Rosas Sangrentas
1 Rosas Sangrentas
Roger saíra de seu trabalho mais cedo, queria fazer uma surpresa a sua mulher e parou em uma loja de presentes. Chegaria em casa com um buquê de rosas vermelhas, afinal, não tinha coisa melhor do que ganhar belas flores no aniversário de casamento.
Não conseguia parar de pensar na Lídia... coitada! Sempre fora uma ótima esposa, trabalhadora e determinadora. Estava na hora d’ele tirar umas férias para ficar um pouco mais com ela, percebia que isso lhe fazia falta. Estava ansioso para ver o semblante de sua amada ao vê-lo chegar com aquelas rosas... Com certeza, se ele a conhecia bem, Lídia o recepcionaria com um forte abraço e beijos no pescoço apaixonantes. Dessa vez, nada de um jantarzinho qualquer dentro de seu lar, assim que chegasse em casa, reservaria a melhor mesa no restaurante mais luxuoso da região. Estava amando novamente, gostava de sentir aquele aperto e queimação subir para o seu peito.
Durante o caminho, decidiu ligar o rádio para que o tempo passasse mais rápido. Qualquer um que estivesse com ele o estranharia. Roger não gostava de músicas, pior se fosse essas românticas, e aquela na qual a estação Cupido FM transmitia se encaixava perfeitamente nesse estilo, uma melodia clássica da roça, com vocalistas caipiras e letras de corno apaixonando. Nem sabia cantá-la, mas fez questão de bater os dedos no volante para fazer um acompanhamento enquanto tentava, sem bons êxitos, adivinhar a melodia através de assovios agudos e afinados.
Estava se aproximando de sua casa, desligou o rádio e estacionou o seu veículo bem pertinho do portão. “Vou chegar de fininho”, pensou sorridente. Retirou um molho de chaves de seu bolso esquerdo e procurou por entre as muitas a que se encaixasse na porta da entrada. Doze anos de casado e ainda não sabia qual era a chave que abria as portas para o seu lar! Assim que a achou, girou-a bem devagarzinho, a maçaneta rangeu baixinho, mas provavelmente Lídia não havia escutado. Há esta hora ela devia estar na sala vendo sua novela preferida, ou então, na cozinha fazendo o que ela mais gostava: cozinhar.
Andando com passos furtivos e curtos, Roger foi se aproximando da sala, mas as luzes estavam apagadas e a televisão desligada. Percorreu os corredores, mas Lídia também não estava na cozinha. “Ela deve estar no chuveiro...” concluiu, cheio de malícias.
Subiu as escadas de granito numa velocidade incrível. Uma rosa caiu em um dos degraus durante a pressa. Um dos quartos estava com a porta fechada. Roger estranhou. Nunca faziam isso, mesmo porque não havia o que temer; eram casados, unidos e não tinham vergonha um do outro. “Será que ela passou mal?”.
Não quis procurar as chaves naquele molho imenso que tilintava em seu bolso. Decidiu partir para a agressividade. Jogou-se contra a porta, aflito. Sua esposa iria se assustar, é claro, mas era isso ou não descobrir o que acontecia de errado.
As dobradiças se romperam com facilidade, a porta caiu no chão com um baque forte e repentino. A visão que Roger vira era desesperadora... Sua esposa estava com outro em seu próprio quarto. Não conseguia imaginá-la mais com aquele seu rosto angelical, a imaginava repleta de sangue...
As rosas foram lançadas contra ela. Roger a xingava de tudo, estava vermelho e a ira estava situada em seus olhos azuis. Jamais pensou que seria vítima de um adultério, ainda mais no dia de seu aniversário de casamento.
O outro rapaz tentou fugir, mas foi golpeado na cabeça brutalmente, caindo desfalecido e nu sobre o piso gélido e brilhante. Lídia chorava, apertando-se nos cobertores. Roger se aproximava, sorridente. As rosas estavam espalhadas na cama, algumas quebradas, outras com as pétalas perdidas, ele pegou uma delas, a mais bonita e vermelha. “Feliz aniversário de casamento!” exclamou entregando-a a esposa. Lídia a recebeu com mais lágrimas.
- O que faria se gostasse de alguém e não conseguisse parar de pensar nela? – indagou a mulher, aos soluços, apontando para o corpo jogado no chão.
- Certamente, a mataria. – Roger sorriu diabolicamente.
De repente, aquela noite bonita e apaixonante, se transformou em uma noite fúnebre e detestável.
Roger beijou a esta de Lídia, ajuntou todas as rosas e disse, com os olhos cobertos por lágrimas:
- As colocarei no melhor vaso.
Escutaram-se gritos durante o restante da noite. Os vizinhos, aflitos, chamaram os policiais, que chegaram duas horas depois. Viaturas pararam de frente a mansão, portas e janelas estavam abertas e batiam constantemente com o vento.
- Eu vou até lá! – gritou o comandante.
Ele adentrou o lar, que estava silencioso e mórbido. Aquela sensação de abandono o causava arrepios. Subiu as escadas com a arma em punho, pronto para atirar se necessário. Só uma porta estava aberta... a do quarto de casal. Pela primeira vez, o comandante sentiu medo. Todo aquele clima estranho fazia seu coração pulsar de uma forma crucial. Entrou no quarto lentamente... Estava escuro demais, teve de acender a luz, a mesma que iluminaria aquela cena horripilante.
Por um momento, o comandante pensou que ia desmaiar, mas se conteve. Pegou o seu rádio e chamou alguns policiais. Aquilo mais parecia um filme de terror, cheio de carnificina e ódio. Um corpo estava jogado no chão, rodeado por sangue... mas a sua cabeça estava sobre a cama, ao lado de outro corpo. Era uma mulher, estava nua e branca. Seus olhos representavam dor. Seu pescoço estava marcado, provavelmente fora sufocada. Mas o que mais lhe chamava a atenção era a sua boca, ensangüentada e lotada de rosas vermelhas...
- O assassino fugiu! – exclamou o comandante assim que os outros chegaram. – Acredito que saiu pela janela.
Ele estava certo. E não muito longe dali, no restaurante mais luxuoso da região, Roger saciava um delicioso peru, acompanhada de um ambiente romântico à luz de velas. Que maneira mais deliciosa de passar o aniversário de casamento...
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