Notas iniciais
Última semana antes das minhas férias e eu ainda tenho uma montanha de coisas para ler. Socorro.

Lince Walters avaliava a proposta de Fernand e seus aliados com muito cuidado, pois haviam aspectos positivos e negativos em qualquer decisão que tomasse. De um lado, poderia manter William nos calcanhares da Ordem da Rosa Branca, ironicamente agindo como a arma que Empericia esperava que ele fosse, mas assim arriscando sua captura ou até mesmo que ele se voltasse contra as tropas invasoras.

Por outro lado, poderia garantir a colaboração de um manipulador poderoso e sabidamente esperto, aumentando as chances de sucesso do plano de ataque ao castelo na Capital. Agir assim traria consigo o risco de perder alguns dos integrantes do grupo de manipuladores caso Storde se mostrasse hostil.

Foram necessários quase três minutos para que ele pudesse chegar a uma decisão.

-Eu sinceramente não faço ideia do que se passa na cabeça de William ou porque ele veio até aqui, mas se bem me lembro, essa perda de controle é apenas temporária. Agora que ele causou estragos suficientes, é possível que tenha recuperado o bom senso.

-Então você concorda em nos ceder o Elbio? Prometo que traremos ele de volta inteiro. – Brincou o soldado da terra.

-Eu acho melhor aceitar essa proposta, eles não estão com cara de quem pretende desistir. – Apontou Erika.

-Tudo bem, podem procurá-lo. Creio que o esforço dele em derrubar os pilares garante um voto de confiança. – Declarou Walters, cedendo aos desejos de seus aliados. – Mas antes é melhor que vocês descansem e comam alguma coisa.

Realmente todos estavam famintos depois da longa viagem e aceitaram o convite sem nenhuma objeção. Logo se espalharam pelo acampamento, conhecendo melhor o local e os soldados, muitos dos quais cumprimentavam Fernand respeitosamente. Samantha foi a única que preferiu permanecer sozinha, comendo sua refeição num silêncio que não duraria muito.

-Pessoas que falam demais às vezes são irritantes, mas você não precisa fingir que é muda. – Ralhou a princesa.

-Os outros já falam o suficiente, eu tenho uma utilidade diferente para o grupo.

-Não posso te criticar, eu vi a realidade que você e as bruxas de Chesord têm de enfrentar a cada dia. Mas eu considero vocês minhas irmãs, e se precisar de minha ajuda, pode contar comigo.

-Veio até aqui só pra me dar apoio moral? – Respondeu a manipuladora das trevas, com um leve sorriso.

-É o mínimo que eu posso fazer. Você está sempre com cara de quem espera que o pior aconteça.

-Talvez já tenha acontecido.

-O quer dizer com isso? – Questionou a bruxa de cabelos dourados, curiosa e preocupada.

-Eu e William não somos tão diferentes, tivemos que lidar desde cedo com a opressão e o isolamento. Arrisco dizer que sou a pessoa que melhor o entende, e eu sei que o que ele odeia mais que tudo não é ser escravo do exército, mas sim do seu próprio poder. Se o que Yasmin viu nos olhos dele é verdade, então talvez seja tarde demais...

-E se for realmente tarde demais, o que você fará, Samantha? – Erika até já imaginava a resposta e tinha medo de estar certa, mas precisava perguntar.

-O que os outros não teriam coragem, e o que certamente seria o desejo de William...

O clima estava agora mais pesado do que nunca e o silêncio se prolongou por um tempo, até que uma terceira pessoa surgiu. Era o capitão, que trazia uma notícia para sua amiga.

-Anya finalmente terminou o ritual e os últimos preparativos estão sendo realizados. É melhor se preparar, pois logo o plano será posto em prática.

-De que plano estão falando? – Samantha não conseguiu conter a curiosidade.

-Nosso contra-ataque, e já não era sem tempo! Vamos conversar mais num outro momento, eu realmente preciso me preparar.

A bruxa empericiana então acenou brevemente, afastando-se em seguida.

A maior parte das tropas de Agas descansava naquela noite, pois os soldados sabiam que a trégua incerta estava prestes a terminar. No dia seguinte marchariam contra as forças de Empericia e, para tanto, seriam necessários todos os seus esforços. O mesmo valia para os guerreiros da ordem, mas dois deles ainda estavam acordados. Sol e Vulcano, sentados diante de uma fogueira cujas labaredas morriam aos poucos, conversavam.

-E eu volto a insistir para que você pare de usar óculos. Nunca vai conquistas as garotas parecendo um rato de biblioteca. – Explicava o controlador das estrelas.

-Quantas vezes eu preciso dizer que não dou a mínima? Pare de tentar me dar conselhos dos quais eu não preciso! – Protestou o menino.

-Não precisa se fazer de difícil, Vulcano. Eu sei que no fundo você só é um pouco tímido, mas com minha tutela com certeza vai se tornar uma sensação!

-Que diabos vocês dois estão fazendo? – Reclamou Spectra, em pé e de braços cruzados atrás do manipulador de cabelos loiros.

-Ora, estamos apenas conversando. Coisas de homem, daria trabalho demais explicar para você. – Explicou Sol.

-Vulcano tem apenas catorze anos. Não basta a pressão de ser membro da Rosa Branca, você ainda quer causar mais problemas para ele? – A mulher estava genuinamente irritada com as atitudes de seu aliado.

-Mas vai chegar uma hora em que ele mostrará interesse no sexo oposto, e com meus conselhos vai ser o centro das atenções. Certo, Thomas?

-Olha, Sol, eu agradeço a sua disposição, mas isso é inútil. Eu nem sei se vou sobreviver a esta guerra, e mesmo se for o caso, pessoas como nós não têm tempo para esse tipo de coisa. – Respondeu o controlador do magma num tom melancólico.

-O quer dizer com isso? – Perguntou Camilla, aturdida com o comentário.

-Nós somos apenas armas do reino, certo? Então é melhor que eu me concentre no dever e deixe de lado o que não está relacionado.

-Deixe de ser imbecil, pirralho! Mesmo que sejamos uma parte importante do poder bélico de Chesord, ainda somos humanos. E justamente por isso não somos perfeitos e dependemos uns dos outros para suprir nossas deficiências. – Argumentou a controladora da névoa.

-Falou a mulher mais perfeccionista de toda a ordem! Será possível que levar uma surra do William mudou você tanto assim? – Acusou Sol, aos risos, recebendo em resposta um soco na cabeça.

-Pelo menos eu aprendo algo com minhas falhas, diferente de você que continua o mesmo, apesar de ter sido feito de bobo quando teve de proteger um dos pilares.

Para a surpresa de seus colegas, o controlador das estrelas ignorou a resposta ácida e fez um comentário quase construtivo.

-Enfim, eu concordo com o que a Spectra disse, mas não vá seguir seus conselhos amorosos. Tudo mundo sabe que o futuro dela é ser uma velha solteira e resmungona.

O controlador das estrelas evitou um segundo soco e, ao abaixar o rosto, percebeu que a fogueira estava quase totalmente apagada. Resolveu lançar uma labareda para que ela não morresse, mas nada saiu de suas mãos.

-Que estranho, eu não consigo gerar fogo. Vulcano, tente você.

O garoto obedeceu, buscando utilizar seus poderes de manipulação igualmente sem sucesso. Spectra, vendo a situação, tentou acessar os seus e, percebendo que era impossível, compreendeu de imediato que algo estava muito errado.

-Precisamos avisar Ent e o comandante.

Contudo, isto seria algo que eles não fariam. Um grito vindo do limiar do acampamento cortou o ar gelado da noite e chamou a atenção de todos enquanto outros mais surgiam a cada instante. Algo realmente estava muito errado.

Notas finais
O ritual que Anya e suas discípulas preparam por tanto tempo está finalmente ativo. Seu nome é...

Capítulo 157: Buraco Negro

Em breve.