Rose e o Cara

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Oi gente, voltei. Espero que gostem desse capitulo. Boa leitura!

— É claro que não fazia, seu mundo é completamente diferente do meu – Murmurou com as mãos na cabeça, andando de um lado para o outro na pequena sala – São como os universos paralelos da Rose e o Doctor.

— Por favor – Coloquei as mãos na cintura e apertei os lábios numa linha fina – Não pode apenas agradecer por ter feito o que você já deveria ter feito há alguns meses?

— Você... Você não entende. Eu não tinha nem tenho condições – Andou até mim e envolveu meu rosto em suas mãos, seus olhos vermelhos se fixaram nos meus, seus lábios trêmulos – Eu tenho um emprego que me paga um salário de merda, e infelizmente amo esse trabalho. Mas eu não quero que toda vez que eu estiver passando por uma crise financeira você venha e me salve. Faz com que eu me sinta impotente Rose – Soluçou – Não quero ser salvo todas as vezes!

— Eu queria – Tomei fôlego – Eu só queria ajudar você... Eu queria ser legal...

— Então não seja!

— Certo, não serei – Ele sorriu – Vá se foder sozinho!

Desvencilhei-me de seus braços e alcancei minhas malas.

— Rose, por favor, não foi isso que eu quis dizer! – Veio até mim e tentou segurar minha mala.

— Foi exatamente o que quis dizer! – Puxei a mala e o lancei um olhar cortante.

— Rose...

— Vá. Pro. Inferno.

Saí de sua casa.

Meu coração se apertando dolorosamente em meu peito. Minhas lágrimas inundando o corredor. Meus soluços misturado aos sons do prédio. Ao som das músicas e gritarias dos vizinhos.

Meus soluços eram apenas mais um barulho em meio a outros tantos.

***

— Você ta chorando? – A voz de Gabrielle soava preocupada.

— Mais ou menos – Solucei assoando o nariz em um lenço de papel que o motorista do Uber havia me oferecido.

— Por que ta chorando mulher? – Indagou com um tom de indignação.

— Nós brigamos!

— Você e o cara sem nome?

— Pra falar a verdade ele é meu namorado agora. Quero dizer, não sei se é mais.

— Bateu seu recorde desta vez, quanto tempo durou desta vez, três dias?

— Não fala assim – Funguei – Eu gosto dele.

— Então porque diabos brigaram? Se fosse boa coisa não teria me ligado se acabando de tanto chorar né mulher!

— Dinheiro.

— Descobriu que ele ta contigo pelo dinheiro né. Eu sempre soube, ele tem cara de quem faz esse tipo mesmo, eu nunca erro, você sabe né, lembra aquela vez do Augusto que...

— Ele não quer meu dinheiro, esse é o problema! – Falei alto o suficiente para que o motorista desviasse seu olhar do transito e me olhasse de relance pelo retrovisor – Continua dirigindo aí – Resmunguei e o homem voltou a olhar para o caminho a nossa frente.

— Espera aí, como isso poderia ser um problema? Dinheiro é legal.

— Ele devia o aluguel de alguns meses e eu paguei. Mas ele odiou. Disse que eu não devo fazer esse tipo de favor a ele, pois o faz sentir inferiorizado e que ele não me merece...

— Talvez ele seja orgulhoso e você apenas feriu o orgulho dele. Isso passa. Já fiz esse tipo de coisa com o François. Até já acostumou.

— E se tiver acabado?

— Se importa?

— É claro!

— Gosta mesmo dele não é?

— Gosto, é claro que eu gosto dele, ele é meu namorado, ou era!

— Não sofreu assim pelos outros.

— Sofri sim!

— Você terminou com Jean-Luc no meio de um jantar e no outro dia estava dando em cima de um cara na festa de aniversário da Amélie!

— Eu nem gostava tanto assim do Jean-Luc.

— Está apaixonada!

— Estou e esse é problema, porque machuca quando... – Fechei os olhos – quando nos desentendemos. E se eu estiver errada Gabrielle?

— E se ele estiver? Vocês dois precisam de um tempo pra pensar e colocar a cabeça no lugar. Dê tempo ao tempo. Esperem alguns dias e tentem conversar.

— Talvez esteja certa!

— Eu sempre estou. Agora eu preciso fumar um pouco e pegar um vinho pra esquecer que o tal Mathias vem em casa estudar com a Amélie. Sabe que eu não quero netos tão cedo né?

— Amélie é uma boa garota.

— Não ela não é. Tenha uma boa tarde irmãzinha e, por favor, para de chorar que isso não vai melhorar nada.

— Cala a boca! – Resmunguei.

— Cala a boca você! – Ela riu e desligou.

***

Haviam se passado dois dias desde que nos vimos pela última vez. De certa forma eu me sentia chateada com ele e comigo mesma. Comigo por ter sido tão egoísta e tentar resolver toda aquela situação sozinha e ele por ter sito tão idiota e orgulhoso.

Qual era o problema de receber ajuda da namorada? Ele mesmo havia dito que não voltava para casa há semanas por não ter dinheiro para o aluguel e eu que com meu enorme e bondoso coração tento salvá-lo sou a vilã da história?

Qual era o problema dele? Um simples “Muito obrigado Rose por ser tão incrível e maravilhosa” não seria nada ruim.

Lembro-me de ter passado o resto do dia em que brigamos jogada em minha cama com uma caixa de lenços e Audrey como companhia. Embora Audrey não parecesse se importar nenhum pouco com meu estado emocional totalmente abalado. Principalmente quando a abracei com força e ela arranhou meu rosto soltando um miado irritado.

Naquele dia deixei meu telefone desligado enquanto me afogava em minhas próprias lágrimas.

No dia seguinte fora da mesma forma.

Eu chorava sentindo uma imensa vontade de comer bolo. Então percebi que talvez não fosse apenas dor e sofrimento pelo relacionamento abalado. Eu provavelmente estava de TPM.

De qualquer forma passei o dia de pijamas, sentada em meu sofá, comendo bolo de chocolate e chorando enquanto assistia uma maratona de “Jane the Virgin” na Netflix. Eu não sei vocês, mas ficar grávida ainda virgem é muito triste.

Minha campainha tocou algumas centenas de vezes até que eu me rendesse e atendesse a porta levando o pedaço de bolo comigo.

— Rose!

— O que ta fazendo aqui? – Indaguei resmungando, pensando em como minha cara deveria estar inchada por chorar tanto.

— Eu queria conversar com você – Fiz beiço – Pedir desculpas – Ele parecia tão apreensivo.

— Que lindo! – Comecei a chorar – Isso é realmente lindo – Dei uma garfada no bolo – Lindo – Solucei de boca cheia – Quer bolo, ta bem gostoso!

— Você ta bem?

— Eu to ótima – Continuei chorando com o bolo na boca – Não dá pra ver? – Com a mão do garfo apontei para meu rosto repleto de farelos escuros.

— Então por que ta chorando? – Suas sobrancelhas arqueadas e seus lábios entreabertos entregavam sua preocupação.

— Eu não sei!

— Você bebeu alguma coisa?

— Não, eu só to comendo bolo e chorando com uma série de comédia – Voltei a soluçar mais alto – Você faz ideia de como é ficar grávida ainda virgem? E do seu chefe? É terrível – Comi mais um pedaço aos prantos.

— Eu acho melhor voltar aqui outro dia. Ta tudo bem pra você?

— Tá – Funguei – Tá muito bem, tem certeza que não quer bolo?

— Eu to cheio, mas nos vemos outro dia então! – Ele se afastava assustado – Até mais.

Acenei com o garfo e voltei a chorar em frente à televisão.

***

Passou-se uma semana.

Não nos víamos desde o dia em que ele aparecera em minha porta em meio a um das minhas TPMs

Com toda certeza ele havia escolhido a pior data possível para me pedir desculpas. Porém ele nunca voltou. Talvez estivesse com medo de me encontrar naquele estado outra vez. Talvez não quisesse me ver outra vez. Talvez estivesse tudo acabado.

Então decidi que era minha vez de aparecer em sua porta. Precisávamos conversar. Uma conversa de adultos para colocar os ponteiros no lugar.

Acertar o que deveria ser acertado.

Subi cada degrau pisando firme. Sem quase desmaiar ou qualquer drama estúpido.

Bati em sua porta algumas vezes e o aguardei.

Por alguns instantes desejei que ele simplesmente não atendesse a porta e eu teria uma desculpa para não encará-lo.

Pensei que poderia dar meia volta e sair dali, quem sabe sair do país e ele nunca saberia que fui eu quem bateu em sua porta.

Caso nos encontrássemos na Eslováquia para onde eu me mudaria, eu inventaria alguma desculpa esfarrapada como todas as outras que já inventei antes. Diria que precisava pensar na vida e que me esqueci de voltar para casa. Diria que o que tivemos fora ótimo, mas no fim das contas não funcionaríamos, pois sou uma mentirosa compulsiva. Ele diria que sentiu minha falta por um tempo, mas que agora me odeia por nunca ter me despedido e que isso o ajudou a superar minha ausência.

Estava tudo pronto em minha mente. Tudo o que eu precisava era dar meia volta e comprar passagens para a Eslováquia.

Mas ele abriu a porta.

Seu cabelo estava bagunçado. Seu rosto abatido. Sua camisa em qualquer lugar menos em seu corpo. Os pés descalços.

— Olá senhor Blanche – Senti minhas mãos formigarem e minhas pernas prestes a cederem.

— Olá Rose – Forçou um sorriso – Não imaginei que fosse aparecer.

— Eu também não – Forcei um sorriso.

— Me desculpe você pode entrar – Estendeu o braço apontado para dentro do apartamento e adentrei em sua casa.

Ele fechou a porta e pegou sua camiseta do chão a vestindo em seguida.

— Pode se sentar – Apontou para o sofá com uma mão e com a outra tentava ajeitar o cabelo – Quer beber alguma coisa? Eu tenho água e ... – Abriu a geladeira e balançou a cabeça em negação – Água gelada, mas eu posso fazer um café se quiser, e só preciso achar a cafeteira – Ele andava de um lado para o outro coçando a cabeça.

— Eu só quero conversar, só isso – Um nó formou-se em minha garganta – Pode parar e me ouvir?

— Claro, claro – Sentou-se na velha cadeira a minha frente e cruzou as mãos finalmente me olhando nos olhos.

—O dia em que você foi lá em casa pra conversar não poderia ter sido pior, eu estava no meio de uma coisa super natural que as mulheres tem todo...

— TPM?

— Isso! Você foi pedir desculpas. Mas eu estava ocupada demais chorando com um bolo na boca. Depois você não voltou e acabei ficando preocupada se estava tudo bem. Por isso estou aqui. Eu te devo desculpas. Eu fui estúpida, arrogante e não me importei com sua opinião fazendo apenas o que veio na minha cabeça.

— A culpa foi minha, eu fui orgulhoso, não queria que a minha garota pagasse minhas contas. Me senti impotente. Um merda pra ser sincero. A questão é que eu não tenho nada Rose, nada além do meu orgulho – Comprimiu os lábios trêmulos e direcionou seus olhos para a janela ao lado – A verdade é que quando fez isso senti que havia tirado a única coisa que eu possuía. Meu orgulho. E é uma droga quando tiram algo de você. Eu sei que não entende como é essa sensação, você tem tudo...

— Eu sei muito bem como é essa sensação, eu juro que entendo perfeitamente.

Pierre.

— Todos já tivemos algo tirado de nós não é?

Assenti desviando meu olhar.

— Eu só queria dizer que sinto muito Rose. Eu fui um babaca. Um grande babaca — Ele se colocou de pé e sentou-se ao meu lado – E que estou de mudança.

— Pra onde vai? – Indaguei com o coração disparando.

— Pra casa da minha irmã, ou melhor na antiga casa de ferramentas e bagunças do meu ex-cunhado, eles se divorciaram e ele levou as ferramentas consigo. A casa, ou melhor, casebre ficou vazio e eu vou morar lá. Minhas coisas não vão caber então terei que vender algumas delas. Pelo menos ela só me cobrará uma taxa pela energia elétrica – Molhou os lábios com a língua – E vou começar a trabalhar em um escritório como auxiliar.

— Suas aulas de música?

— Por mais que eu ame lecionar o que eu mais amo na vida, isso não paga minhas contas. Eu tenho que crescer Rose. Eu tenho 26 anos só percebi agora que eu tenho que crescer. Nem todos os sonhos se realizam e as vezes temos apenas que levar um chacoalhão do destino pra nos darmos conta disso.

— Não, não é verdade – Senti uma lágrima solitára descer por minha bochecha.

— Infelizmente é.

— Pode continuar tocando não pode?

— Informalmente sim. Em casa. Nos fins de semana.

— Eu sinto muito por tudo isso.

— Não é sua culpa.

Talvez fosse. E eu me sentia culpada. Culpada por tê-lo feito se sentir pequeno.

— Ao menos nós estamos bem né? – Segurei sua mão e entrelacei à minha olhando dentro de seus olhos escuros como a noite.

— Sim – Ele sorriu sem exibir os dentes e apoiei minha cabeça em seu ombro.


Notas finais
Gostaram? Comentem e digam o que acharam. Até mais seus lindos!