Rosas de Sangue
3 Capitulo Dois
Notas iniciais
Capítulo dois
Thomas dormiu profundamente bem naquela noite. Sentiu-se até culpado por ter dormido sem Lucille. Mas havia ficado tão tarde, a cama estava tão quente e ele tinha tanto sono. Ele era incapaz de ser como ela, que sempre que ficava preocupada não dormia. Ela costumava dizer que mesmo que se a casa caísse ele continuaria a dormir. Talvez fosse verdade, pois dormiu feito um bebê. Até teve sonhos, sonhos estranhos. Começou com ele caçando mariposas na frente de casa, diferente da realidade no sonho não era frio. Fazia um calor, que na verdade, Thomas nunca conheceu. O chão não era vermelho, era verde de uma grama alegre. Fazia sol, e ele podia sentir na sua pele branca. A casa não era em um lugar tão deserto, havia casas em volta dela, casas de todas as cores e tamanhos. As mariposas pretas voavam de um lado para o outro e ele com uma rede, buscava apanha-las, mas sem sucesso.
Até que surgiram borboletas, iguais as que ele via nos livros, mas só que amarelas. Ele rapidamente esqueceu as mariposas pretas. Ficou impressionado com as borboletas, elas ainda eram mais difíceis que pegar. Eram tão lindas, alegres e o amarelo delas era de encantar. Capturou uma, rapidamente enfiou em um pote. Ficou abismado a vendo voar, tão bela e leve. Quando olhou a sua volta percebeu que as mariposas estavam morrendo, caindo uma a uma. Thomas não queria que elas morressem. Eram dele e ele as amava, ele chorou quando viu a última morrer. Pegou uma na mão na esperança de fazê-la voar, mas ela estava morta e os mortos não voam. Virou-se para ver sua borboleta, mas ela havia fugido. Ela voou sobre sua cabeça, para tão longe e deixou de pertencer a ele. Todas as borboletas sumiram e todas as mariposas morreram e então ele não tinha mais nada.
Acordou com um barulho brusco e com o coração acelerado. Alguma coisa havia caído lá em baixo, pensou em Lucille. Talvez a mãe tivesse batido forte demais nela, queria correr para ver, mas o medo o paralisou. Tentou dar uns passos para fora do sótão, mas não conseguiu. Só pode ouvir alguns gritos:
— O que você fez? — Perguntou Lucille. — Ela vai morrer?
— Saia! — Gritou o pai. — Saia agora! Vá para o porão Lucille.
— Não! — Protestou ela. — Quero ajudar pai, quero ajudar você.
— Vai me ajudar fora daqui! Agora vá.
Escutou passos rápidos vindo da sua direção e viu o rosto pálido da irmã vindo para ele.
— Para dentro Thomas! — Disse autoritária. — Rápido.
— O que houve? Quem vai morrer? — Ele estava desesperado.
Ela entrou e fechou a porta rápido. Encostou as costas nela e só então as lágrimas escorreram pelo seu belo rosto.
— A mamãe! O papai a jogou da escada. O pé dela esta todo torto.
Thomas de uns tempos para cá, estava em dúvida se gostava da mãe ou não. Ela não gostava dele, nem de Lucille, só batia neles e os chamava de nomes feios. Sem falar que mandou ela para um internato, bem longe de Thomas. E ele não gostava de ficar longe dela. Mas não negava que se sentiu mal por ela ter se machucado, mas pior ainda foi ver a irmã chorar.
— Se ela morrer o que você acha que vai acontecer conosco? — Ele perguntou.
— Eu não sei. Sinceramente eu não sei Thomas.
Sentiu-se um monstro quando pensou com alegria na possibilidade da morte da mãe. Era tentador pensar se ela não sobrevivesse ninguém mais bateria neles. Poderiam andar pela casa, sair para brincar lá fora. E ele sabia que não ficaria sozinho, Lucille cuidaria dele como a mãe nunca fez. O poderia ficar menos estressado, seria mais amoroso e talvez os levasse com ele nas viagens. Nada os prenderia aquela casa mofada e triste.
Lucille o puxou para seu colo e ele aninhou lá e ficou seguro, lá nada podia atingi-lo. Ele chorou sem um motivo exato, talvez por ver a irmã chorar não sabia ao certo. Adormeceu com o carinho dela, tão suave quando eram mais crianças. Acordou com sua voz suave o chamando:
— Thomas! — Ela disse com sua voz mais meiga. — Acorde Thomas, acorde.
— Hm? O que houve? — Por um breve momento ele esqueceu tudo aquilo, mas a lembrança o atingiu, em cheio quando despertou.
— Temos de ver o que esta acontecendo lá em cima. Ver se eles estão bem.
— Mas o pai vai nos castigar se sairmos. — Protestou o medroso. — Ele disse para não sairmos Luci.
— Temos que ir, eu te protejo.
E é claro que ele acreditou em cada palavra que saiu da sua boca. E a seguiu sorrateiramente, subiram as escadas o mais silenciosamente possível. A sala estava vazia, como se ninguém tivesse passado por ali. A cozinha também, e então seguiram caminho para o banheiro onde ouviram ruídos. A porta estava entreaberta, mas Thomas pode ver a mãe dentro da banheira. A água estava vermelha, talvez de sangue ou talvez da argila vermelha que rodeava a casa e entupia os canos. Ela tinha o rosto parado, fitava o nada e havia sangue no canto esquerdo do olho. Lucille teve a coragem de abrir a porta e dar alguns passos para frente em quanto ele só ficou olhando de longe seu pai ao lado da banheira. Ele a olhava com um olhar de pena ou talvez de culpa ou ambos. Lagrimas de desespero rolavam de seu rosto magro.
— Pai? — Chamou Lucille.
Ele a olhou com os olhos vermelhos ainda soluçando. Virou novamente para Beatrice e tomou sua mão nas suas. Beijou-a e acariciou como se não fosse culpado pelo acontecido. O pai sempre fora assim, fazia algo terrível e depois olhava com olhos de piedade e fazia Lucille esquecer o ódio, mas não enganava Thomas. Ele tentava ter paciência, mas quando perdia batia neles e sempre gritava o quanto ele era fraco por se esconder atrás de Luci. A irmã o perdoava sempre, mas ele não. Ele culpava a mãe, como se a culpa fosse dela estar naquele estado. Quando a mãe o irritava muito a puxava pelos cabelos e a trancava no quarto, ele podia ouvir os gritos da mãe do porão. A irmã dizia que ele estava esgotado de cuidar dela, por isso às vezes se irritava, mas que depois se arrependia porem nem um olho inchado poderia mudar o que ele fazia.
— Desculpa, por fazê-los passar por isso. — Disse ele depois de um tempo.
— Não pai. — Consolou Lucille. — Não é culpa sua, Thomas e eu cuidaremos dela e ela ficará bem, não é mesmo Thomas?
— Sim. — Ele disse com incerteza.
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