Roses And Demons: Warbloom
71 Duas Histórias
Notas iniciais
Jack Faith tinha três cadeiras em sua casa, mas ele destruiu uma sem querer quando a arremessou contra um soldado que veio importuná-lo.
A noite anterior. Depois do encontro inesperado na praça central de Siral, Viper e Scythe caminharam a esmo pela cidade até que encontraram um estabelecimento aberto. O movimento era pequeno, como já se esperava, e elas preferiam assim. Não estava nos planos de Priscilla cometer excessos, queria apenas ajudar sua amiga a relaxar um pouco.
Embora fosse três anos mais velha, Sabrina já se sentia tonta após beber sua primeira taça de vinho. A controladora do veneno, por outro lado, tinha uma resistência natural e não se acanhava. Provavelmente conseguiria ingerir quantidades de álcool suficientes para deixar os outros clientes do local em coma sem sofrer muito mais do que uma ressaca no dia seguinte. Depois de cerca de uma hora de conversa, Priscilla resolveu tocar num assunto um pouco mais delicado, mas que lhe interessava bastante. Não gostava de ver Scythe constantemente deprimida, como se fosse esse seu único estado de espírito, mas dificilmente conseguiria entender seus motivos se não soubesse detalhes sobre seu passado. Em partes por causa da bebida, mas também por um genuíno desejo de desabafar com alguém, a controladora da morte resolveu contar um pouco daquilo que a outra integrante da ordem desejava saber.–Não é novidade, mas eu já pertencia à ordem antes de você se juntar. Sou Scythe há pelo menos oito anos. Enquanto falava, a mulher traçava linhas com seu dedo indicador na superfície da taça vazia, indecisa quanto a pedir mais vinho ou parar por ali.–Antes disso eu era apenas uma camponesa. Vivia numa vila no leste do reino e ajudava minha mãe a cuidar de nossa horta e manter a casa limpa. Naquela época minha única perspectiva era ser esposa e mãe, cuidar da minha futura família e morrer de velhice sem me preocupar com mais nada. Priscilla realmente não conseguia imaginar a pessoa diante de si como uma dona de casa, mas sentia claramente a nostalgia na voz de Sabrina. Como se fundo ela ainda quisesse apenas constituir uma família e viver em paz. Algo definitivamente impossível.–Eu inclusive namorava o filho mais velho de um vizinho e até tinha planos de me casar com ele. Mas as coisas mudaram aos poucos, primeiro quando meus cabelos negros se tornaram cinzentos e depois brancos.–Esse é o sintoma mais comum da manifestação dos nossos poderes elementais, não? Meu cabelo era originalmente loiro e hoje é verde esmeralda. – Comentou Viper.–Sim, e por isso meus pais me levaram a um médico, mas ele disse que eu era uma garota saudável e não compreendia a razão daquela mudança súbita. A vida seguiu normalmente e somente meses depois meus poderes despertaram.–Como você se sentiu quando aconteceu?–Horrível. Eu estava beijando o rapaz que namorava e quando percebi o que estava acontecendo, ele já estava morto. Fui correndo e chorando até minha mãe e, quando ela me abraçou, suas mãos definharam em instantes. Sabrina esfregou a manga de seu braço esquerdo no rosto para limpar as lágrimas. Para tentar confortá-la, Priscilla segurou a mão direita da controladora da morte com firmeza. As luvas desta última impediam o contato direto.–Eu sinto muito pelo que aconteceu. – Disse Viper.–Já estou acostumada com o sofrimento que é ser Scythe, mas sempre fico deprimida quando lembro de como minha vida costumava ser. Eu não era ninguém especial, mas daria tudo para voltar a ser uma pessoa normal. Refletindo sobre o que ouvira, a controladora do veneno ponderou que provavelmente era quem melhor entendia aquele sofrimento. Nem todos os integrantes da ordem eram exatamente abençoados e a garota se perguntou se também se sentia dessa forma. Se também daria tudo para se livrar do veneno que lentamente corroía seu corpo.–Enfim, não demorou muito para que a notícia se espalhasse. Em uma semana eu fui levada e convidada para participar da Ordem da Rosa Branca. Eu não tinha mais a quem recorrer, então obviamente aceitei. Sou grata à ordem, porque eles me ensinaram coisas muito importantes, desde as simples como ler e escrever, até como lutar e proteger os inocentes. Agradeço a Inferno e os outros porque assim ao menos eu tenho um propósito, mesmo que tenha de viver isolada de todos. Nisso, Priscilla chegou à sua conclusão. Era bobagem pensar dessa forma, pois jamais teria a opção de deixar de ser quem era. Isso reafirmava o seu estilo de vida e também, o qual ela cria que deveria ser o mesmo de Scythe.–Eu vou te mostrar que não precisa viver isolada de todos. A vida termina num instante, quanto mais tempo perder se lamentando, menos terá disponível para fazer o que realmente importa.–E o que seria isso? – Questionou a controladora da morte, curiosa e confusa.–Aproveita a vida, é claro! – Viper abriu um grande sorriso. Jack tinha apenas duas cadeiras em sua casa, logo todos, com exceção de Karin, estavam em pé. Ouvir as aventuras da manipuladora da luz e de seus amigos o deixava muito contente, e ele não parecia nem um pouco preocupado com o fato de que o cajado dela tinha sido estilhaçado.
–Posso consertá-lo facilmente, a única dificuldade será conseguir o material para o cristal, mas não é nada que Fernand não possa arrumar.–Por que justo eu? – Protestou o soldado.–Ora, você nunca percebeu? O mesmo material que usei para consertar seu machado era o principal condutor dos poderes luminosos da Karin. Enquanto o manipulador da terra observava com atenção a lâmina de seu machado, Faith riu e então prosseguiu.–Quanto ao fato de eu ser um sábio da corte de Follet, isso é a pura verdade. Na verdade fui eu que projetei os braceletes usados pela Ordem da Rosa Branca para invocar instantaneamente suas armas.–Espera um pouco, quer dizer que também foi você quem criou aquela espada estranha do Vortex? – Questionou Fernand.–Não, aquilo é obra de outro ferreiro talentoso, descendente da família de um viajante de um país do extremo leste que há vários séculos se estabeleceu aqui. Mas isso não vem ao caso agora.–Por que você abandonou a corte, Senhor Faith? – Perguntou Luna.–Eu tive bastante contato com a Ordem da Rosa Branca durante muitos anos, mas sempre com a sensação inquietante de que havia uma sombra por trás daquele grupo. Sem tentar levantar muitas suspeitas, eu resolvi investigar a respeito e cada vez mais estava certo de que alguém estava usando a ordem para cumprir seus próprios objetivos.–Vladmir Banemare. – Murmurou William.–Talvez, nunca soube o nome da pessoa, nem sequer se era um homem ou uma mulher. E quando resolvi compartilhar as informações que havia descoberto, fui imediatamente taxado de traidor e rebelde. Yasmin forçou sua memória para se lembrar do que havia ouvido a respeito de Jack Faith e parecia ter a vaga lembrança de que ele realmente fora acusado de crimes graves. Ela então argumentou.–Por esse motivo você se teve de fugir e se tornou um foragido.–Exato. Eu morei em muitos lugares durante o passar dos anos, sempre perseguido pelas autoridades.–E quando foi que você encontrou a Karin? – Foi a pergunta de Elbio.–Cerca de dois anos atrás, e usei meu conhecimento de magia, minérios e armas para criar um cajado que pudesse ajudá-la a controlar melhor seus poderes. Mas pouco tempo depois que ela partiu eu tive de me mudar.–Só não entendo por que diabos um fugitivo da lei adotaria uma criança, ainda que fosse por pouco tempo. – Disse Fernand, tendo dificuldades em processar todas aquelas informações.–A guarda da cidade tinha me prendido depois que eu destruí uma parte do orfanato onde morava com meus poderes. Foi o mestre que me salvou. – Explicou a pequenina.–É uma história muito interessante, mas devo ressaltar que temos pressa. Basta apenas recuperar um pouco do minério azulada para que Karin esteja em condições de combate novamente? – Pressionou o manipulador do vento.–Sim, é o suficiente. – Respondeu o ferreiro.–Nesse caso eu e Fernand nos encarregamos disso. O resto de vocês aproveite para descansar, partiremos tão logo quanto possível. A ordem de William foi acatada, afinal estavam todos cansados. O único que não gostou foi o próprio soldado da terra, que esteve o tempo todo rezando para que não tivesse de enfrentar os monstros rochosos novamente.
Notas finais
As bruxas de Chesord se veem diante de uma ameaça iminente, e William pode usar isso a seu favor.
Capítulo 172: Quebra de Sigilo
Em breve.
Fale com o autor