Rose Gula: A vacina

2 2° Capítulo: Quinta à noite


Eles se encontraram com Maju e Caio no cinema, que ficava no último andar dentro da praça de alimentação, mas não estava na hora do filme, então eles compraram seus lanches e sentaram-se juntos. Todo ano eles eram colocados na mesma sala, o que com o passar dos anos foi fortalecendo a amizade, naquele ano eles foram separados, no começo acharam ruim, mas em salas diferentes viviam situações cotidianas diferentes, conviviam com pessoas diferentes e isso sempre rendia um assunto novo, porém quando saíam a escola ficava em segundo plano:

—Vocês demoraram, pensei que iam me abandonar sozinha largada na guia. –Disse Maju.

—Que dramática!-Disse Carlinhos.

—O que aconteceu?-Perguntou Caio.

—A Jana demorou a se arrumar. –Disse Cezinha.

—Eu me arrumei no mesmo tempo de sempre.

—Isso, nos mesmos 84 anos de sempre!

Todos riram, Janaína deu um tapa na nuca do irmão:

—Contanto que continue ficando bonita assim demore o tempo que precisar. –Disse Caio.

Jana sorriu, mas quando viu a cara de zangado de Carlinhos desfez o sorriso, Maju olhou Cezinha na esperança de que ele tivesse uma piadinha para contar, mas ele também a olhava procurando uma saída para aquele clima ruim:

—Parece que acharam uma cura para SMV, vocês viram?-Perguntou Maju, foi a primeira coisa que veio na mente dela, por sorte todos se interessaram pelo assunto.

—Esse bagulho é verdade mesmo?

—Nossa Jana, que mundo você ta, cara, a vacina foi testada hoje em todas as capitais do país, anunciou no jornal e tudo.

—Ah, pensei que eram aquelas notícias fake de facebook.

Maju riu e balançou a cabeça:

—Sabe do que isso tá com cara? Apocalipse zumbi!-Disse Caio.

—Você é a segunda pessoa que ouço levantando essa hipótese, Caio!

—Ah, é verdade!- Caio riu. — Mas o Luan é doido, eu tenho mais propriedade no assunto, Maju.

—Ah, claro que sim!

—Bem, é o que parece, já viram as fotos dos infectados na internet? Dá calafrios só de ver aqueles corpos todos entrando em decomposição com os caras vivos!-Disse Carlinhos.

—Mano, eu to comendo, respeita!-Disse Cezinha.

—Mas por que a pele deles entra em decomposição sendo que eles tão vivos?-Perguntou Janaína ignorando o irmão.

—Parece que tem uma bactéria que ajuda a gente a fazer a digestão... Mas que quando a gente morrer ela vai comer o nosso corpo. –Disse Caio.

—Isso, mas o vírus a faz pensar que a pessoa tá morta sendo que ela ainda tá viva aí ela já começa a comer a pessoa... Por dentro. –Completou Maju.

—Gente, por favor, respeita a hora da refeição!-Cezinha quase suplicou.

—Que nojo!... Eu não acredito nessas coisas, mas eu assisto séries disso e fico pensando em como seria se acontecesse mesmo. –Disse Jana.

—Eu ia ser a primeira a morrer, mas não de mordida nem nada, mas de piripaque!

—Oxe, como assim?-Perguntou Caio rindo.

—Ai, não sei! Ano passado eu fui à convenção de jogos, certo? Então, eu joguei a demo de um jogo de zumbi para VR e cara, logo na minha vez o jogo me pôs uma horda de zumbis! Eu tava maquinada, mas todos aqueles zumbis vindo na minha direção me desesperava, quase quebrei os controles!

—Tipo quando a gente passou numa calçada cheia de pombos e você entrou em desespero quando eles voaram na sua direção?-Perguntou Carlos.

—É, pode crer. –Maju riu.

—Já eu ia ser diferente! Ia metralhar geral!

—Ah, Cezinha, só por que você joga jogo de zumbi não quer dizer que é expert!

—Logicamente, Maju! Mas sei lá, só de pensar dá a maior adrenalina!

—... Bem, eu seria aquele que tem que ser deixado para trás por não poder correr direito.

Todos olharam Carlinhos estranho:

—Nada a ver!-Eles disseram juntos.

—Gente, eu consigo correr com a prótese, mas meus movimentos ainda sim são limitados!

—E daí? A gente não ia te deixar pra trás, Carlos!-Disse Janaína, que corou quando o ex a olhou.

—Duvido muito!

—Larga de ser besta, até parece que a gente ia te deixar pra trás pra virar marmita de zumbi!-Disse Maju.

—Mas e se eu por um acaso perdesse a prótese?

—Eu... Te carregava, ué!

—Que?-Carlinhos riu.

—Você não é tão pesado e eu já te carreguei antes, lembra?

—Verdade, e aí a gente podia revezar também!-Disse Caio.

Carlinhos olhou os amigos sem reação:

—Puxa... Vocês gostam mesmo de mim!

—Ah, mas eu ia fazer de tudo para sobreviver e foda-se a amizade, rapaziada, desculpe a sinceridade!-Disse Cezinha chupando os dedos sujos de ketchup, todos riram, menos Janaína.

—Mas e eu?-Perguntou ela.

—Ah, claro que eu vou te proteger, irmãzinha, você é mais velha, mas a inteligência e coragem convenhamos que ficou toda pra mim!

Janaína riu, preferia acreditar que o deboche do irmão era só brincadeira ou iria acabar batendo nele. Caio viu as horas no celular e arregalou os olhos:

—Mano do céu, faltam quinze minutos pro filme começar!-Disse ele.

—Nossa como nós estamos atrasados!-Disse Cezinha sarcástico.

—Acho que alguém esqueceu que a loja de doce fica lá embaixo!

O garoto levantou as pressas:

—Gente, engulam esses hambúrgueres ou levem pra sala, há balas e salgadinhos em jogo! E eu quero ver os trailers!

***

Eles conseguiram comprar os doces e chegar a tempo, estavam ansiosos para o filme, Maju deu um largo sorriso quando viu a primeira luta, ver os personagens prediletos, mesmo não sendo pela primeira vez a ouriçava.

Mas algo aconteceu, a energia acabou, todos que assistiam ficaram no escuro de repente, o filme mal começara:

—Que porra é essa?!-Perguntou Maju irritada.

Janaína sentiu alguém segurando sua mão, não se lembrava se era Caio ou o irmão a sua direita, mas algo lhe dizia que era Cezinha, que sempre teve medo de escuro:

—Cezinha?-Chamou ela e logo Cezinha tirou sua mão de cima da mão da irmã.

Um alto falatório começou, as pessoas xingavam e gritavam sem entender o que havia acontecido. Luzes de emergência acenderam, eram fracas, mas pelo menos era possível ver rostos.

Maju se levantou, Carlinhos, que estava ao seu lado pegou no braço da amiga:

—O que foi?-Perguntou Carlos.

—Vamos vazar.

—Por quê?

—Eles não vão botar o filme de volta.

—Como você sabe?

—Não sei, só tenho a impressão de que não vão e... Eu to começando a ficar com medo de ficar aqui, quero ir embora.

—Então eu vou com você. –Carlinhos se levantou e olhou os outros. -Vocês vêm com a gente?-Perguntou ele.

—Sim, não tava gostando do filme mesmo. –Disse Janaína.

Janaína se levantou e pegou sua blusa, Caio e Cezinha trocaram olhares e se levantaram também. Um pequeno grupo de pessoas também resolveu ir embora, estavam atrás deles.

Maju abriu a porta da sala, quando eles saíram se depararam com o corredor do cinema revirado, havia pipoca por todo lado:

—Nossa o que rolou aqui?-Perguntou Caio.

—Isso tá muito estranho!-Disse Carlinhos.

A luz piscava, apagaria a qualquer momento, o coração de Maju acelerava, ela estava com um pressentimento ruim:

—Por que todo mundo foi embora?-Perguntou ela.

—Já é quase onze horas, galera, é normal já estar tudo vazio. –Disse Caio.

—Mas até o pessoal do cinema?-Perguntou Cezinha.

—Galera, eles não ficam perambulando o corredor do cinema, eles devem ter mais o que fazer!

—Tudo bem, se você diz, mas vamos sair daqui, estou começando a ficar com medo. –Disse Jana.

—Eu também. –Disse Maju, ela entrelaçou seu braço com o de Carlos, olhou suas mãos, elas tremiam.

***

Eles seguiram o grupo de pessoas que também resolveram sair da sala de cinema, alguns comentavam sobre estar tudo vazio, outros, como Caio e Cezinha achavam que tudo estava bem e só se preocupavam em comentar sobre o filme. Maju sentiu falta dos seguranças observando todos saírem do shopping, não havia nem mesmo as faixas que impediam as pessoas de ficarem xeretando as lojas fechadas:

—Só eu que to achando que tem algo de errado?-Cochichou Carlinhos no ouvido da amiga.

—Não, eu também, você viu as mesas na praça de alimentação? Algumas estavam reviradas e ainda tinha comida nos pratos.

—Sinistro... Tem ideia do que pode ter acontecido?

—Não.

—Fica perto de mim, ta? Se vir mais alguma coisa estranha me avisa.

—Pode pá.

Maju e Carlinhos estavam no meio do grupo de pessoas, que começava a se espalhar pelo shopping cada vez que chegavam mais perto da saída, devia estar indo pagar o estacionamento. Cezinha Caio e Janaína estavam a frente tentando tirar uma foto enquanto andavam:

—Galera, espera a gente!-Disse Maju, assim que eles saíram do shopping ela abraçou Carlos, estava frio, ela devia ter ouvido a mãe quando ela disse que ir de macacão curto e nenhuma blusa não seriam uma boa ideia.

—Como vocês são lentos!-Disse Jana.

—Não é todo mundo aqui que tem as duas pernas, fofa!-Disse Carlinhos, Janaína e ele trocaram olhares, ela se sentiu horrível por ter dito aquilo, mas não demonstrou.

—Tem algo de errado com a sua prótese?-Perguntou Maju.

—Já era pra eu ter trocado faz tempo, mas minha vó ainda não tem grana.

—Dói?

—Não, mas já está incomodando, sabe quando o sapato é menor que o seu pé?

—Aham.

—É tipo isso.

—Que bosta.

***

Eles estavam atravessando o grande estacionamento, que estava praticamente vazio Cezinha contava piadas que faziam Caio e Janaína gargalharem alto, Carlinhos ao mesmo tempo em que sentia ciúmes de Caio abraçado com Jana ria das histórias malucas de Maju, que estava aliviada por estar saindo do shopping. Eles até esqueceram-se das coisas estranhas que estavam acontecendo. Tudo estava bem até eles ouvirem gritos vindos do shopping:

—O que foi isso?-Perguntou Janaína.

—Eu disse que tinha algo de errado!-Disse Carlos.

Duas mulheres saíram correndo de dentro do shopping, as pessoas que estavam de carro não conseguiam sair, de repente acabou a energia. Alguns motoristas saíram dos carros para ver o que estava acontecendo e então um homem saiu correndo do shopping, uma mulher foi atrás dele e se jogou em cima dele, todos ficaram chocados quando ela começou a comer a carne dele.

Uma alta dose de adrenalina correu pelas veias de Janaína, ela puxou Caio pelo braço, Cezinha já estava quase na rua:

—ESPERA A GENTE!-Gritou Maju.

Carlos corria com dificuldade, Maju, desesperada pegou o amigo no colo e saiu correndo:

—Que isso, Maju?!

—Eu disse que te carregava!

Carlinhos conseguiu rir naquele momento tenso:

—Temos que alcançá-los!-Disse ele.

—Eu sei!

Um carro parou na frente deles, eram duas mulheres:

—Entrem no carro!-Pediu a moça que dirigia.

—Nossos amigos se separam da gente!-Disse Carlinhos.

Mais seis pessoas descontroladas como a moça que devorava o homem na porta do shopping saíram do lugar e os que não foram rápidos o bastante tiveram o mesmo destino do rapaz. Maju jogou Carlinhos no carro e entrou. Um carro acelerou e quebrou a cancela que impedia a passagem e então todos que conseguiram se safar fugiram as pressas das criaturas.