Rose e o Cara
32 Capítulo 32
Notas iniciais
— Não esperava que estivesse aqui – Ele diz vacilante.
— Eu digo o mesmo – Tento soar confiante apesar de sentir as pernas bambas.
— Faz um bom tempo não é? – Ele sorri e meu coração volta a disparar.
— Dois anos – Eu vou enfartar, eu juro.
— Isso é estranho – Suspira nervoso.
— É uma situação estranha.
— Esse... Esse corte de cabelo ficou ótimo em você. De verdade.
— Obrigada! Belo carro.
— Ah, valeu, eu comprei há alguns meses. Não é uma grande máquina, mas é meu.
— Meus parabéns, você conseguiu.
— É, consegui.
— Eu já estava de saída, então vou indo. Foi bom ver você depois de todo esse tempo.
— Foi bom te ver Rose.
Caminho de volta para o carro. Preciso me sentar antes que minhas pernas bambas desabem ao chão. Quando abro a porta sinto uma mão tocar meu braço.
— Espere! – Disse nervoso e o fitei atônita – Nós poderíamos marcar algo, conversar, tomar um café, se quiser é claro.
— Seria legal – É tudo o que consigo dizer.
— Que tal amanhã um café da manhã naquela cafeteria que sempre ficamos de ir, mas nunca fomos?
— Tudo bem.
— Marcado, nos vemos as nove – Sorriu e voltou a casa de Gabrielle.
Pare de sorrir feito boba e pensar que isto é um encontro Rose, pare de pensar que é um encontro. Vamos lá, vocês são ex-namorados que não se vêem a muito tempo e ele apenas quer conversar com você. Não é um encontro. Você nem o ama mais.
Ou amo?
Bisbilhotar as redes sociais dele não significa nada. É apenas força do hábito. Um pouco de ciúmes de ele estar saindo com outra pessoa? Talvez. Mas não é amor. Só porque meu coração disparou quando ele sorriu não quer dizer que eu ainda sou apaixonada por ele, foi puro nervosismo.
O que ele iria querer comigo? Eu menti e que eu saiba ele me odiava até ontem. Calma Rose, calma.
Nós poderíamos ser amigos.
Mesmo que eu quisesse beijá-lo todas as vezes que ele me olhasse. Amizade seria o suficiente.
Eu sei, eu apenas deveria parar de pensar, mas é impossível. Eu provavelmente sequer vou conseguir dormir esta noite fantasiando que nosso café poderia ser um encontro sem ser exatamente um encontro entende?
Pois é nem eu me entendo.
Porém o mais importante em tudo isso é o simples fato de saber que ele não me odeia. Não mais.
A noite em que terminamos fora uma completa bagunça e depois nunca tivemos a mínima chance de conversar e dizer tudo o que deveria ser dito. E talvez amanhã seja o momento de colocar as cartas na mesa. De me explicar e implorar por seu perdão e quem sabe nos tornarmos amigos.
Audrey nem mesmo se importou quando a busquei na casa da vizinha. Nem parecia que eu havia passado dois meses fora. Levou algum tempo até que ela demonstrasse algum afeto e se esfregasse em minhas pernas. Agora ela está deitada sobre minha barriga forrada de sorvete e pipoca enquanto assisto o concurso Eurovision. Aquela garota francesa é ótima, a ucraniana é incrível também e não posso me esquecer de como aquele cara da Bélgica é um gato, eu dormiria com ele numa boa.
Acordo babando no sofá e com uma gata ainda dormindo em minha barriga. Expulso Audrey de cima de mim e cambaleio até o banheiro. Bufo sonolenta e noto a baba seca em minha bochecha, meu cabelo incrivelmente curto precisa apenas de uma passada de dedos, quanto a meu rosto amassado com as marcas do tecido do sofá é outra história. Sinto um gosto ruim em minha boca e procuro por minha escova de dente perdida dentro de uma das malas.
O relógio marca que faltam dez minutos para as nove e ainda não sei o que vestir. Não que seja uma tarefa difícil. E há algum tempo eu descobri que usar jeans diariamente não é nada ruim. Paro diante de minhas roupas e pego a primeira calça jeans que avisto. Uma regata de seda branca e calço um par de sapatilhas brancas e douradas. Eu poderia passar maquiagem, mas não há tempo para isso. Vou de cara limpa e seja o que Deus quiser.
Eu me lembrava perfeitamente daquela cafeteria. Quando eu e Bartolomeu namorávamos passamos algumas vezes em sua frente, porém nunca entramos, ficamos deixando para um momento especial que nunca aconteceu.
Espere, era a nossa cafeteria especial para um momento especial e ele havia me convidado para tomar um café lá.
E se ele também quisesse algo a mais?
A não ser que ele não se lembrasse da parte do especial e fosse apenas um café mesmo.
Como eu saberia?
De qualquer forma estou aqui, quinze minutos atrasada torcendo para que ele não tenha desistido de mim e ido embora. Tive que estacionar a quase um quilometro de distância e agradeço aos céus por ter escolhido as sapatilhas e por poder correr na calçada, mesmo que minha preparação física seja uma grande droga. Suspiro aliviada quando olho pelo vidro e o vejo lá dentro suspirando entediado enquanto mexe no celular.
— Cheguei – Digo arfando e quase derrubo a cadeira na qual me sentarei. Sinto meus pulmões pegarem fogo.
— Comecei a pensar que tinha desistido – Virou a tela do celular para baixo.
— Não, eu to aqui – Tento dizer, mas estou cansada – Eu preciso de água.
— Pode pegar a minha – Antes que ele termine pego seu copo e bebo como se fosse a ultima gota d’água no deserto.
— Eu tive que estacionar longe daqui – Dou uma risada sem graça e olho meu estado na tela apagada do celular. Não é dos melhores.
— Está vermelha.
— Desculpe pela aparência, eu acordei em cima da hora e não tive tempo pra maquiagem.
— É mais bonita assim, digo também é bonita ao natural – Se corrige – E sim isso foi um elogio que não deu certo.
— Estou vermelha e você está nervoso.
— Lembra-se do nosso primeiro encontro? Acredite isso é bem pior, eu nunca soei tanto em minha vida.
— Deveria ser mais fácil.
— Infelizmente não é. Não depois de tudo o que aconteceu.
— É. Aconteceram muitas coisas – Fito a mesa quando as memórias ruins voltam a minha mente.
— Sinto muito por sua mãe. E sinto muito por não estar ao seu lado naquele momento.
— Gabrielle estava comigo – Continuo fitando a mesa de madeira – Passamos por isso juntas.
— E como as coisas estão agora?
— Bem, mais agitadas em alguns pontos, mais calmas em outros. Não sei se sabe, a Belle está sob o meu comando então pode imaginar a quantidade de trabalho e responsabilidades sobre mim.
— E como tem se saído? – Bebericou seu café.
— Relativamente bem, espero ser metade do que mamãe foi para a empresa. Espero não arruinar tudo dessa vez.
— Você quer café? Posso pegar pra você.
— Sim obrigado, com muito açúcar, por favor.
— Aqui está, com muito açúcar como pediu – Ele coloca o copo sobre a mesa e volta para o seu lugar. Bebi o café quente e doce apreciando o seu aroma.
— Posso te fazer uma pergunta?
— É claro.
— Por que isto? Por que está sendo gentil? Há dois anos me disse o quanto me odiava e como não queria me ver nunca mais em sua vida e aqui estamos bebendo café juntos como se nada tivesse acontecido, mas aconteceu e eu nem mesmo sei se me perdoou.
— Eu nunca te odiei Rose, eu só disse aquilo pra te magoar – Ele foi bem direto, direto no meu coração como uma flecha certeira e aniquiladora – Eu estava com raiva, você mentiu pra mim o tempo todo e eu queria que se sentisse tão mal quanto eu me sentia. Então apenas disse, mas eu não a odeio. Nem se eu quisesse eu conseguiria te odiar.
— Por que não? Eu fui uma babaca com você.
— Por que eu te amo... digo – Fechou os olhos – Te amava e não dá pra simplesmente começar a odiar alguém assim do nada, mesmo que este alguém tenha sido um babaca – Dá outro gole em seu café e desvia o olhar para a vitrine.
— Eu nunca quis ser uma idiota com você, nunca quis te magoar, eu preciso que saiba porque eu fiz aquilo.
— Não precisa dizer...
— Não, eu preciso. Eu nunca terei paz enquanto não disser a verdade – Seu olhar se volta para mim e seus olhos apreensivos fitam os meus – Depois do que Pierre e mamãe me fizeram eu passei a acreditar inconscientemente que todos os homens seriam como ele. Que todos diriam que me amavam e depois me trocariam por outra pessoa, assim como ele fez. E eu sempre inventava um desculpa pra terminar com eles todas as vezes que declaravam seu amor por mim.
— Assim como fez comigo.
— Isso. E eu não queria – Aperto os olhos, é difícil encará-lo – Por que eu te amava demais, mas era mais forte que eu, era algo em minha cabeça dizendo que não estava certo, que você faria o mesmo que Pierre.
— Eu não sou ele.
— Eu sei, mas aqui – Aponto para minha cabeça – Você seria e eu passaria por tudo outra vez. Era algum tipo de trauma, foi o que minha psicóloga por um dia disse.
— E como está agora?
— Indo. Eu não saí com mais ninguém desde então, esse com certeza é o meu maior período de abstinência de relacionamentos. E eu só preciso que me perdoe, porque não consigo mais conviver com essa culpa me consumindo.
— Eu já te perdoei, tive dois longos anos para isso, mas se quiser ouvir, está aí, eu te perdôo – Ele segura em minha mão sobre a mesa – E se quer saber, eu também não saí com mais ninguém desde aquele dia.
— Por que não?
— Um, eu estava mal por nosso término, dois, eu ainda te amava e não conseguia te tirar da cabeça, três, eu percebi que não queria tirar você da minha cabeça. Você não é uma pessoa fácil de esquecer Rose.
— Com certeza não – Rio lembrando de todos os meus ex que me imploravam para voltar com eles.
— Eu senti sua falta, viver sem você era como viver sem música, sem a parte divertida. Você sempre me fazia rir, estar com você era sempre imprevisível.
— Como eu atear fogo no cabelo da sua avó.
— É disso que estou falando, não que eu queira que isso volte a acontecer. Todas as noites eu agradecia mentalmente a nossas irmãs por terem nos forçado a ajudar nossas sobrinhas aquela noite, afinal foi por isso que nos conhecemos.
— Eu odiei quando Gabrielle me pediu pra ajudá-la com o aniversário de Amelie. Eu só não fazia ideia de que te encontraria lá. De alguma forma elas foram nossos cupidos.
— Foram – Desviou o olhar – Eu comprei um apartamento – Diz rápido mudando de assunto.
— É eu sei.
— Sabe?
— Talvez eu tenha olhado seu SocialBook durante minhas férias – Ele ri e segura minha mão com mais força.
— Gostaria de conhecer?
— Eu adoraria.
Bartolomeu se mudou para um pequeno e confortável apartamento no centro. Suas coisas parecem diferentes, o que confirma o fato de ele não ser o mesmo. Não somos mais os mesmos. Seu cabelo não fica despenteado e suas roupas parecem mais novas. A barba por fazer é algo que voltou a usar. Talvez ele tenha percebido o quanto fica sexy desse jeito.
— Esse é o meu cantinho, meu novo cantinho – Diz acanhado como em nosso primeiro encontro.
— É legal, gostei – Deslizo meus dedos sobre a mobília aparentemente recém adquirida e caminho por sua sala analisando seus detalhes.
— Rose?
— Ahn?
— Ainda – Ele vacila – Sente algo por mim? – Caminha em minha direção.
— Você, sente algo por mim? – Indago temendo sua resposta.
— Sim. Eu pensei que meus sentimentos por você haviam desaparecido, pensei estar curado deste amor que me consumia, mas quando te vi ontem todos aqueles sentimentos vieram à tona. Eu mal podia respirar Rose.
— Sinto – Ele encosta sua testa na minha e sinto minha respiração irregular – Eu sinto que minha vida sem você é uma droga – Murmuro.
— Todas as noites seu rosto era a ultima coisa que eu via antes de fechar os olhos e a primeira coisa que eu via todas as manhãs – Diz sem fôlego e sua mão toca minha bochecha – Se lembra de quando sua mãe sussurrou algo em meu ouvido?– Aceno assentindo, não consigo dizer nada – Ela me disse pra cuidar de você ou arrancaria o meu, você sabe o que fora. E eu quero cuidar de você, eu quero acordar ao seu lado todos os dias da minha vida. Eu te amo Rose.
Meu corpo estremece e tudo o que posso fazer é esmagar seus lábios nos meus com urgência, num desespero contido há anos.
— Eu te amo Bartolomeu Blanche – Suas mãos percorrem meu corpo, desesperadas, urgentes, seus olhos me fitam com desejo e sei que sou completamente sua para todo o sempre.
— Sem mentiras a partir de agora senhorita MacIntyre.
— Sem mentiras senhor Blanche – Gargalhamos juntos.
Eu não sei se este dia será nosso último dia juntos. Não sei se é apenas o calor do momento e depois nunca mais nos veremos. Não sei se nos arrependeremos mais tarde. Não sei se seremos felizes para sempre. Nosso destino é incerto e tudo o que importa é o agora. Sem nenhum passado para nos perturbar, sem nenhum futuro para nos atormentar, apenas o hoje. E hoje nós pertencíamos um ao outro.
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