Rose
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Notas iniciais
“— Por que não posso sair daqui?- sussurro para o rosto conhecido à minha frente. Um dos únicos, na verdade. Minha experiência com rostos era pouca.
— Você sabe porque não, Rose. Não é seguro para alguém como você lá fora. — a voz maternal dela me conforta, mesmo que apenas por um segundo. Tento enxergar seus olhos por trás dos enormes óculos escuros que ela usava, mesmo sendo noite. Já não tinha medo dos seus há anos. — Quando você tiver idade, vou te levar bem longe daqui. E você será livre. E segura. Eu prometo. Agora durma, Rose.”
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Recordo aquela noite enquanto tento dormir, no mesmo quarto, na mesma cama e com o mesmo total de rostos conhecidos de oito anos atrás. Agora, porém, faltava apenas dois anos para que eu atingisse a maioridade e fosse libertada. Lilith, pelo que ela me contava, já estava vendo todas as localidades para onde poderia me levar, algum lugar que estivesse livre do “seu tipo”. Não me importava muito para onde seria, na verdade, desde que não fosse naquele quarto.
Vi aquele quarto mudar conforme os anos se passavam e eu crescia. Provavelmente começara com um berço, passou para um rosa, roxo, e agora é cinza. Não pretendo mudar em breve, porque gosto do tom. É um quarto grande, com um banheiro também grande. Sem janelas, porta trancada cem por cento do tempo. Uma jaula agradável, na qual tenho vivido há muito pouco menos do que dezesseis anos.
A história era confusa. Quando eu era um bebê, Lilith me encontrou na rua, enrolada em uma cesta. Tinha sangue ao meu redor, e ela desconfiava do que acontecera. Ela, sendo bondosa como sempre, me trouxe para casa. E aqui me manteve. Seu rosto, o de sua filha Amelia e o da minha professora Lia, são os três únicos que vi durante toda a minha vida.
Ouço três batidas leves na porta, e não preciso perguntar para saber quem é. Levanto da cama e abro a porta com a chave, ouvindo a grade ser aberta do outro lado. Amelia entra no quarto. As duas portas são fechadas, mas só tranco a de dentro.
— Oi, Rose, tudo bem? — a voz clara e fina de Amelia sai sussurrada- Não consegue dormir?
— Não. Como você sabe?
— Deu para ouvir. — nunca me conformaria com o quê ela conseguia ouvir. Era surpreendente e assustador. — Vai acabar logo. Daqui a dois anos, você estará longe daqui.
— Eu sei, Amelia. Mas ainda assim. Ficar presa aqui dentro é horrível.
— Deve ser. Mas pense em como vai ser passear pelas ruas de Paris ou algo assim. Eu vou sentir tanta saudade!
— É o único motivo que vai me deixar triste.- Sorrio para ela. Seus cabelos ruivos brilhantes eram longos e brilhantes, e o toque de suas mãos era macio e gelado quando ela segurava meu pulso, chamando minha atenção para algo que ela queria me mostrar. Continuamos conversando banalidades até eu finalmente ficar com sono. — Você vai voltar amanhã, certo?
— Óbvio, amanhã é o baile. Vou te contar tudo depois! — estamos sentadas à penteadeira que eu raramente usava. Ela penteia os cabelos enquanto eu mexo em uma caixinha de cristal. — Eu contei que Ted finalmente me convidou?
— Não, o que você vai vestir?
— Um vestido. Aliás, vou vir aqui me arrumar antes de ir ao baile. Isso. Aí você participa!
— Seria ótimo! — levanto as mãos do colo para alcançar-lhe o pente dourado, realmente feliz por ser incluída, esquecendo-me completamente da caixinha nas minhas mãos. Bato ela contra a borda da penteadeira, sentindo quase imediatamente os cacos cortando minha pele e o sangue começando a escorrer. Viro para o lado, mas não há ninguém ali.
Ela está do outro lado do quarto, olhando para mim. Seus olhos tomaram uma tonalidade escura e ainda mais brilhante. Tento esconder os cortes, fazer parar de sangrar, mas torço que Amelia consiga se controlar.
Do nada, ela corre em minha direção. Fecho os olhos e espero pela dor, mas não chega. Abro os olhos para ver Lilith segurando a filha pelo pescoço contra a parede. Ela então empurra a filha para fora do quarto e tranca as portas. Ela se agacha ao meu lado, puxando minhas mãos para o colo.
— Desculpe por isso, Rose. Sabe que ela não fez por mal.
— Eu sei, Lilith. Sinto muito por ser tão desastrada. — ela arruma os machucados, de modo que param de sangrar. A mulher fecha as mãos ao redor de meus pulsos, cobrindo os cortes, e fecha os olhos. Quando ela tira as mãos, os machucados não passam de pequenas marcas rosa na pele.
— Vá deitar, Rose.- ela me acompanha até a cama. Eu deito, e ela senta ao meu lado. — Vou para Moscou amanhã, volto no final de semana. Confio que você ficará a salvo. Mas vou pedir que Amelia não venha, por segurança. Você entende, não é?- assinto- Quer ajuda para dormir?
— Por favor.
— Feche os olhos, querida.- eu o faço, sentindo suas mãos em meus ombros. Em alguns segundos, sinto a inconsciência me levar. — Boa noite, Rosalie.
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