Fiquei com as palavras daquele viado do Ph na cabeça por algumas horas...

Olhei no relógio: 13:00h.

Era o intervalo da Alice...

“ Vou ver ela, como no começo. Ela vai gostar! “

Fechei a loja e fui pra escola dela.

Ela sempre ficava no fundo da quadra nos intervalos e eu só precisava pular pelos fundos da escola e estaria ali.

Esperei ate ouvir a voz dela pelo muro, ela estava rindo, pulei.

E minha vontade foi de ser aleijado pra não ter feito isso.

Ela estava rindo e beijando outro cara.

Jessica me viu e puxou ela:

— Lice!

Ela seguiu o olhar da amiga e ficou espantada:

— N-nick?! O que você está fazendo aqui? E-eu posso explicar!

— Pode?

Ela me olhou e eu engoliria qualquer desculpa esfarrapada, mas ela não se deu o trabalho de tentar inventar nenhuma:

— Ai, olha Nick: eu gosto de você! Mas minha família te odeia e você tá sempre naquela loja ridícula jogando vídeo-game com o seu único amigo! Você não sai pras festas, não tem outros amigos ou vida social! Só sabe me levar pro parque ou cinema e sempre que vou pra sua casa você me faz ir embora logo por que “ vai ficar tarde e você não quer que minha mãe se preocupe”... Eu gosto mesmo de você, mas isso já ta chato demais! Ou você muda, ou a gente acaba aqui!

Eu olhei pra ela e não a reconheci.

— Você não vai falar nada? Pois bem, pense nisso e até lá nós terminamos. Toma.

Ela tirou a aliança do bolso da calça jeans, me entregou e puxou a amiga pra longe.

O carinha se aproximou de mim:

— Cara, olha eu sinto muito. Mas é melhor você saber que eu não sou o primeiro da escola que ela fica. Sou no mínimo o terceiro.

Olhei pra ele e quase descontei tudo nele, mas ele não tinha culpa, não totalmente.

— Valeu.

Pulei de volta e fui direto pra casa.

A primeira coisa que fiz foi começar a chora e em seguida liguei pro Philipe:

— Fala viado!

— Philipe, vem pra minha casa cara...

— Nick, você ta chorando? O que aconteceu?

— Vem pra cá mano, por favor.

— Tô chegado!

Meia hora depois Ph tinha chegado em casa e ficou ali no sofá me vendo chorar jogado na poltrona.

Ele sabia que não ia adiantar falar nada.

Odeio chorar na frente das pessoas, mas odeio mais ainda, quando elas tentam me consolar!

Chorei por duas horas mais ou menos.

Quando me acalmei, levantei a cabeça e olhei pra ele:

— Alice...

— Cara, eu soube hoje. Lina viu ela com o Cristian e um cara que apliquei o piercing hoje também falou que ficou com ela.

Eu olhei pra ele sem entender:

— O-oque???

Ele entrou em pânico:

— O que? Por que você tá chorando exatamente?

— Por que eu vi ela com outro! Com um menino da escola dela!

— Ai meu Deus!

— Eu não acredito! Eu amo ela! Fiz de tudo por ela! EU FARIA TUDO POR ELA PH! TUDO!!!

— Eu sei cara, não precisa em dizer isso. Eu sei. Agora fica calmo! O que ela te disse?

— Que ela se cansou. Que gosta de mim, gosta não disse que ama, mas está cansada de sempre ir pra praça ou pro cinema. Que eu não saio de casa e mais um monte de coisa!

— Puts...

— Eu quero morrer!

Um mês tinha passado e eu não saíra de casa.

Ph passava na loja pra pegar as entregas e vinha pra minha casa.

— Vem morar comigo.

— Eu já moro cara, só você não sabe ainda.

Eu ri.

— Encontrei Selina hoje...

— Iiihhh...

— O que?

— Você ainda é louco por ela né?

— Sim, sou, mas isso não vem ao caso. O negocio é que ela chamou a gente pra ir na festa da cidade hoje. Parece que a prima dela tá na cidade esse mês e quer ver a festa.

— Mano...

— Ah não Nick! Faz um mês já! Ela não te atende e você sabe que ela tá ficando com aquele cara! É uma amiga nossa que chamou, lembra dela? Lembra que te contei que ela estava desesperada por saber de tudo? Então! Se você não quer ir por você mesmo, vá por mim!

Eu olhei pra ele e pensei na proposta. Eu devia muito a ele e estava com saudades de Lina...

— Ok.

—S-serio?

— Sim.

— Ah meu Deus! Eu vou ligar pra ela!

Duas horas depois estávamos indo pra festa.

— Você não tinha nada pior pra vestir?

— Cala a boca! Não ta tão ruim!

— Não, mas essa barba ta fazendo o quit mendigo ficar completo!

Eu estava com um coturno velho, uma calça jeans surrada, uma camisa do exército e a barba por fazer. Nunca gostei muito de barba, mas Alice gostava, então...

— E você? Vai pra um casamento por acaso?

— Tenho que impressionar as gatinhas.

Ele estava de all star preto, uma caça jeans e uma camiseta branca gola v. Ele era malhado, loiro de olhos pretos com um piercing pendurado na sobrancelha. Chamava atenção pra caramba! As meninas caiam em cima dele, mas aos 22 anos de idade ele ainda era virgem e apaixonado pela mesma garota desde os 9: Selina.

Chegamos na festa e estava uma porcaria: a praça da cidade estava cheia de bandeirolas coloridas, carrinhos de comida e bebidas e todos os moradores estavam ali gritando pro cantor em cima do palco que a prefeitura tinha colocado.

Fomos pro canto mais afastado e procuramos Lina.

— Mano vou ligar pra ela.

— Não precisa, ela ta ali.

Apontei e ele gritou, ela ouviu, puxou uma menina que comprava uma cerveja e veio em nossa direção:

— Quem é aquela?

— Ah, deve ser Lucy, a prima dela.

Tudo naquela menina era estranho: calça de couro, coturno baixo e surrado, uma camiseta do Matanza rasgada na lateral deixava a mostrar o sutiã vermelho de renda. Mas nada chamava mais a atenção do que o cabelo: cacheado ate a cintura e tão verde quanto os olhos esmeralda dela.

E a bunda, meu Deus, que bunda!

— Cara, baba menos, elas tão vindo.

— Vai se fuder, nem to babando.

— Magina...

Lina chegou na hora que começamos a nosso esmurrar:

— Já chega crianças!

— Oi Lina.

— Oi Nick, como você tá?

Eu olhei pra ela e sorri.

Ela entendeu e mudou de assunto:

— Essa é minha prima, Lucy.

— Oi.

— Oi sou Philipe, mas pode me chamar de Ph. Esse aqui é o Nicollas.

— Pode chamar de Nick.

— Oi Nick, oi Ph.

Eu fiquei ali olhando ela e ela me devolveu uma cara feia. Lina riu e veio me abraçar.

Ph segurou o riso e puxou assunto:

— Eae, o que ta achando?

Ela deu um gole na cerveja, me mediu e olhou pra ele:

— Festa estranha com gente esquisita.

Ele aplaudiu.

“ Pronto, ela ganhou ele! “

A festa estava um saco então fomos pra casa jogar baralho e tomar cerveja.

Lucy prendeu o cabelo em um coque alto mal feito e quando fez isso a blusa ergueu e deixou a mostra uma tatuagem na cintura. Ph foi logo perguntando:

— Mostra aê.

Ela ergueu a sobrancelha e levantou a blusa: eram duas penas, uma de cada lado, começavam na última costela e desciam pra dentro da calça de couro dela, uma das penas era esfumaçada de preto e a outra de branco.

— An, desculpa a pergunta, mas até onde vão?

Ela sorriu com a ponta da blusa a boca e abriu o zíper da calça.

Quase me engasguei com a cerveja.

Iam até o começo da virilha dela e no meio tinha uma escrita: Drink Me.

— Legal...

Ela fechou a calça, abaixou a blusa, se sentou e continuou bebendo como se nada tivesse acontecido:

— An, é sua vez de dar as cartas.

— Nick! Lucy ta falando com você rapaz!

Ela me olhava com uma cara que eu não conseguia decifrar: nojo ou tédio?

— Ah, sim.

Eu distribui as cartas e antes de começarmos Lina gritou:

— Espera! Para!

Ph olhou pra ela:

— O que foi garota?

— Quero ir no banheiro.

Ela estava levemente alterada.

Lucy se levantou:

— Vamos.

— Não, não precisa. Ph me leva.

Lucy ergueu as mãos na derrota e se sentou de novo:

— Ok.

— E-eu?

— Qual é. Ela não morde. Só se você pedir!

Ele se levantou sem graça e levou Lina.

— Entra aqui se não eu caio.

— L-lina...

— Vamos!!

— Tá.

Ele entrou e fechou a porta.

O silencio preencheu a sala. No fundo se ouvia a risada de Lina e os protestos de Ph.

Pensei em puxar assunto:

— Então... Oque tá fazendo na cidade Lucy?

Ela parou de mexer num cacho do cabelo, que parecia uma mola de relógio verde, e me olhou.

O olhar dela era profundo:

— Escrevendo um livro.

Quem diria que a estranha era escritora não é mesmo?

— Legal... Sobre o que?

— Ainda não sei.

Silencio.

Ela levantou e pegou mais duas cervejas.

— Então... Me fale sobre você.

— N-não tem o que dizer.

Ela me olhou e me senti um bicho sendo estudado!

— Sempre tem algo. Você está péssimo! Essa barba te faz parecer um largado. Odeio barba!

Por um momento senti uma estranha vontade de me levantar e ir fazer a barba...

Ela continuou:

— Você parece prestes a se matar. Deixa eu adivinhar, coração partido? Seu namorado te deu o pé?

Aquela garota tava implorando uns murros!

— Eu não sou gay e o que aconteceu não é da sua conta!

Ela sorriu. Eu tinha caído no seu jogo!

— Serio? Achei que você e Ph se pegavam pra curar o seu pé... Vocês formam um casal bonitinho.

— Escuta aqui men...

— Mulher. E então, se não foi um homem deve ter sido uma das crianças da cidade. Uma loira de olhinhos azuis vestida de rosa. Acertei?

Ela estava realmente querendo uns murros!

— Escute aqui...

— Lucy!

Ela pulou tão rápido do chão que nem eu pude acompanhar. Antes mesmo da Lina terminar o nome ela já estava dentro do banheiro tirando Ph de lá pelo colarinho:

— Que porra...

Ela parou e olhou Lina: ela estava correndo pela casa com papel higiênico enrolado nas pernas.

— An, você pode me soltar?

— Foi mal.

— Sem problemas. Eu acho que ela...

— Você acha?

Lina veio ate mim e me abraçou:

— Não fica assim Nick! Ela não te merecia! Ela é uma pirralha mimada. Você é bom demais pra ela! E daí que ela te traiu várias vezes? Ela quem perdeu. Não você! Viva a vida Nicollas! Viva a vida! É como Lucy sempre diz: a vida é curta demais para sofrer por um coração partido!

Lucy a segurou antes que ela caísse:

— Vamos Lina, já chega de cerveja pra você.

Ela se jogou no sofá e Ph se aproximou:

— A gente leva você.

— Obrigado.

— Ph vamos dormir comigo?

— Lina fica quieta! Vamos lá pra fora. Tire esse papel das pernas!

Elas saíram e Ph me olhou:

— Mano, ela tá bêbada mas ta certa.

— É, eu sei.

— Você vem?

— Vou.

Fechamos a casa e começamos a andar. Lina parava em todos os lugares e ao chegarmos na casa dela ajudamos Lucy a jogar ela na cama.

— Ph...

— Ai meu Deus, menina dorme!

— Fica quieta Lucy!

Ela saiu do quarto e foi na porta:

— Ela ta te chamando.

Ph me olhou assustado.

— Vai lá mano.

— O-ok.

Ele foi e Lucy saiu e ascendeu um cigarro.

Depois de uns tragos ela me olhou pela fumaça:

— Minha prima pode estar bêbada, mas ela está certa.

Fiquei quieto.

— Vamos?

— Você não matou a minha prima, não é?

— Não, mas ela vomitou no chão.

Lucy riu e nos deu boa noite, antes de começarmos a andar ela me olhou triunfante:

— Eu sabia que era um chute.

Antes que eu pudesse responder ela fechou a porta na minha cara e apagou a luz.