Rose e o Cara
13 Capítulo 13
Notas iniciais

Eu sabia que não deveria ter dito aquilo para minha mãe e de certa forma isso me corroía por dentro. Ao mesmo tempo sentia que devia ter dito poucas e boas a mulher que me machucou tanto. Quando voltei para casa naquele tarde a única coisa que tive coragem de fazer fora me jogar na cama de bruços e chorar. Chorei a tarde toda até notar que a noite caía e continuei chorando na banheira enquanto ouvia uma música triste o que deixava tudo pior, mas afinal é pra isso que essas músicas servem não, nos deixar ainda pior do que realmente nos sentimos.
Passei todo meu fim de semana para baixo. Indo da cama para o sofá, do sofá para a cama e da cama para a geladeira.
O que mais me incomodava era o fato de me sentir culpada por ter dito algumas palavras a mesma mulher que transava com Pierre quando ainda estávamos noivos. De qualquer forma eu não era como ela e me sentir culpava apenas reforçava essa constatação.
Meu celular tocou durante os dois dias e recusei todas as ligações, não visualizeis nenhuma mensagem. Eu apenas queria ficar sozinha no fundo do poço.
Então a temida segunda-feira chegou e eu tinha que me levantar da cama, tomar um banho e escovar os dentes. Deveria colocar comida para Audrey que estava faminta e não tinha relação alguma com meu drama pessoal. Eu deveria arrumar meus cabelos desgrenhados e sujos, vestir uma bela roupa e forçar um sorriso quando chegasse ao trabalho.
***
Oito horas da manhã, eu acabava de adentrar a Belle usando um vestido Dolce & Gabbana vinho estampado e saltos brancos Gucci não muito confortáveis, mas incríveis que faziam valer o esforço.
Passei pela mesa de Louane já a convidando para que me seguisse e assim ela fez caminhando logo atrás de mim com seu tablet em mãos.
— Algum recado para mim Louane? — Adentramos em minha sala menos bagunçada do que antes.
— Deixe-me ver — Ela fuçava em seu tablet — Tem uma reunião às dez!
— Sobre?
— Sobre os anúncios do próximo mês com a linha de maquiagens Ever.
— Isso deveria ser tratado com o departamento de marketing, não comigo, não são assuntos que eu resolvo.
— Falar com a senhorita é uma das exigências do nosso cliente.
— E se eu fingir estar com dor de barriga?
— A senhorita me proibiu de usar esta desculpa.
— É verdade... — Lamento — Quer saber, eu atendo eles, mas convoque Balthazar do departamento de marketing para a reunião, eu não entendo muito dessas coisas.
— Sim senhorita.
— Rose, Louane, é Rose, repita Ro- Se.
— Ro-Se, Rose, entendido senhorita — Revirei os olhos deixando aquilo de lado e pedi para que me trouxesse um café expresso. Precisava de cafeína na minha vida. Muita cafeína.
***
Eu analisava a nova coleção de Outono da Chanel que seria lançada daqui a apenas duas edições da revista e em um grande desfile especial organizado pela Belle quando o telefone preto e branco ao meu lado tocou.
— Sim Louane — A atendi ainda observando cada detalhe das peças de roupas em meu monitor.
— Tem um homem na recepção que diz precisar falar com a senhorita.
— Que homem?
— Ele disse que não pode falar o nome.
— Como ele é? — Perguntei mordendo uma caneta sentindo meu coração disparar com um vestido branco e creme.
— Quer que eu o descreva senhorita? — Sua voz soava confusa.
— Sim, quero que o descreva para mim.
— Tudo bem — Concordou perdida — Ele é alto, da sua altura, hum... magro, cabelos pretos e lisos, um narigão...— Ouvi uma voz masculina reclamando.
— Permita a entrada dele, é meu novo... novo... Um amigo muito próximo.
— Tem certeza senhorita? Ele nem disse o nome.
— Tenho Louane, eu não posso saber disso, coisa da minha nova religião.
— Certo, autorizarei a entrada dele, a senhorita poderia me falar mais sobre essa religião?
— Um dia Louane, agora não. Apenas o traga até aqui e volte ao trabalho certo?
— Sim senhorita — Desliguei o telefone e continuei babando pelo vestido dono de meus desejos.
Uma pulga me surgiu atrás da orelha quando finalmente notei que ele estava lá, em meu trabalho e eu queria apenas entender o porquê. Será que ele já nos considerava um casal de namorados? Ou ele queria falar sobre a noite de sexta? Ou talvez apenas porque ignorei todas as suas ligações durante o fim de semana. Provavelmente a última opção.
Louane deu algumas leves batidinhas na porta de vidro e logo a abriu dando passagem ao rapaz que parecia um tanto embaraçado por estar ali. Ele vestia calças jeans comuns, uma camiseta azul também comum e um par de All Star pretos, que contrastava com todas as roupas de grifes usadas no prédio.
— O senhor precisa de alguma coisa? Água, café, frapuccino, suco?
— Estou bem, obrigado — Ele parecia envergonhado com as mãos nos bolsos.
— Algo para comer? Temos sanduíches naturais incríveis na geladeira.
— Eu realmente estou bem.
— Pode nos dar licença Louane, por favor! — Pedi.
— É claro, com licença — Ela se retirou da sala.
O cara olhava para o chão com as mãos no bolso balançando com os pés para frente e para trás.
— Pode se sentar — Apontei para a cadeira frente à minha mesa e tentei recolher todo o resto de bagunça que havia sobre ela.
— Parece bem ocupada — Sorriu amarelo — Eu posso voltar outra hora...
— Não, ta tudo bem, essa bagunça é uma coisa que estou trabalhando, minha mesa nunca fica assim — Forcei uma risada sem graça.
— Que coisa?
— Que coisa? Bom, uma coisa bem... Uma coisa legal aí.
— Realmente deve ser importante.
— Muito importante — Menti tentando disfarçar — Mas, a que devo a honra de ter a sua presença aqui na Belle? — Coloquei as mãos entrelaçadas sobre a mesa de vidro enquanto me ajeitava na cadeira.
— Eu estava preocupado com você e queria saber se estava tudo bem.
— Poderia ter me ligado.
— Eu liguei algumas vezes, mas você não atendeu então acabei me preocupando, pensei que algo de ruim poderia ter acontecido com você.
— Eu sinto muito, eu tive alguns probleminhas com a minha mãe e fiquei mal com tudo o que estava acontecendo.
— Aconteceu algo ruim? — Se inclinou para frente perturbado.
Levantei-me e assentei na poltrona branca com dois lugares recostada a uma parede e dei batidinhas no lugar ao lado o convidando para se juntar a mim.
— Eu descobri que minha mãe está doente, câncer e acabei dizendo coisas a ela as quais me arrependo — Ele se sentou ao meu lado e pegou em minhas mãos com cuidado.
— Sinto por sua mãe — Comprimiu os lábios e olhou em meus olhos — O que você disse é tão ruim assim?
— Não é bom, mas estamos falando de Simonette Beaumont, ela nem deve ter se importado.
— As coisas com ela são ruins quanto?
— Muito, muito ruins, quem sabe um dia eu não te conte tudo o que aconteceu, mas por enquanto seguimos nossas vidas, eu devia ter atendido você, me desculpe.
— Tá tudo bem, quero dizer sua mãe está doente, não posso ficar bravo, seria errado.
— Obrigado — Sorri um sorriso sincero pela primeira vez em dois dias e beijei sua bochecha — Podemos falar de outra coisa agora?
— Eu também sinto muito por ter aparecido de cueca na sua cozinha quando sua irmã estava lá.
— Ela vai superar isso — Brinquei — Não é um trauma pra vida toda — Mordi os lábios rindo.
— Tem certeza? Posso ter arruinado a inocência dela — Aproximou seu rosto do meu.
— A inocência dela acabou quando ela começou a colecionar pôsteres do Justin Timberlake nos tempos de N’Sync.
— E quando perdeu a sua?
— A primeira vez que vi Leonardo Di Caprio em Titanic, eu tinha tanta inveja da Kate Winslet, menos da parte que ela fica com a tábua, embora eu ainda acredite que cabiam os dois. E você, quando sua inocência foi embora para sempre?
— Você vai rir.
— Não vou.
— Vai sim.
— Não vou, eu juro.
— Tudo bem, Spice Girls — Disse rápido e envergonhado e comecei a rir — Você prometeu não rir.
— Me desculpe, mas foram as Spice Girls.
— Pra sua informação a Baby Spice era linda — Divertiu-se.
— Claro, ela era, e pra sua informação eu era a Ginger Spice.
— Ela era uma das minhas favoritas — Engoli em seco quando tocou meus lábios gentilmente com os seus.
Envolvi meus braços em sua nuca e senti suas mãos deslizando por minha cintura descendo até minhas coxas levantando meu vestido. Ondas elétricas percorreram por meu corpo e arrepiei quando seus lábios beijaram meu pescoço. Aquilo parecia tão perigoso e excitante. Minhas pernas envolvendo seus quadris, meu vestido levantado até a barriga, minhas mãos ligeiras abrindo o fecho de sua calça e as dele sob meu sutiã, poderíamos ter transado ali mesmo se não fosse por uma pequena intervenção chamada Louane.
A porta fora aberta e apenas ouvi o grito assustado da minha assistente que quase deixou seu tablet e celular caírem no chão enquanto ele saia de cima de mim apavorado tentando fechar o zíper da calça o mais rápido possível com as mãos tremelicando. Eu abaixava meu vestido e me recompunha ajeitando o cabelo que aquela altura deveria estar todo desgrenhado.
— Droga Louane, poderia ter batido na porta, por sorte ainda estávamos vestidos.
Ele apenas me olhou perdido franzindo as sobrancelhas.
— Me desculpe senhorita, eu não queria incomodar — Louane parecia tão apavorada quanto nós — É que eu tenho um recado urgente — Concluiu afobada.
— Fala — Ele ficou sentado no sofá observando a situação constrangido.
— O responsável pelo marketing da Ever deseja falar com a senhorita agora. Eu tentei explicar que a reunião é daqui a quinze minutos, mas ele disse ser urgente e que precisa muito falar com você.
Mal minha assistente concluiu sua fala um homem adentrou minha sala sem qualquer autorização. Reparei em seu terno caro e seus sapatos lustrados, então seus cabelos penteados com perfeição, aquilo me era muito familiar.
— Sentiu minha falta?
Mas que merda.
— Oliver, você por aqui? — Apertei os dedos das mãos com força, eu merecia isso.
— Faz muito tempo.
— Uhum — Engoli em seco — O que ta fazendo aqui? — Indaguei com um sorriso falso.
— Sou o responsável pelo marketing da Ever Cosméticos, terá que negociar diretamente comigo — Louane permanecia de pé perto da porta de cabeça baixa e o cara sentado na poltrona nos observando com uma cara de quem não estava entendendo nada — Quem é o rapaz de zíper aberto?
— Ele? Esse é... esse é... hum... bom... boa pergunta... muito boa pergunta. Ele é meu amigo?
— Não sei, ele é?
Olhei para ele que continuava com seu olhar desnorteado, mas decidiu se levantar e caminhar até Oliver enquanto fechava o zíper da calça ainda aberto.
— Sou o namorado da Rose — Estendeu a mão para Oliver tentando o cumprimentar, mas foi ignorado.
Namorado? Espera namorado? Terei que mudar meu Status no Social Book?
— E você tem nome?
— Não posso dizer...
— É uma coisinha nossa uma brincadeirinha boba — Interrompi — A gente meio que oculta umas coisinhas aqui, umas coisinhas ali, assim sempre temos algo novo pra um saber sobre o outro — Forcei uma risada esganiçada balançando as mãos no ar, tentando controlar toda aquela situação embaraçosa.
— Prazer, sou Oliver Lefebvre, ex-namorado da Rose — Oliver sorria como se não houvesse amanhã.
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