trabalho de algum manipulador, e Vulcano tinha a impressão de que talvez conhecesse a pessoa. Sua suspeita se confirmou ao ver a menina de vestes laranjadas que combatia diversos inimigos com facilidade. Era a mesma manipuladora que havia enfrentado durante a batalha pelo último pilar.

–Você!

Karin virou-se na direção da voz um tanto familiar e reconheceu o adversário imediatamente. Ela tinha certeza de que estava mais forte do que na última vez que o enfrentara e lentamente abriu um sorriso. Era uma oportunidade perfeita para testar o quanto havia melhorado em seu domínio elemental, e embora estivesse lidando com um manipulador perigoso, ela estava ansiosa para fazê-lo.

–Ah sim, o menino amuado que eu venci da outra vez. Como era mesmo o nome? – A pupila de Jack Faith fechou os olhos, forçando o cérebro. – Espere só um pouquinho, está na ponta da língua! – Depois de breves segundos em que Thomas apenas observou abismado, a menina bateu o punho direito contra a mão oposta e exclamou. – Lembrei, é Vulcano, sim?

–Verdade, eu sou Vulcano, mas que história é essa de ter me vencido? Eu e Sol nocauteamos você e aquele outro manipulador, esqueceu?

–Sei, mas no fim das contas nós conseguimos derrubar o último pilar e ainda por cima escapar com vida. Então automaticamente conta como uma vitória!

Ashfield colocou a mão direita sobre a própria cabeça, absolutamente pasmo com a atitude da menina. Ainda assim, não podia negar que sua lógica tinha mérito e, por mais que continuasse não lhe agradando a ideia de combater uma garotinha, o guerreiro da ordem reconhecia nela uma ameaça que precisa ser neutralizada.

–Considere como quiser, menina. Mas desta vez você vai perder de todas as formas!

–Pelo visto você está me levando um pouco mais a sério, mas eu tenho nome, sabia? É Karin Annings.

Nisto, um grupo de soldados de Chesord cercou a manipuladora da luz e, antes que Vulcano conseguisse impedi-los, atacaram. Girando seu cajado sobre a própria cabeça, ela disparou múltiplas esferas luminosas que se espalharam, cada uma atingindo um inimigo com potência suficiente para lançá-lo longe.

–“Tenho a impressão de que ela melhorou desde nossa última batalha. Mas tanto faz, isso não muda nada.”

O controlador do magma juntou as mãos diante de si e disparou uma rajada vulcânica que parou diante do escudo semiesférico da garota. Thomas aumentou a potência de seu ataque, mas esta ação não demonstrou nenhum resultado.

–“Droga, essa luta não vai ser rápida, mas alguém tem que pará-la e duvido que um não-manipulador consiga.”

Mudando de tática, Vulcano avançou, invocando sua rapieira para tornar o combate de curta distância. Karin, que preferia manter uma distância saudável, lançou um raio contínuo a partir da ponta de seu cajado, tentando mirar no oponente, mas sem sucesso.

–Pare de se esquivar tanto, não vê que estou tentando acertá-lo?

Sem encontrar palavras para responder, Thomas lançou esferas de lava, forçando a inimiga a assumir uma postura defensiva mais uma vez. Agora já estava a menos de dois metros de distância e se preparava para uma estocada com sua espada. Contudo, o golpe direto era apenas uma distração, sua verdadeira ofensiva vinha por baixo, uma erupção sob os pés de Karin.

A rapieira parou ao atingir a resistente proteção luminosa, como Ashfield já esperava, e então a torrente de magma se ergueu a três metros. Para o azar dele, contudo, o ataque foi ineficaz, pois uma esfera reluzente ao redor da manipuladora mantinha seu corpo protegido de qualquer ferimento.

A surpresa do guerreiro da ordem atrasou sua reação e permitiu que a jovem liberasse as energias concentradas em sua barreira, empurrando e derrubando o rival com o estouro. Recuperando o sorriso de antes, ela provocou.

–Vamos lá, Vulcano, você consegue fazer melhor que isso, não é?

Notas finais
O desânimo e a desilusão de Vulcano são pesos grande demais para permiti-lo enfrentar Karin. Capítulo 209: Como Nunca Lutou Antes Em breve.