Rose e o Cara
5 Capítulo 5

— Então Rose MacIntyre – Ele sorria − Há quanto tempo segue essa religião? – Questionou com um olhar curioso.
— Um mês? – Inventei – É, há um mês e aliás, você é a única pessoa nova que eu conheci nesse tempo então é o único que eu não sei o nome.
— Mas em breve saberá não é?
— Uhum – Assenti com um aceno de cabeça duvidando de minhas próprias palavras.
Tantas mentiras, uma sobre a outra.
Eu estava dando início a um relacionamento totalmente baseado em mentiras, mentiras bobas devo confessar, mas ainda escondia a verdade de alguém que parecia ser bom. Minha paranoia idiota com qualquer outra coisa que eu considerasse um defeito ainda me levaria ao fundo do poço.
— E você costuma sempre dizer a uma mulher que busca sua sobrinha no colégio pra impressioná-las? – Tentei mudar de assunto.
— Claro, sempre, às vezes eu também digo que fico de babá e que adoro trocar fraudas sujas, as mulheres adoram − Respondeu sério e me indaguei se aquilo era realmente verdade, ele me olhou ainda sério e sorriu – Foi uma piada – Brincou e coçou a nuca sem jeito, sorri de volta – Eu nunca fiz isso antes, é sério eu nunca fiz essa coisa de mentir pra impressionar alguma mulher... Eu não costumo fazer isso.
— Tá tudo bem!
— Eu pareço um idiota não é? Não levo muito jeito pra falar com mulheres, quando cheguei e te vi aqui, eu pensei “eu posso simplesmente voltar antes que ela me veja e nunca mais aparecer e vai ficar tudo certo porque ela nem vai saber que eu estive aqui", mas uma parte da minha cabeça dizia pra eu ter vergonha na cara e encarar isso, então estou falando muito não é?
— Um pouco, mas você é fofo − Sorri abobada mordendo meu lábio.
— Talvez seja muito cedo, mas eu gostaria de saber se sairia comigo na sexta à noite – Indagou aparentemente apreensivo.
— Um encontro? − Fitei seus olhos castanhos escuros que aguardavam minha resposta com aflição. Observei seus lábios apertados um contra o outro formando uma linha fina.
— Só se você quiser que seja.
— Eu quero que seja um encontro – Sorri.
Seu rosto magro se iluminou quando me ouviu aceitar seu pedido, abrindo um sorriso exibindo seus dentes nem tão brancos.
— Combinado, nos vemos às oito?
— Claro.
— Quer escolher algum lugar pra irmos? – Perguntou.
— Me surpreenda, me envie o endereço e estarei lá!
— Acho que devo te passar meu número – Me entregou seu telefone.
— Seria bom — Entreguei meu celular nas mãos do rapaz que digitou seu número agilmente e fiz o mesmo com o seu telefone.
Nós registrávamos nossos números quando o sinal do colégio soou estridente fazendo nos recordarmos o porquê de estarmos ali.
Uma multidão de adolescentes saía em polvorosa, uma confusão de vozes de centenas de jovens falando ao mesmo tempo como se tivessem se segurado para falar durante todo o dia. Lancei um olhar para o homem ao meu lado que parecia distraído procurando a sobrinha em meio àquela multidão e lembrei-me que eu também deveria encontrar alguém.
A quantidade de adolescentes parecia aumentar o que tornava minha missão de avistar Amelie quase impossível. Quando finalmente a avistei ela não estava sozinha. Minha sobrinha caminhava sorridente de mãos dadas com um garoto que deveria ser sua tal paixão da sétima série, Mathias Lamartine. Eles riam e andavam mais vagarosamente do que todos os outros como se desejassem que aquele momento nunca acabasse, era o tipo de cena que você veria em filmes adolescentes. Os observei com um olhar sério e braços cruzados, ao notar minha presença Amelie esbugalhou os olhos e desvencilhou-se imediatamente do garoto com um corte de cabelo fora de moda. Acenou para ele numa rápida despedida e correu em minha direção.
— Oi tia Rose, você está tão linda hoje, fez alguma coisa no cabelo? – Perguntou com uma falsa empolgação e um sorriso amarelo.
— Então esse é o seu namoradinho. Grande Mathias, quantos anos ele tem? 10?
— Ele tem 14 e, por favor, não conte nada pra mamãe – Implorou com as mãos unidas fazendo beiço como uma criança chorona.
— Eu não contarei nada, você que vai! – Respondi séria, afinal ambos eram quase crianças, eu tinha que fazer algo.
— O pai vai me proibir de ver Mathias, por favor, tia, não me diga que na minha idade a senhorita não fazia o mesmo.
— Com a sua idade a minha única paixão era o Nick Carter.
— Quem era Nick Carter?
— Dos Backstreet Boys!
— Quem são esses? – Meu coração palpitou.
— Você não sabe quem são os grandes Backstreet Boys? Eles cantam aquela música “Everybody yeah yeah”— Cantei estralando os dedos tentando fazer a garota se lembrar da maior boyband que já havia existido, mas ela apenas escondeu o rosto com a mochila enquanto seus colegas me observavam boquiabertos – O que estão olhando, até parece que não conhecem essa música, o que ensinam pra vocês no colégio?
— Eles são como One Direction ou EXO?
Senti um aperto no coração e meu coração palpitar outra vez, definitivamente a atual geração estava completamente perdida.
— São mais como N’Sync – Amelie continuou me olhando perdida – Quer saber, esquece, isso não é importante agora.
— Rose? – Ouvi uma voz atrás de mim e me virei abrindo um sorriso bobo ao vê-lo parado diante de nós – Eu tenho que ir agora, preciso levar Marion pra casa – A garota ao lado dele não tirava os olhos do celular, mascando chiclete com a boca aberta – Os pais dela ficarão chateados se eu não levá-la na hora certa, mas você tem o meu telefone e eu tenho o seu...
— Nos vemos na sexta?
— Com certeza, eu te mando uma mensagem com o endereço – Respondeu sem conseguir esconder a empolgação na voz.
— Vou esperar por isso – Brinquei − Até sexta!
— Até sexta! Tchau Amelie – Depositou dois beijos em minhas bochechas e acenou seguindo seu caminho.
— Então esse é o seu novo namorado? – Indagou Amelie enquanto caminhávamos para o carro.
— Não somos namorados! – Joguei minha bolsa no banco de trás enquanto a garota se acomodava.
— Mas serão!
— Como tem tanta certeza? Acha que ele combina comigo? — Olhei esperançosa para minha sobrinha que apenas revirou os olhos.
— Eu quis dizer que irão namorar, não que ele combina com você. É sempre assim tia, quase todo mês você chega com um cara novo e depois inventa uma desculpa pra terminar com ele – Concluiu sem pestanejar.
— Eu não faço isso!
— Faz sim, lembra do Jacques?
— Isso faz tempo!
— Ele era muito legal!
— A alegria exagerada dele era irritante.
— E o Estevam? Adorava a comida dele.
— Muitos frutos do mar, odeio peixe!
— E o cara de hoje, qual o nome dele?
— Não faço a mínima ideia – Olhei para Amelie que teclava incessantemente no telefone e parou ao ouvir minhas palavras.
— Como não sabe o nome dele?
— É a minha religião, o Euísmo, só deverei saber o nome dele no momento certo. E não adianta procurar no Google, não vai encontrar nada.
— Você é doida tia Rose – Prendeu os longos cachos escuros num rabo de cavalo.
— Eu não sou doida – Reclamei − E quem você pensa que é pra namorar alguém em segredo mocinha? – Num reflexo ela jogou o celular dentro da mochila.
— Não estou namorando ninguém.
— Mathias agora se chama ninguém?
— O que tem de tão ruim eu gostar de um garoto e ele gostar de mim? Tia, você sabe muito bem disso.
— O ruim é ter treze anos, eu tenho mais que o dobro da sua idade, as garotas da sua idade não deveriam se preocupar com essas coisas, elas deveriam brincar de boneca e assistir Dora Aventureira!
— Você é definitivamente maluca tia Rose – Respondeu revirando os olhos outra vez enquanto colocava um chiclete na boca. Apenas mostrei a língua a ela como de costume.
Não demorou muito para chegarmos à casa de Gabrielle, deixei Amelie no portão e beijei suas bochechas.
Eu já havia passado mais tempo fora do que o previsto e com a ausência de minha mãe eu ficaria responsável por tudo. Todos os problemas, todas as reuniões da semana, todas as chatices que mamãe adorava lidar diariamente.
Eu tinha que reformular a revista em apenas uma semana e a única coisa que se passava em minha cabeça era o meu encontro na sexta. Passei apressada pelas grandes portas de vidro e aço da Belle, passando por todos com cara de poucos amigos o que não deixava de ser algo literal. Estava preocupada depois de notar no meio caminho as dez ligações perdidas de Louane, eu precisava encontrá-la o mais rápido possível.
Por fim avistei a garota de cabelos castanhos ondulados e uma franja que quase cobria os olhos, com um tablet em uma das mãos e a outra segurando uma caneta a qual ela mordia numa provável tentativa de seduzir René o estagiário novato de criação. Me dirigi em passos largos até ela que dava risadas forçadas e sorria com a caneta na boca o rapaz dizia qualquer coisa a ela.
— Louane! – Ela deu um salto engasgando-se com a caneta que rolou no chão e o estagiário voltou a digitar algo em seu computador.
— Senhora, quero dizer senhorita, digo Rose – Dirigiu-se a mim afobada – Voltou tão cedo – Recolheu a caneta do chão sem graça.
— Passei mais de uma hora fora – Louane fechou o rosto − Porque você me ligou trocentas vezes? – Mostrei o celular a Louane que ajeitou os óculos para enxergar melhor – Espero que seja importante – Avisei séria contendo minha apreensão.
— Ah sim, sua mãe ligou – Eu sabia que não seria bom – Ela disse que irá passar uma semana a mais em Mônaco – Ótimo, minha mãe era realmente incrível – A senhora Beaumont pediu pra que você organize do zero o baile anual da Belle que é daqui duas semanas – Eu juro que tentei me acalmar, mas era realmente difícil.
— É só isso? – Diga que sim, diga que sim.
— Não, um dos nossos modelos teve um problema e não poderá fazer o ensaio que estava programado para as seis, precisa encontrar outro pra colocar no lugar, sua mãe costumava fazer isso, tem uma lista de modelos na sala dela, vejamos, você ainda tem uma reunião de pauta daqui dez minutos, é sobre a reformulação da revista. E por hoje é só isso, mas pra amanhã temos mais algumas coisas.
— Ótimo, obrigado Louane – Ela sorriu timidamente – E só por precaução, nenhum ex-namorado meu apareceu por aqui né?
— Não, fique tranquila.
— Certo, temos uma reunião agora − Entramos no elevador – Então está saindo com o garoto novo?
— Não, não só estávamos conversando – Disse constrangida.
— Por que não o chama pra sair? Ele parece legal, René o nome dele não é?
— Sim, hum, eu não sei se deveria chamá-lo – Confessou embaraçada olhando para o chão.
— Deveria, você merece encontrar alguém, se divertir, a vida não é apenas trabalho – Sorri a incentivando.
— Obrigada Rose, talvez eu o chame para um café mais tarde.
— É isso aí garota – Sorri para ela – Aliás Louane você sabe quem são os Backstreet Boys?
— Sei sim senhorita – Respondeu franzindo o cenho.
— Ótimo! Você acaba de ganhar pontos comigo– Louane me observou com uma expressão de confusão.
A porta do elevador se abriu e saímos em direção a sala de reuniões, passei em minha sala deixando minha bolsa sobre a mesa e pegando algumas revistas Belle antigas, entregando uma pilha delas para Louane carregar logo atrás de mim. Me ajeitei rapidamente enquanto caminhava, passando os dedos pelos longos cabelos e verificando se minha camisa branca ainda estava por dentro da calça. Adentrei a grande sala com uma janela que ocupava toda a parede presenteando-nos com uma bela vista do centro de Paris. Sentados à longa mesa com tampo de vidro se encontravam meus editores e o diretor de arte concentrados em seus telefones. Me coloquei a ponta da mesa e apenas acenei com a cabeça sem dizer nenhuma palavra como cumprimento. Louane se sentou no lugar mais próximo a mim e deu início à suas anotações.
— Boa tarde a todos – Seus olhares se voltaram em minha direção – Primeiramente nossa Presidente Simonette não poderá se fazer presente nesta reunião pois ficará fora por alguns dias, segundo, ela me designou para que coordenasse a reformulação da Belle e organizasse o Baile anual.
— Quanto tempo ela ficará fora? – Michele indagou com cara de asco.
— Duas semanas – Tentei não me estressar com seu olhar de desprezo.
— Mas o baile anual da Belle será daqui a duas semanas...
— Como eu disse anteriormente sou responsável pela organização e vocês nem notarão a diferença para o baile que Simonette organiza todos os anos eu prometo – Disse sem confiar em minhas próprias palavras − Mas essa não é a questão agora, a questão é que a nossa revista precisa de uma cara nova, para as mulheres atuais e modernas, nada de dicas ultrapassadas e antiquadas entenderam? Queremos novidade, algo único que apenas a Belle poderá oferecer a suas leitoras...
A reunião seguiu monótona, eu não saberia dizer se meus editores eram zumbis sem cérebro, ou se simplesmente a ausência de minha mãe os tornava num bando de preguiçosos. Quando acabamos eu ainda deveria encontrar um novo modelo para um ensaio fotográfico em menos de duas horas e dar início ao planejamento do tão aguardado 16° Baile Anual da Revista Belle.
O baile era uma tradição que surgiu no segundo ano de fundação da revista, mamãe achou que seria legal convidar um monte de estilistas e pessoas influentes para colocá-los num salão de festas regados a champanhe caro e canapés de caviar. Funcionou, no começo os estilistas ficaram um tanto hesitantes, mas acabaram se rendendo aos caprichos de Simonette Beaumont. Todos os anos os bailes contavam com presenças ilustres e esse ano não poderia ser diferente, mamãe sempre fazia questão de deixar uma lista de convidados pronta onde ela apenas retirava ou acrescentava nomes conforme o necessário.
***
Voltei para casa apenas às oito, quando a interminável sessão fotográfica finalmente terminou.
Tomei um demorado banho e lavei meus cabelos cuja raiz estava oleosa o bastante para fritar um ovo. Vesti meu pijama que consistia em uma calcinha de bolinhas cor de rosa e uma regata comprida branca, pelo menos em casa eu podia me desvencilhar da imagem fashionista e usar uma calcinha de dez Euros incrivelmente confortável. Coloquei comida para Audrey que dormia estirada sobre o sofá e ouvi meu celular sobre o balcão tocar.
— Parece que alguém tem um encontro na sexta! – Essa foi a primeira coisa que Gabrielle disparou quando atendi.
— Oi pra você também – Abri a geladeira procurando por algo para comer.
— Então você tem um encontro? – A voz de minha irmã soava com uma empolgação irritante.
— Amelie te contou? − Inquiri desanimada pegando as sobras de comida chinesa e as colocando no micro-ondas.
— Foi a primeira coisa que ela me disse quando chegou em casa.
— Ah ótimo, ela também te disse que não conhece os Backstreet Boys?
— Ela só tem treze anos, eles nem existiam mais quando ela nasceu e por que isso importa?
— Porque estou ficando velha e rabugenta – Peguei um prato e coloquei a comida, seguindo para a sala e me acomodando no grande sofá rosa claro ao lado de Audrey que sequer havia notado minha presença.
— Não comece com seus draminhas agora Rose, vamos lá me diga a ficha completa dele, nome, sobrenome, idade, o que faz da vida?
— Eu não sei – Respondi com a boca cheia de yakisoba.
— Você não fez isso? — Sua indagação soava mais como uma afirmação – E o que ele achou dessa história?
— Não achou nada, eu disse que fazia parte da minha religião – Liguei a televisão e zapeava pelos canais.
— E que droga de religião seria essa? O Egoísmo?
— Quase, Euísmo, eu mesma inventei.
— Pobre coitado, não consigo imaginar a reação dele quando descobrir a verdade.
— Vire essa boca pra lá. Ele é um cara legal, meio tímido, mas fofo.
— Ele ao menos sabe o seu nome?
— Mas é claro, sou a única seguidora do Euísmo – Acariciei Audrey que acordou e começou a se lamber incessantemente – Eu preciso desligar agora, estou morta, sem a mamãe na empresa eu tenho que resolver tudo sozinha e isso não é legal.
— Boa sorte!
— Vou precisar, até mais.
— Tchau.
Desliguei o celular e voltei minha atenção para o que quer que estivesse passando na TV, terminando de comer meu jantar requentado. Mal prestei atenção no que passava, afinal a única coisa que se permeava minha mente além da vontade imensa de me jogar em minha cama e dormir como se não houvesse despertador, era que essa semana prometia ser incrível e eu tornaria isso realidade.
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