Rose e o Cara
29 Capítulo 29
Notas iniciais
O seu abraço era sem jeito. Seu toque distante. Não havia nada de belo ou tocante naquele momento.
— O que faz aqui Rose? – Indagou séria e me desvencilhei de mamãe afastando-me para trás.
— Ele terminou comigo – Mordi o lábio com força segurando o choro – Ele descobriu minhas mentiras e agora me odeia.
— E porque acha que posso fazer algo por você?
— Por que é minha mãe e eu preciso de você!
— Não Rose, não precisa de mim. Sou a última pessoa do mundo para quem deveria correr. E você sabe disso.
— Eu pensei que...
— Pensou errado. Agora me deixe, por favor – Desviou o olhar.
Concordei mesmo contrariada e saí de seu quarto, desamparada, sentindo o mundo desmoronar ao meu redor.
Quando voltei para casa já não havia mais ninguém além de Gabrielle e François que me esperavam com expressões de preocupação estampadas em seus rostos.
— Mas pra onde diabos você foi? – Minha irmã me encarou furiosa.
— Pra casa da mamãe...
— Pra casa da mamãe? O que você queria lá? Lembrar do que ela te fez que fodeu com a sua cabeça e agora o amor da sua vida te odeia.
— Eu só... eu não sei – Gabrielle me abraçou – Essa noite deveria ser perfeita, mas a minha mente surtou... como em todas as outras vezes, era como se o que Pierre fez fosse acontecer de novo e de novo com todos eles.
— O problema não era o nome não é?
— Sou eu – Ri uma risada chorosa – O problema sou eu, o tempo todo foi eu, eu só não queria admitir a mim mesma que a porra do problema sou eu.
— Quer que eu passe a noite aqui? – Alisou minha cabeça.
— E François?
— Ele sabe muito bem voltar pra casa sozinho. Eu durmo aqui tudo bem? – Fiz que sim e afundei meu rosto em seu pescoço, soluçando, sabendo que eu havia destruído meu próprio mundo.
***
— Bom dia irmãzinha! – Pulei sobre Gabrielle que ainda dormia em minha cama.
— Mas que porra Rose – Coçou os olhos e fez uma careta com a luz que entrava pela porta de vidro para a varanda – O que você ta fazendo?
— É sexta! Tenho que ir trabalhar – Anunciei com uma empolgação atípica.
— Você ta bem? Ta sorrindo.
— Sim, estou ótima – Abri um sorriso exibindo os dentes e Gabrielle segurou meu rosto me analisando com um olhar confuso.
— Você ta maluquinha da Silva. O término mexeu com a sua cabeça foi?
— Eu superei. Estou me sentindo ótima e viva! – Desci da cama exibindo uma roupa que nunca havia usado, uma saia midi azul marinho e uma blusa com listras pretas e brancas sob um casaco cor de areia.
— Parece bem demais pra alguém que de tão desesperada abraçou a mamãe.
— Isso é passado e quem vive de passado é museu. Hoje é um novo dia e neste novo dia pensarei apenas em coisas positivas e relevantes, como a próxima capa da Belle, preciso decidir entre Jennifer Lawrence ou Emma Watson, em conseguir uma nova caixa de areia pra Audrey, ou o aquecimento global, você tem ideia do que os ursos polares estão passando? Eu não queria estar na pele deles.
— Hei, vai com calma, me perdi na metade do que você disse – Abri a boca para repetir tudo – Mas não precisa repetir, pois não me importa mesmo – Ela abria e fechava a boca com uma careta estampada no rosto – Minha boca esta com um gosto terrível, eu não me beijaria, tem uma escova de dentes reserva por aí? – Saiu cambaleante da cama e adentrou o banheiro.
— Tem uma no balcão... Só não pegue a vermelha, é minha... – Gabrielle me saiu do banheiro com a escova vermelha na boca cheia de espuma branca.
— Eca! – Cuspiu e jogou a escova dentro da pia.
— Vou incinerar essa coisa depois que eu voltar.
— Rose você tem certeza que quer voltar a trabalhar hoje mesmo? Podia tirar um dia de folga sabe? – Saiu do banheiro e sentou na cama.
— Estou bem, eu juro, se eu estivesse tão mal como pensa, estaria jogada na cama aos prantos comendo alguma porcaria e veja eu só comi uma maçã até agora. Andei pensando em começar uma dieta, o que acha?
— Acho que você enlouqueceu. Essa não é a Rose que eu conheço.
— Eu tenho que ir, vai ficar?
— Não, só me leve até a minha casa.
— Tudo bem – Respondi animada – Vamos logo, não posso chegar atrasada, tenho uma reunião importante.
Deixei Gabrielle em casa e segui para meu trabalho. Todos me observavam enquanto caminhava entre as mesas e cubículos. Todos sabiam. Porém continuei caminhando de cabeça erguida me equilibrando em meus Louboutins vermelhos, exibindo um sorriso em meu rosto. Tudo ficaria bem, era o que eu dizia a eu mesma.
Eles cochichavam e sussurravam uns aos outros à medida que eu me afastava. Seus olhares vidrados em minha pessoa, como se eu fosse algum tipo de atração de circo. Apenas ignorei e segui rumo a minha sala, meu templo sagrado e solitário.
Joguei minha bolsa sobre a mesa de vidro e sente-me em minha cadeira. Liguei meu computador e analisei as revistas velhas misturadas com as novas espalhadas na mesa. Percebi que uma boa faxina não seria nada mal e as separei, jogando as velhas na lixeira, empilhando as novas por ordem cronológica e por cor de capa.
Organizei minha estante de ferro, e ajeitei o vaso de flores que ganhara de mamãe sobre uma de suas prateleiras transparentes.
Avistei o vulto de Louane passando frente a porta e voltando para trás. Ela abriu a porta com uma expressão desconfiada e me olhou de cima a baixo boquiaberta.
— Senhorita o que faz aqui?
— Eu deveria perguntá-la por que ainda não havia aparecido aqui, se lembra que ontem a convidei para passar em minha sala.
— Senhorita, eu havia pensado que não viria para a empresa hoje.
— E por que não?
— Depois de tudo o que aconteceu ontem acreditei que ficaria em casa chorando.
— Ontem foi ontem, ficou pra trás, passado.
— A senhorita está bem – Correu até mim e colocou as costas da mão em minha testa – Está doente? Delirando?
— Eu estou bem – Afastei sua mão – Só não estou a fim de ficar me lamentando por um acontecimento ruim.
— Se fosse comigo eu estaria em casa chorando e comendo algum tipo de bobagem.
— Eu não sou este tipo de pessoa. Eu simplesmente supero. Simples assim.
— Como com Jean-Luc?
— Isso, como com Jean-Luc.
— Eu adoraria ser como você senhorita.
— Eu sei, Louane, sobre ontem, esqueça, você tem a tarde livre se quiser.
— Está falando sério? – Ergueu as sobrancelhas, espantada.
— Claro que sim, por que brincaria com isso? Não voltei depois do almoço, fique em casa, durma, assista alguma coisa na Netflix, divirta-se.
— Obrigada senhorita! – Saltitou e correu para fora.
Voltei meu olhar para o computador a minha frente e uma foto com ele roubou minha atenção. A foto que servia como papel de parede, nos exibia abraçados sorrindo durante nossa viagem à Escócia.
— Bartolomeu – Percorri os dedos sobre a tela, pronunciando seu nome pela primeira vez – Bartolomeu – Ele sorria, sua barba estava por fazer, assim como eu pedira que ele deixasse, suas mãos encontrando-se em minhas costas, minha cabeça repousada em seu peito.
Fechei os olhos tentando afastar os pensamentos ruins, as memórias que certamente me quebrariam a qualquer instante. Mas ele estava lá. Preso em minha mente com seu sorriso e seus olhos me fitando com admiração enquanto eu fazia coisas simples e rotineiras.
Eu já estava quebrada e não queria admitir.
Meu telefone tocou e o atendi. Louane me avisava sobre a reunião que teria início em 5 minutos. Aquilo era bom, afastaria os pensamentos sobre ele. Eu deveria concentrar-me apenas em sorrir e ser educada com os acionistas. Fingir que tudo estava perfeitamente bem.
Mas não estava.
E isso me consumia.
A reunião seguia tranqüila. Eu falava nos momentos certos e ouvia tudo, e mesmo que não me importasse fingia estar adorando a conversa.
— O que acha desta proposta senhorita MacIntyre? – Um homem cujo nome não me recordo de cabelos perfeitamente penteados trajando terno e gravata me indagou enquanto analisava alguns papéis.
— Excelente, seria um grande desafio para a empresa, mas nada que não consigamos fazer – Respondi de forma robótica.
— Ótimo. Então este é o acordo – Ele se levantou e todos os que o acompanhavam fizeram o mesmo – Até a próxima reunião senhorita MacIntyre!
— Até lá – Sorri me colocando de pé.
Eu tentava ser forte, juro que tentava. Eu sorria quando devia sorrir, agia da forma mais educada possível com todos ao meu redor e esbanjava animação para que eles vissem o quanto eu estava bem, numa tentativa frustrada de me enganar.
Voltei à minha sala com a cabeça erguida, eles não precisavam saber que eu me sentia um lixo.
Minha assistente bateu na porta já aberta anunciando sua presença.
— O que precisa?
— Eu vim me despedir, a senhorita me deu a tarde de folga.
— Sim claro – Ajeitei alguns papéis sobre minha mesa – Divirta-se!
— Obrigado senhorita, e sinto muito pelo que aconteceu ontem.
— Não sinta.
— A senhorita está mesmo bem com tudo isso?
— Mas é claro – Gargalhei – Por que não estaria? Nem era nada sério... – Minha gargalhada transformou-se em soluços – Eu to bem, to ótima – solucei – Mas que droga, por que eu to chorando?
Louane veio até mim e me acolheu em seus braços. Um abraço estranho, não era tão desconfortável quanto abraçar Simonette, mas ainda havia uma barreira entre nós que tornava aquela situação desconfortável.
— É melhor não nos abraçarmos, isso é estranho – Louane se afastou e soltando um suspiro de alívio.
— Com certeza é... Eu só quis ser solidária.
— Não precisa, eu vou ficar bem... – Segurei sua mão – O que acha de nós duas tirarmos o resto do dia de folga hein? Afinal eu não consigo fazer nada sem você por aqui mesmo – Esbocei um sorriso e enxuguei o rosto com a mão livre e liguei para Charlotte a avisando sobre nossa saída — Pode ir na frente Louane, nos vemos amanhã.
— Até amanhã senhorita – Despediu-se e se retirou dali.
Pensei em vê-lo. Em procurá-lo e de alguma forma me explicar. Explicar que o que tínhamos era real, que eu sentia muito e que o amava como jamais amei alguém. Eu apenas queria ver seu rosto, tocar suas mãos e olhar dentro de seus olhos e que ele pudesse entender o quanto eu o desejava.
Estes pensamentos me guiaram até a casa de sua irmã. Ele deveria me ouvir e eu sabia que tudo voltaria a ser como antes. Dois idiotas apaixonados que adoravam passar suas noites maratonando alguma série na Netflix.
Meu coração disparou quando sua irmã abriu a porta e me lançou um olhar aborrecido.
— Olá!
— O que você quer? – Perguntou ríspida.
— Bartolomeu está em casa?
— Está, mas não quer falar nem ver você, então faça o favor de ir embora – Empurrou a porta para fechá-la, mas a segurei.
— Por favor, fale com ele, diga que estou aqui e que precisamos conversar – Soei desesperada.
— Pelo que eu soube você mentia para ele, me desculpe, mas Bartolomeu é meu irmão e irei protegê-lo, se ele não quer falar com você eu não vou obrigá-lo a nada.
— Não pode nem tentar?
— Não, deveria ter pensado nas conseqüências antes de enganar meu irmão.
— Eu não o traí, eu juro.
— Pouco me importa os detalhes do que fez. Apenas vá e esqueça isso.
— Leonor, você se lembra onde deixou as minhas...
Ele estava lá, atrás de sua irmã, os cabelos bagunçados, os olhos vermelhos e inchados, vestindo o que pareciam roupas de dormir e estava barbeado — ao contrário de meu pedido- e me observava atônito.
— Eu vou voltar pro meu quarto! – Deu meia volta e o chamei pelo seu nome.
— Bartolomeu! – Ele parou ainda de costas e virou a cabeça o bastante para que eu pudesse ver seu olhar pesado sobre mim – Por favor! – Implorei e meu telefone tocou.
Eu ainda não sabia que esta era a melhor parte do meu dia.
— Rose? – Atendi ouvindo a voz angustiada de Gabrielle.
— Gabrielle, você ta bem? O que aconteceu?
— É a mamãe!
— Ela está bem?
— Você precisa vir ao hospital, por favor, venha agora! – Sua respiração era pesada e sua voz implorava por urgência.
— Estou a caminho! – Os dois permaneciam ali, parados diante de mim, como se esperassem por algo.
Voltei para meu carro sabendo que uma parte de mim ficaria para trás. Aquela fora a última vez que o vi.
Fale com o autor