Rose Gula: A vacina
3 3º Capítulo: Noite infernal
Uma mulher deu carona a Janaína e aos meninos, ela estava nervosa, ela olhava o filho a todo o momento:
—Tem certeza que tá bem, Jonas?-Perguntou ela.
—Tenho mãe!-O garoto devia ter mais ou menos a idade de Carlinhos.
—E vocês aí atrás?
—Estamos bem, senhora. –Disse Caio.
—Foram mordidos ou algo do tipo por uma daquelas pessoas?
—Não senhora. –Disse Caio.
—Vocês saíram depois de todo mundo, como conseguiram fugir?-Perguntou Jana.
—Meu carro estava do outro lado, na outra saída, fui pagar o estacionamento e aí... Vi a garota do caixa caída com o rosto desfigurado.
—Que horror!
—Jonas e eu corremos até o carro imediatamente.
—O que acha que aconteceu?-Perguntou Cezinha.
—Eu não sei, alguma coisa deixou aquelas pessoas no shopping descontroladas, sedentas por carne.
Cezinha lembrou-se na hora dos amigos:
—Gente, a Maju e o Carlinhos não conseguiram nos alcançar. –Disse ele.
—Ai, não, me esqueci completamente deles! Não acredito que os deixei para trás.
—Acho que eles conseguiram fugir. –Disse Caio.
—Será? O Carlos usa prótese!
—Vai ficar tudo bem Jana, nós vamos encontrá-los. –Disse Cezinha.
—Vocês me desculpem, mas não posso ajudá-los, há algo de muito ruim acontecendo e eu não posso colocar meu filho em risco, vocês entendem? Vou achar meu marido e nós ficaremos em casa, que pelo jeito é o lugar mais seguro para ficar agora.
As ruas estavam desertas, o que era normal para àquela hora da noite, mas Janaína sentia um aperto no coração a cada rua que eles passavam:
—Onde vocês moram? Eu... Só irei parar uma vez.
Janaína e o irmão trocaram olhares:
—Minha casa é perto daqui, eu mostro o caminho. –Disse Cezinha.
—Mas e eu galera?-Perguntou Caio.
—Relaxa, minha mãe te leva para casa.
***
—Vocês estão bem?-Perguntou a moça que estava no carona, Maju assentiu.
—Íamos deixar vocês, mas mudamos de ideia quando vimos o menino com a prótese. –Disse a outra moça.
—Muito obrigada, aliás, qual o nome de vocês?-Perguntou Maju.
—Eu sou Angélica e essa que tá dirigindo é Marília, minha namorada.
—Ah, legal.
—E vocês, quais os seus nomes?-Perguntou Marília.
—Eu sou Maria Júlia e esse... Fecha as pernas Carlos!
Carlos olhou a amiga estranho, Maju juntou as pernas do amigo, que a olhou feio, Marília riu:
—São namorados?-Perguntou ela.
—Não, somos só amigos. –Disse Carlos se ajeitando.
—Ah... Eu vi que aqueles meninos que estavam com vocês pegaram uma carona com alguém.
—Sério?... Não acredito que a Jana saiu correndo e deixou a gente.
—Ela ficou com medo, Carlos.
—Onde é a casa de vocês?-Perguntou Angélica.
Maju olhou para Carlinhos:
—Vamos passar na sua casa primeiro, ok?
—Ok.
—Podem parar na frente da casa dele? Tem um morro enorme pra ele subir e ele tá mancando.
—Maju!
—Não, tudo bem, e também não é seguro você ficar sozinho na rua. –Disse Angélica.
As moças pararam na casa de Carlinhos, a rua estava vazia e fazia muito frio, naquela parte da cidade tinha energia. Maju ajudou o amigo a entrar em casa e se despediu:
—Se cuida. –Disse Carlos a amiga.
—Você também, se ver alguma coisa estranha manda mensagem.
—Pode deixar.
***
Janaína procurava as chaves na bolsa, Caio estava começando a ficar nervoso com aquele silêncio estranho e com o corredor escuro que eles estavam:
—Muito babaca aquela mulher "vocês me desculpem, mas não posso ajudá-los" e a gente nem pediu a ajuda dela!
—Sei lá, mano, ela devia estar assustada, ela viu a moça morta, lembra?-Disse Janaína.
—Mas uma coisa ela tem razão: algo de muito ruim tá acontecendo. –Disse Caio, ele estava cada vez mais ansioso para entrar na casa, não queria ficar mais nem um minuto pra fora.
Janaína finalmente achou as chaves e abriu a porta. Cezinha tocou a parede a procura do interruptor, quando achou descobriu que não havia energia:
—Droga!-Disse ele. –E a bateria do meu celular tá só o pó!
—Já dava pra saber que estava sem energia pelos postes desligados. –Disse Caio.
—Aqueles postes estão sempre desligados. –Disse Jana.
—Mãe?-Chamou Cezinha. –Mãe?!
—Gente... –O coração de Janaína disparou.
A garota passou a luz do celular sobre um homem de costas sobre o chão, ele comia a carne da mãe dos irmãos, que já estava morta e com os olhos bem abertos. Janaína e Cezinha estavam petrificados, Caio sentia que ia vomitar ao ver a cena. Quando o homem notou a presença deles e virou-se o choque foi maior ainda:
—Pai?!-Disse Janaína.
***
Carlos não achava suas chaves, devia ter as esquecido na mochila, pensou em tocar a campainha, mas teve medo de chamar a atenção daquelas coisas que viu no shopping. Pensar naquilo o deixou com medo e nervoso, queria entrar em casa logo. Ele pulou a janela, mesmo sabendo que levaria uma bronca da avó. Foi parar na sala de estar, com medo, acendeu as luzes de todo lugar que ia.
Subiu as escadas para ver se a avó já dormia, mas não a encontrou na cama, desceu as escadas:
—Vó, cadê a senhora?-Perguntou ele.
Ele foi até a cozinha e acendeu a luz, mesmo com medo de algo lhe surpreender, mas por sorte não havia, nem mesmo sua avó:
—Será que ela foi pro forró?-Perguntou-se ele.
O garoto foi até o bebedouro pegar um pouco de água. Quando tomou o primeiro gole ouviu um barulho metálico estranho e algo puxando a sua bermuda, quando olhou para baixo gelou quando viu que era a avó, ou o que restou dela mordendo sua prótese.
O garoto derrubou o copo e gritou, a avó o puxou e a prótese acabou saindo do lugar e Carlinhos caiu no chão, o que aumentou o desespero do garoto, que pensou que morreria. Foi quando Nandinho apareceu:
—Nandinho... –Carlinhos começou a chorar. –A vó Raimunda!
Nandinho engoliu em seco, sacou a arma, mas não sabia o que fazer depois, a mãe virou uma daquelas coisas e atacava Carlinhos, ele tinha que atirar, com olhos marejados o fez:
—Não!-Carlinhos gritou. –Seu monstro!
Nandinho levantou Carlinhos e colocou a prótese do garoto de volta, que chorava ao olhar a avó:
—Ela ia te matar, eu não tive escolha, mano!
—Por que Deus tá fazendo isso com a gente? O que a gente fez?!
—Carlinhos olha pra mim! A gente tem que sair daqui, uns malucos alucinados chegaram e começaram a comer todo mundo, eu e os manos atirávamos, mas quanto mais a gente matava mais deles apareciam, acho que é que nem nos filmes que o som atrai eles... Você vem comigo ou não?
Carlinhos assentiu, estava atordoado e anestesiado pelo medo.
***
O pai dos irmãos estava descontrolado, assim que os viu foi pra cima dos jovens, que se separaram pela casa. Os meninos conseguiram achar um quarto na escuridão da casa, Janaína não teve a mesma sorte, com a luz do celular, que a qualquer momento podia desligar ela corria do pai pela casa aos prantos.
—A gente tem que ajudar a Jana, Júlio!-Disse Caio.
Cezinha estava sentado no chão chorando, estava assustado e de olhos bem abertos. Ficou daquele jeito desde que entraram no quarto:
—Minha mãe... Tá morta!-Disse ele.
—E se a gente não fizer alguma coisa a Jana também vai morrer!... Levanta cara!
Caio pegou o celular da mão de Cezinha. Os meninos levaram o susto quando ouviram mais um grito de Janaína:
—Foda-se, eu vou atrás da Jana se quiser pode vir comigo!
Cezinha se encolheu, Caio irritou-se:
—Covarde! É a sua irmã! Disse que a protegeria no shopping, mas você não passa de um cagão!
Caio respirou fundo e destrancou a porta, Cezinha se levantou na hora, com medo de ficar sozinho no escuro:
—Espera não me deixa!-Disse ele.
Janaína segurava uma faca, estava na cozinha frente a frente com o monstro que um dia chamou de pai. A menina chorava, não queria matá-lo, mas sabia que se não fizesse ele a devoraria:
—Fica longe de mim!
Até que ela e o zumbi ouviram passos, Janaína logo pensou em Caio e Cezinha. O pai da menina seguiu o barulho, ela, sem pensar duas vezes foi atrás dele. O celular de Cezinha desligou quando tudo aconteceu, assim que o menino ouviu o zumbi se movimentando ele subiu as escadas, tudo o que se ouviu foram os gritos de Caio e Janaína. De repente tudo ficou escuro e em silêncio, Cezinha parecia ter grudado no corrimão, fechou os olhos e esperou tudo acontecer:
—... Júlio?-O menino ouviu Janaína o chamar, a irmã nunca o chamou de Júlio antes.
—... Jana?-Ele levantou o olhar sem tirar as mãos do corrimão. –Você tá aí?
A energia voltou por um instante, Cezinha chocou-se quando viu a irmã coberta de sangue e Caio no chão morto:
—Jana, meu Deus, Jana!
A energia caiu de novo, Cezinha correu para abraçar a irmã, que chorava.
***
—Nossa, a sua casa fica a dois bairros da nossa. –Disse Angélica a Maju, elas tentavam atravessar o viaduto, mas encaravam um transito infernal.
—Pois é... Desculpa por estar sendo um fardo para vocês.
—Mas você não está sendo um fardo pra gente, Maju. –Disse Marília.
—Vocês não tem família?
—Bom, eu sou órfã, a família de Angélica é muito religiosa e não aceita a gente então a única coisa que a gente tem é o nosso cachorro.
—Mas mesmo eles sendo do jeito que são eu espero que meus pais estejam bem. –Disse Angélica.
Maju pegou seu celular, havia 15 ligações perdidas da mãe e duas mensagens:
—Que isso gente...
"Filha não volta pra casa tem algo de errado com o seu pai"
"Eu te amo"
—O que foi?-Perguntou Angélica.
—Minha mãe...
De repente um homem quebrou o vidro do carro e mordeu a mão de Angélica, Maju gritou os carros da frente também estavam sendo atacados por zumbis, Marília, assustada, acelerou quando o transito andou, Angélica empurrou a coisa para fora, sua mão sangrava:
—Eu... Eu fui mordida!
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