Rose e o Cara

21 Capítulo 21


Notas iniciais
Espero que gostem do capitulo grandão. Conheceremos melhor a história de Rose e Michel, para entendermos melhor o passado dela. E outras coisinhas também. Boa leitura.

Saí pelos corredores do Salle Pleyel em pedaços. Eu deveria ser forte. Estava apenas ajudando meu namorado a realizar seu sonho de voltar a trabalhar com o que mais amava. E eu realmente tentava acreditar que minha conversa com Michel não tinha sido nada demais. As farpas trocadas eram apenas peças que o destino havia pregado em mim depois de tudo que o fiz. Mas eu não era forte o bastante. Por um lado vê-lo novamente me estilhaçava, fitar seus olhos cansados e acusadores era demais para mim. Era demais para eu ver o quanto o machuquei a troco de nada. O quanto o machuquei para ficar com o homem que mais desprezo no mundo.

Michel me amou. Amou-me quando não havia mais ninguém. Amou-me quando eu estava só. Lembro-me de nosso primeiro beijo, eu tinha apenas 18 anos, estava ingressando na faculdade de finanças. Naquela época eu era uma jovem garota sozinha, ignorada pela mãe. E ele estava lá por mim.

Talvez eu nunca tenha o amado. É a teoria em que acredito. Que nunca o amei verdadeiramente. Que minha carência precisava dele. Me apaixonei por seu melhor amigo, quando namorávamos a mais de dois anos. Um calouro de direito de olhos penetrantes azuis e cabelos negros. Sorriso torto, quieto.

Não posso negar que fui feliz com Michel, que ele me fazia rir quando me flagrava aos prantos em meu dormitório. Que segurava minha mão e me dizia que tudo ficaria bem. Mas também não posso negar o quão egoísta eu fui por dar lado aos sorrisos tortos e olhares fixos de Pierre sobre mim. De apreciar quando ele tocava minha mão intencionalmente e fingia que nada estava acontecendo. Ou de não afastá-lo quando seus lábios tocaram os meus pela primeira vez.

Não posso negar o quanto fui uma vadia egoísta no momento em que disse a Michel que amava seu melhor amigo e que aquele era nosso destino. Que eu e Pierre havíamos sido feitos um para o outro e que ficaríamos juntos para sempre.

Acredito que o destino apenas se encarregou de me fazer pagar pela dor que o causei.

E essas lembranças me destroem e me consomem como o fogo consome uma simples folha de papel.

Tudo o que se passava em minha mente enquanto saía daquele prédio era o quanto eu queria e precisava chorar. Minhas mãos tremiam enquanto meus pés tentavam pisar firmes no caminho até o carro onde o motorista da Belle me aguardava.

Liguei para ele enquanto era conduzida de volta para a Belle. Havia um nó embolado em minha garganta e em meus olhos lágrimas que eu insistia em segurar.

— Oi... – Senti uma lágrima percorrer por minha bochecha.

— Rose, oi, eu to meio ocupado agora – Soltou um riso sem graça.

— Eu prometo ser rápida. Você tem uma audição na quinta à tarde. Orquestra de Paris, por não se atrase.

— Não ta falando sério né? Nem é época de audições.

— Eu disse que conheço pessoas – Forcei uma risada divertida – Por favor, seja incrível, essa é sua chance – Sequei as lágrimas com a mão – Me prometa que vai passar.

— Eu prometo Rose. Não faz ideia de como isso é importante pra mim. Obrigado. Eu não sei como te agradecer...

— Não precisa. Aceite como seu presente de dois meses de namoro.

— Isso é melhor que um presente de casamento.

— Bom, era isso, nos falamos outra hora...

— Espere, antes de desligar tem uma coisa, eu devia ter te dito esta manhã, mas acabei me esquecendo.

— É bom? – Pisquei os olhos, seguidas vezes com a cabeça erguida tentando me recompor.

— Depende do ponto de vista. Meus pais querem conhecer minha namorada e bom você é minha namorada. Eles propuseram um jantar em família sexta à noite. Tudo bem pra você?

Merda.

— Isso é ótimo. Vai ser incrível.

— Não ta sendo irônica né? – Sua voz soou preocupada.

— Não, claro que não, estou ansiosa pra conhecer seus pais. Só diga a eles sobre minha religião tudo bem? – Funguei.

— Eu fido. Mas tem certeza que ta bem, sua voz, parece que está chorando...

— To, é só uma alergia que me faz lacrimejar, mas eu to bem.

— Certo. Tenho que voltar pro trabalho antes que o café do chefe esfrie. Até mais.

— Até mais.

Eu não sabia se estava pronta para conhecer sua família. Eu tinha apenas a certeza do medo. Temia que não gostassem de mim, ou que pensassem que eu era uma maluca com toda minha história de Euísmo.

Talvez eu realmente fosse.

— Pode me levar até Gabrielle, por favor?

— Sim senhorita – Viramos a rua e seguimos rumo a casa de minha irmã.

***

— Você pode voltar pra Belle – Disse ao motorista – Eu pego um Uber na volta!

— Tem certeza senhorita?

— Sim, eu posso demorar aqui, podem precisar de você.

— Sim senhorita – Ele fez um maneio de cabeça e se retirou.

Toquei a campainha da casa de minha irmã até a porta da frente branca e imponente ser aberta por uma Gabrielle irritada.

— O que ta fazendo aqui? Não devia estar trabalhando pra nossa mãe?

Não a respondi. Apenas a abracei de uma vez, envolvendo a em meus braços. Desabando.

Senti suas mãos em minhas costas ainda vacilantes. Então me permiti chorar.

— O que houve Rose? – Me puxou para dentro de sua casa fechando a porta em seguida.

— Eu to bem...

Gabrielle sentou-se no sofá da sala e colocou minha cabeça em seu colo, afagando meus cabelos.

— Não ta tudo bem Rose, o que aconteceu? Terminou seu namoro com o magrelinho? Eu sabia que isso não ia funcionar, ele tinha uma cara de...

— Não terminamos irmã – Solucei.

— Então o que foi? Foi a mãe? – Indagou com preocupação.

— Michel.

— Michel, o Michel seu ex?

Fiz que sim e ela apertou os lábios.

— Você o viu, falou com ele, o que ele te fez? – Sua mão alisou meu rosto e voltou a afagar meus cabelos.

— Fui até ele – Murmurei.

—Rose...

— Eu precisei – Levantei a cabeça e fitei seus olhos – Eu precisava ajudar meu namorado, você sabe que ele é musico e agora ta num trabalho que ele odeia, eu só pedi um favor pro Michel.

— Sabe que ele não tem bons sentimentos em relação a você.

— Ele me abomina – Apertei os olhos soluçando – Mas eu precisei. Foi humilhante e era justamente o que ele queria. Eu sou uma idiota.

— Não se culpe.

— Eu o magoei pelo Pierre. Nosso querido padrasto Pierre. Michel me amava Gabrielle, a culpa é minha.

— Pierre também não é santo Rose, ele tem tanta culpa quanto você, mas olha quem fica se condenando.

— Ver Michel novamente foi como reviver tudo outra vez, reviver o dia em que o deixei, o dia em que descobri sobre a mãe e Pierre. E doeu. Ainda dói Gabrielle.

— Shhh – Me abraçou – Você ter sido mesmo uma vadia com Michel, mas você já pagou por isso e foi bem pior, e o universo pode mesmo ter sido um grande filho de uma puta com você por que o que a mãe e Pierre fizeram aquilo sim foi horrível, você não dormiu com Pierre enquanto estava com Michel, você o beijou uma única vez e se culpou por ainda estar comprometida. O grande filho da puta aqui você sabe quem é...– Ela tomou fôlego respirando fundo – Você ao menos conseguiu o queria falando com seu ex?

— Sim, ele permitiu que meu namorado faça uma audição na quinta. Ele não sabe que é meu namorado, eu disse que um amigo precisava de uma força.

— Ele não te pediu nada em troca?

— Ele disse que me ver precisando dele depois de tudo já bastava.

— Você vai ficar bem – Ela se colocou de pé – Vou te fazer um chá, mas sabe, eu sempre tenho uma garrafa de vinho aberta...

— Aceito um chá – Respondi enquanto me levantava e tentava me recompor enxugando as lágrimas e me abanando.

— Tudo bem então – Bufou revirando os olhos e a segui até a cozinha.

— Amanhã é nosso aniversário de dois meses juntos – Me sentei à bancada da cozinha – Por isso eu quis presenteá-lo com um teste pra Orquestra de Paris – Sorri um sorriso triste.

— Gosta tanto dele a ponto de encarar Michel ao vivo e a cores? – Colocou uma chaleira branca estampada com flores no fogo.

— Me importo com ele. Eu só quero vê-lo feliz. É triste ver tanto potencial sendo jogado fora pra servir café e fazer xérox – Suspirei – Ele cantou para mim esta manhã, ele nunca havia tocado pra mim – Ri da lembrança recente mordendo o lábio em seguida – Foi tão lindo. Não sei se o mereço.

— Como não sabe se o merece, é claro que você merece. Você é Rose McIntyre, Diretora Executiva da maior revista da França e uma das maiores revistas de moda do mundo, a mulher que teve o casamento adiado uma semana antes porque descobriu que a mãe transava com seu noivo e mesmo assim continuou de cabeça erguida. É claro que você merece. Você merece ser feliz, mesmo com essa coisa doida de não saber o nome do seu namorado.

— Obrigada Gabrielle! – Agradeci ansiosa batendo as unhas contra a bancada.

— Eu sei que sou a melhor irmã do mundo – Sorriu prepotente enquanto pegava os saquinhos de chá em uma latinha decorada.

— Hum... tem mais uma coisa que ta me preocupando.

— Sua menstruação ta atrasada? Olha eu já vou dizendo que não vou cuidar de filho de ninguém! – Disparou.

— Eu não to grávida – A repreendi – Os pais dele querem me conhecer no fim de semana.

— Ah isso. Que merda.

— Nem me fale.

— Como sente em relação a isso?

— A ultima vez que conheci os pais de um namorado foi há mais de um ano e não foi muito bom. Lembra a merda que deu quando pensei que a mãe do Antoine era a avó dele não lembra?

— Aquela mulher te odiava – Assinalou pensativa — E você vai conhecer os pais do sem nome?

— Não é algo que eu possa evitar por muito tempo – Ouvi a chaleira apitar – É melhor fazer logo do que ficar evitando. E que o deus euísta me ajude.

— Esse deus nem existe – Murmurou enquanto colocava água quente em duas xícaras brancas – E como vai fazer com essa coisa de “Euísmo”? – Fez aspas no ar – Vai enrolar a família dele também?

— É por uma boa causa – Fiz beicinho.

— Boa causa pra você. Rose o cara ta sendo enrolado desde o dia em que se conheceram...

— Na verdade desde dia seguinte...

— Não importa – Me cortou irritada – Todo o seu relacionamento com ele está embasado em uma mentira estúpida.

— Gabrielle apenas pense comigo, nosso relacionamento está durando não está?

— É quase um recorde.

— Viu, funciona, minha teoria sobre o nome funciona. São apenas fatos.

— E se namorarem por um ano, dois anos, vai continuar assim?

— Eu não sei, não pensei nisto ainda.

— Pois deveria – Olhou em meus olhos com uma expressão quase maternal – Se você se importa realmente com este rapaz, não continue com esta mentira. Em algum momento ele descobrirá e não será bom. Diz pra ele qualquer coisa, que mudou de religião, que seu xamã ou líder te permitiu saber o nome dele, que a sua religião foi extinta, sei lá, mas dê um jeito nisto, antes que seja tarde.

***

Dirigi com ele ao meu lado até a casa de meus então sogros. Eu sabia que devia estar suando feito uma porca devido ao meu nervosismo. Porque conhecer a família do namorado era sempre tão difícil?

— Vai dar tudo certo Rose – Só fica calma – Ele se segurava no banco do carro temendo por sua vida, enquanto minhas mãos tremulas seguravam o volante – Tem certeza que não quer que eu dirija?

— Eu to bem – Respondi ríspida – Só um pouco nervosa. E se seus pais não gostarem de mim? Ou se eu fizer algo de errado?

— Eles irão te adorar, por que não? Só dirige com calma pelo amor de Deus – Alertou ofegante durante uma curva brusca – Não vai precisar agradá-los se não chegarmos vivos.

— Você ta certo, eu sou incrível, eles com certeza vão gostar de mim.

— E humilde também.

— Eu sou né? – Soltei um suspiro aliviada, sentindo-me mais confiante e segui nosso caminho com mais calma.

— Acho que chegamos – Parei o carro bruscamente sendo fuzilada pelo olhar mortificante dele – Na volta eu dirijo! – Assinalou ofegante.

— Não foi tão ruim.

— Foi péssimo.

A casa dos pais dele era simples com belas floreiras nas janelas e vasos de plantas aos lados da porta. Ficava em uma rua tranqüila de Paris de chão de paralelepípedos.

Ele bateu à porta algumas vezes e aguardamos do lado de fora. O rapaz sorria e movia os pés parecendo tão ansioso quanto eu.

— Eu to bem? – Indaguei ajeitando a saia do meu vestido rosê rodado de renda e mangas longas, algo mais simples do que eu costumava vestir.

Procurei usar apenas um simplório par de Louboutins da mesma cor do vestido e pouca maquiagem. Meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo elegante. De certa forma eu parecia um tanto graciosa.

— Você ta linda!

— Sua opinião meio que não conta muito, você sempre diz isso. Até quando eu acabo de acordar com cara amassada e tudo.

— Não tenho culpa se está sempre linda – Com as mãos nos bolsos como de costume ele sorriu de lado. Admirei seu sorriso por alguns segundos. Um sorriso que era somente meu e que tinha o poder de me tirar do chão, mesmo que por alguns instantes.

Fui tirada de meus devaneios quando a porta da frente rangeu e duas pessoas apareceram na porta. Um homem alto de cabelos ondulados castanhos claros e olhos acinzentados abriu seus braços, acompanhado por um sorriso de orelha a orelha e abraçou meu namorado e beijou suas bochechas com um entusiasmo quase constrangedor.

A mulher ao seu lado sorria um sorriso familiar. O mesmo sorriso dele. O mesmo sorriso que ele sorria quando se animava com algo. Seus cabelos lisos e negros desciam até a altura dos ombros. Ela trajava um leve vestido colorido de alças finas. Meu namorado certamente havia herdado seu corpo esguio.

Ele era a versão masculina de sua mãe. Por alguns segundos admirei a semelhança de mãe e filho. Era como me lembrar de quando me diziam o quanto eu era parecida com minha avó paterna a qual nunca conheci.

Meu coração parecia querer sair pela boca, minhas mãos suadas tremiam e eu tinha plena certeza que partes do meu corpo que eu não fazia a mínima ideia que suavam, estavam suando.

— Então essa é a namorada que você tanto fala hein filhão? Agora entendo o por que.

— Pai! – o mais velho foi repreendido.

— O que foi? – Olhou confuso para o filho e em seguida se dirigiu a mim – Muito prazer em conhecê-la Rose, infelizmente não posso me apresentar. Meu filho nos contou sobre sua religião e está tudo bem. Me chame de senhor Blanche, afinal já conhece nosso sobrenome.

— Certo. É um prazer conhecê-lo senhor Blanche.

Sua mãe fez o mesmo, beijando minhas bochechas e pedindo para que eu a chamasse de senhora Blanche.

— Estou tão feliz por você meu filho e Rose você é uma mulher linda! – Comentou a senhora Blanche enquanto entrávamos na casa.

— Eu sei – comentei involuntariamente por força do hábito e recebi um par de olhos arregalados da mulher em minha direção.

— Rose! – O Blanche mais jovem censurou-me num murmúrio – Não pode simplesmente agradecer?

— Agradecer por constatações de fatos? – Sussurrei de volta.

— Apenas diga obrigado senhora Blanche! – Cochichou rabugento.

— Obrigada pelo elogio senhora Blanche – Agradeci contrariada.

Eles nos guiaram até o pequeno quintal dos fundos, passando por sua sala e cozinha. A casa não era grande, com uma sala grande o suficiente para que coubessem dois sofás e uma televisão sobre uma estante. A decoração era de uma típica casa de família francesa, alguns vasos de plantas no chão e outros na parede. A cozinha de tons avermelhados era rústica e aconchegante, com armários de madeira e prateleiras suspensas repletas de vasilhas e condimentos.

No quintal havia uma longa mesa de madeira forrada com uma toalha florida colorida.

A irmã dele a qual eu já conhecia há algum tempo – devido minhas idas e vindas ao casebre do meu namorado em seu quintal – Conversava sem ânimo com uma mulher mais velha de cabelos cor de neve. Marion a colega – com cara de fuinha – de Amelie não desgrudava os olhos do celular, mantendo a mesma cara de nojo costumeira.

Nos aproximamos das mulheres e a irmã Blanche veio até mim, cumprimentando-me. Ela ajeitou os cabelos curtos de um loiro artificial quase branco os colocando atrás da orelha e observou-me da cabeça aos pés.

— Esses seus sapatos são incríveis – A mulher salivava fitando meus sapatos como um leão aprecia sua presa antes do abate.

— Esses? – Analisei meus pés – São só Louboutins, dos mais simples.

— São Louboutins Rose. Eu não poderia ter um desses nem em sonhos!

— Você quer? – Ofereci sem pestanejar.

— Ta falando sério?

— Sim, já estou enjoada deles, pra falar a verdade tenho alguns sapatos que não uso mais se você quiser, nada demais!

— Você é uma santa! – Fitou-me com admiração, excitada pelos sapatos que ganharia e me senti estranha por ser observada daquela forma.

Apenas assenti com a cabeça e sentei-me ao lado da matriarca da família.

— Rose, esta é a vovó Blanche, mãe do meu pai! – Me apresentou a velha senhora de traços cansados.

Beijei suas bochechas e sorri para ela que retribuiu sorrindo.

— Seja bem vinda a família Blanche minha garota!

— Na verdade eu tenho quase trinta, senhora! – Sussurrei.

— Ainda é uma garota, acredite em mim, eu sei do que falo – Riu com a voz áspera.

A mãe dele sentou-se logo a minha frente colocando as mãos entrelaçadas sobre a mesa.

— Então Rose, quando nosso filho nos contou que não poderíamos revelar nossos nomes nós consideramos isto um tanto curioso. Poderia nos descrever um pouco mais sobre sua religião?

O que eu poderia dizer? Que inventei a coisa toda? Eu não fazia a mínima ideia do que responder. Não existia Euísmo nenhum. Nenhum líder, nem fundamentação, não havia nada.

— Bom... – Desviei o olhar – Bom... Hum... – Dei uma risada forçada – O Euísmo é uma religião – A senhora Blanche balançava a cabeça atenta ansiando por mais respostas – É uma religião nova – Eu não conseguia sequer olhar nos olhos da mulher e aquilo era aterrorizante – Muito nova mesmo essa religião sabe? Ela... ela prega essa coisa – Engoli em seco gaguejando – De não saber o nome das pessoas logo de cara porque, bem porque...

— O nome é a janela da alma – Meu namorado acomodou-se ao meu lado salvando minha vida sem nem mesmo saber – Não é isso?

— Isso, o nome é a janela da alma!

— Eu nunca havia pensado desta forma, mas é um pensamento interessantíssimo. Quem é o seu líder espiritual se é que tem algum?

— Então...

—Mãe, pare de chatear minha namorada com estas perguntas.

E mais uma vez o dia foi salvo graças ao meu namorado desnomeado.

— Me desculpe Rose, as vezes me empolgo demais com as coisas e não paro de perguntar até saber tudo sobre elas. Mas diga-me com o que você trabalha? Nosso filho se prendeu demais aos seus atributos que esqueceu de nos contar sobre sua carreira.

Olhei para ele por alguns instantes segurando o riso, me sentindo um tanto lisonjeada e irritada pelo fato dele não ter se lembrado de contá-los sobre o mais importante.

— Sou diretora executiva da revista Belle, conhecem? – Indaguei a todas as três mulheres que me observavam.

— Se eu conheço? Essa é simplesmente a melhor revista do mundo! – A irmã dele se empolgou arregalando os olhos – Eu sou apaixonada por essa revista, o que foi aquela revista da Beyoncé na ultima edição? Você a viu de perto?

— Pra ser franca não a conheço. Foi uma entrevista por telefone e nem fui eu quem a entrevistou, foi uma de nossas jornalistas redatoras.

— Hum – Ela fechou a cara desanimada.

— E seus pais, o que fazem Rose? – Questionou minha sogra.

— Minha mãe é Presidente e fundadora da Revista Belle e de todo o grupo Belle – A mulher me olhou boquiaberta – Meu pai vive na Escócia, ele trabalha em uma confeitaria.

—Ah, isso é formidável – Sorriu – Você é metade escocesa?

— Sim, eu nasci na escócia e meu pai é escocês, minha mãe é francesa, mas passei quase minha vida toda na França. Sou melhor em francês do que inglês e nunca aprendi nada de gaélico.

— Agora seu sobrenome faz todo o sentido – Comentou a vovó – Mas diga minha filha você tem muito dinheiro? – Perguntou indiscreta.

— Perdoe a minha avó, ela não costuma medir as palavras – Ele interrompeu a mais velha.

— Já passei dos oitenta, tenho direito de dizer o que eu bem quiser – Continuou rabugenta.

— Hoje não vovó, hoje não – Repreendeu entredentes.

— Ah me deixa! – Resmungou e acendeu um cigarro.

— Rose deixe eles pra lá, pode me ajudar a servir o jantar? – A senhora Blanche se colocou de pé e assenti tentando me livrar de toda aquela tensão estranha.

Receber toda aquela atenção era assustador. Não que eu nunca recebesse atenção, mas eles não trabalhavam pra mim, faziam por vontade própria. Todos queriam saber mais sobre mim sem querer nada em troca e aquilo era um tanto estranho.

— Antes de vocês irem eu tenho um comunicado a fazer – Meu namorado se levantou e sinalizou para que todos se aproximassem.

Parei ao seu lado e aguardei enquanto seu pai corria para o quintal.

— Vocês vão se casar? – Começou a vovó.

— Não vó, ela deve “ta” grávida – Marion surgiu na conversa fazendo uma bola de chiclete cor de rosa e olhar de desprezo.

— Nós não vamos nos casar e a Rose não ta grávida! – Ele olhou pra mim preocupado e indagou num murmúrio – Você não ta grávida né? – Preferi não responder e apenas lancei um olhar o fuzilando que ele entendeu de imediato – Era só pra confirmar – Voltou a erguer a voz – Eu tenho uma coisa importante para dizer a todos vocês, inclusive a Rose. Ontem eu fiz um teste para a Orquestra de Paris e eu passei. Estou oficialmente na Orquestra de Paris. Eu não vou mais servir café pro meu chefe – Anunciou entusiasmado e o abracei beijando seus lábios.

— Ah meu filho, isso é maravilhoso! – Sua mãe o abraçou por alguns segundos e assisti a toda sua família aguardando em uma pequena fila de abraços. Um por um esperando o seu momento para parabenizar o menino prodígio da família Blanche.

— Este é o meu garoto, meu filho, meu filho! – O senhor Blanche dizia com orgulho na voz.

— Eu não teria conseguido sem a Rose, ela arranjou uma audição para mim. Obrigado Rose! – Segurou minha mão entrelaçando nossos dedos.

Fui surpreendida pelo abraço dos pais dele que me agradeciam sem parar pela boa ação.

— Não foi nada! – Ri tentando disfarçar meu desconforto com tamanha atenção gratuita.

— Esse momento foi lindo, porém o jantar não vai se servir sozinho, vamos Rose? – Segui a mulher até a cozinha.

Aquela noite estava perfeita. Todos os meus temores de cometer algum erro estúpido e conquistar ódio dos Blanche haviam ido por água abaixo quando notei o quanto as coisas estavam indo bem. A mãe dele era tão amigável e afetuosa. Falava comigo de uma forma tão íntima como se fossemos amigas há tempos sempre demonstrando interesse em me conhecer mais. O pai dele era o típico cara legal que não ficava bravo com qualquer coisa. A vovó era doce apesar de parecer rabugenta em alguns momentos. Eu já havia aceitado a ideia de que aquela era a noite onde eu seria a nora perfeita e amada por todos causando a melhor impressão possível.

Até o momento em que a senhora Blanche pediu para que eu tirasse a mesa após o jantar. Então as coisas foram ladeira abaixo.

Haviam castiçais sobre a mesa. Com velas.

Acesas.

Por alguma razão a qual não entendo até hoje tirei os castiçais sem apagar as velas.

— Rose é melhor apagar isso antes de tirar da mesa! – Fui alertada por minha nova sogra.

— Está tudo bem senhora Blanche, sei o que estou fazendo! – Eu segurava a aste metálica quando meu tornozelo começou a coçar e abaixei-me para coçá-lo.

A mão que segurava o castiçal permaneceu estendida para cima quando um cheiro de algo queimando invadiu minhas narinas. Funguei algumas vezes tentando ter certeza se aquilo era realmente cheiro de queimado e fiquei de pé.

A chama vela acesa tocava os alvos cabelos da vovó Blanche que cochilava e roncava sem a mínima noção que seu cabelo parecia com o vestido de Katniss em Jogos Vorazes. Sem saber o que fazer gritei tirando todos de suas distrações.

— Ai meu Deus o cabelo da velha ta pegando fogo! – Berrei enquanto as chamas iam se espalhando pelos fios brancos da mulher.

A velha senhora acordou com meu grito e todos correram em nossa direção de olhos arregalados.

— Jogo, o que ta pegando no jogo? – Indagou a vovó perdida.

— O cabelo da velha ta pegando fogo, ai meu Deus, ai meu Deus! – Entrei em pânico. O cheiro de cabelo queimado se espalhava. Alcancei uma taça próxima e joguei seu conteúdo nos cabelos agora pretos, porém as chamas ganharam mais força – Merda isso é vinho branco? – Analisei a taça frustrada.

Desesperado o senhor Blanche correu e jogou uma toalha sobre o cabelo dela e abafou as chamas. Restando apenas uma fumaça acinzentada.

— Rose! – O Blanche mais jovem apareceu na porta e apertou os olhos, embaraçado.

— Eu sinto muito senhor Blanche, foi um acidente eu juro!

O homem me encarava atônito e ofegante. Sua mulher assistia a tudo com uma expressão chocada.

— Eu juro que sinto muito. E olha me desculpe por chamar a senhora de velha – Esbocei um sorriso forçado – A senhora nem é tão velha assim! – Dei dois leves tapinhas em suas mãos e saí do quintal passando de cabeça baixa por toda família.

Todos voltaram suas atenções a matriarca da família que mantinha um olhar assustado e confuso.

Joguei-me bufando no antigo sofá ao lado de Marion que parecia distraída com céu telefone. Sentia-me envergonhada e deprimida. A noite perfeita havia sido jogada no lixo. E como sempre eu era a responsável por estragar tudo.

— Eu taquei fogo na sua avó.

Ela tirou os olhos do telefone e me fitou por alguns segundos, em completo silencio voltando seu olhar para o telefone.

Bufei novamente e cruzei os braços.

— Você ateou fogo na minha avó? – Ouvi a voz familiar acusadora se aproximando.

— Eu não ateei fogo na sua avó. A vela fez isso sozinha! – Ele arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, seus lábios formando uma linha fina, apertados – A minha perna coçou, aqui tem muitos insetos sabia? Eu me abaixei e bom, o fogo, você sabe que cabelo pega fogo e a chama da vela encostou-se ao cabelo dela. Mas foi sem intenção. Eu não queria matar sua avó, eu juro.

— Rose! – Chegou mais perto – A minha família não está muito afim de te ver agora, quer que eu te leve pra casa?

— Eles me odeiam né? Isso sempre acontece.

— Eles não te odeiam, mesmo que quase tenha incendiado uma idosa – Lancei um olhar arrependido a ele – Sem intenção é claro – Assenti caminhando logo a sua frente.

Paramos em frente ao meu carro. Eu mal podia encará-lo sem me sentir uma completa idiota.

— Posso levar você, minha vespa ficou em frente ao seu prédio – Encostou-se no carro ficando ao meu lado – E você não parece muito bem pra dirigir.

— Eu realmente sinto muito, eu sempre estrago tudo – Observei a rua de paralelepípedos.

— Tá tudo bem, minha avó vai ficar bem – Segurou minha mão – Respira fundo e fica calma, ela ta bem, e nós sabemos que não foi proposital, foi um acidente. Eles não te odeiam Rose. Eles adoraram você, apesar de tudo, mas estão meio chateados com a parte do fogo.

— Eles gostaram de mim?

— Amaram. Disseram que eu era um homem de sorte por ter alguém como você em minha vida.

Sorri. De verdade desta vez.

— Gostaram mesmo?

— Muito – Levantou minha mão e a beijou – Muito, muitíssimo – Beijou mais duas vezes e sorriu me abraçando em seguida.

Senti-me segura em seus braços e toda aquela tensão parecia esvair-se de meu corpo para longe de nós. Porque quando eu estava em seus braços não havia mais ninguém além de eu e ele e o som de nossos corações em sintonia.

— Você pode dirigir – Anunciei num sussurro.

— Obrigado Deus, eu vou dirigir um Porsche! – Comemorou desfazendo nosso abraço e gargalhei com sua empolgação – Preciso contar aos meus amigos!

***

Pedi a ele que passasse a noite comigo. Sem nenhuma segunda intenção, eu sei que você pensou besteira, mas também apreciávamos as noites calmas onde apenas saber que estávamos juntos era o que importava.

Vesti meu pijama mais confortável. Um shorts de bolinhas azuis e uma camiseta velha dos Thundercats. Acomodei-me ao lado dele na cama e observei seus olhos negros me observando.

Suas mãos me puxaram para mais perto e nossas testas se tocaram.

— Como não me odeia por ter colocado fogo na sua avó? – Murmurei baixinho.

— Tecnicamente foi só no cabelo dela. No primeiro momento fiquei zangado com você, mas então eu vi esses seus olhos e eles me diziam que não foi por mal.

— Você é bom demais pra mim.

— Obrigado.

— Não foi um elogio.

— Foi uma constatação de um fato?

Assenti em silencio sendo tomada pelo sono. Virei-me ficando de costas para ele.

— Obrigado – Balbuciei.

— Pelo que?

— Por você.

Ele não respondeu ou disse nada, apenas senti uma de suas mãos afagando meus cabelos e a outra em minha cintura.

Ouvi um miado. Audrey subiu na cama e deitou-se sobre ele.

— Acho que ela gosta de mim.

— Como o colchão dela sim – Foram as ultimas coisas que disse antes de adormecer.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim. Comentem o que acharam da familia dele, do fogo, de toda a historia da Rose com o Michel. Comentem seus lindos!