Rose e o Cara
16 Capítulo 16
Notas iniciais

— Sente-se senhorita McIntyre — Dizia Lorenzo com um forte sotaque puxando a cadeira para mim.
— Obrigada — Agradeci me acomodando na cadeira velha.
— Estou faminto — Meu namorado sentou-se e olhava com desejo para a comida sobre a mesa.
— Pretendem passar mais uma noite no nosso humilde hotel? — Indagou Lorenzo ainda segurando Estela.
— Ah, ainda não sabemos, talvez, vamos decidir depois de voltarmos do desfile — Respondi sem graça, coçando a cabeça e forçando um sorriso.
— Desfile? Vamos ter uma passeata?
— É a Semana de Moda de Milão, desfiles de moda. Alta costura.
— A senhorita faz roupas?
— Não, mas dirijo uma revista sobre moda.
— E o que alguém como você faz neste hotel?
— Minha mala foi extraviada e acabei ficando sem meus documentos e dinheiro. Mas eu garanto que aqui é bem lega. Né? — Cutuquei o rapaz ao meu lado com os ombros.
— Sim, sim, é bem legal, bem interessante, rústico né? — Assinala perdido.
— Uhum — Acenei com a cabeça concordando.
— Isso me deixa muito feliz, feliz de verdade como um ragazzo serelepe — Ele sorri agradecido com as mãos no coração. Podem se servir, fiquem a vontade, temos um tradicional café da manhã italiano, cornetto e cappuccino bem fresquinhos. Gioconda acabou de preparar.
— Parece delicioso — Pego um cornetto, que se parece muito com um croassaint, embora mais doce e uma xícara com cappuccino — Onde está Gioconda?
— Ela foi dar uma volta por aí, levar Estevão para passear um pouco? — Respondeu Lorenzo acariciando a cabeça de Estela.
— Vocês têm um cachorro? — Indagou meu namorado de boca cheia e olhos brilhando.
— Não, não, Estevão é nosso galo de estimação, marido de Estela.
— Ah... Ah... Certo... Certo...
— Deus, isso é muito bom! — Exclamou meu acompanhante pegando mais pãezinhos açucarados e os abocanhando em seguida.
— Nós temos que ir agora — Cochichei.
— Mas eu to comendo — Tentei entender suas palavras que soavam abafadas com tanta comida na boca.
— Aqui é afastado da cidade, temos que pegar um táxi. O desfile começará em uma hora.
— Vocês já vão? — Indagou o dono do hotel ao nos ver levantando.
— Temos que ir, o desfile começa em uma hora e o táxi que eu chamei deve estar chegando.
— Espere só um minutinho, pode segurar Estela para mim? — Lorenzo me entregou a galinha e apesar de relutante a peguei com um sorriso amarelo — Eu só tenho que pegar uma coisinha aqui — Ele se abaixou e abriu o balcão da pia procurando por algo.
Meu namorado olhava para mim mordendo os lábios segurando as risadas e eu apenas o olhava com os olhos cerrados imaginando minhas mãos em seu pescoço.
— Me desculpe, mas isso é engraçado — Ele abaixava a cabeça apertando os lábios, suas bochechas coraram e então entendi o motivo de tanta graça.
— Ai meu Deus, ai meu Deus. Eu não acredito.
A natureza havia chamado e Estela atendera seu chamado perfeitamente.
— Tem cocô no meu Chanel — Solto a galinha que cai batendo as asas e cacarejando, andando em direção a seu dono como se nada tivesse acontecido.
— Ah, me desculpe, Estela não tinha a intenção — Lorenzo correu passando um pano em minha roupa, espalhando ainda mais toda a sujeira — Você não quer trocar de roupa?
— Eu não tenho nenhuma no momento — Respirei fundo tentando não surtar, ou entrar em colapso. Eu tinha um desfile repleto de celebridades e influencias da moda e minha única roupa estava cheia de cocô de galinha.
— Pode pegar uma roupa emprestada de Gioconda.
— Eu quero morrer — Me joguei na cadeira prestes a chorar — Alguém me mate, por favor...
— É só uma roupa Rose — Meu namorado se agachou e pegou em minhas mãos — Pode tentar vestir algo meu.
Então eu chorei.
***
— Não ta ruim — Tentei ignorar o rapaz que me observava segurando o riso enquanto eu tentava encarar meu reflexo no espelhinho.
Ergui a cabeça e olhei para minha imagem refletida e senti vontade de chorar outra vez. Eu iria ao evento de moda mais importante do mundo usando a calça jeans do meu namorado. Seria uma ótima opção se ela ficasse boa em meu corpo e não estranhamente larga e folgada nas partes erradas. Sua camisa pólo azul batida era larga demais e minhas sapatilhas delicadas não combinavam em nada com meu novo visual alternativo.
— Isto é horrível, não posso assistir um desfile de alta costura usando isso!
— Eu usaria.
— Se disser mais alguma coisa eu juro que jogo meus sapatos na sua cara! — Adverti irritada e ele apenas levantou as mãos se rendendo — Não tenho outra opção não é?
— Se eu responder você joga o sapato em mim?
— Não — Cruzei os braços e fiz um beiço.
— Você pode dizer que é... Como vocês da moda dizem... Tendência. Diga que é uma nova tendência em Paris. Até eles perceberem que não já estaremos em casa.
— Pode funcionar — Andei até ele apertando os lábios numa linha fina.
— Mesmo com as minhas roupas você está linda — Suas mãos seguravam minha cintura.
— Eu to né?
— Tá sim.
— Eu sempre estou — Mordi meu lábio e o beijei rapidamente ao som de uma buzina.
— Deve ser nosso táxi — Ele pegou minha mão e me guiou hotel afora.
— Estamos indo Lorenzo! — Gritei passando pela porta.
— Fiquem com Dio.
— O que quer que seja pra você também — Meu namorado se despediu e entramos no carro apertado de alguém que já nos era familiar.
— Mamma Mia, vocês de novo.
— Olá senhor Giordano — Cumprimentei o taxista.
— Não vai nos cobrar mais que o combinado desta vez vai?— O rapaz ao meu lado indagou estreitando os olhos.
— Mas é claro que não, eu nunca faria isso, porque pensam isso do pobre Enrico Giordano? — Encarávamos seus olhos através do espelho retrovisor.
— Uma experiência ruim na noite passada.
— Isto é um absurdo, eu cobrei apenas o necessário, a culpa não é minha se são pobres demais pra só poderem pagar um hotel longe da cidade.
— Porque não deixamos isso pra trás hãn? Vamos deixar isto no passado e nos concentrar no que viemos fazer.
— Sim senhorita, me desculpe. Para onde desejam ir?
— Para o Palácio Real.
— Palácio Real? — Ouvi as vozes dos dois homens no carro em uníssono.
— Sim, qual o problema?
— Você não disse que iríamos para um Palácio, eu não to vestido pra isso.
— Agora você me entende.
— Vocês vão para o Palácio Real?
— Sim, os desfiles de hoje serão lá.
— Pensei que fossem muito pobres, mas parece que não. Você me consegue um autógrafo da Rihanna se ela estiver lá? Ouvi dizer que ela sempre vai nesse tal de Semana de Moda.
— Claro, porque não? E em troca poderia nos dar um desconto no valor da viagem?
— Farei de graça — Assinalou empolgado.
***
A entrada do Palácio estava repleta de fotógrafos, curiosos, celebridades e grandes nomes do mundo da moda. Aquele era basicamente meu habitat natural.
Saímos do táxi e andamos de mãos dadas em direção a entrada principal.
— Vamos ser fotografados? — Meu acompanhante parecia maravilhado com a grandiosidade do evento.
— Não somos importantes o suficiente.
— É claro que somos importantes — Disse me puxando para perto dos fotógrafos.
— O que ta fazendo?
— Nós somos importantes, merecemos ser fotografados — Ele chamou a atenção de um dos fotógrafos — E aí cara pode tirar algumas fotos nossas? — Indagou em inglês.
— E quem são vocês?
— Como não sabe quem somos? Somos super importantes, somos, somos...
— Somos Rose e... E... O Cara — Intervi entrando no jogo — Temos um reality show, tipo as Kardashians, mas ainda não foi pro ar — Me inclinei e cochichei em seu ouvido — Você pode ser o primeiro a nos fotografar.
— Rose e o Cara?
— Isso aí, tipo as Kardashians — Lembrou meu namorado dando uma piscadela para mim.
— Tá bem — O fotógrafo pediu para que posássemos para sua câmera e em alguns segundos fomos tão fotografados quanto Beyoncé.
— Já imaginou a decepção do rapaz quando descobrir que não existe nenhum reality show — Perguntei gargalhando.
— Ele, ele provavelmente irá xingar até nossos ancestrais — Ríamos juntos, curvando nossos corpos para frente, sentindo dores na barriga.
— Oh meu Deus, eles me enganaram — Tentei imitar a voz grave do fotógrafo enquanto passávamos pela porta, adentrando os bastidores dos desfiles.
— Rose? Rose McIntyre?
Ai merda.
— Lola! — Forcei um sorriso e nos cumprimentamos com falsos beijinhos nas bochechas.
— Você veio.
— Eu to aqui né.
— Ah, Rose, e esse jovem seria? — Colocou a mão que não segurava o cigarro na cintura.
— Ele é meu namorado.
— Seu namorado tem um nome não tem?
— Tem, claro que tem, mas ele gosta de ser chamado de... Mô — Ele me olhou confuso — Sabe, naMOrado.
— Mô, é um prazer conhecê-lo. Sou Lola.
— O prazer é meu.
— Deixe-me olhar pra você — A mulher de cabelos azuis, rosa e verde analisou Mô de cima a baixo — O que está vestindo?
— Ah, uma calça e uma camisa social...
— É um estilo alternativo Lola, sabe que roupas usadas e sem marca estão na moda não é?
— Eu percebi, e o que você está usando?
— Ah, é tendência em Paris, um estilo mais, você sabe, sem estereótipos e toda essa coisa do que é de mulher e o que não é... Super tendência na França — Engoli em seco suando frio.
— Eu a-do-rei amiga!
— Como é? — Coloquei as mãos na cintura e apertei os lábios.
— Eu adorei, é super conceitual, uma ótima ideia — Mô me olhou e apenas deu de ombros sem saber o que dizer — Vocês poderiam conferir uma nova criação minha que entrará na passarela daqui a pouco?
— Claro, por que não?
Lola nos conduziu até a área onde suas modelos se arrumavam e nos mostrou algo que uma delas vestia.
A modelo esguia de pele cor de oliva e batom verde musgo apenas posava em silêncio enquanto Lola tentava nos explicar o conceito de sua criação.
Eu não saberia dizer do que se tratava, em alguns momentos cogitei que fosse um macacão, mas também poderia muito bem ser um vestido, embora pudesse ser uma calça e uma saia. As incontáveis alças presas em algo metálico num verde musgo e brilhante, os babados e recortes que mostravam pedaços de pele da modelo, as pedrarias que enfeitavam seu colo, ou seria parte de seu vestido/calça/saia/macacão?
— O que acharam? — Ela sorria radiante. Parecia tão satisfeita com sua criação que dizer o quão terrível aquilo era poderia magoá-la.
— É bem interessante né? — Olhei para meu namorado que ainda analisava a peça com uma expressão desnorteada.
— Ah é bem interessante mesmo. É meio...interessante.
— Muito interessante. Tem essas coisas — Apontei para os babados — Elas são interessantes e esses negocinhos — Apontei para as bolinhas roxas penduradas — Bem conceituais.
— Isso foi tão meigo. Vocês acreditam que fiquei insegura com essa peça, mas é bom saber que gostaram.
— Adoramos.
— É bem intenso e claro adoramos — Mô concluiu.
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